sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O que sobrou de nós

 Há muito tempo que não escrevo algo de propósito para pôr aqui. 

Bem, hoje foi o dia.

Esta história é baseada numa história verdadeira. para terem uma ideia, a minha fã numero 1 (a minha dignissima esposa, acrecente-se) parou de ler isto e diz que não quer continuar. e eu percebo-a. não é uma história facil. portanto já nem esperoq ue alguém que por aqui passe a leia. Mas fica aqui. 

E porque isto aconteceu  - claro que não bem assim, baseado não é relatado - pode vir a acontecer de novo. e se ler isto servir de aviso a alguém, então valerá a pena estar aqui.


Mas deixemo-nos de tretas...



Tiago e Sofia conheceram-se antes de saberem exatamente quem eram. Ainda não tinham vocabulário para o futuro, mas tinham uma urgência estranha, quase alegre, de não o viverem sozinhos. Foi assim que se aproximaram: não por destino, mas por afinidade imediata, por uma espécie de reconhecimento mudo.

Casaram cedo. Não por impulso, mas por uma convicção tranquila de que aquilo fazia sentido. Tinham pouco dinheiro, poucos planos muito definidos, mas uma fé sólida na ideia de “nós”. Não discutiam muito. Riam-se bastante. Construíam.

Durante anos, foram uma unidade. Não um casal exemplar, mas um casal funcional — e isso, no mundo real, é muito mais raro. Compraram uma casa. Tiveram um filho. Criaram rotinas que se tornaram conforto. As manhãs repetiam-se, os almoços tinham horários fixos, as noites tinham a mesma cadência. Havia segurança nisso.

Tiago gostava dessa previsibilidade. Para ele, amar era estar. Estar ali. Estar sempre. Estar mesmo quando não havia nada para dizer. O amor dele era feito de continuidade, de pequenos gestos invisíveis, de uma presença que não precisava de se anunciar.

Sofia, por outro lado, vivia com uma chama que nunca se deixava apagar completamente. Não era infeliz — mas também nunca estava totalmente satisfeita. Precisava de sentir. Precisava de se mover por dentro. Precisava de intensidade, mesmo quando tudo estava bem.

E durante muito tempo, isso funcionou.

Ela trazia cor.

Ele trazia chão.

Ela trazia vertigem.

Ele trazia abrigo.

Sofia fazia o mundo parecer maior.

Tiago fazia o mundo parecer habitável.

E talvez por isso tenham durado tanto.

Não porque fossem iguais, mas porque, durante décadas, se completaram.

Até ao dia em que deixaram de perceber que estavam a fazê-lo.

Quando o filho entrou na universidade, não houve drama. Não houve choros à porta, nem despedidas longas. Houve abraços apressados, promessas de telefonemas, uma mala demasiado cheia para alguém que dizia estar pronto para tudo.

E depois, silêncio.

A casa ficou grande demais para duas pessoas que tinham passado anos a orbitá-la em torno de um terceiro corpo. O quarto vazio começou por ser apenas isso: um quarto vazio. Mas, com o tempo, tornou-se um espaço estranho, quase hostil. Um lembrete permanente de que algo tinha terminado — mesmo que ninguém soubesse bem o quê.

Para Tiago, era apenas mais uma fase da vida. Sempre acreditara que as coisas mudavam, mas que o essencial permanecia. Continuava a acordar à mesma hora, a tomar café no mesmo copo, a sair para o trabalho com os mesmos gestos. A rotina era uma forma de estabilidade. Um chão.

Sofia, pelo contrário, começou a sentir uma espécie de eco dentro de si. Não era tristeza, nem exatamente saudade. Era outra coisa: uma sensação de ter ficado demasiado tempo parada no mesmo lugar, enquanto o mundo avançava.

À noite, falava mais do que antes. Falava do que nunca tinha feito. Dos caminhos que não tinha seguido. Das versões de si que tinham ficado pelo caminho. Dizia aquilo como quem faz uma confissão — mas também como quem ensaia uma hipótese.

Tiago ouvia. Sempre ouvira.

No início, achou que eram apenas pensamentos soltos, coisas que toda a gente sente quando a vida abranda. Concordava, acenava, dizia que era normal sentir-se assim.

Mas Sofia não estava apenas a falar. Estava a procurar algo.

Começou a perguntar-se quem era fora das rotinas. Fora do papel de mãe. Fora da mulher de Tiago. Fora da vida previsível que, até ali, tinha sido suficiente.

E isso assustava-a.

Não porque não gostasse da vida que tinha, mas porque sentia que talvez tivesse vivido sempre dentro de uma versão demasiado estreita de si mesma.

Tiago via essa inquietação como um mal-estar passageiro. Um cansaço emocional. Uma fase.

Sofia via-a como um sinal.

E, sem saber, começava ali a primeira fissura.

Estavam sentados no sofá, cada um numa ponta, como tantas outras noites. A televisão ligada, uma série qualquer a correr sem que nenhum dos dois estivesse realmente a ver. Era uma daquelas histórias que se confundem com todas as outras: gente bonita, conflitos previsíveis, uma música demasiado alta nos momentos que queriam ser emocionais.

Sofia mexia no comando sem razão nenhuma. Mudava o volume dois pontos para cima, depois um para baixo. Cruzava as pernas, descruzava. Encostava-se ao braço do sofá e afastava-se outra vez.

Tiago reparou, mas não comentou. Limitou-se a olhar para o ecrã.

— Sabes… — começou ela, e parou.

Ele virou ligeiramente a cabeça.

— O quê?

Ela respirou fundo, como quem se prepara para dizer algo que ensaiou muitas vezes por dentro.

— Tenho pensado muito ultimamente.

— Tens pensado sempre — respondeu ele, neutro.

Sofia sorriu, nervosa.

— Não assim.

Silêncio.

— Assim como? — perguntou ele.

Ela hesitou. Olhou para o chão. Depois para ele. Depois para a televisão, como se precisasse de uma distração para ganhar coragem.

— Tenho pensado na nossa vida. Em nós.

Ele desligou o som da televisão. Não desligou o ecrã. Mas já não havia vozes a encher o espaço entre eles.

— E isso é mau? — perguntou.

— Não. Não é isso. Não é mau. É… — fez um gesto vago com a mão — é grande.

Ele inclinou-se um pouco para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Sofia, diz.

Ela respirou outra vez, mais fundo.

— Sentes que… que vivemos sempre a mesma vida?

Tiago franziu ligeiramente a testa.

— Que pergunta é essa?

— Não estou a dizer que é uma má vida. Não é isso. Eu gosto da nossa vida. Gosto de nós. Mas às vezes sinto que… — engoliu em seco — que fomos muito jovens quando decidimos tudo.

— Fomos felizes — disse ele.

— Fomos. Somos. — apressou-se a corrigir. — Isto não é sobre infelicidade.

Tiago ficou em silêncio, observando-a com uma atenção nova. Havia qualquer coisa no tom dela que não era habitual.

— Então é sobre o quê? — perguntou.

Ela passou as mãos pelas coxas, como quem limpa uma ansiedade invisível.

— É sobre… curiosidade.

Ele piscou os olhos.

— Curiosidade?

— Sim. Sobre quem eu seria se tivesse vivido outras coisas. Se tivesse experimentado mais. Se tivesse conhecido outras versões de mim.

— Estás a dizer que estás arrependida de mim?

A pergunta saiu-lhe mais dura do que ele queria.

Ela virou-se de imediato para ele.

— Não! Não, Tiago, não é isso. Nunca foi isso. Eu amo-te. Só a ti. Sempre amei.

Ele manteve o olhar fixo nela.

— Então explica-me.

Ela abriu a boca, fechou, voltou a abrir.

— Sinto que há partes minhas que nunca viveram. Não por tua causa. Por minha. Porque escolhi. Porque quis. Mas agora… agora penso nelas.

— E isso leva-te a quê? — perguntou ele.

Sofia respirou fundo, uma terceira vez. Depois falou de uma vez, como quem se atira para a água.

— Já pensaste em como seria… se fôssemos mais livres?

Ele ficou imóvel.

— Mais livres de quê?

— De expectativas. De formatos. De ideias fechadas sobre o que é um casamento.

— Sofia…

— Não estou a dizer que quero sair. Não estou a dizer que quero deixar-te. Estou a dizer precisamente o contrário. Quero ficar. Quero envelhecer contigo. Quero passar os próximos cinquenta anos contigo.

— Então porque é que estás a falar como se estivesses a preparar uma fuga?

Ela abanou a cabeça, aflita.

— Não é fuga. É… abertura.

A palavra ficou no ar.

— Abertura como? — perguntou ele.

Ela olhou para ele com cuidado, como se estivesse a tocar numa ferida invisível.

— Já pensaste alguma vez que talvez o amor não tenha de ser uma coisa fechada?

Tiago soltou um pequeno riso seco, sem humor.

— Estás a falar de quê, Sofia?

Ela engoliu em seco.

— De abrir o casamento.

Ele não respondeu de imediato. Olhou para ela, como se estivesse a tentar perceber se tinha ouvido bem.

— Estás a dizer que queres estar com outras pessoas.

— Não é assim. Não é dessa forma fria. É… partilhar experiências. Crescer. Descobrir. Não é sobre substituir. É sobre acrescentar.

— Acrescentar ao quê? — perguntou ele, já com a voz mais tensa.

— A nós.

Ele levantou-se do sofá.

— Isso não faz sentido.

— Faz, se pensares de outra maneira.

— Sofia, estás a dizer-me que queres estar com outras pessoas e estás a chamar isso de amor.

— Estou a dizer que o amor não precisa de ser posse.

Ele passou a mão pela cara.

— Estás insatisfeita comigo?

— Não!

— Então estou a falhar em alguma coisa?

— Não, Tiago, não estás a falhar em nada!

— Então porque é que isto está a acontecer? — perguntou, agora com a voz mais alta.

Ela levantou-se também.

— Porque eu estou a mudar! Porque as pessoas mudam! Porque não quero acordar daqui a vinte anos e sentir que vivi sempre dentro da mesma caixa!

— E eu? — perguntou ele. — Eu sou a caixa?

Ela aproximou-se, aflita.

— Não. Tu és o meu amor. Tu és a minha casa. É por isso que te estou a dizer isto. Se fosse outra coisa, eu calava-me.

— Há alguém? — perguntou ele, de repente.

Ela ficou em choque.

— O quê?

— Há alguém à espera? Alguém que já conheces? Alguém que já queres?

— Não! — respondeu imediatamente. — Jamais te faria isso. Não há ninguém. Não existe ninguém. Não há traição. Há uma ideia. Uma vontade. Uma pergunta.

Ele ficou em silêncio por uns segundos.

— De onde é que isto vem?

— Do trabalho.

— Do trabalho?

— Algumas colegas vivem assim. Falam. Contam como se sentem mais próximas dos maridos, mais honestas, mais ligadas. E eu comecei a pensar… e se isto não fosse uma ameaça, mas uma oportunidade?

Tiago sentou-se novamente, como se as pernas lhe tivessem falhado.

— Para mim, isso não é uma oportunidade. É o fim.

Ela ajoelhou-se à frente dele, agarrando-lhe as mãos.

— Não, Tiago. Não é o fim. É um começo.

Ele puxou as mãos de volta para si.

— Para ti.

Ela começou a chorar.

— Para nós.

Ele ficou a olhar para ela, os olhos húmidos, mas o rosto rígido.

— Tu não estás a perceber o que me estás a pedir.

— Estou. Estou a pedir-te confiança.

— Estás a pedir-me que eu deixe de ser quem sou.

Ela abanou a cabeça.

— Estou a pedir-te que cresças comigo.

Ele respirava de forma irregular agora. Os punhos fechados.

— E se eu não quiser crescer nessa direção?

Ela ficou em silêncio.

— E se isso me destruir?

Ela chorava abertamente.

— Eu acredito mesmo que, depois, vais ser mais feliz.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Eu já estou a deixar de o ser.

Tiago não respondeu logo à conversa daquela noite. Não disse sim. Não disse não. Continuou a viver ao lado dela como sempre tinha vivido, mas agora com uma tensão nova dentro do peito, como se algo estivesse a crescer sem nome.

Sofia não o pressionou. Não trouxe o assunto todos os dias. Mas também não o deixou morrer. Falava dele como quem toca numa coisa frágil, sempre com cuidado, sempre a perguntar antes de avançar.

— Não quero que sintas que isto é uma ameaça.

— Isto não é sobre te perder.

— É sobre nós.

Ele ouvia. Sempre ouvira.

Algumas semanas depois, disse, quase sem olhar para ela:

— Não fecho a porta.

Sofia ficou imóvel.

— Isso é um sim?

— Não. É… não é um não.

Ela aproximou-se devagar, como se o som da própria respiração pudesse assustá-lo.

— Eu prometo que não vou fazer nada sem ti.

Ele assentiu. Não porque acreditasse. Mas porque não tinha energia para discutir.

A partir daí, começaram as semanas de preparação.

Não eram conversas grandes. Eram pedaços. Fragmentos. Sofia explicava, imaginava, falava de segurança, de honestidade, de regras que ainda não existiam. Falava de tudo como quem desenha uma casa que ainda não está construída.

— Nunca te esconderia nada.

— Nunca faria nada que te magoasse de propósito.

— Se em algum momento quiseres parar, paramos.

Tiago ouvia tudo como quem escuta uma língua estrangeira. Não discordava. Mas também não compreendia completamente.

Ela tentava dar-lhe segurança. De todas as formas que sabia.

— Isto não muda o que eu sinto por ti.

— Tu és a minha vida.

— Isto não é para nos afastar. É para nos aproximar.

Ele acenava. Pequenos gestos. Pequenas concessões.

Até que, um dia, ela disse:

— Apareceu uma possibilidade.

O corpo dele enrijeceu de imediato.

— Possibilidade de quê?

Ela sentou-se à frente dele, com o cuidado de quem vai dizer algo importante.

— De experimentar.

Ele ficou em silêncio.

— Com alguém? — perguntou.

— Sim.

Ele sentiu o estômago contrair.

— Um homem?

— Não. É uma mulher.

Isso tranquilizou-o e, ao mesmo tempo, não.

— Mas há um senão — acrescentou ela.

