As noites estavam, ou pelo menos pareciam,
cada vez mais abrasadoramente quentes. Era a sua noite de folga, e por isso
estava em Sintra, mas o seu corpo, habituado a um horário nocturno, recusava-se
a ceder.
Acabava por odiar estas noites
em que se via mergulhada na solidão, confinada ao seu quarto. Isto aliado ao
facto de estar a quebrar algum recorde de abstinência sexual era o suficiente
para a deixar irritadiça.
Nestas noites longas acabava
por dar por si a viajar em fantasia e, se em algumas vezes se limitava a tomar
um duche para tentar arrefecer o corpo, noutras deixava-se embalar e acabava
por se masturbar apenas com os dedos ou com alguns dos seus brinquedos sexuais.
Se isto lhe provocava algum alívio, era no entanto insatisfatório. Precisava de
sentir o contacto de e na pele. Havia um único ponto positivo. Quando dançava
exibia-se ainda mais, tornara-se ainda mais sedutora e isso tornava-a ainda
mais desejada e César, que aparecia quase todas as noites, excepto quando se
ausentou para ir tratar de alguns assuntos em Los Angeles, via cumpridos os
seus objectivos. Todos achavam que eles estavam juntos e começou a criar laços
de confiança com figuras do mundo financeiro e político. Tal como ele dissera,
os outros respeitavam-no porque ele podia ter algo que mais ninguém tinha.
Naquela noite já tinha tomado
dois banhos, já se tinha masturbado duas vezes, mas sentia-se ainda
completamente electrificada. Tentava adormecer a mente e os sentidos navegando
furiosamente através dos canais de cabo e eis quando tropeça num canal erótico
e não conseguiu mudar, sentiu uma onda de calor percorrer o seu corpo e
concentrar-se no seu baixo-ventre e teve inveja da actriz que era possuída
vigorosamente por um belo exemplar do sexo masculino.
As suas mãos deslizaram sem
que ela se desse conta e remexiam na gaveta da mesa-de-cabeceira para retirar
dela um familiar objecto fálico estilisticamente desenhado, num preto
reluzente, incapaz de substituir um homem, mas capaz de acalmar o calor que a
percorria. Pô-lo a vibrar e encostou-o ao seu clitóris sentindo uma onda de
prazer que a acalmou instantaneamente e a fez soltar um gemido suave.
De olhos fixos no ecrã
deslizava o objecto ao longo do seu sexo, humedecendo-o e lubrificando-o ao
mesmo tempo que espalhava os seus líquidos e tornava ainda mais suave mas
intensa a maneira como as vibrações se sentiam a partir do seu ponto mais
sensível e fantasiava que o que deslizava em si era aquele membro pujante,
prestes a possuí-la.
O orgasmo chegou com uma
rapidez que a surpreendeu, mas não trouxe consigo a satisfação. Queria mais,
muito mais, e penetrou-se, sentindo o objecto a alargá-la e os seus músculos a
contraírem-se em seu redor, lançando sensações magníficas ao longo da sua
espinha que pareciam fazer o seu cérebro iluminar-se e lhe cortavam a
respiração, lançando-a num abandono que só não era total porque havia uma parte
de si que se obrigava a controlar o volume dos seus gemidos à medida que se
penetrava mais profunda e vigorosamente, imitando a cadência que o actor
impunha à cena.
Mais um orgasmo, desta vez
violento e longo que a fez arquear-se e prender a respiração para não gritar,
acabando por murmurar apenas um “foda-se” entre dentes quando a sensação já
sucumbia e se permitiu voltar a respirar.
Sentia-se transpirada e
quente, mas aliviada, completamente desfalecida na cama.
Este acordo estava a pôr-lhe
os nervos em franja. No entanto, fosse ela o que fosse, tinha dado a sua
palavra a César…
César!
Ele continuava a confundi-la.
Era das poucas pessoas em que ela não conseguia detectar qualquer traço de
recriminação em relação à vida que levava. Mas também era dos poucos homens que
ela tinha conhecido que não a desejavam e, que ela se lembrasse, os que ela
tinha conhecido nessas condições não gostavam de mulheres. Mesmo em privado,
quando estavam apenas os dois, ele ouvia e respeitava a sua opinião, mesmo
quando a contrapunha, fosse em relação ao que fosse.
