segunda-feira, 20 de julho de 2026

Cabos das Tormentas

 Pois é...


Se ainda há por aqui gente que por cá andava há uns anos atrás, talvez tenham coção de uma coisa chamada "Treta de Cabos - Vidas de Rocker (as histórias secretas dos XXL Blues)", que era um livro de crónicas que funcionava como booklet do CD de XXL Blues.

Pois que, de há uns tempos para cá tenho vindo a traduzir as minhas coisas mais antigas para Inglês, e nunca peguei nisto. Não porque não quisesse, mas porque as histórias soltas de que o livro é feito estão encaixadas num contexto que quem vive aqui percebe perfeitamente, mas quem é de fora, por vezes, pode ficar a coçar um bocado a cabeça. Não que as histórias não pudessem valer por si só, mas faltava qualquer coisa.

A solução foi, ao fim de muito tempo a pensar no assunto (mesmo muito, porque eu detesto pensar...) criar esse contexto através de uma história. E foi mesmo isso que acabei por fazer. uma história fictícia que serve de quadro para uma manta de retalhos de histórias veridicas e absurdas. A acho que ficou... engraçado.

Deixo aqui um excerto. espero que seja interessante :)


 "O Peles abandonou subitamente por completo o assunto da noite anterior, como se a mente tivesse decidido discretamente que já fora discutido o suficiente.

— Bom — disse, bebendo outro gole —, o Ninguém confirmou sábado.

O Gadelhas olhou para ele.

— Falei com ele esta manhã. Não disse nada.

— Eu falei com ele esta tarde — respondeu o Peles, encolhendo os ombros. — Deve ter ficado confirmado entretanto.

O Eleutério olhou de um para o outro, cada vez mais convencido de que estavam a continuar uma conversa para a qual toda a gente no mundo tinha sido convidada, excepto ele.

— O que é que acontece no sábado?

Os dois viraram-se para ele com genuína surpresa. Não por ser uma pergunta difícil, mas porque pareciam honestamente convencidos de que ele já sabia a resposta.

— A cena no Palácio Foz.

O Eleutério esperou. Nada. Nenhum deles parecia minimamente interessado em desenvolver. Em vez disso, o Peles virou-se para o balcão e gritou:

— Gertrudes! Manda aí uma dose de choco frito e outra de moelas, pode ser?

Ela acusou o pedido com um aceno precisamente quando o Asdrúbal surgiu de trás do balcão com três cervejas frescas. Ninguém as tinha pedido. Também ninguém lhe agradeceu. Limitou-se a pousar uma garrafa à frente de cada um antes de desaparecer novamente, como se a cerveja fosse apenas mais uma fase natural da conversa.

O Eleutério olhou para as três garrafas e depois para os outros dois.

— ...Onde fica exactamente o Palácio Foz?

— Restauradores — respondeu o Gadelhas antes de beber um longo gole. — Mesmo no centro de Lisboa.

O Eleutério assentiu lentamente.

— ...Certo.

Esperou mais alguns segundos, na esperança de que alguém fornecesse voluntariamente a informação em falta. Ninguém o fez.

— Então... o que é que vai acontecer lá?

O Peles pareceu quase confuso com a pergunta.

— Vamos tocar.

O Eleutério pestanejou.

— Um concerto?

— Sim. Na biblioteca do palácio.

A Gertrudes parou de escrever durante um momento e levantou os olhos.

— Esperem lá... o Palácio Foz? Não é aquele palácio chiquérrimo no início da Avenida da Liberdade?

— É esse mesmo.

O Asdrúbal franziu o sobrolho.

— Estão a dizer-me... — olhou do Peles para o Gadelhas, como se esperasse que um deles desatasse a rir. — ...que os XXL Blues vão dar um concerto numa biblioteca?

O Gadelhas respondeu com toda a seriedade.

— Pelos vistos. — Bebeu outro gole da cerveja. — Tanto quanto sabemos.

Durante alguns segundos, o café permaneceu em silêncio absoluto. Ninguém parecia inteiramente certo de estar a assistir ao início de uma piada muito elaborada ou de alguém ter genuinamente decidido que uma banda de hard rock pertencia a uma das bibliotecas palacianas mais elegantes de Lisboa.

O Asdrúbal foi o primeiro a recuperar.

— Como raio é que isso aconteceu?

Durante um momento, ninguém respondeu. O Peles e o Gadelhas limitaram-se a olhar para ele como se fosse uma pergunta perfeitamente razoável, mas não necessariamente uma que tivesse uma resposta particularmente interessante.

Por fim, o Asdrúbal desenvolveu.

— Já lá estive. Há anos. — Fez um gesto vago com a chave inglesa que ainda tinha na mão. — O Palácio Foz é a sede de uma daquelas instituições públicas ligadas às artes. A biblioteca é... bem... — procurou a palavra certa. — ...é uma daquelas salas que parecem pertencer a um filme sobre reis. Mármore por todo o lado. Ouro por todo o lado. As estantes sobem pelas paredes até ao tecto e estão cheias de livros antigos. Livros antigos a sério. Alguns devem ser mais velhos do que o próprio palácio.

O Peles assentiu.

— Sim. É esse o sítio.

— E vão mesmo tocar lá?