— Qual?

— Tu não participas. Só estás presente.

Ele franziu a testa.

— A fazer o quê?

— A ver.

A palavra caiu entre eles, estranha, sem peso definido.

— Para não haver segredos — explicou. — Para ser honesto. Para ser seguro.

Ele não respondeu.

Na noite em que a mulher veio a casa, Tiago estava lá.

Sentado. Quieto. Com um nó dentro do peito que não tinha nome.

Cumprimentou-a. Perguntou se queria beber alguma coisa. A voz saiu-lhe normal, o que lhe pareceu errado.

Depois sentou-se.

E ficou.

Era como estar presente num lugar onde já não era necessário.

O cérebro começou a desligar coisas, como quem fecha abas num computador para não sobrecarregar o sistema. Não via tudo. Não sentia tudo. Estava ali e não estava.

Sofia olhava para ele de vez em quando, à procura de sinais de que estava tudo bem.

Ele acenava.

Quando tudo terminou, ela veio sentar-se ao lado dele.

— Estás bem? — perguntou.

Ele demorou a responder.

— Não sei.

— Foi muito difícil?

Ele pensou em muitas respostas. Escolheu a mais neutra.

— Foi estranho.

Ela sorriu.

— Vai deixar de ser.

Ele não sorriu.

Naquela noite, deitado ao lado dela, ficou a olhar para o tecto.

Sofia adormeceu rápido, como quem sente que está a construir algo.

Ele sentiu que tinha atravessado uma fronteira invisível.

E que não sabia voltar.

Depois daquela noite, Sofia tornou-se ainda mais presente.

Não de forma ansiosa, nem teatral — mas intensamente atenta. Reparava nele de outra maneira. Perguntava mais. Tocava mais. Procurava-o mais.

Havia uma urgência nela, como se estivesse a tentar provar — a ele e a si própria — que nada se tinha perdido.

Pelo contrário.

Durante semanas, parecia que tinham regressado aos primeiros tempos, quando ainda se descobriam. Quando o corpo do outro era uma novidade constante. Quando o mundo se reduzia facilmente ao espaço entre dois corpos.

Sofia era mais carinhosa. Mais disponível. Mais dedicada.

Havia nela uma alegria estranha, quase luminosa, como se acreditasse que tinham atravessado uma fronteira difícil e que, do outro lado, estava algo melhor.

Tiago não sabia o que fazer com aquilo.

Sentia-se culpado por não conseguir corresponder com a mesma intensidade. Não porque não a amasse, mas porque algo nele tinha ficado para trás naquela noite. Algo que ele não sabia nomear.

Ela interpretava a aproximação como reconciliação.

Ele vivia-a como compensação.

Sofia acreditava que estavam mais próximos.

Tiago sentia que estavam a tocar-se em planos diferentes.

Mas não dizia nada.

Nunca dizia.

E era isso que Sofia tomava como sinal de que tudo estava a correr bem.

Foi num desses dias bons — bons demais — que Sofia falou no grupo pela primeira vez.

Não como uma revelação.

Como uma ideia.

Estavam sentados à mesa da cozinha, a jantar. Ele tinha contado qualquer coisa banal do trabalho. Ela rira-se. Depois ficou pensativa.

— Sabes que tenho falado muito com umas colegas… — começou.

Tiago levantou os olhos do prato.

— Sobre o quê?

— Sobre relações. Sobre como vivem. Sobre como fazem as coisas.

Ele sentiu um aperto leve no peito.

— E?

— Algumas vivem em comunidades. Não é… — procurou a palavra certa — não é só sobre sexo. É sobre partilha. Sobre confiança. Sobre não haver segredos.

Ele pousou os talheres.

— Comunidades?

— Grupos de casais. Pessoas que se conhecem. Que se apoiam. Que falam. Que fazem tudo com regras.

— Regras não tornam as coisas seguras — respondeu ele.

Ela sorriu, tentando suavizar.

— Tornam mais seguras do que o improviso.

Tiago não respondeu.

— Eu não estou a dizer que temos de ir — acrescentou rapidamente. — Estou só a falar contigo. A partilhar uma coisa que ouvi.

— E porque é que isso te interessa?

Ela respirou fundo.

— Porque acredito que isto pode ser mais do que aquilo que sempre conhecemos.

Ele olhou para ela, com uma expressão que ela não conseguiu ler.

— Eu não quero mais.

— Eu sei — respondeu. — Tu queres o que temos.

— E tu não?

Ela hesitou.

— Eu quero nós. Mas talvez… um nós maior.

A palavra ficou ali, pesada.

Tiago afastou-se ligeiramente na cadeira.

— Isso não existe.

— Existe para algumas pessoas.

— Não para mim.

Ela inclinou-se para a frente.

— Não estou a pedir nada agora. Só estou a falar.

Mas Tiago já sabia:

quando Sofia falava assim, era porque algo já tinha começado dentro dela.

Nos dias que se seguiram, Sofia voltou ao tema com cuidado. Não todos os dias, não de forma insistente. Era como se estivesse a tentar encontrar o ângulo certo para dizer a mesma coisa de mil maneiras diferentes.

Falava de segurança.

Falava de regras.

Falava de pessoas que se conheciam há anos.

Falava de exames regulares, de transparência, de comunicação.

Falava de tudo — menos do medo que ele sentia.

— Isto não é uma coisa selvagem — dizia. — Não é descontrolo. É o contrário. É estrutura.

Tiago ouvia, mas não absorvia.

— Não é por haver regras que deixa de doer — respondeu-lhe uma vez.

Ela sentou-se ao lado dele.

— A dor não é sempre má. Às vezes é só… crescimento.

Ele não respondeu.

Sofia falava como quem acredita verdadeiramente no que diz. Não havia cinismo nela. Não havia manipulação consciente. Havia convicção. E esperança.

Ela acreditava que aquilo era um caminho para algo melhor.

Para ela, a primeira experiência tinha sido uma prova:

Eles tinham sobrevivido.

Continuavam juntos.

Até pareciam mais próximos.

Isso, para Sofia, era evidência suficiente.

Tiago, pelo contrário, não sentia que tivesse sobrevivido. Sentia que tinha passado por uma coisa que ainda não tinha terminado de acontecer dentro dele.

Mas não dizia isso.

Nunca dizia.

Quando Sofia lhe perguntou, uma noite, se ele estaria disposto a conhecer o grupo, ele ficou em silêncio durante muito tempo.

— Conhecer como? — perguntou.

— Falar. Ouvir. Ver se faz sentido.

— E se não fizer?

— Então não fazemos nada.

Ele olhou para ela.

— Prometes?

— Prometo.

Ele assentiu, lentamente.

Não porque acreditasse completamente.

Mas porque ainda acreditava nela.

A candidatura foi feita como quem se inscreve para um curso. Formulários. Perguntas. Reuniões por videochamada.

Sofia respondeu com entusiasmo.

Tiago respondeu com precisão.

Ela falava de sentimentos.

Ele falava de limites.

Quando a resposta chegou, Sofia abriu o email como quem abre um presente.

— Aceitaram-me — disse, com um sorriso enorme.

Ele não sorriu.

— E eu?

Ela verificou.

— Estás em lista de espera.

Ele respirou fundo.

— Lista de espera para quê?

— Para entrar.

— E até lá?

Ela hesitou um segundo.

— Até lá… nada muda.

Era o que ela dizia.

Era o que acreditava.

— Nada muda — repetiu.

Mas, na cabeça dela, tudo já estava a mudar.

Ela começou a falar do grupo como se ele já estivesse lá.

Dizia “nós” quando falava deles.

Dizia “quando entrares”.

Dizia “vais ver”.

— Enquanto não entras, não quero que te sintas preso — disse-lhe um dia. — Se quiseres viver coisas, vive. Não quero que sintas que estou a avançar sozinha.

Tiago olhou para ela.

— Não é isso que me prende.

Ela não percebeu.

Sofia falou nisso durante dias antes de dizer a frase inteira.

Primeiro foram fragmentos.

— É só para conheceres as pessoas.

— Não é nada do que imaginas.

— É tudo muito mais normal do que parece.

Tiago ouvia como quem escuta uma língua que não domina. Não interrompia. Não discutia. Mas cada frase deixava um peso novo no peito, como se lhe acrescentassem camadas de roupa num dia quente.

Quando ela finalmente disse:

— Vou esta sexta-feira.

Ele sentiu o corpo inteiro reagir antes da cabeça.

— Sozinha?

Sofia sorriu, quase de imediato, como se tivesse preparado aquele sorriso.

— Só por agora. Até entrares.

Tiago ficou em silêncio. A palavra quando ecoou-lhe na cabeça: quando entrares. Não se. Quando. Como se já estivesse decidido.

— Eu não disse que ia — respondeu ele.

Sofia aproximou-se, sentou-se ao lado dele.

— Eu sei. Mas vais. Um dia. E é por isso que isto é importante: para não ser um choque quando entrares. Para não ser estranho.

Tiago olhou para ela, tentando perceber onde é que a lógica dela acabava e onde começava a outra coisa.

— Sofia, isto já é estranho.

Ela tocou-lhe na mão.

— Eu sei que estás assustado. E eu respeito isso. A sério. Mas não quero que estejas a imaginar coisas. Quero que saibas como é.

Ele inspirou fundo.

— E se eu não gostar?

— Então paramos — respondeu ela de imediato.

A rapidez da resposta devia tê-lo tranquilizado. Mas teve o efeito oposto: parecia ensaiada.

— Prometes?

— Prometo.

Ela acreditava nisso quando dizia. Não estava a mentir.

Tiago assentiu lentamente. Não por convicção. Mas porque já estava cansado de resistir. Cansado de ser o obstáculo à felicidade dela.

Sofia viu a relutância. Viu o peso nos ombros dele. Mas interpretou-o como medo — não como recusa.

E o medo, para ela, era só uma fase.

Na sexta-feira, Sofia saiu de casa com um saco de desporto como se fosse para uma aula qualquer. Um gesto pequeno, quase banal. Beijou-o na face, como sempre fazia.

— Ligo-te quando chegar.

Tiago acenou.

Ficou na porta a vê-la afastar-se, com a sensação absurda de estar a despedir-se de uma versão dela que talvez não voltasse.

Às nove e meia, o telemóvel vibrou.

— Já cheguei — disse Sofia. — Está tudo bem. É mesmo normal. Pessoas normais. Nada de estranho.

Ela queria tranquilizá-lo. E, de certa forma, estava a dizer a verdade: nada ali lhe parecia estranho.

Para Tiago, a frase soou como um relatório de guerra.

A chamada terminou.

E o resto da noite abriu-se.

Tentou jantar, mas a comida tinha um sabor metálico. Sentou-se no sofá e ligou a televisão, mas os diálogos eram ruído. Caminhou pela casa, abriu e fechou armários sem saber porquê.

Era o silêncio que o esmagava.

Não era o que ela estava a fazer.

Era onde ele estava.

Ele estava ali.

Sozinho.

E essa palavra começou a mudar de forma dentro dele.

Sofia, por sua vez, falava dele no grupo como quem fala de uma casa onde quer voltar.

— Ele está a tentar — dizia. — Não é fácil para ele. Mas eu amo-o muito.

Falava isso com orgulho, como se estivesse a defendê-lo. Como se o amor fosse uma coisa que se podia proteger dizendo em voz alta.

Não lhe ligou mais naquela noite porque acreditava que o espaço era respeito.

Tiago passou a noite acordado. Não a pensar em imagens. A pensar em posições: onde ele se situava agora, naquela história.

No sábado, acordou tarde. A casa parecia grande demais. Arrumou coisas que não precisavam de ser arrumadas. Limpou superfícies que já estavam limpas. Abriu janelas. Fechou-as.

À tarde, deu por si sentado na beira da cama, sem fazer nada, a olhar para o chão.

A pergunta começou a formar-se sem palavras: o que é que eu estou a perder?

E depois: porque é que ninguém me perguntou se eu queria perder alguma coisa?

No domingo, quando Sofia voltou, entrou com um ar leve. Não eufórico. Apenas… bem.

— Olá — disse.

Tiago respondeu com um gesto.

Ela contou-lhe de pessoas, de nomes, de conversas. Contou-lhe histórias pequenas, como se tivesse ido a um congresso ou a uma reunião longa.

Falou do resto com cuidado, escolhendo palavras neutras.

— Foi tranquilo — disse. — Não quero entrar em detalhes. Eu sei que isto ainda te custa.

Ela achava que estava a ser gentil.

Tiago ouviu a frase como uma sentença: isto vai custar sempre.

Na semana seguinte, Sofia tornou-se ainda mais próxima. Mais carinhosa. Mais presente. Tocava-o mais, procurava-o mais, como se estivesse a tentar costurar nele alguma coisa.

Para ela, aquilo era prova de que estava certa: estavam mais ligados.

Para Tiago, era como se ela estivesse a tentar tapar um buraco que ele ainda não tinha admitido existir.

Na sexta-feira seguinte, ela saiu outra vez.

E ele percebeu, com uma clareza súbita, que aquilo não era um evento.

Era um padrão.

Na segunda semana, Tiago já não perguntou se ela ia. Sabia.

Na sexta-feira, Sofia saiu como se fosse uma coisa adquirida. Já não havia a mesma tensão nos gestos, nem o mesmo cuidado nas palavras. Era apenas… normal.

E foi isso que mais o assustou.

A normalização.

Tiago começou a medir o tempo de outra maneira. A semana tornou-se um corredor estreito que ele atravessava a contar os dias até sexta. Não porque quisesse que ela saísse — mas porque precisava de saber quando iria doer.

A dor, ao menos, tornava-se previsível.

Na primeira semana, doeu como choque.

Na segunda, como pressão.

Na terceira, como cansaço.

Ele não falava disso. Sofia interpretava o silêncio como processamento. Como maturidade. Como adaptação.

— Estás a ver? — dizia-lhe, sorrindo. — Estás a aguentar. Eu sabia.

Tiago não estava a aguentar.

Estava a aprender a não reagir.

Na semana, Sofia tornava-se ainda mais próxima. Mais presente. Mais disponível. Tocava-lhe como se quisesse provar que ele ainda era o centro. Para ela, aquilo era amor em estado puro: dar mais quando a relação se tornava mais complexa.

