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Quando Benedita abriu os olhos, a luz suave da manhã já atravessava
as cortinas. Óscar estava de pé, junto à pequena janela do quarto, a olhar para
a rua lá em baixo. Tinha as mãos nos bolsos e um ar distante.
— E agora? — perguntou ela, num tom quase tímido, ainda ensonada.
Ele voltou-se apenas o suficiente para lhe lançar um olhar breve.
— Agora vamos tomar o pequeno-almoço.
O tom seco não a surpreendeu. Já tinha percebido que ele não era
propriamente um homem de manhãs calorosas.
Poucos minutos depois, estavam sentados numa mesa de canto, no
café modesto que ficava junto ao hotel. O aroma a pão quente misturava-se com o
cheiro intenso de café acabado de moer. Comeram em silêncio. Benedita
manteve-se discreta, enquanto ele devorava uma torrada com manteiga e bebia um
café curto e escuro. Só depois de dar o último gole, Óscar pareceu finalmente
“acordar” para o dia.
— Preciso da tua identificação — disse, limpando a boca com o
guardanapo.
Ela franziu o sobrolho.
— Para quê?
— Só preciso — respondeu, sem mais explicações.
Hesitou por um momento, mas acabou por pegar na carteira e tirar o
cartão de cidadão, empurrando-o pela mesa. Foi então que ele tirou do bolso,
pela primeira vez desde que estavam juntos, um smartphone.
O ecrã acendeu-se e, de imediato, foi inundado por notificações:
mensagens, chamadas não atendidas, alertas de e-mail. O som constante de avisos
ecoou na mesa, até que ele, com um gesto rápido, os silenciou sem sequer olhar.
— Parece que andam à minha procura — comentou, num tom que não
revelava qualquer urgência.
Colocou o cartão dela em cima da mesa e, com a câmara do
telemóvel, tirou duas fotografias — frente e verso. Em seguida, percorreu a
lista de contactos e ligou para um número, levando o telemóvel ao ouvido.
— Bom dia — disse quando foi atendido. A voz dele ficou mais grave
e séria. — Sim, sou eu.
Pausou, ouvindo o que vinha do outro lado.
— Sei que toda a gente anda à minha procura. Não, não estou
perdido… nem desaparecido. Estou bem.
O tom no telefone parecia carregado de preocupação.
— Não, não preciso de nada para mim. Mas quero que trates de uma
coisa. — Fez uma breve pausa, lançou um olhar rápido a Benedita e continuou: —
Tenho comigo uma rapariga. Pode estar dada como desaparecida.
Houve silêncio do outro lado. Ele retomou:
— Sim… Benedita Almeida, portuguesa. Quero que informes as autoridades
de que está segura e comigo. Que será entregue em segurança em Portugal.
Escutou por mais alguns instantes.
— Exactamente. Quero que isso fique registado oficialmente, para
evitar problemas na fronteira.
O tom dele suavizou ligeiramente.
— Obrigado. Sabia que podia contar contigo.
Terminou a chamada, abriu o e-mail, enviou as fotografias do
cartão e guardou o telemóvel no bolso, sem dar qualquer atenção às dezenas de
notificações que ainda piscavam no ecrã.
Por fim, olhou para ela com um meio-sorriso, mas os olhos
denunciavam que falava a sério:
— Os teus planos para Paris… vão ter de mudar.
Benedita
franziu o cenho, inclinando-se ligeiramente sobre a mesa.
— O que é que
estás a fazer?
Óscar
recostou-se na cadeira, passando a mão pela barba curta.
— A evitar
complicações legais por te ter comigo… e, ao mesmo tempo, a tirar-te da lista
de jovens procuradas.
Ela
manteve-se em silêncio por um momento, tentando processar a ideia.
— Procuradas?
— Se
desapareceste de casa e tens dezasseis anos, é quase certo que alguém reportou.
Podia ter problemas por atravessar fronteiras contigo. Assim, fica tudo claro
para quem mandar parar o carro.
— E depois?
— E depois
seguimos a viagem — disse ele, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
Ela respirou
fundo, mexendo distraidamente no guardanapo.
— E Paris?
Ele pousou o
olhar nela, sério.
— O que é que
esperas realmente encontrar lá?
A pergunta
apanhou-a de surpresa. Mordeu o lábio, pensativa, antes de responder.