Os seus pensamentos foram
interrompidos por um suave e leve, muito esbatido, odor familiar que por um
breve momento se impôs.
“Que raio…?!” pensou, e
levantou-se espreitando pela porta de vidro de correr que separava o quarto da
sua varanda. Não conseguindo ver nada, correu a porta o mais silenciosamente
possível e saiu, sentindo o ar fresco de Sintra a cair sobre a sua pele como
uma bênção, chegando mesmo a sentir um pequeno arrepio que lhe soube muito bem.
O cheiro tornou-se mais intenso e, olhando para baixo viu que César estava
sentado no terraço das traseiras que dava para a piscina.
“Parece que não sou só eu que
estou com insónias” pensou, ao mesmo tempo que a vontade de descer lhe veio à
mente. “Será que ele se importa? Bem, só há uma maneira de saber…”
Fez deslizar sobre o corpo um
vestido leve, não se preocupou com roupa interior, calçou uns sapatos altos e,
pé ante pé, desceu as escadas o mais depressa que pôde, saindo pela porta das
traseiras.
César ouviu a porta a deslizar
e voltou-se para ver quem era, vendo-a sair da casa com o vestido leve e solto,
colado à sua silhueta e os sapatos altos que lhe tornavam as torneadas pernas
ainda mais longas e elegantes sem esboçar qualquer expressão.
- Posso?
- Creio que teria mais lógica a
pergunta ser feita antes. Agora já não vale muito a pena.
Ela sentiu-se um pouco
embaraçada por ter feito aquela pergunta de circunstância. Já se devia ter
habituado àquela logica à-prova-de-tudo que ele usava em todas as situações.
Resolveu ignorar o comentário dele e sentou-se.
- Pelos vistos, não sou a única
sem sono.
- Não, não és.
O odor que ela tinha sentido
era aqui por demais evidente, e olhou para a mão direita de César, onde este
tinha um cigarro perfeitamente enrolado.
- Isso não é tabaco, pois não?
César olhou para a mão, fez um
meio sorriso.
- Nunca pensei que fumasses…-
respondeu César.
- Tabaco, só muito raramente.
O sorriso de César iluminou-se
mais um pouco, fazendo-o parecer menos sério que o habitual. Passou-lhe o
cigarro para a mão. Ela deu uma passa longa, inspirando profundamente em
seguida, sentindo os pulmões a queimarem um pouco, conteve o reflexo de tosse,
expirou e sentiu, de repente, uma leveza de alma que era, no mínimo,… Preciosa.
Deu outra passa longa e sentiu
o seu espírito a diluir-se e o peso do mundo a sair-lhe de cima. Passou o
cigarro de volta a César e recostou-se na cadeira completamente em paz.
- Que raio de coisa é essa? – E
a pergunta soou-lhe tão cómica que sentiu vontade de rir à gargalhada,
contendo-se a custo.
- É uma variedade cultivada na
Holanda e que é muito exclusiva. Mas como sou amigo do agricultor… – disse ele
divertido, embora ela não soubesse se do efeito da erva ou do efeito que a erva
tinha tido nela.
- Potente!
- É.
Céu olhou para o ar divertido
de César e não conseguiu conter uma gargalhada. Depois reparou que ele a
observava intensamente e, sentindo-se embaraçada, percebeu que o vestido tinha
subido enquanto ela se sentia a deslizar na espreguiçadeira e revelava bem mais
do que era suposto. Num reflexo que já nem se lembrava possuir, corou e
cobriu-se. Ele riu.
- Nunca pensei ver-te tão
púdica. Não sei se já te deste conta, mas já te vi nua várias vezes.
- Sim, mas em circunstâncias
diferentes.
- As circunstâncias não alteram
os factos. – Respondeu César enquanto lhe passava o cigarro novamente.
- Não, mas alteram a nossa
percepção deles. – Céu pegou no cigarro e deu mais uma passa longa. César
sorriu – Mas afinal o que é que te tirou o sono?
- Nada. Para me ligar com os
escritórios de L.A. tenho de ter umas horas estranhas e quando acabo gosto de
vir cá para fora e relaxar um pouco. Ou fico por aqui, ou dou uma volta nos
jardins…
- E quando estás comigo em
Lisboa, como é que fazes?