— Pelos vistos.

— Mas... porquê?

O Peles encolheu os ombros.

— Vai haver um evento organizado pela editora do tipo que está a escrever um livro sobre nós, na biblioteca. Convidaram-nos para tocar.

A Gertrudes, que chegara precisamente naquele momento com um prato de choco frito e outro de moelas, parou a meio de os pousar na mesa.

— Espera lá... — Olhou do Peles para o Gadelhas. — Porque raio é que alguém haveria de querer escrever um livro sobre vocês?

O Gadelhas estendeu a mão para um pedaço de choco.

— Faço a mínima ideia.

O Peles já espremia limão sobre o dele.

— Mas, pelos vistos, vai mesmo ser publicado.

O café ficou em silêncio.

Não apenas a mesa deles.

O café inteiro.

Até o Eleutério ficou calado.

A Gertrudes permaneceu imóvel durante um instante, ainda com a bandeja vazia na mão. Um dos clientes habituais ao balcão baixou lentamente o copo sem desviar os olhos dos três, enquanto, ao fundo, os comentadores tajiques continuavam corajosamente a tentar pronunciar nomes que pareciam ter resultado de alguém deixar cair um saco de peças do Scrabble em cima de um teclado.

O Peles espetou calmamente mais um pedaço de choco com o garfo, levantou os olhos para a Gertrudes e perguntou:

— Tens batatas fritas a sério... — Fez uma pequena pausa. — ...ou só das de pacote?"


sexta-feira, 17 de julho de 2026

Em breve...




 Este não é um livro sobre uma banda.

Até porque eles nunca foram suficientemente organizados para merecer essa designação.

Não é um livro sobre rock.

Embora contenha guitarras, amplificadores, concertos, ensaios, demasiada cerveja e cabos suficientes para alguém tropeçar durante várias vidas.

Não é um livro sobre Portugal.

Mas é profundamente português.

Está nos cafés onde ninguém vai apenas beber café, nas minis que aparecem quando alguém pede água, nas estradas queimadas pelo sol, nas concentrações motards, nas carrinhas que continuam a andar muito depois de a mecânica ter desistido e naquela capacidade tão nossa de transformar cada pequeno desastre numa história que ficará melhor de cada vez que for contada.

Não é um livro sobre amizade.

Embora seis homens perfeitamente banais acabem por descobrir que, por vezes, a família que escolhemos aparece disfarçada de banda de rock.

Não é um livro sobre amor.

Embora fale do que acontece quando deixamos de reconhecer a pessoa ao nosso lado — e do momento em que começamos finalmente a reconhecer-nos a nós próprios.

Não é uma comédia.

Embora seja bastante difícil contar a vida destes homens sem nos rirmos dela.

Também não é uma tragédia.

Apesar de a vida raramente pedir autorização antes de mudar tudo.

Acima de tudo, este não é um livro sobre pessoas extraordinárias.

É sobre pessoas vulgares, num país pequeno, a viver vidas aparentemente insignificantes...

...que, sem darem por isso, se tornaram inesquecíveis.

terça-feira, 10 de março de 2026

Faz hoje exctamente dez anos,...

 ...que o Tony, um amigo meu, saiu de dentro do quarto a chorar e se voltou para mim e disse:


-É um rapaz!







Nunca mais voltámos à Tailândia

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Ontem tivemos umas eleições...

 ...em que não foi o vencedor quem verdadeiramente ganhou. Apesar das aparência, da votação mais alta de sempre numa segunda volta e de alguns comentadores estarem a tentar vender isso como legitimação, a verdade é que não interessava quem era e fosse quem fosse ia ter este resultado, desde que o opositor fosse quem foi.

E é pena, porque mais uma vez andamos a escolher o menos mau, em vez do melhor entre os melhores...

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O que sobrou de nós (trailer do conto)

E agora em Português, pois então...


Esta história é baseada em acontecimentos reais.

Não é uma história de heróis e vilões.
É uma história de pessoas.

Tiago e Sofia conheceram-se antes de saberem verdadeiramente quem eram. Cresceram juntos, construíram uma vida, criaram um filho e partilharam décadas de rotinas silenciosas, pequenos gestos e presença mútua. O amor deles não era dramático, mas era real.

Quando o filho sai de casa, algo começa a mudar — não por traição ou crueldade, mas por silêncio, mal-entendidos e necessidades que nunca chegam a ser ditas. Sofia sente uma inquietação que não consegue nomear. Tiago acredita que o amor é continuidade, estabilidade, permanência. Nenhum dos dois sabe traduzir em palavras aquilo que está a sentir.

O que se segue não é uma tragédia com lados bem definidos.
É uma cadeia de decisões bem-intencionadas que, lentamente, se tornam devastadoras.
Uma sucessão de mal-entendidos que cresce até se transformar numa distância irreversível.

Isto não é um romance.
Não é uma história de redenção.
Não é uma fábula moral.

É uma história profundamente humana sobre desconexão emocional, sobre a solidão que pode existir dentro de relações longas, e sobre o que resta quando duas pessoas se perdem uma da outra sem nunca o terem querido.

Para leitores que já viveram uma perda emocional sem saber como lhe dar nome, esta história oferece linguagem, reconhecimento e uma companhia silenciosa.