Para Tiago, era uma forma de compensação que ele não pedira.

Ele sentia-se dividido em dois: o homem que ainda amava aquela mulher e o homem que começava a não se reconhecer no espelho.

Mas não dizia nada.

Nunca dizia.

Na segunda-feira, Sofia começou a falar no aniversário com uma luz diferente nos olhos.

— Tenho uma surpresa para ti.

Disse aquilo como quem oferece uma promessa.

Na terça repetiu.

Na quarta voltou a dizer.

Na quinta, quase saltava de entusiasmo.

— Vai ser especial. A sério. Vais gostar.

Tiago ouviu aquelas palavras como quem recolhe migalhas. Uma parte dele queria acreditar. Queria mesmo. Talvez ela tivesse percebido. Talvez tudo isto estivesse a conduzir a algo que ele ainda não conseguia ver.

Sofia planeava tudo com carinho. Não com estratégia, mas com entusiasmo.

No grupo, falava de Tiago com ternura.

— Ele é especial — dizia. — Ele está a tentar. Eu amo-o muito.

Falava dele como quem protege um lugar sagrado.

Quando uma das mulheres se ofereceu para ajudar, Sofia sentiu gratidão. Não viu ali perigo. Viu generosidade. Viu uma forma de o incluir, de o libertar, de o trazer para o centro daquilo que agora era o seu mundo.

Na cabeça dela, a surpresa era perfeita:

Primeiro, os parabéns no check-in.

Depois, algum tempo no grupo.

Depois, ela e a outra mulher iriam para casa.

Para ele.

Ela imaginava o rosto dele quando percebesse. Imaginava o riso, o alívio, a sensação de ser desejado.

Era isso que queria dar-lhe: a sensação de ser desejado.

Tiago chegou a casa mais cedo nesse dia. Tomou banho, vestiu uma camisa que não usava há meses. Não por vaidade — por ritual. Como se se estivesse a preparar para algo que não sabia nomear.

Sofia não estava.

A casa estava silenciosa, limpa, imóvel.

Ele esperou.

Fez café.

Sentou-se.

Levantou-se.

Olhou para o telemóvel.

Nada.

Às nove da noite, a videochamada apareceu no ecrã.

O nome dela.

O coração dele deu um salto.

Atendeu.

Sofia apareceu, iluminada por uma luz quente, rodeada de som. Sorria.

— Feliz aniversário, amor.

Aquelas palavras, sozinhas, já lhe teriam bastado.

— O pessoal quer dar-te os parabéns.

A câmara virou-se.

Tiago viu a sala.

Viu corpos.

Muitos.

Demasiados.

Demasiado próximos.

Demasiado nus.

Ouviu vozes a dizer “parabéns” com entusiasmo, como se estivesse a assistir a uma festa que não tinha pedido.

O mundo dele encolheu.

Sofia voltou ao centro do ecrã.

— Isto é para ti.

Ela queria dizer: quero partilhar isto contigo.

Ele ouviu: olha para o que já não é teu.

O telefone passou para outra pessoa.

O ângulo mudou.

Sofia estava agora a ser filmada como parte do grupo. Tocada. Beijada. Envolvida por várias pessoas ao mesmo tempo.

Tiago não sentiu excitação.

Sentiu um apagamento.

Como se alguém estivesse a pegar na história dele e a reescrever em tempo real, sem lhe pedir autorização.

O corpo dele começou a reagir antes da cabeça.

O peito apertou.

A visão ficou turva.

Os sons tornaram-se distantes.

Ele não conseguia respirar direito.

A humilhação veio primeiro. Não a social — a existencial. A sensação de que já não era necessário para nada.

Depois veio a traição — não do corpo, mas do sentido.

Depois veio o vazio.

Tiago levantou-se.

E atirou o telefone contra a parede.

O impacto foi seco. O aparelho explodiu em pedaços no chão.

O som ecoou na casa vazia.

E depois, silêncio.

Ele ficou parado por um segundo, a olhar para os fragmentos como se fossem órgãos espalhados.

Depois saiu.

Caminhou sem rumo.

Passou por ruas vazias, por montras fechadas, por semáforos que mudavam de cor para ninguém.

Sentou-se num banco.

Olhou para as mãos.

Não pensava. Não sentia. Estava suspenso num espaço sem linguagem.

A frase que se formou dentro dele não tinha palavras, mas tinha peso:

Acabou.

Não como decisão.

Como constatação.

Sofia não se apercebeu de que a chamada tinha caído.

Ninguém se apercebeu.

Para ela, tudo correra bem. A chamada fora parte da surpresa. Um ritual de inclusão. Um abraço colectivo.

Mais tarde, voltou a casa com a amiga.

A casa estava vazia.

Sentaram-se na sala. Conversaram. Riram-se.

Sofia tinha uma pequena pena: a surpresa não tinha acontecido como imaginara. Ele não estava ali para a parte boa. Para a parte dele.

Mas essa pena não era trágica. Era suave.

Esperaram mais de uma hora.

A amiga disse, a sorrir:

— Se calhar ele está bem acompanhado.

Sofia sorriu também.

A ideia não a magoou. Confortou-a.

Na cabeça dela, aquilo era vitória: ele finalmente a viver algo novo. A libertar-se. A crescer.

Voltou para o grupo tranquila.

Tiago voltou para casa quando o céu começava a clarear.

Viu os pedaços do telefone no chão.

Não sentiu nada.

Foi à cozinha. Bebeu água.

A dor dentro dele não era aguda. Era sólida. Como cimento a secar.

Nesse amanhecer, sem lágrimas, sem dramatismo, uma certeza instalou-se:

O casamento tinha acabado.

E não era só o casamento.

Aquilo que ele sentia por Sofia — o amor, a confiança, a ideia de “nós” — tinha-se estilhaçado na mesma parede onde o telefone se partira.

Sofia nunca lhe diria que o plano era outro.

Que a surpresa terminava em casa.

Que ele era o destino.

E Tiago nunca o saberia.

Tiago não disse nada no sábado. Nem no domingo. Nem na semana seguinte.

Não foi uma escolha. Foi um mecanismo.

O corpo dele tinha aprendido uma coisa nova: calar-se era mais seguro do que falar. Falar exigia linguagem, e ele já não tinha palavras que não o ferissem.

Na segunda-feira, levantou-se à mesma hora de sempre. Tomou banho. Vestiu-se. Foi trabalhar.

O mundo não tinha parado. E isso pareceu-lhe uma forma de violência.

Sofia acordou leve. Não eufórica — mas tranquila. Acreditava que a noite tinha sido intensa, sim, mas produtiva. Um daqueles momentos que mudam a trajectória de uma relação. Na cabeça dela, aquilo fora um passo em frente, mesmo que confuso.

Quando ele não falou do aniversário, ela interpretou como integração. Como processamento.

— Deve estar a pensar — disse a si mesma.

Ela via silêncio onde ele sentia amputação.

Durante a semana, aproximou-se dele como sempre fazia quando sentia que algo estava sensível: mais toque, mais presença, mais cuidado. Para ela, isso era amor em estado puro.

Tiago começou a sentir o toque dela como um ruído.

Não porque não a amasse — mas porque o corpo dele já não sabia como estar naquele lugar. Era como sentar-se numa cadeira que já não tem uma perna: exige esforço constante para não cair.

À noite, quando ela se aproximava, ele ficava imóvel. Não a rejeitava. Mas também não a recebia.

Sofia interpretou aquilo como cansaço.

— Estás exausto — dizia. — Isto tudo é novo.

Ele assentia.

Assentir tornara-se a única coisa que conseguia fazer sem se magoar.

Na semana seguinte, Tiago pediu para falar com o chefe.

Não foi dramático. Foi quase burocrático.

— Há uma vaga no turno da noite — disse. — Na equipa de ligação internacional.

O chefe olhou para ele com estranheza.

— Sabes que ninguém quer esse horário.

— Eu quero.

Não explicou porquê. Não sabia como.

O novo horário começava às sete da tarde e terminava às quatro da manhã. A ligação era com a divisão americana no Havai — fuso invertido, reuniões quando o resto do mundo dormia.

Para o chefe, aquilo era uma excentricidade.

Para Tiago, era sobrevivência.

Quando contou a Sofia, fez questão de usar a linguagem certa.

— É temporário. Só até as coisas acalmarem.

Ela franziu a testa.

— Mas isso é horrível para o sono.

— Por isso pensei em mudar para o quarto de hóspedes — acrescentou. — Para não te acordar quando chegar. Nem tu me acordares quando saíres.

Disse aquilo com uma naturalidade ensaiada.

Sofia ficou em silêncio por um segundo.

— Claro — respondeu depois. — Faz sentido.

Ela acreditava mesmo que era logística.

Ele sabia que era separação.

Mas era uma separação que não precisava de nome.

E isso tornava-a aceitável.

Na primeira noite em que levou uma mala pequena para o quarto de hóspedes, Tiago sentiu uma estranha sensação de alívio.

Não era felicidade.

Era ausência de fricção.

O quarto era mais pequeno. Mais simples. Menos história. Não tinha o cheiro dela, nem os objectos que falavam de décadas.

Dormiu melhor ali do que tinha dormido em semanas.

Sofia passou pela porta, viu a mala, e não dramatizou.

— Se precisares de alguma coisa, diz — falou, com cuidado.

Ele assentiu.

Na cabeça dela, aquilo era uma fase. Um ajuste. Uma reorganização.

Na cabeça dele, era uma retirada.

Mas não se retirava de uma vez.

Ia-se retirando por camadas.

Tiago começou a correr antes de saber porquê.

Não era por estética. Nem por saúde. Era porque o movimento fazia o barulho dentro dele baixar. Enquanto corria, não pensava. O corpo ocupava o espaço que a mente já não conseguia habitar.

Acordava cedo, quando ainda estava escuro. Calçava os ténis, saía, e deixava-se ir. Às vezes corria até doer. Às vezes até ficar vazio.

O corpo começou a mudar.

Emagreceu. Definiu-se. Os ombros voltaram a aparecer. A cara perdeu o peso dos últimos anos. Parecia, aos olhos de quem o via de fora, um homem que se estava a reencontrar.

Sofia reparou.

— Estás incrível — disse-lhe uma manhã, na cozinha. — Estás como há vinte anos.

Havia nela uma alegria genuína. Como se aquilo confirmasse tudo o que acreditava: que ele estava a atravessar uma fase, que estava a crescer, que aquilo tudo estava a resultar.

Tiago não sorriu.

Limitou-se a assentir e foi para a casa de banho.

Fechou a porta.

Sofia ficou do lado de fora, ainda a sorrir, ainda a tentar chegar a ele.

— Estou a falar a sério — disse, encostada à porta. — Estás mesmo bonito.

Ele não respondeu.

Quando saiu, ela tentou aproximar-se. Tocou-lhe no braço, como fazia sempre.

Foi aí que aconteceu.

Pela primeira vez, Tiago afastou-se.

Não com palavras.

Não com um empurrão.

Mas com um olhar.

Um olhar que ela nunca tinha visto nele.

Não era raiva.

Não era ódio.

Era… repulsa.

Ou, pelo menos, foi assim que Sofia o leu.

Ficou parada.

— O que é que foi isso? — perguntou, já com a voz alterada.

Ele não respondeu.

Passou por ela como se ela fosse um obstáculo, não uma pessoa.

Aquilo chocou-a.

E depois, irritou-a.

— Sabes que mais? — disse, já a erguer a voz. — Isto começa a ser injusto.

Ele continuou a andar.

Sofia pegou nas chaves e saiu.

Bateu a porta.

Na cabeça dela, aquilo não foi um colapso dele.

Foi um ataque.

Foi uma reacção desproporcionada.

Foi um momento de egoísmo.

Ela não viu dor.

Viu hostilidade.

E isso marcou-a.

A partir daí, deixaram de se ver.

Não de propósito.

Por logística.

Quando Sofia saía para o trabalho, Tiago ainda dormia.

Quando ela voltava, ele já tinha saído.

Começaram a viver em fusos diferentes dentro da mesma casa.

Às vezes cruzavam-se na cozinha, como estranhos educados.

— Comprei leite.

— A lâmpada da sala fundiu.

— O lixo é hoje.

As conversas desapareceram.

Ficaram os telefonemas funcionais.

— Podes pagar a água?

— Sabes onde está o carregador?

— Vou chegar tarde.

Às vezes deixavam recados em papel na bancada.

Não eram bilhetes de amor.

Eram instruções.

A casa tornou-se um espaço partilhado, não um espaço vivido.

Sofia dizia a si mesma que aquilo era normal.

Que eram fases.

Que ele estava a processar.

Que aquilo fazia parte do crescimento.

Mas havia uma coisa que a incomodava: ele não a olhava mais da mesma maneira.

E ela não sabia explicar porquê.

Tiago tinha trocado de telemóvel.

Não foi um gesto simbólico — mas foi.

O iPhone partira-se na parede naquela noite.

O Android era barato, funcional, sem memória emocional.

Não tinha fotografias antigas.

Não tinha conversas guardadas.

Não tinha história.

Era só um aparelho.

Numa tarde qualquer, enquanto estava sentado no carro antes de entrar no trabalho, recebeu uma chamada.

Número desconhecido.

Atendeu.

— Tiago? — perguntou uma voz.

— Sim.

— Estamos a ligar do grupo. Queríamos informar que a sua candidatura foi finalmente aprovada.

Houve um silêncio.

Não um silêncio teatral.

Um silêncio vazio.

— Não estou interessado — respondeu ele.

Do outro lado, houve hesitação.

— Como assim? A sua mulher já é membro activo…

— Eu sei.

— É só para lhe dar a oportunidade de…

— Não quero — disse ele, com uma clareza que não usava há meses.

A voz do outro lado mudou.

— Posso perguntar porquê?

Tiago pensou.

Não encontrou nenhuma resposta que não fosse grande demais.

— Não faz parte da minha vida — disse apenas.

— Quer que mantenhamos o seu perfil para o futuro?

Ele olhou para o volante. Para as mãos.

— Apaguem tudo.

— Tem a certeza?

— Absoluta.

A chamada terminou.

Ele ficou ali mais alguns segundos, sem fazer nada.