- Existem telemóveis capazes de
fazer muita coisa. Além disso, quando se tem dinheiro suficiente, podemos
sempre contratar os melhores para fazerem o trabalho por nós, e desde que lhes
lancemos um osso de vez em quando, eles tratam de ir multiplicando o nosso
dinheiro. E tu? O que é que te tirou o sono?
- Nada. Como ando sempre com
horários ao contrário do resto do mundo, nos dias de folga tenho dificuldade em
adormecer. Normalmente só me aborreço de morte. Mas hoje dei por ti aqui…
- Fiz barulho?
- Não. Foi o cheiro da erva.
Chegou-me ao nariz lá em cima e vim à varanda ver o que era. Vi-te e resolvi
descer.
- Fizeste bem. Obrigado pela
companhia.
- É bem-vinda? – Céu passou o
cigarro de volta a César que deu apenas uma pequena passa e o apagou.
- Sim, inesperada, mas
bem-vinda.
- Mas também, se não estivesses
aqui acho que estaria sentada na varanda. Já não suporto este calor. Parece que
ando sempre transpirada…
- Eu não sinto assim tanto
calor… Mas também, venho de uma cidade onde, quando estão vinte graus as
pessoas se agasalham…
- Vês, os factos são os mesmos,
mas as circunstâncias diferentes.
- Touché! Queres beber alguma
coisa? Eu vou buscar para mim.
- Podes trazer-me do mesmo
veneno que vais servir para ti.
- Acho que ainda vais ficar com
mais calor…
- Então mete gelo para ficar
fresco.
César sorriu e foi buscar dois
copos, uma garrafa de whisky e um balde de gelo, sentou-se, serviu o copo dela,
o seu, colocou o gelo e entregou-lhe o copo. Ela provou.
- Que sabor excelente!
- É um single malt feito no
Japão.
- Os Japoneses fazem whisky?
- Não. Os Japoneses fazem “O”
whisky. É considerado o melhor single malt do mundo. Yamazaki de vinte e cinco
anos.
- Não sei se é o melhor do
mundo, mas lá que é bom…
- Sim, mas tens de ter cuidado.
A mistura disso com e fumo é… letal!
- Sr. César, está a tentar
embebedar-me?
- Não, nem vejo necessidade
disso. Além disso, foste tu quem pediu para beber o que eu ia beber.
- Não pensei que fosses beber
algo tão forte…
- Então devias ter sido mais
específica, não achas? Ela sorriu.
- Eu rendo-me. Acho que não
vale a pena discutir a lógica das coisas contigo.
- Porquê?
- Porque achas que tens sempre
razão.
- E tenho.
- Sempre?
- Bem, tirando as alturas em
que estou errado, sim, sem dúvida. Ela riu-se. Ele sorriu de uma maneira algo
matreira.
- Posso fazer-te uma pergunta?
- Podes fazer-me qualquer
pergunta. Já se tens uma resposta, fica ao meu critério. Depende…
- Do quê?
- Da pergunta…
Ela olhou para ele sorrindo
abertamente.
- Ficas sempre assim quando
fumas?
- Não sei. É muito raro fumar
acompanhado. Ela pousou o copo.
Mais? – Perguntou ele. Ela
acenou em assentimento e ele serviu-a. Ela pegou no copo, deu mais um gole.
- Isto é mesmo bom, mas parece
que fica ainda mais calor…
- Are you hot, Miss Céu?
Ela olhou-o com um olhar
malandro pensando por um momento que nem lhe passava pela cabeça o quanto, com
o álcool a aquecê-la e o fumo a electrizá-la, sendo que a sua pele estava tão
sensível que quando o tecido roçava nela, ao movimentar-se, sentia uma sensação
deliciosa, mas decidindo numa fracção de segundo de que sim, ele fazia ideia do
quanto.
- Porque é que obrigas a
rapariga a fazer exercício e a aprender a dançar?
- Ah, era essa a pergunta… –
disse ele levantando o sobrolho. “Sacaninha esperto” pensou ela. Teria ela a
sensação que ele estava a ser sedutor pela maneira como se sentia, ou estaria
ele de facto a ser sedutor?
- Sim, era esta. Preferias
outra?
- Não, essa está bem. Ela vai
lidar com cada vez mais pressão, mais exigência a nível psicológico e físico.
Por enquanto tenho-lhe dado poucas tarefas, mas conforme ela vai ganhando
experiência prática, que teoria tem e bastante, vou-lhe passar cada vez mais.
Tenho eu tratado da maior parte das coisas mas é suposto ser o inverso.
