sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Depois do Inferno Verde - Capítulo 8

 



quarto era simples: duas camas individuais separadas por uma mesa-de-cabeceira com um candeeiro de luz amarelada. Um sofá gasto encostava-se à parede oposta, e a janela, de caixilharia antiga, deixava entrar um ar fresco e o som abafado da rua estreita lá em baixo.

Benedita pousou a mochila junto à parede, mas não se afastou dela. Ficou ali, de pé, a observá-lo enquanto ele deixava as chaves do carro na mesa-de-cabeceira.

— Porque é que disseste que eu era tua filha? — perguntou, com uma mistura de surpresa e desconfiança.

Óscar endireitou-se e olhou-a de soslaio.

— Querias mesmo que o empregado te pedisse identificação?

Ela corou, baixou o olhar, e ficou em silêncio.

— Tens mesmo dezoito anos? — perguntou ele então, sem rodeios.

O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado do que o quarto inteiro. Benedita mexia nas alças da mochila como se quisesse desfazer um nó inexistente.

— Por esta altura… — continuou Óscar, a voz calma mas firme — já podias confiar em mim.

Ela respirou fundo, como quem carrega um peso que já não aguenta sozinha. Quando finalmente ergueu os olhos, a sua expressão tinha uma sombra de vergonha, mas também de desafio.

— Tenho dezasseis.

Óscar não disse nada de imediato. Apenas a fitou, medindo cada gesto, cada mudança no seu rosto.

— Cresci num orfanato — começou ela, com a voz baixa, quase ensaiada, mas carregada de um cansaço antigo. — Fui para lá quando tinha seis anos… depois do acidente.

Hesitou, como se procurasse coragem.

— Os meus pais morreram num carro. Eu estava no banco de trás. Lembro-me do barulho… e de acordar num hospital. Mas não me lembro das caras deles. Nem do toque. É como se tivessem desaparecido de mim.

Fez uma pausa, e o silêncio pareceu comprimir o ar entre os dois.

— Depois… vieram as famílias de acolhimento. Algumas eram simpáticas, davam-me roupa, comida… mas nunca me senti em casa. Outras… — mordeu o lábio inferior, desviando o olhar — outras tratavam-me como se eu fosse um peso morto que tinham de carregar.

Endireitou-se, como se quisesse que as próximas palavras soassem mais fortes.

— A última foi dessas. Chamavam-me preguiçosa, inútil. Mandavam-me fazer tudo e, se não era perfeito, havia gritos… e às vezes pior que gritos.

O tom quebrou um pouco.

— E eu… simplesmente decidi ir embora. Não tinha nada para levar. Peguei nas poucas coisas que eram minhas e saí. Não sabia para onde. Só sabia que não queria voltar.

Por um momento, Benedita olhou-o de frente, quase desafiando-o a julgá-la.

— E foi assim que acabei na estrada.

Óscar passou a mão pela barba curta, olhando-a em silêncio. Não havia traço de reprovação no seu rosto — apenas uma gravidade silenciosa.

— Agora já sabes. — disse ela.

Óscar ficou alguns segundos em silêncio, a olhar para ela. Depois deu um passo lento na direção da cama e sentou-se ao lado dela. Sem dizer nada, puxou-a para um abraço.

Benedita não resistiu. Encostou-se ao peito dele, o rosto contra a sua t-shirt, e começou a chorar — primeiro em silêncio, um soluço quase contido, depois com um ritmo mais intenso, até que o choro se tornou convulsivo.

Ele passou-lhe a mão pelo cabelo, num gesto lento e constante, como quem tenta acalmar um animal ferido. Murmurou palavras baixas, mais pelo tom do que pelo sentido, e deixou que ela esvaziasse aquela dor que parecia antiga demais para caber numa rapariga tão nova.

Aos poucos, o choro foi abrandando. O corpo dela relaxou e o peso contra o peito dele tornou-se o de alguém vencido pelo cansaço.

Óscar manteve-se imóvel, sentindo-lhe a respiração abrandar, até perceber que ela adormecera. Com cuidado, deitou-a na cama, puxou o cobertor por cima dela e ajeitou-o para que a cobrisse bem.

Ficou ali, sentado na beira da cama, a observá-la dormir. O rosto dela, livre da tensão, parecia ainda mais jovem. Sentiu uma pena profunda, não apenas da história que ela lhe contara, mas daquilo que ela nunca lhe disse — o peso silencioso que carregava.

E, por um momento, pensou que, em comparação, a sua própria dor talvez não fosse assim tão grande.

2 comentários:

  1. Agora só segunda, não é?
    Bom fim de semana, sô Gil

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O QUÊ?!?!? ESCREVE MAIS ALTO QUEU NÂO T'OUVI BEM!