Não sentiu vitória.

Não sentiu alívio.

Sentiu encerramento.

Como quem fecha uma porta que nunca mais vai abrir.

Tiago não decidiu ir a um advogado.

Aconteceu.

Foi num daqueles dias em que o corpo já tinha tomado todas as decisões antes da cabeça. Saiu do trabalho de madrugada, conduziu sem pensar muito e estacionou o carro em frente a um prédio discreto, onde um nome em letras pequenas dizia: Advocacia – Direito da Família.

Não estava nervoso.

Estava vazio.

Sentou-se na sala de espera com uma pasta na mão. Lá dentro tinha papéis: extratos, contratos, números que antes representavam uma vida e agora pareciam apenas dados.

Quando entrou no gabinete, contou tudo como quem lê um relatório.

Não falou de humilhação.

Não falou de colapso.

Não falou da noite.

Falou de factos.

O advogado ouviu com atenção profissional, fez perguntas precisas, pediu documentos.

— O que é que pretende? — perguntou-lhe, por fim.

Tiago demorou a responder.

— Um divórcio — disse. — Só isso.

— Quer disputar bens? Pensão? Custódia?

— Não — respondeu. — Não quero vinganças. Não quero punições. Quero sair.

O advogado assentiu, como quem reconhece aquele tipo de cliente.

— À luz da lei, tem estas opções.

Explicou-lhe tudo: prazos, direitos, obrigações, cenários possíveis.

Tiago ouvia, mas tudo aquilo parecia acontecer noutra vida.

— Prepare a papelada — disse por fim. — Mas não dê entrada ainda.

— Porquê?

Tiago pensou um momento.

— O meu filho vem no Natal.

O advogado franziu o sobrolho.

— E isso muda o quê?

— Tudo.

Não explicou mais.

João chegou da universidade com a energia habitual, malas em excesso, histórias em atraso e aquela forma de entrar numa casa como se ainda lhe pertencesse por inteiro.

Sofia recebeu-o com o mesmo sorriso de sempre. Leve. Sereno. Como se nada tivesse mudado.

Tiago abraçou-o com força a mais.

— Está tudo bem? — perguntou o filho, no segundo dia, quando ficaram sozinhos na cozinha.

— Claro — respondeu Tiago. — Porque não estaria?

João não insistiu. Mas reparou.

Reparou que o pai evitava a mãe.

Não com agressividade.

Com desvio.

Saía da divisão quando ela entrava.

Respondia-lhe por mensagens, mesmo estando na mesma casa.

Falava com ela como quem fala com um colega de trabalho.

João via a mãe a andar serena, organizada, quase luminosa.

E via o pai a encolher.

— Vocês estão bem? — perguntou-lhe uma noite, baixinho.

Tiago hesitou.

— Estamos a ajustar-nos — respondeu.

Não era mentira.

Era incompleto.

Durante as festas, Tiago foi trabalhar todos os dias. Disse que não podia faltar. Que era importante.

Na verdade, precisava de sair.

Precisava de estar longe daquela casa cheia de enfeites, música e uma normalidade que já não existia.

Ele queria que houvesse um último Natal em que tudo parecesse inteiro.

Mesmo que fosse mentira.

João voltou para a universidade depois das festividades.

Despediu-se da mãe com carinho.

Do pai com uma estranheza que não soube nomear.

— Liga-me — disse Tiago.

— Ligo sempre.

Mas ambos sabiam que aquela promessa era frágil.

Depois do Natal, a casa voltou ao silêncio.

Tiago tinha os papéis do divórcio na mochila.

Não os guardava.

Não os escondia.

Mas também não os usava.

Dizia a si mesmo:

— Depois desta semana.

— Depois desta reunião.

— Depois de ela estar mais calma.

— Depois de eu estar mais forte.

Arranjava sempre uma razão.

Sofia via-o distante, mas não ausente.

Interpretava aquilo como introspeção.

— Ele está a mudar — pensava. — Está a integrar.

Ela acreditava nisso.

Falava com ele pouco, mas com cuidado. Não queria pressionar. Não queria estragar nada.

Para ela, aquela fase era como uma ferida a cicatrizar: precisava de tempo, não de confronto.

Tiago vivia como um fantasma.

Saía quando ela entrava.

Entrava quando ela saía.

Não se tocavam.

Não discutiam.

Não existiam juntos.

Quatro meses.

Quatro meses de dois corpos a ocuparem a mesma casa sem se cruzarem.

Ele dormia no quarto de hóspedes.

Ela na cama deles.

Ele trabalhava de noite.

Ela de dia.

A casa tornara-se um corredor de horários.

Às vezes deixavam recados.

— Comprei café.

— Falta detergente.

— A torneira pinga.

Nenhuma frase tinha verbo emocional.

Tiago começou a sentir-se confortável no silêncio.

Não feliz.

Mas estável.

O sofrimento tinha-se transformado numa espécie de paisagem fixa.

Como uma cidade em ruínas onde já não se espera que nada seja reconstruído.

Ele funcionava.

Isso bastava.

Sofia não descobriu de repente.

Foi-se formando.

Primeiro como uma suspeita vaga. Uma sensação pequena, difícil de nomear. Depois como uma pergunta que não encontrava resposta.

Ela estava a preparar-se para sair numa sexta-feira, já de forma quase automática, quando se apercebeu de que já não dizia a Tiago quando ele entraria. Antes, essa palavra surgia-lhe naturalmente: quando entrares, quando for a tua vez, quando estiveres lá. Agora, evitava-a sem se dar conta.

Passou a dizer se quiseres.

Essa mudança assustou-a.

Naquela noite, no grupo, enquanto alguém falava sobre integração, sobre novos membros, sobre como as pessoas iam chegando ao seu tempo, Sofia sentiu um aperto estranho no peito.

— O meu marido ainda não entrou — disse, de forma casual, mas com um nervo escondido. — Está em lista de espera.

Houve um silêncio breve. Pequeno. Quase imperceptível.

Alguém trocou um olhar com outra pessoa.

— Ele… ainda não te disse nada? — perguntou o diretor, com cuidado.

— Disse o quê?

O homem hesitou.

— Nós ligámos-lhe há meses.

Sofia sentiu o corpo todo parar.

— Ligaram-lhe?

— Sim. Ele foi aprovado.

O mundo ficou estranho. Como se tivesse perdido textura.

— E…?

— Ele recusou.

Sofia riu, automaticamente.

— Não, isso é impossível.

— Disse que não estava interessado e pediu para apagarmos tudo.

Ela ficou a olhar para ele.

— Isso não faz sentido.

— Foi muito claro — respondeu o homem, com a neutralidade de quem só entrega factos.

Sofia sentiu um frio subir-lhe pelo corpo.

— Quando?

Ele disse a data.

Era de há meses.

Meses.

Ela saiu do grupo sem se despedir de ninguém.

Entrou no carro e ficou parada, com as mãos no volante, sem ligar o motor.

A primeira coisa que sentiu não foi raiva.

Foi medo.

Um medo cru.

E a primeira conclusão a que chegou não foi que Tiago a tinha rejeitado.

Foi que ele tinha encontrado outra pessoa.

Era a única explicação que fazia sentido dentro da narrativa dela.

Ele estava diferente.

Estava distante.

Já não a tocava.

Já não a olhava.

Tinha mudado o corpo.

Tinha mudado o horário.

Tudo encaixava.

Ela ficou ali, dentro do carro, a respirar mal.

Não chorou.

Chorar exigia tempo.

Ela só pensava: eu perdi-o.

Sofia não o confrontou naquela noite.

Nem na manhã seguinte.

Passou o dia inteiro a tentar montar as peças de um puzzle que não queria ver completo.

À noite, mandou-lhe uma mensagem.

Preciso que estejas em casa na sexta. Temos de falar.

Tiago leu a mensagem durante a pausa no trabalho.

Não sentiu pânico.

Sentiu… cansaço.

Respondeu apenas:

Ok.

Para Sofia, aquele ok foi uma punhalada.

Era frio.

Era curto.

Era distante.

Ela passou a semana inteira em sobressalto. Alternava entre o medo e a esperança.

Dizia a si mesma:

— Ele ainda me ama.

— Isto é só uma fase.

— Eu posso resolver.

Construiu mentalmente a conversa dezenas de vezes.

Ia dizer-lhe que o amava.

Que queria sair do grupo.

Que queria voltar a ser só os dois.

Que tudo aquilo tinha sido para eles.

Ia pedir-lhe para ficarem.

Ela acreditava que ainda podia salvar tudo.

Tiago leu a mensagem durante a pausa no trabalho.

Preciso que estejas em casa na sexta. Temos de falar.

Não sentiu ansiedade.

Sentiu… reconhecimento.

Era isto.

Há meses que aquilo já não era um casamento. Era um acordo de coexistência, uma logística, uma série de horários que não se tocavam. Para ele, aquela frase não era um pedido — era uma formalidade.

Ela ia acabar com aquilo.

E, estranhamente, isso trouxe-lhe uma espécie de paz.

Respondeu apenas:

Ok.

Sofia leu aquele ok e sentiu um aperto no peito. Não era raiva. Era distância. Mas não conseguiu interpretar aquilo como fim. Ainda não.

Na sexta-feira, chegou cedo a casa.

Preparou-se como quem se prepara para algo importante: não para uma discussão, mas para uma confissão. Sentou-se à mesa da cozinha, com as mãos cruzadas, ensaiando mentalmente as palavras.

Tiago chegou pouco depois.

Vinha da praia. O cabelo ainda húmido. A pele mais escura. O corpo diferente.

Ela reparou — como sempre reparava.

— Vou só tomar um duche — disse ele.

— Claro.

Esperou.

Quando ele saiu, ela já estava sentada à mesa.

Ele sentou-se em frente a ela, sem pressa.

— Diz.

A forma como ele disse aquilo — curta, neutra, quase administrativa — fez-lhe doer o peito.

Ela respirou fundo.

— Tiago… eu quero parar.

Ele não reagiu.

— Parar com o grupo — acrescentou.

Ele piscou os olhos uma única vez.

— Quero fechar o casamento — continuou. — Quero que sejamos só nós outra vez.

As palavras saíam-lhe como se estivessem a libertar algo preso há meses.

— Eu não preciso daquilo. Eu só queria que estivéssemos mais próximos. Que nos entendêssemos melhor. Mas isto… isto não está a resultar.

Ele continuava imóvel.

Ela inclinou-se para a frente.

— Eu amo-te. Sempre te amei. Tudo o que fiz foi para nós. Pode ter sido errado, mas nunca foi para te perder.

Tiago ouvia.

E, por dentro, tudo se deslocava.

Porque ele não estava à espera disto.

Estava à espera de um fim.

Não de um regresso.

A frase quero fechar o casamento ecoava-lhe na cabeça como uma coisa impossível. Como se alguém lhe dissesse que podia voltar a uma casa que já tinha ardido.

Ele ficou em silêncio.

Não um silêncio tático.

Um silêncio real.

Sofia observava-o, nervosa. Aquele silêncio não parecia reflexão. Parecia ausência.

— Diz alguma coisa — pediu.

Ele não conseguia.

Por fora, parecia frio. Distante. Um homem a ouvir.

Por dentro, estava em choque.

Não era alegria.

Não era esperança.

Era surpresa absoluta.

Como se lhe tivessem oferecido algo que ele já tinha enterrado.

Ficaram ali assim durante muito tempo.

O relógio da cozinha fazia um barulho irritante.

Sofia começou a inquietar-se.

— Tiago…

Ele ergueu o olhar.

— Eu preciso de pensar.

A frase saiu-lhe com uma calma que não sentia.

— Pensar em quê? — perguntou ela, já com medo.

— Nisto.

— Mas eu estou a dizer-te que quero ficar.

Ele assentiu lentamente.

— Eu sei.

— Então porque é que isso não te basta?

Ele ficou a olhar para ela.

Não havia raiva.

Não havia dureza.

Havia… distância.

— Porque eu já não sei onde fico eu.

Ela sentiu um frio subir-lhe pelas pernas.

— O que é que isso quer dizer?

Ele levantou-se.

— Quer dizer que preciso de sair um bocado.

Ela levantou-se também.

— Agora?

— Agora.

— Tiago, não podes sair agora.

Ele pegou nas chaves.

— Posso.

— Isto é importante!

— Eu sei.

E isso, dito assim, foi o que mais a assustou.

Ele não estava a fugir.

Estava a suspender.

Saiu.

A porta fechou-se com um som normal.

Não houve estrondo.

Sofia ficou sozinha na cozinha.

Sentou-se.

E, pela primeira vez em meses, não conseguiu racionalizar.

A ideia formou-se devagar, dolorosa, quase impossível de aceitar:

E se eu tiver destruído tudo?

Não como hipótese.

Como possibilidade real.

E isso fez-lhe mais medo do que qualquer outra coisa.

Tiago não sabia para onde ia quando saiu.

Conduziu sem destino, sem playlist, sem pressa. As mãos no volante, os olhos a verem ruas que não registava. Não estava a fugir — estava a tentar criar espaço suficiente entre ele e aquela frase impossível:

“Quero fechar o casamento.”

A cabeça dele não conseguia encaixar aquilo em nada que conhecesse.

Era como se alguém lhe tivesse oferecido de volta uma casa que ele próprio tinha demolido com as mãos. Não por raiva. Por sobrevivência.

Parou num hotel qualquer, desses que não prometem nada a ninguém. Um prédio anónimo, luz branca, receção automática. Pagou, subiu, entrou num quarto que não cheirava a ninguém.

Sentou-se na beira da cama.

Não chorou.

Não pensou.

O choque tinha uma forma estranha: não doía. Anestesiava.

Ela queria ficar.

Depois de tudo.

Depois de o ter partido sem saber.

Depois de o ter mudado.

Depois de ele ter enterrado tudo.

Ela queria voltar.

A ideia não lhe trouxe alegria.

Trouxe um vazio novo.

Tiago deitou-se vestido, sem tirar os sapatos, e ficou a olhar para o tecto. O corpo estava ali, mas a cabeça parecia longe. As imagens não vinham — vinham apenas sensações: peso no peito, uma espécie de pressão interna, como se tivesse de tomar uma decisão para a qual não tinha palavras.