Portanto ela tem de ganhar estamina. Quanto à dança, bem… digamos que a área
onde ela escolheu movimentar-se profissionalmente tem apenas duas opções: ou se
fica com um emprego de segunda categoria num escritório qualquer, ou então,
chega-se a pontos muito mais altos. Ela é ambiciosa e candidatou-se a um lugar
de topo, pese embora a sua pouca experiência. Isso mostra que é corajosa e será
empenhada. Mas também que dizer que se atirou para um tanque cheio de tubarões
que devoram rapidamente e trituram os restos de qualquer peixe mais pequeno.
Estamos a falar de algumas das pessoas mais implacáveis do mundo. Se ela quer
nadar neste lago tem de ter uma confiança absoluta nela própria, e a dança
talvez ajude.
- Tu nadas nesse tanque. És
implacável?
- Sou, mas tento ser justo na
medida do possível.
- Por exemplo?
Ele pensou um pouco.
- Um exemplo que não é raro
acontecer. Uma empresa à beira da falência, com um valor de mercado muito
baixo. Eu compro-a e faço uma análise ao porquê do estado da empresa. Chego à
conclusão que, devido, por exemplo, a contracções de mercado a empresa tem
excesso de empregados face à sua produção e tenho de cortar a força laboral,
digamos, em metade para que a empresa se torne viável. Tenho duas opções: ou
deixo a empresa afundar, ou despeço vinte mil pessoas. O que é que tu farias?
Ela matutou um pouco no
dilema.
- Era-me difícil estar com as
vidas de vinte mil pessoas nas mãos… Ele sorriu.
- Eu não posso hesitar. Despeço
as vinte mil pessoas. Mas faço-o segundo um critério. Escolho os melhores para
a empresa.
- E isso é justo?
- É. Tento, dentro do possível,
manter os escalões etários equilibrados e escolho os melhores para a empresa.
Dispenso os outros.
- E essas pessoas?
- Vão à vida delas…
- Achas que isso é justo?
- Pode não ser, mas podiam ter
lutado para serem melhores e seriam dos vinte mil que ficam. Além disso, é
justo para os que ficam e vêm assegurados os seus postos de trabalho. Os que
mandei embora garantem a manutenção dos que ficam. Se não o fizesse, quarenta
mil perderiam o emprego.
Ela ficou pensativa.
- Nunca tinha visto as coisas
por esse prisma…
- Eu tenho de ver, todos os
dias…
Ela sentia-se a ficar
encarnada de calor e sentia-se a transpirar levemente.
- Estás mesmo com calor… –
disse ele, reparando.
- Sim. Está quente…
- Tenho a certeza que quando
chegares ao quarto vais fazer alguma coisa para baixar a temperatura,… – ela
olhou para ele com um ar sério, levantou o sobrolho, e bem lá no fundo de si
sentiu um pequeno tremor – …como ligar o ar condicionado por exemplo…
Ela sentiu-se provocada.
- E tu? Vais fazer alguma coisa
para baixar a temperatura?
- Sim,… – disse ele olhando-a
meio de esguelha com a cabeça inclinada – …sou capaz de ligar o ar condicionado
também.
- É um desperdício de
electricidade…
Ele riu. Depois olhou bem para
ela com um olhar que simplesmente a derreteu.
- Are you trying to seduce me, Mrs.
Céu?
– Who knows… – disse ela
respondendo-lhe com o seu olhar mais tentador… E, diga-se, esfomeado. Ele
limitou-se a sorrir.
- Tinhas de ser mais velha que
eu, mas não és. Eu tinha de ser mais inexperiente, mas não sou…
Ela lembrou-se do filme, com o
Dustin Hoffman.
- … E, infelizmente, como já te
disse, nunca paguei para ter sexo. Ela, talvez fruto do estado em que estava,
não se sentiu ofendida. Apenas o rebateu.
- Não te pedi dinheiro.
- Mas eu estou a pagar-te…
- …Sim, mas não para isso.
Ele olhou-a seriamente, vendo
que ela tinha lógica no que dizia.
- Don´t you have needs, Mr. César? –
Ele olhou-a sem responder
–Well, I do!
Ele assentiu.
- Proponho-te o seguinte. Eu
satisfaço as tuas… “necessidades”.
Nos meus termos…
“Nos teus termos?” pensou ela…
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