O telemóvel vibrou.

Uma mensagem.

Onde estás?

Não respondeu.

Outra.

Podemos falar.

Não respondeu.

Mais uma.

Eu amo-te.

Ele pousou o telefone no chão, com o ecrã virado para baixo.

Não porque não acreditasse nela.

Mas porque já não sabia o que fazer com isso.

Quando a porta se fechou, Sofia ficou parada.

Não foi imediato o pânico. Primeiro foi confusão.

Depois foi uma espécie de frio.

Sentou-se na cadeira onde ele estivera. Olhou para a mesa. Para o copo de água dele. Para a porta por onde ele saíra.

Não conseguia organizar o que tinha acontecido.

Ela tinha vindo para salvar.

Não para perder.

Não para suspender.

Tinha dito as palavras mais importantes da vida dela — e ele tinha pedido tempo.

Não para pensar no que ela disse.

Mas para pensar em si.

Isso doeu de uma forma que ela não esperava.

Mandou-lhe mensagens. Não em pânico — em tentativa.

Onde estás?

Podemos falar.

Eu amo-te.

Quando ele não respondeu, começou a andar pela casa. Arrumou coisas que não precisavam de ser arrumadas. Sentou-se. Levantou-se. Voltou a sentar-se.

Tentou racionalizar:

— Ele só precisa de tempo.

— Ele está em choque.

— Eu mexi em coisas profundas.

Mas havia uma ideia que já não se deixava afastar:

E se eu tiver chegado tarde demais?

Essa pergunta não tinha resposta.

E isso era aterrador.

Tiago acordou antes do despertador.

Não porque tivesse dormido bem. Porque o corpo não lhe permitiu dormir mais.

Levantou-se, tomou um duche longo, sem pensar. Vestiu-se. Saiu.

Quando voltou a casa, ainda estava cedo.

A casa estava silenciosa.

Sofia dormia.

Ele ficou parado no corredor, a olhar para a porta do quarto deles — não entrou.

Foi para o quarto de hóspedes.

Sentou-se na cama.

E ali, finalmente, algo se organizou dentro dele.

Não como decisão.

Como certeza.

Ele tinha morrido naquela versão do casamento.

Não na noite do aniversário.

Mas ali, lentamente, ao longo dos meses.

Ela não o tinha matado.

Ele tinha-se desligado para sobreviver.

E agora ela pedia-lhe que regressasse a um lugar onde ele já não existia.

Isso não era cruel.

Mas era impossível.

Tiago foi trabalhar nesse dia.

Como sempre.

Sofia acordou e ele já não estava.

Na cozinha, havia um copo lavado, uma cadeira fora do sítio, um silêncio novo.

Não havia bilhete.

Não havia mensagem.

Ela sentou-se à mesa e ficou ali, sem fazer nada.

Pela primeira vez desde que tudo tinha começado, Sofia não tinha narrativa.

Não tinha explicação.

Não tinha teoria.

Só tinha uma pergunta que não se deixava calar:

E se eu tiver errado sobre tudo?

Sofia acordou com o corpo inquieto, como se tivesse dormido pouco, embora tivesse passado horas de olhos fechados. Não era insónia, era expectativa. A casa estava silenciosa, e esse silêncio não a assustava — ainda não. Tiago não tinha dormido em casa, mas ela não leu isso como abandono. Leu como choque, como necessidade de espaço, como um homem a reorganizar-se depois de ouvir algo grande demais. Na cabeça dela, aquele afastamento não era uma rejeição: era uma pausa antes de um regresso.

Levantou-se, tomou banho, arranjou-se sem perceber bem para quê. Vestiu uma camisola que ele gostava, por hábito, não por cálculo. Preparou café e sentou-se à mesa com o telemóvel à frente, como se fosse ali que tudo se fosse resolver.

Começou com mensagens leves. Um bom-dia. Um emoji. Uma pergunta simples. Depois uma piada antiga, daquelas que só os dois entendiam, uma memória partilhada, um código íntimo que ninguém mais conhecia. Sofia estava a falar na língua deles, a tentar acordar algo que acreditava ainda existir, apenas adormecido.

Tiago leu tudo.

Não respondeu.

Ao início, aquilo não lhe pareceu grave. Ele sempre fora mais lento, mais silencioso, mais interior. Ela interpretou o silêncio como digestão emocional. Como reflexão. Como maturidade. Disse a si mesma que ele precisava de tempo, mas que precisava também de sentir que ela estava ali, presente, disponível, inteira.

Foi então que decidiu avançar.

As fotos não eram tímidas. Não eram vagas. Não eram simbólicas. Eram explícitas na intenção, claramente pensadas para provocar desejo, para ativar o corpo, para lembrar-lhe quem ela era para ele. Não havia nelas qualquer ingenuidade: eram um convite direto, físico, cru, sem subentendidos.

Para Sofia, aquilo não era desespero. Era amor em ação. Era usar o que sempre os tinha unido — o corpo, a química, a intimidade — como ponte de regresso.

Ela enviava e esperava.

Esperava uma reação. Uma palavra. Um emoji. Um sinal mínimo.

Nada.

Tiago abriu as imagens uma a uma.

E não sentiu o que esperava sentir.

Não sentiu desejo. Não sentiu curiosidade. Não sentiu sequer tristeza.

Sentiu estranheza.

O olhar dele não foi para o corpo como um todo. Foi para os detalhes. Para os piercings que não estavam lá antes. Para as tatuagens que não reconhecia. Para as marcas que não pertenciam à história deles. Era como olhar para alguém que tinha a mesma cara, mas não a mesma pele.

E, sem aviso, o corpo dele reagiu.

Não com excitação.

Com repulsa.

Não uma repulsa moral, nem ética, nem racional. Uma repulsa física, visceral, como quando se tenta tocar numa coisa que já não se reconhece como segura.

A ideia de lhe tocar causou-lhe um arrepio.

Não de desejo.

De rejeição.

Foi ali, naquele momento, que ele percebeu que algo tinha mudado num ponto que não sabia nomear, mas que sabia definitivo. Não era apenas emocional. Era corporal. O corpo dele já não a reconhecia como lugar.

Fechou as imagens.

Pousou o telefone.

E não respondeu.

Não por crueldade. Não por vingança. Mas porque qualquer resposta seria mentira.

Saiu.

Caminhou sem destino. Deixou que o corpo decidisse por ele. Não pensou em argumentos, nem em justificações. Pensou apenas numa frase que se formava cada vez com mais clareza:

Eu não consigo voltar.

Tiago ligou-lhe ainda de manhã, quando a cidade estava naquele estado intermédio entre o acordar e o continuar a dormir. Sofia atendeu quase de imediato, com o coração acelerado, como se já estivesse à espera daquela chamada desde a noite anterior.

— Vamos falar hoje — disse ele, com uma voz neutra, sem qualquer emoção que ela conseguisse ler. — Ao jantar.

Sofia fechou os olhos por um instante, como se aquela frase fosse uma bênção.

— Claro — respondeu. — Queres que eu faça alguma coisa?

— Não. Eu levo comida.

A forma como ele disse aquilo — simples, prática, quase doméstica — encheu-a de esperança. Para Sofia, aquele era o gesto de quem quer regressar ao normal. De quem quer cuidar. De quem ainda está ali.

Passou o resto da manhã numa espécie de expectativa elétrica. Arrumou a casa, tomou banho, vestiu-se com cuidado, não como quem se prepara para seduzir, mas como quem quer ser reconhecida. Havia nela uma mistura de ansiedade e alegria contida, como se estivesse à beira de algo decisivo e bom.

Dizia a si mesma que tudo se resolveria ali. Que ele precisava apenas de tempo. Que ela lhe tinha dado uma saída digna, amorosa, clara: fechar o casamento, abandonar o grupo, voltar a ser só os dois. Era tão lógico, tão simples, tão óbvio para ela que não conseguia conceber que ele não visse da mesma forma.

Quando a campainha tocou, já ao fim da tarde, Sofia sorriu, convencida de que era Tiago.

Abriu a porta.

Era o pai.

Henrique.

Por um segundo, o mundo deslocou-se ligeiramente.

— Pai?

— Olá, filha — respondeu ele, com um sorriso meio desconfiado. — O Tiago convidou-nos para jantar.

Antes que ela pudesse responder, Teresa apareceu atrás dele, segurando a mala com as duas mãos, como fazia sempre quando estava nervosa.

— Achámos estranho, mas ficámos contentes — disse.

Sofia sentiu um frio subir-lhe pelas pernas. Não era medo ainda. Era confusão.

— Convidou-vos…? — repetiu, sem saber o que estava a perguntar.

Entraram. Sentaram-se. Falaram de banalidades. Sofia mal ouvia. Tentou ligar a Tiago. Não atendeu.

Quinze minutos depois, a campainha voltou a tocar.

Mariana e Rui.

— O Tiago disse para virmos cedo — explicou a irmã.

Foi ali que algo começou a quebrar-se dentro de Sofia, ainda sem nome, mas já com forma.

Tiago chegou pouco depois das sete.

Trazia sacos de comida, equilibrados nos braços, como quem chega a casa depois de um dia normal. Cumprimentou todos com educação, sem pressa, sem nervosismo. Para quem o visse de fora, parecia apenas um homem cansado a organizar um jantar.

Mas não havia nada de normal naquele gesto.

Pousou os sacos, começou a dispor os pratos, a organizar a mesa, a servir as doses. Não pediu ajuda. Não explicou nada. Não parecia querer explicar nada.

Sofia observava-o em silêncio, com um nó no estômago que não conseguia dissolver.

Jantaram.

Henrique tentou puxar conversa. Falou do trabalho, da cidade, de coisas pequenas. Mariana respondia. Rui assentia. Teresa quase não tocou na comida.

Sofia mal comeu.

Tiago comia devagar, mas com apetite, como se aquela fosse apenas mais uma noite. A serenidade dele era desconcertante.

Depois da sobremesa, depois do café, quando todos esperavam que alguém dissesse algo importante, Tiago levantou-se.

— Já venho — disse.

Foi ao escritório.

Voltou com uma pasta na mão.

Sentou-se.

E empurrou-a na direção de Sofia.

— O que é isto? — perguntou ela, sentindo o corpo inteiro a enrijecer.

— Abre.

Ela abriu.

E tudo parou.

Os olhos percorreram as páginas, mas o cérebro demorou a acompanhar. Palavras que não deviam estar ali. Um formato que ela reconhecia vagamente, mas nunca quisera reconhecer de verdade.

Requerimento de divórcio.

Sofia deixou a pasta cair no colo, como se fosse demasiado pesada.

— O quê…?

Henrique levantou-se de imediato, a cadeira a raspar no chão.

— Perdeste o juízo?! — gritou, apontando o dedo a Tiago.

Tiago não se mexeu.

— Eu e a Sofia seguimos caminhos diferentes — disse, com uma calma que soava quase ofensiva. — Isto é o melhor para ambos.

Teresa levou a mão à boca e começou a chorar.

— O que é que pode levar a isto? — perguntou, entre soluços.

Tiago inspirou fundo, preparando-se para falar.

Mas Sofia falou primeiro.

E falou tudo.

Não como acusação. Como confissão.

Disse que tinha sido ela. Que tinha querido abrir o casamento. Que tinha sido por curiosidade, por medo de perder a vida, por medo de chegar aos cinquenta e sentir que não tinha vivido nada. Disse que nunca foi por falta de amor. Que sempre o amou. Que o ama.

Disse que ele tinha concordado. Que tinham falado durante semanas. Que tinham tentado fazer tudo com cuidado.

Disse que depois apareceu o grupo. Que ela foi aceite. Que ele ficou em lista de espera.

Disse que lhe tinha dito que ele estava à vontade para procurar outras experiências também. Que não queria prendê-lo. Que queria que ele se sentisse livre.

Disse que assumiu que ele o tinha feito.

Que assumiu que ele tinha encontrado alguém.

Que achava que ele a estava a deixar por isso.

Assumiu tudo.

Não para se salvar.

Mas porque acreditava que aquilo era a verdade.

Quando acabou, ninguém falou.

Henrique sentou-se, de repente cansado. Teresa chorava em silêncio. Mariana olhava fixamente para Tiago, como se tentasse compreendê-lo. Rui não sabia para onde olhar.

Teresa chorava em silêncio, mas não era um choro discreto. Era um choro desorganizado, daqueles que não se conseguem controlar, em que o corpo todo parece perder o ritmo. Olhava para a filha como se estivesse a tentar reconhecê-la, como se algo naquela pessoa à sua frente já não correspondesse à imagem que tinha guardado durante toda a vida. Não havia raiva no rosto dela, apenas uma perplexidade dilacerada, uma espécie de incredulidade dolorosa.

— Sofia… — murmurou, com a voz a falhar. — Como é que foste capaz?

Henrique, ainda sentado, parecia envelhecido de repente. O corpo pesado, os ombros caídos, o olhar fixo na filha como se estivesse à beira de um colapso físico. Não gritava. Não precisava. A forma como a observava tinha algo de clínico, quase como se estivesse a avaliar uma ferida demasiado grave para ser tratada.

— Como é que fizeste isto à tua própria vida? — perguntou, baixo. — E à dele?

Rui continuava em silêncio, imóvel, com o olhar a passar de um rosto para outro, sem conseguir fixar-se em ninguém. Era o tipo de silêncio que não nasce da neutralidade, mas da incapacidade de processar o que se está a ouvir.

Foi então que Mariana se levantou.

Ninguém esperava.

Não disse nada. Não pediu licença. Aproximou-se de Tiago e, de forma inesperada, envolveu-o num abraço forte, apertado, quase violento na intensidade. Não era um gesto protocolar. Era um gesto instintivo.

Tiago não estava preparado.

O corpo dele reagiu antes da mente.

Por um segundo, a carapaça que ele tinha construído — aquela camada de normalidade, de controlo, de neutralidade — estalou. Não chegou a desfazer-se, mas tremeu. Ele fechou os olhos por um instante, os músculos contraíram-se, e o ar saiu-lhe dos pulmões num sopro curto, quase imperceptível.

Não chorou.

Mas esteve perto.

Sofia, que até então estava completamente desfeita em lágrimas, ergueu os olhos nesse momento.

— Quando é que decidiste isto? — perguntou, de repente, com a voz quebrada. — Quando é que decidiste o divórcio?

Tiago demorou a responder.

— Na noite do meu aniversário.

Ela ficou imóvel.

— O quê?

Não era fingimento. Era surpresa genuína.

— Porquê? — perguntou, quase num sussurro.

Tiago olhou para a mesa. Depois para ela. Depois para todos.

— Tens a certeza de que queres ter esta conversa à frente da tua família?

Ela engoliu em seco.

— Quero saber.

Ele assentiu, lentamente.

E depois deixou cair tudo.

— Porque depois de me deixares para trás — começou, a voz controlada, mas carregada de algo escuro —, depois de saíres de casa para te juntares ao grupo como se eu fosse um detalhe secundário da tua vida, depois de passares uma semana inteira a falar da tua “surpresa”, a encher-me de esperança por algo que fosse finalmente para nós dois…

Parou um segundo.

Respirou.

— …cheguei a casa e estava vazia. Esperei. Jantei sozinho. E depois recebi uma chamada de vídeo.

Sofia abriu a boca, mas ele não lhe deu espaço.

— Uma chamada em que te vi com uma carrada de pessoas. Em que te vi a entregar-te a outros, ali, à minha frente. Como se eu fosse um espectador descartável da tua vida. Como se a minha presença fosse irrelevante. E embrulhaste aquilo como se fosse uma prenda.

A sala ficou em silêncio absoluto.

— Aquilo foi humilhação — continuou. — Não foi sexo. Não foi liberdade. Não foi amor. Foi desprezo.

Mariana virou-se para Sofia com ódio nos olhos.

Teresa começou a chorar ainda mais alto.

Sofia abanava a cabeça, em negação.

— Não… não… — murmurava.

— Eu vim para casa — disse ela, de repente. — Eu e a minha amiga. Era essa a surpresa. Viemos para casa. Para ti. O marido dela tinha o telemóvel na mão. Disse-te para nos esperarmos. Que nós iamos chegar.

Tiago olhava para ela como se estivesse a ouvir uma história de ficção.

— Esperámos mais de uma hora — continuou. — Achámos que estavas com alguém. Eu… eu pensei que estavas a viver alguma coisa tua.

Ele começou a rir.

Não foi uma gargalhada.

Foi uma risada seca, curta, amarga.

— Isto é inacreditável.

Ela olhou para ele, confusa, desesperada.

— Viste a chamada toda?

Ele abanou a cabeça.

— A chamada acabou quando eu atirei o telefone contra a parede.

— Quando?

— Quando te vi a entregar-te a outros à minha frente.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Sofia levou a mão à boca.

A ficha caiu.

De uma vez.

Tudo o que ele tinha visto.

Tudo o que ele tinha interpretado.

Tudo o que ele tinha acreditado.

Ela percebeu.

— Meu Deus… — murmurou.

Tentou falar, mas as palavras não saíam.

— Eu… eu não sabia…

— Claro que não sabias — respondeu ele, com uma calma cruel. — Tu nunca soubeste o que eu estava a viver. Nunca perguntaste.

Ela olhou para ele, em pânico.

— Estavas com alguém nessa noite?

Ele riu-se outra vez, desta vez com algo quebrado.

— Eu passei a noite inteira a vaguear pela cidade. A pé. A rezar para ser atropelado por algum bêbedo na madrugada.

Teresa soltou um som de horror.

— Voltei para casa ao nascer do sol — continuou — com a certeza de que não sobrava nada do que nós tínhamos sido.

Sofia estava em choque.

— Tu… tu nunca viste o resto da chamada? — perguntou. — Nem as outras? Eu deixava sempre mensagens. Todas as semanas. Check-ins. Mesmo quando tu não atendias.

Ele franziu o sobrolho.

— Que chamadas?

Ela ficou imóvel.

— Eu achava que estavas a ignorar.

— Eu não sabia de nada disso.

Foi ali.

Naquele segundo.

Que Sofia percebeu.

Não tinha sido apenas um erro.

Tinha sido uma sequência inteira de equívocos, silêncios, leituras erradas e decisões solitárias que se tinham acumulado até se tornarem irreversíveis.

E Tiago tinha vivido tudo isso completamente às escuras.

Sofia ficou em silêncio por alguns segundos, como se ainda estivesse a tentar reorganizar tudo o que acabara de ouvir. O rosto dela estava inchado de choro, os olhos vermelhos, mas agora havia ali outra coisa: medo. Um medo novo, diferente do pânico, mais fundo, mais absoluto.

— Com quantas… — começou, e engasgou-se. Limpou a boca com o dorso da mão, respirou fundo. — Com quantas mulheres estiveste desde que isto tudo começou?

A pergunta saiu-lhe quase em sussurro, como se já temesse a resposta.

Tiago olhou para ela sem qualquer expressão de defesa, sem ironia, sem vontade de ferir. Estava cansado demais para isso.

— Nenhuma — respondeu.

Ela franziu o sobrolho, confusa.

— Nenhuma?

— Contando contigo… nenhuma.

A frase caiu na sala como um objeto pesado a partir de grande altura.

Ninguém se mexeu.

Ninguém respirou.

Para Sofia, aquilo foi mais devastador do que tudo o que ouvira até ali. Não porque ele não tivesse estado com outras mulheres — mas porque, naquele instante, todas as narrativas que ela construíra para sobreviver ruíram ao mesmo tempo. A ideia de que ele se estava a libertar. De que ele estava a viver. De que ele tinha seguido em frente. De que ela não o tinha destruído — apenas empurrado para outro lugar.

Nada disso era verdade.

Ele não tinha ido para outro lugar.

Ele tinha ficado parado no meio do colapso.

Algo no rosto dela partiu-se.

Não foi um choro. Não foi um grito.

Foi um vazio súbito, como se lhe tivessem arrancado o chão.

Ela levantou-se de repente, com um movimento brusco, quase violento, a cadeira a cair para trás.

— Não… — murmurou, mais para si do que para os outros.

E saiu.

Correu para a porta.

Correu para a rua.

Como se quisesse fugir de si própria.

Teresa levantou-se de imediato, em pânico.

— Mariana, Rui, vão atrás dela! — disse, com a voz a falhar. — Pelo amor de Deus, vão!

Rui não hesitou. Levantou-se e saiu quase a correr.

Mariana ficou.

Tiago olhou para ela, confuso.

— Não devias ir ver da tua irmã?

Mariana virou-se lentamente para ele. Havia algo nos olhos dela que ele não esperava: compreensão. Não piedade. Compreensão real.

— Não.

— Não?

Ela abanou a cabeça.

— Eu percebo o que tu passaste nestes meses — disse, sem elevar a voz. — E sei que, neste momento, tu precisas mais de alguém do que ela.

Depois olhou para a porta por onde Sofia tinha saído e acrescentou, com desprezo:

— Ela pode-se ir foder, uma vez que já fodeu toda a gente, literalmente. Não é verdade?.

Tiago não respondeu.

Na rua, Rui apanhou Sofia rapidamente. Ela não tinha ido longe. Estava desorientada, a andar sem rumo, a chorar de forma irregular, quase hiperventilando. Ele segurou-a pelos braços.

— Sofia, pára. Pára.

Ela tentava libertar-se.

— Não me toques — soluçava. — Não me deixes voltar para ali.

— Tens de voltar — disse ele. — Pelo menos agora. Tens de acalmar.

Ela abanava a cabeça.

— Eu não consigo… eu não consigo…

Teresa levantou-se nesse momento. Aproximou-se de Tiago, o rosto completamente devastado. 

— Desculpa, filho — disse, baixinho. — Eu… eu não sei o que dizer.

E saiu.

Henrique levantou-se.

Aproximou-se de Tiago.

Não disse nada.

Apenas o abraçou.

Um abraço forte, firme, de homem para homem. Não de consolo — de reconhecimento.

Tiago correspondeu.

Por um segundo, apoiou-se naquele abraço como se fosse a única coisa sólida no mundo.

Henrique afastou-se, fez-lhe um aceno breve, carregado de respeito, e saiu.

Teresa voltou apenas para buscar algumas roupas para Sofia. Enfiou-as numa mala à pressa, as mãos a tremer. Rui ajudou-a a colocar tudo no carro.

Levaram-na.

A casa ficou vazia.

Rui voltou a entrar, sem saber bem o que dizer.

Mariana aproximou-se de Tiago.

— Vais ficar bem? — perguntou. — Queremos ficar, se quiseres. Nem que seja só para não estares sozinho.

Ele abanou a cabeça.

— Obrigado. Mas podem ir.

Ela hesitou.

— Tens a certeza?

— Tenho.

Mariana assentiu.

Saíram.

A porta fechou-se.

O som do carro afastou-se.

E, finalmente, não havia mais ninguém.

Tiago ficou ali, no meio da sala, de pé, durante alguns segundos. O corpo inteiro começou a tremer-lhe, como se finalmente tivesse permissão para existir.

Depois os joelhos cederam.

Caiu no chão.

De joelhos.

As mãos a taparem-lhe o rosto.

E as lágrimas vieram.

Sem controlo.

Sem vergonha.

Sem máscara.

Já não havia ninguém para impressionar. Já não havia ninguém para proteger. Já não havia ninguém para entender.

Só ele.

E a dor.

Nos dias que se seguiram ao jantar, Tiago continuou.

Não houve colapso contínuo. Não houve ataques de pânico. Não houve aquela imagem clássica de alguém a definhar no sofá com um copo na mão. A vida dele já estava organizada para a ausência. A ausência de Sofia, nesse sentido, não pesava como se poderia esperar. Eles quase não se viam há meses. Tinham aprendido a existir em horários diferentes, em divisões separadas, em silêncios paralelos. A diferença agora era apenas administrativa: ela já não estava ali.

A casa parecia igual.

Isso era o mais estranho.

O mesmo corredor. Os mesmos móveis. A mesma luz a entrar pelas janelas. Nada tinha mudado — excepto o facto de tudo ter mudado.

Tiago acordava, trabalhava, comia, corria, dormia. Não pensava muito nela. Não porque não doesse, mas porque o pensamento tinha deixado de ser um instrumento fiável. Sempre que tentava organizar o que sentia, acabava por se perder numa mistura de memórias, imagens, nojo, tristeza, raiva, e uma espécie de vazio que não tinha nome.

Era mais fácil funcionar.

Era nisso que ele era bom.

Sofia estava em casa dos pais.

Tiago soube disso porque Teresa lhe ligou no dia seguinte. Não para o confrontar. Não para o acusar. Apenas para saber como ele estava. A voz dela vinha de um lugar estranho: não era de sogra, era de mãe — mas não dele. Era como se tivesse adoptado a dor dele de alguma forma.

— Não precisas de nada? — perguntava. — Comida, roupa, alguma coisa?

Ele dizia sempre que não.

Ela ligava de três em três dias.

Mariana ligava quase todos os dias.

Não falavam da situação. Falavam de tudo o resto. Do trabalho dela, de uma série qualquer, de um colega idiota, de coisas pequenas. Às vezes ela ficava em silêncio do outro lado da linha e ele sabia que ela estava ali. Não precisava de dizer nada.

Rui foi mais direto.

— Um dia destes tens de sair comigo — disse-lhe ao telefone. — Uma noite só. Sem merdas pesadas.

Tiago aceitou.

Não sabia porquê, mas aceitou.

Foram a um bar pequeno, perto de casa de Rui. Não era um sítio especial. Não tinha música alta. Não tinha pretensão. Pediram cervejas. Falaram de futebol, de trabalho, de uma notícia absurda que tinham visto. Riram-se de uma coisa estúpida que Rui contou sobre um colega.

Não falaram de Sofia.

Não falaram do casamento.

Não falaram do divórcio.

E Tiago agradeceu isso mais do que conseguiria explicar.

Não queria ser analisado.

Não queria ser compreendido.

Não queria ser tratado.

Queria estar.

Quando voltou para casa, percebeu que estava cansado de um tipo de cansaço que não era físico.

Na semana seguinte, pediu para falar com o chefe.

Disse que já não aguentava aquele horário. Que estava exausto. Que precisava de dormir como uma pessoa normal. Não mencionou Sofia. Não mencionou nada pessoal. Falou como alguém que pede uma coisa prática.

O chefe compreendeu.

Colocaram-no num cargo equivalente, mesmo nível, mesmo salário, mas com horário normal.

Tiago aceitou.

Não sentiu alívio.

Mas sentiu algo parecido com superfície.

Duas semanas depois do jantar, chegou a carta.

Era volumosa.

Tiago percebeu imediatamente que era de Sofia. Não pelo remetente — mas pelo peso. Pelo tipo de envelope. Pelo modo como estava escrita à mão.

Não a abriu logo.

Deixou-a na mesa durante horas.

Quando finalmente abriu, percebeu que não era uma carta.

Era um derrame.

Várias páginas escritas à mão, uma atrás da outra. A tinta borrada em vários pontos. Não por descuido — por lágrimas.

Sofia escrevia como se estivesse a falar sem parar.

Dizia-lhe que ele tinha toda a razão.

Que no lugar dele sentiria o mesmo.

Que não esperava que ele a quisesse ver.

Que compreendia o nojo, a raiva, o afastamento.

Dizia-lhe que o amava.

Mas, sobretudo, dizia-lhe que havia um enorme mal-entendido entre eles.

Voltava aos vídeos.

Insistia neles.

Pedia-lhe, quase implorava, que os visse.

Tiago leu tudo.

Sem emoção.

Sem lágrimas.

Sem raiva.

Não porque fosse insensível — mas porque já estava noutro lugar.

Ele não tinha vídeos.

Não os tinha recebido.

Não os tinha guardado.

Não sabia do que ela estava a falar.

E, mais importante: já não queria saber.

No dia seguinte, ligou ao advogado.

— Avance com o divórcio.

A resposta não demorou.

Sofia contestou.

E, numa sessão de mediação em que Tiago não esteve presente — porque não queria partilhar o mesmo espaço que ela —, o advogado dela disse algo que o deixou parado durante alguns segundos.

— A minha cliente está disposta a assinar o divórcio sem qualquer disputa… depois de o seu cliente ver os vídeos.

Tiago respondeu:

— Não existem vídeos.

Houve uma pausa.

Depois veio a resposta.

— Estão no telefone dela. Ela está disposta a encontrá-lo, na presença dos advogados, mostrar-lhe tudo, e assinar o divórcio na hora.

Tiago pousou o telefone.

E, pela primeira vez em semanas, algo dentro dele mexeu.

Não era esperança.

Não era curiosidade.

Era medo.

Não do que pudesse ver.

Mas do que pudesse sentir.

Tiago procurou os vídeos no telefone novo, mais por descargo de consciência do que por expectativa real. Abriu pastas, galerias, aplicações, tentou recordar-se de nomes, de ícones, de qualquer coisa que lhe pudesse ter escapado. Não encontrou nada. Absolutamente nada.

Suspirou.

Era o que esperava.

Estava quase a pousar o telefone quando uma ideia, lenta e desconfortável, começou a formar-se na sua cabeça: ele já não tinha o mesmo aparelho de antes. Não tinha o mesmo sistema. Não tinha as mesmas aplicações. Durante anos, tinham usado uma app proprietária para mensagens e chamadas de vídeo — uma daquelas que se sincronizam automaticamente entre dispositivos da mesma marca.

Foi então que se lembrou do iPad.

Estava na gaveta da secretária, esquecido há meses. Talvez mais de um ano. Um objecto neutro, inofensivo, como uma peça de uma vida antiga que já não lhe dizia nada.

Foi buscá-lo.

Tentou ligá-lo.

Nada.

Pensou que estivesse morto. Procurou o carregador. Ligou-o. O ecrã permaneceu negro, sem sinal de vida. Deixou-o ali em cima da mesa, ligado, sem grande esperança, e foi-se deitar.

No dia seguinte, a rotina. Trabalho, tarefas, silêncio. O dia passou como os outros.

Quando chegou a casa, passou pela secretária quase por acaso.

E viu.

O iPad estava ligado.

Carregado.

Vivo.

Pegou nele com uma estranheza quase supersticiosa. Como se aquele objeto tivesse decidido acordar por vontade própria.

Ligou-o.

Começou a sincronizar.

Barras de progresso. Ícones a aparecer. Notificações a surgirem uma a uma. Tiago observava aquilo com uma mistura de fascínio e desconfiança — como se aqueles aparelhos não fossem realmente separados, mas partes de um mesmo organismo.

Quando terminou, abriu a aplicação.

E viu.

Dezenas de mensagens espalhadas ao longo dos meses.

Sempre às sextas-feiras.

Sempre nos dias em que ela saía de casa.

As primeiras eram familiares — mensagens de chegada, check-ins, coisas que ele já conhecia. Avançou. Leu algumas, mecanicamente.

E depois chegou ao dia do aniversário.

Abriu.

O vídeo começou.

Ela aparecia a sorrir, a desejar-lhe os parabéns. Havia festa à volta. Risos. Um ambiente de celebração. Depois virava a câmara para o grupo, que lhe mandava também os parabéns.

Tudo aquilo ele já tinha visto.

Mas agora, não estava ao telefone. Estava sentado. Estava seguro. Estava inteiro.

O vídeo continuou.

Ela entregava o telefone a alguém.

E a sensação voltou.

Não como memória.

Como presente.

O estômago a fechar-se. A garganta a apertar. As mãos a quererem atirar o iPad contra a parede.

Percebeu, com uma clareza dolorosa, que ainda se importava.

E odiou-se por isso.

O momento passou.

O vídeo continuou.

A câmara foi virada para uma mulher — morena, extremamente atraente — a fazer uma pose claramente provocadora para a câmara, como se estivesse a atuar diretamente para ele.

Depois surgiu um homem.

Olhou para a câmara e falou:

— Parabéns, Tiago. Esta é a minha mulher. Espero que gostes. E espero ver-te em breve aqui connosco.

Piscou o olho.

— Um passarinho diz-me que não vamos demorar a conhecer-nos pessoalmente. Aproveita e parabéns mais uma vez.

O vídeo terminou.

Tiago ficou alguns minutos a olhar para o ecrã apagado do iPad, como se aquilo ainda pudesse dizer-lhe alguma coisa. Não mexeu nos botões, não tocou no vidro, não fechou a aplicação. Apenas ficou ali, imóvel, com a sensação de que algo dentro dele tinha mudado de posição — não de forma definitiva, mas o suficiente para já não ser possível voltar ao lugar anterior.

Foi então que percebeu do que ela falara naquela noite, à frente da família. Percebeu o que ela queria dizer quando dizia que havia um mal-entendido. Não era que tudo se tivesse tornado aceitável de repente. Não era que a dor tivesse desaparecido. Não era que a humilhação tivesse deixado de existir. Mas agora havia uma coisa nova: contexto. Intenção. Um lado da história que ele nunca tinha visto.

Não era perdão.

Mas era compreensão.

E isso era perigoso.

Resolveu ver os outros vídeos.

Fê-lo sem grande expectativa, quase como quem termina uma tarefa burocrática. Abriu o seguinte. Depois outro. Depois outro. Um após o outro, numa sequência irregular ao longo dos meses.

E o que encontrou não foi mais choque. Não encontrou mais encenação. Não encontrou mais humilhação.

Encontrou Sofia.

Sempre nos mesmos momentos: quando chegava ao grupo. Sempre a fazer o prometido check-in. Sempre a falar com ele, mesmo sem ele responder. A dizer-lhe que tinha chegado bem. A contar-lhe como se sentia naquele dia. Às vezes nervosa. Às vezes entusiasmada. Às vezes cansada. Às vezes estranhamente vazia.

E, sobretudo, sempre alegre por falar com ele.

Isso foi o que mais o desarmou.

Ela falava-lhe como se ele estivesse ali. Perguntava-lhe quando acabava o horário. Dizia-lhe que tinha saudades. Que sentia falta de o ter presente. Que aquilo que estava a viver ali não se comparava com aquilo que ela imaginava que seria quando finalmente estivessem os dois, livres, juntos outra vez, sem listas de espera, sem horários desencontrados, sem distância.

Em vários vídeos, dizia isso de forma explícita: que nada daquilo era o objetivo final. Que aquilo era um caminho estranho, confuso, mas que, na cabeça dela, os levava de volta um ao outro.

A inocência era clara.

E isso não tornava nada menos doloroso.

Mas tornava tudo mais trágico.

Ela acreditava genuinamente no que dizia. Não era uma manipulação. Não era um jogo. Não era um plano maquiavélico. Era uma mulher que se tinha deixado arrastar por algo maior do que ela própria — pela luxúria, pela novidade, pela sensação de estar a viver algo que nunca pensara viver — e que, no meio disso tudo, nunca deixou de pensar nele.

Tinha sido tempo demais.

Tinha sido longe demais.

Mas não tinha sido vazio.

E isso era pior.

Porque agora Tiago não podia reduzir tudo a uma traição simples. Não podia odiá-la sem nuance. Não podia encaixá-la numa categoria confortável.

Ela não tinha sido cruel por maldade.

Tinha sido cruel por cegueira.

E isso não apaga nada.

Mas muda tudo.

Continuou a ver.

Até chegar ao último vídeo.

Era diferente.

Sofia aparecia a andar, apressada, o ambiente à volta confuso, barulhento. A imagem tremia. A respiração dela estava acelerada.

— O que se passa, Tiago? — dizia, diretamente para a câmara. — Como é que recusaste?

Parou por um segundo, como se estivesse a tentar organizar os pensamentos.

— E não me disseste nada? — continuou. — Deixaste-me andar aqui para nada? O que é que se passa?

A voz já não era leve. Já não era alegre. Já não era performativa.

Era real.

Os olhos estavam cheios de lágrimas.

— Tiago… — murmurou.

O vídeo terminou.

E, pela primeira vez em muito tempo, ele não sentiu raiva.

Sentiu uma coisa muito mais perigosa.

Confusão.

Passou essa noite inteira acordado.

Não conseguiu dormir.

Andou pela casa como um fantasma. Abriu janelas. Olhou para a rua. Para as luzes dos prédios vizinhos. Para os carros que passavam. Para pessoas que tinham uma vida inteira ali fora, intacta, enquanto a dele parecia um puzzle de mal-entendidos, com peças que agora já não encaixavam da forma simples como ele tinha organizado na cabeça.

Tudo nele queria fechar a história.

Assinar o divórcio.

Arquivar a dor.

Seguir em frente.

Mas agora havia uma fenda.

E através dela, ele via algo que não queria ver: que a história deles não era apenas destruição. Era também uma sucessão de erros, silêncios, suposições e ausências.

Nada disso apagava o trauma.

Mas tornava-o mais difícil de odiar.

E isso era o pior.

Tiago pediu férias no dia seguinte.

Não deu justificações elaboradas. Não explicou nada. Disse apenas que precisava de uns dias. O chefe concedeu-as de imediato, talvez pela forma como ele falava — não havia drama, mas havia qualquer coisa nos olhos que não convidava a perguntas.

Ele não dormiu nessa noite.

Entrou no carro ao nascer do sol e partiu sem destino. Não traçou rota. Não decidiu para onde ir. Apenas conduziu.

Durante cinco dias, a sua vida foi uma sucessão de estradas, estações de serviço, motéis baratos e refeições sem sabor. Parava apenas para abastecer, para comer qualquer coisa e para dormir algumas horas em camas que não eram suas, em quartos que cheiravam sempre a detergente barato e abandono.

Não falava com ninguém.

Não ligava a ninguém.

Não pensava em nada em particular.

Conduzia.

Era a única coisa que sabia fazer naquele momento: mover-se.

Ao quinto dia, sem saber exatamente porquê, virou o carro e regressou.

Quando chegou a casa, não entrou logo. Ficou alguns minutos dentro do carro, parado, como se ainda estivesse a decidir alguma coisa que não conseguia nomear.

Ligou ao advogado.

A decisão só se tornou real quando o ouviu atender.

— Quero que retire a petição — disse.

Não explicou.

Não justificou.

Não acrescentou nada.

Desligou.

Não disse nada a Sofia.

Não disse nada a ninguém.

Entrou em casa, atravessou o corredor, chegou ao quarto e caiu na cama. Não tirou os sapatos. Não tomou banho. Não trocou de roupa. Não fez nada.

Simplesmente desabou.

Quando acordou, não soube dizer quanto tempo tinha passado. O corpo estava pesado, como se tivesse dormido anos. O quarto estava em silêncio, mas havia um cheiro que não pertencia àquele silêncio.

Café.

Tiago percebeu de imediato que não estava sozinho.

Não sentiu pânico.

Não sentiu raiva.

Sentiu… aceitação.

Levantou-se sem pressa. Foi até à casa de banho. Tomou um banho longo, quente. Ficou debaixo da água, sem pensar, apenas deixando o calor atravessá-lo.

Quando se olhou ao espelho, viu um estranho.

Barba por fazer. Olheiras profundas. Pele baça. O rosto de alguém que tinha passado tempo demais em movimento e tempo nenhum em casa.

Pensou, com uma ironia quase divertida: pareço um mendigo.

E, de alguma forma, isso fez-lhe sorrir.

Fez a barba. Alinhou o cabelo. Vestiu-se.

Quando foi para a cozinha, viu-a.

Sofia estava sentada à mesa, imóvel, com uma chávena de café à frente. Não mexia nela. Não bebia. Estava apenas ali, como se estivesse à espera de uma sentença.

Sobressaltou-se quando ele entrou.

Não disse nada.

Ele também não.

Tiago foi até ao frigorífico, abriu-o, tirou uma fatia de queijo e começou a mastigá-la distraidamente. Pegou numa chávena, serviu-se de café, sentou-se em frente a ela.

Deu um gole.

Pousou a chávena.

E ficou a olhar para ela.

Fixamente.

Sério.

Em silêncio.

Para Sofia, aquele silêncio era pior do que qualquer grito. Não havia raiva, não havia acusação, não havia emoção visível. Apenas um olhar direto, pesado, como se ele estivesse a vê-la inteira, pela primeira vez, sem filtros.

Ela não sabia o que fazer com aquilo.

Não sabia se devia falar.

Não sabia se devia chorar.

Não sabia se devia pedir desculpa outra vez.

Então ficou ali.

À espera.

Sofia sentiu o estômago contrair-se. Não estava preparada para aquilo. Tinha imaginado gritos. Tinha imaginado portas a bater. Tinha imaginado lágrimas, acusações, talvez até indiferença. Não tinha imaginado silêncio.

Ela mexeu-se ligeiramente na cadeira, como quem não sabe onde pôr o corpo.

— Eu soube ontem — disse, por fim. — A minha advogada ligou-me.

Ele não reagiu.

— Disse-me que tinhas retirado a petição.

Tiago deu um gole no café.

— Sim.

— Posso perguntar porquê?

Ele pousou a chávena.

— Podes.

Ela esperou.

Ele não continuou.

Sofia respirou fundo, tentando manter a voz estável.

— Eu não vim porque achei que tinhas perdoado. Não vim porque achei que estava tudo bem. Vim porque… — hesitou — porque não percebi o que isso queria dizer.

Ele inclinou-se ligeiramente para trás na cadeira.

— Nem eu.

A honestidade daquela frase desarmou-a.

Ela piscou várias vezes, como se aquilo a tivesse atingido fisicamente.

— Eu vi os vídeos — disse ele, finalmente.

O rosto dela alterou-se imediatamente.

— Todos?

— Todos.

Ela levou a mão à boca por instinto.

— E…?

Ele não respondeu de imediato.

— Não me perguntes o que senti — disse. — Porque não sei resumir.

Ela assentiu de imediato.

— Eu não estou aqui para te pedir nada — disse, apressada, como se quisesse deixar isso claro. — Nem para te convencer de nada. Só… — parou — só precisava que tu soubesses que eu não te menti. Que eu não te usei. Que eu não te quis humilhar.

Ele observou-a longamente.

— Sabes o que eu vi durante meses? — perguntou.

Ela abanou a cabeça.

— Nada.

Ela engoliu em seco.

— Eu falava contigo — disse. — Todas as sextas-feiras. Sempre. Mesmo quando tu não atendias.

— Eu não recebia.

Ela fechou os olhos por um segundo, como se aquilo lhe atravessasse o corpo.

— Eu achei que estavas a ignorar.

— Eu achei que não querias falar comigo.

Ficaram em silêncio.

Era esse o tipo de silêncio que já não era vazio — era feito de peças que começavam a encaixar, mas de uma forma dolorosa.

— Eu não vim pedir-te que voltes — disse Sofia, por fim. — Eu vim porque… se isto acabar… eu não consigo viver com a ideia de que acabou por algo que tu nunca soubeste.

Ele respirou fundo.

— Eu também não sei o que isto é — disse.

Ela levantou os olhos para ele.

— Então porque retiraste o pedido?

Ele olhou para ela, sem desviar.

— Porque, depois de ver aqueles vídeos… eu já não conseguia dizer que sabia exactamente o que estava a destruir.

Sofia começou a chorar em silêncio.

Tiago não se mexeu.

Não a tocou.

Não a consolou.

Mas também não se levantou.

E isso, naquele momento, já era tudo.

Sofia respirou fundo, como se estivesse a reunir coragem para uma pergunta que a aterrorizava.

— E agora?

Tiago não respondeu de imediato. Ficou alguns segundos a olhar para a chávena, como se estivesse a ver algo no fundo do café que mais ninguém via.

— Agora — disse finalmente — tens de pensar no que realmente aconteceu.

Ela franziu o sobrolho.

— Eu sei o que aconteceu.

Ele levantou os olhos para ela.

— Não sabes.

A firmeza daquela frase deixou-a imóvel.

— Tive tempo para pensar — continuou ele. — Muito tempo. Andei quilómetros sem destino, só com isto na cabeça. E percebi uma coisa com uma clareza que me assustou: tu foste manipulada.

Ela riu-se, nervosa.

— O quê?

— Foste usada.

O silêncio caiu entre eles.

— O que é que isso quer dizer? — perguntou ela.

Tiago encostou-se à cadeira, como se estivesse a organizar os pensamentos.

— Vamos por partes.

Ela assentiu, lentamente.

— A tua primeira experiência — começou ele — foi com uma mulher. Eu a ver. Não a participar. Certo?

Ela confirmou com a cabeça.

— Foi essa mulher que te falou do grupo?

Sofia hesitou.

— Sim.

— Foi ela que te disse que os casais que lá estavam eram mais sólidos do que nunca?

— Sim.

— Que aquilo era “ótimo para nós”?

Ela engoliu em seco.

— Sim.

Tiago inclinou-se um pouco para a frente.

— Mas não foi ela que te falou disso pela primeira vez, pois não?

Sofia fechou os olhos por um segundo.

— Não. Foi uma colega de trabalho. Que depois vim a saber que também fazia parte do grupo.

Ele assentiu, como quem já sabia.

— Depois disso, és aceite de imediato. Eu fico pendente.

— Disseram-me que era normal — respondeu Sofia, defensiva. — Que acontecia muitas vezes. Que era só uma questão de tempo.

— Quem te disse isso?

Ela abriu a boca… e fechou.

— Elas.

— As mulheres do grupo?

— Sim.

Ele respirou fundo.

— Falavas de mim lá?

— Sempre. Sempre. Eu falava de ti o tempo todo. Do quanto queria que tu entrasses. Do quanto isto só fazia sentido contigo.

Tiago ficou em silêncio por um momento.

— O aniversário — disse. — De quem foi a ideia?

Ela demorou a responder.

— Minha — disse por fim. — Eu queria que fosse o ménage. Eu queria que fosse algo nosso. Mas… — hesitou.

— Mas?

— O marido da mulher morena… o “chefe” do grupo… — murmurou. — Foi ele que me convenceu a fazer assim. Disse que seria mais impactante. Que a surpresa seria maior. Que eu devia ir lá, fazer o vídeo, e depois vir para casa com ela.

Tiago não disse nada.

Sofia ficou a olhar para a mesa, como se algo estivesse a encaixar.

— Eles nunca me disseram que tinhas recusado — disse, mais para si do que para ele. — Nunca. Deixaram-me ali, a achar que era só uma questão de tempo. Até eu perguntar diretamente.

A voz dela começou a tremer.

— Eles deixaram-me andar meses assim.

Levantou os olhos para Tiago.

E naquele instante, tudo se rearranjou.

— Eles humilharam-te — disse, lentamente. — Eles usaram-me.

A frase saiu-lhe como uma descoberta, não como uma acusação.

— Eu achei que eram meus amigos — continuou. — Achei que se importavam comigo. Que queriam o nosso bem. Que queriam o nosso amor.

Riu-se, mas era um riso quebrado.

— Eles viam-me como um pedaço de carne.

Tiago não disse nada.

Mas ela viu.

Viu no rosto dele que aquilo não era novidade.

E isso doeu mais do que qualquer coisa.

Sofia levou as mãos ao rosto.

— Meu Deus…

Não era choro. Era colapso.

— Eu fui tão estúpida…

Tiago manteve-se em silêncio.

Não para puni-la.

Mas porque não havia nada que pudesse dizer que não fosse verdade.

Ela levantou os olhos para ele, completamente nua de ilusões.

— Eu destruí-nos por algo que nunca foi o que eu pensei que fosse.

E, pela primeira vez desde que ele entrara naquela cozinha, Tiago sentiu algo mover-se dentro de si.

Não era perdão.

Era reconhecimento.

E isso, em histórias como esta, é a coisa mais perigosa de todas.

Sofia respirou fundo outra vez. O gesto era quase mecânico, como se o corpo estivesse a tentar manter-se funcional.

— E agora?

Tiago apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos. Não olhava para ela; olhava para um ponto indefinido no tampo de madeira, como se estivesse a organizar as palavras.

— Agora eu retirei a petição — disse. — Portanto, está nas tuas mãos.

Ela ergueu ligeiramente o queixo, confusa.

— Nas minhas?

— Até agora — continuou ele — as tuas intenções e as tuas ações não corresponderam. Disseste que era por nós. Que era por amor. Que era para nos aproximar. Mas tudo o que aconteceu fez exatamente o contrário.

Ela fechou os olhos por um instante.

— Talvez seja boa ideia trabalhares nisso — acrescentou. — Não comigo. Contigo.

Sofia ficou em silêncio.

— Eu… devo ficar em casa dos meus pais? — perguntou, com uma voz que tentava ser neutra, mas não era.

Tiago levantou finalmente o olhar.

— Eu nunca te expulsei — disse. — Foste tu que saíste.

Ela engoliu em seco.

Ele observou-a durante alguns segundos. Depois falou, com uma calma quase cruel na sua clareza.

— Nós conhecemo-nos desde os doze anos. Somos um casal desde os quinze.

Ela sentiu o coração apertar.

— Isso conta para alguma coisa — continuou. — Não é pouco. Não é descartável. Mas tens de perceber uma coisa.

Ela inclinou-se ligeiramente para a frente, como se se preparasse para um impacto.

— Eu provavelmente nunca mais vou olhar para ti da mesma forma.

A frase entrou-lhe no corpo como uma pancada.

— Neste momento — acrescentou ele —, pensar em ti de uma forma física… até um beijo… causa-me alguma repulsa.

Sofia encolheu-se, literalmente, como se tivesse levado uma estalada. Os ombros fecharam-se, o rosto contraiu-se, os olhos encheram-se de lágrimas, mas ela não chorou. Apenas ficou ali, absorvendo.

Ele não parou.

— Se conseguires viver com isso, nada te impede de voltar para casa. — Fez uma pausa. — Se não conseguires, avançamos com o divórcio, dividimos as nossas vidas e seguimos.

Ela respirava com dificuldade.

— Seja como for — concluiu —, podes ir embora sabendo uma coisa: eu não te odeio.

Ela levantou os olhos para ele.

— Não desculpo — acrescentou. — Mas também não odeio.

Isso doeu mais do que qualquer insulto.

Sofia ficou ali durante vários segundos, completamente imóvel. Depois levantou-se devagar, como se o corpo fosse mais pesado do que antes.

— Eu volto — disse.

Não como uma decisão dramática. Como um facto.

Tiago não respondeu.

Ela voltou.

Naquela noite, dormiu no quarto de hóspedes. Não tentou falar. Não tentou tocar. Não tentou aproximar-se. Apenas existiu.

No dia seguinte, levantou-se cedo.

Vestiu-se com cuidado.

E escreveu a carta de demissão.

Não foi uma carta emocional. Foi clara, direta, objetiva. Dizia apenas que se afastava da empresa porque reconhecia que a influência de algumas colegas tinha tido um impacto grave e irreversível na sua vida pessoal e no seu casamento.

Entregou-a em mãos.

Não esperava consequências.

Mas houve.

A empresa abriu uma investigação interna. Não por Sofia — mas porque, nas entrelinhas da carta, havia acusações sérias de comportamentos antiéticos, de influência indevida, de violação de políticas de conduta.

Em poucas semanas, onze pessoas de vários departamentos foram despedidas.

Sofia não sentiu vingança.

Não sentiu satisfação.

Sentiu vazio.

Porque nada daquilo lhe devolvia o que tinha perdido.

Nos meses que se seguiram, a vida deles tornou-se estranhamente funcional.

Viviam na mesma casa, mas não no mesmo espaço. Tiago continuava no quarto de hóspedes. Sofia no antigo quarto deles, que agora já não era deles — era apenas um quarto. Cruzavam-se na cozinha, no corredor, às vezes na sala. Falavam do que era necessário: contas, compras, horários, o carro, o lixo, as plantas.

Falavam como duas pessoas educadas que partilham um sítio.

Não discutiam.

Não se tocavam.

Às vezes, diziam “bom dia”.

Às vezes, não.

Havia dias em que passavam vinte e quatro horas sem trocar mais do que três frases.

Mas também não havia hostilidade.

Não havia ódio.

Havia uma espécie de respeito triste.

Sofia fazia o jantar muitas noites, não por obrigação, mas porque sempre o tinha feito. Deixava um prato para ele no frigorífico quando ele chegava mais tarde. Nunca perguntava se ele tinha comido. Nunca perguntava nada que pudesse magoar.

Tiago comia.

Lavava o prato.

Voltava ao quarto.

Às vezes, quando estava sozinho na sala, via o casaco dela pendurado na cadeira e tinha de se lembrar conscientemente de não o tocar. Não porque não pudesse — mas porque não sabia o que isso significaria.

Eles não estavam separados.

Mas também não estavam juntos.

Viviam numa espécie de intervalo.

Tiago percebeu que a coisa mais difícil não era odiá-la.

Era deixar de a odiar.

Havia dias em que a via passar pela casa com os ombros mais curvados, mais silenciosa do que antes, e sentia algo parecido com pena — mas uma pena que não queria sentir. Outras vezes, apanhava-se a reparar que ela tinha mudado de shampoo, ou que trazia o cabelo diferente, ou que tinha perdido peso.

Uma vez, deu por si a olhar para ela com ternura.

Não foi um gesto consciente.

Não foi um pensamento.

Foi um reflexo.

E quando se apercebeu disso, desviou o olhar de imediato, como se tivesse cometido um erro.

O coração acelerou.

Não por desejo.

Por medo.

Porque se ainda era capaz de ternura, então não estava tão fechado quanto acreditava.

E isso aterrorizava-o.

Sofia, por sua vez, começou a perceber que vivia numa gratidão constante. Cada dia em que ele não a expulsava, em que não a humilhava, em que não gritava, era um dia que ela recebia como um favor imerecido.

Ela já não se sentia amada.

Sentia-se tolerada.

E isso era pior do que a rejeição.

Mas também era melhor do que a perda.

Ela acordava todos os dias com essa equação impossível:

ele está aqui, mas não é meu.

E perguntava-se, em silêncio, se algum dia isso mudaria.

Nunca lhe perguntava.

Nunca lhe pedia.

Não se aproximava.

Existia.

E isso, para ela, já era um tipo de amor.

As mudanças não foram grandes.

Foram pequenas.

Quase invisíveis.

Tiago começou a reparar que, às vezes, quando ela chegava cansada, deixava um copo de água à cabeceira da cama dela, como fazia antes. Não dizia nada. Só deixava.

Sofia começou a fazer-lhe café sem perguntar, como antigamente. Deixava a chávena na mesa da cozinha, no sítio onde ele costumava sentar-se.

Às vezes, ele bebia.

Às vezes, não.

Mas nunca a empurrava para longe.

Uma noite, passaram por um casal amigo no supermercado. Pessoas que não sabiam de nada. Que os viram juntos e sorriram.

— Vocês dois continuam um exemplo — disse a mulher, com entusiasmo. — Tantos anos juntos!

Eles sorriram educadamente.

Quando se afastaram, não comentaram.

Mas os dois pensaram na mesma coisa:

se eles soubessem.

Houve um dia em que Sofia se riu alto de algo na televisão — um riso inesperado, espontâneo. E Tiago, no quarto ao lado, ouviu.

E sentiu alívio.

Não felicidade.

Mas alívio.

Outra noite, ele teve um pesadelo. Não chamou por ela. Não se mexeu. Mas quando acordou, estava a respirar de forma estranha.

Ela ouviu.

Não entrou.

Mas ficou sentada no chão do corredor, encostada à porta, durante uma hora.

Ele nunca soube.

E houve aquela manhã.

Nada especial.

Nada simbólico.

Ela estava sentada à mesa, a ler qualquer coisa no telemóvel. Ele entrou na cozinha, ainda meio adormecido. Passou por ela.

E, por instinto, pousou a mão no ombro dela por um segundo.

Não foi um carinho.

Não foi um gesto romântico.

Foi automático.

Como se o corpo se lembrasse antes da cabeça.

Quando se apercebeu do que tinha feito, retirou a mão imediatamente.

Eles ficaram imóveis.

Não disseram nada.

Não olharam um para o outro.

Mas algo tinha acontecido.

Não era reconciliação.

Não era cura.

Era apenas isto:

O mundo deles, que durante meses tinha sido apenas ruína, começava a ter pequenos pontos de apoio.

Nada estava resolvido.

Nada estava garantido.

Mas já não era só escuro.

E isso, para duas pessoas que tinham sobrevivido ao que sobreviveram, já era quase milagre.


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