— O melhor
cenário possível? — perguntou, como quem precisa de confirmar que podia sonhar
alto.
— O melhor
cenário possível — assentiu ele.
Ela
endireitou-se ligeiramente, com um brilho nos olhos.
— Chegar lá,
arranjar um quarto pequeno, talvez dividir com alguém. Conhecer pessoas ligadas
ao mundo da moda. Ser chamada para castings. Conseguir trabalhos… bons
trabalhos, que me abram portas. Pouco a pouco, ganhar nome, tirar fotografias
para revistas, viajar. E um dia… um dia ser reconhecida na rua.
Óscar ouviu
tudo em silêncio, sem interromper. Quando ela terminou, ficou a observá-la por
alguns segundos, como quem pesa cada palavra antes de falar. Mas o que viesse a
seguir, ficaria para o resto do caminho.
Acabaram o
pequeno-almoço em silêncio, cada um perdido nos seus pensamentos, e saíram do
hotel. O Corvette aguardava no parque, brilhando ao sol da manhã, como se a
viagem que os esperava fosse tão simples como seguir o asfalto até ao
horizonte. Óscar guardou o telemóvel no bolso, abriu a porta do condutor e, sem
trocar mais palavras, pôs o motor a ronronar com um som grave e reconfortante.
A estrada em
direcção a Rocamadour estendia-se diante deles, serpenteando por colinas e
campos que começavam a despertar com a luz dourada. O carro avançava suave,
como se cada mudança de velocidade fosse uma respiração medida.
— Então —
disse Óscar, rompendo finalmente o silêncio — já me disseste qual é o teu
melhor cenário. Qual seria, na tua cabeça, o pior?
A pergunta
caiu sobre ela como uma pedra na água. Benedita desviou os olhos para a
paisagem, seguindo com o olhar um bando de pássaros que cruzava o céu. Demorou
alguns segundos a falar.
— O pior
cenário? — repetiu, mais para si do que para ele. Respirou fundo. — Ficar na
rua… sem dinheiro. Depender de estranhos para comer. E… — hesitou, como se
fosse preciso atravessar um terreno perigoso para chegar às palavras — e acabar
por me envolver em coisas que não quero. Drogas. Gente errada. E… redes de
prostituição.
O carro
seguiu firme na faixa, a paisagem a deslizar lentamente pelas janelas. Quando
ela terminou, um silêncio pesado instalou-se. Não havia mais nada para dizer
naquele momento. Apenas o som constante e grave do motor preenchia o
habitáculo, um ruído quase hipnótico, que convidava a pensar no que tinha sido
dito — e no que não tinha.
Óscar acabou
por quebrar o silêncio.
— E qual
achas que é o cenário mais provável? — perguntou, sem tirar os olhos da
estrada.
Benedita
mordeu o lábio inferior e demorou a responder.
— Não sei… —
admitiu, finalmente.
A estrada
continuava calma, até que, perto de uma povoação maior, o trânsito foi
afunilado por cones e sinais de paragem. Vários polícias controlavam os carros,
e um deles ergueu a mão na direção do Corvette, mandando parar.
O agente
aproximou-se, de uniforme impecável, e pediu os documentos em francês:
— Bonjour,
vos papiers, s’il vous plaît.
Óscar
inclinou-se ligeiramente para a frente e respondeu, num francês carregado de um
sotaque que beirava o cómico:
— Désolé… je
ne parle pas français… do you speak English?
O polícia
assentiu com um pequeno sorriso.
— Yes, I speak
English — respondeu, mas com um sotaque tão carregado que fez com que os cantos
da boca de Óscar se erguessem. Por um instante, quase esperava ouvir uma frase
saída da série cómica ‘Allô, ‘Allô!’.
O agente
pediu-lhe que aguardasse e afastou-se com os documentos. Benedita olhou para
Óscar, inquieta, lembrando-se do que ele dissera sobre possíveis complicações
por estar com ela. Quando o polícia regressou, a expressão era séria.
— Sir, could
you step out of the vehicle, please?
Óscar
obedeceu sem hesitar. Benedita sentiu o estômago apertar. Os dois afastaram-se
alguns metros e conversaram num tom baixo, mas ela conseguiu apanhar algumas
palavras. O polícia mencionara um alerta de pessoa desaparecida em nome de
Óscar. Com uma calma imperturbável, ele explicou que não estava desaparecido,
que viajava por iniciativa própria e que não havia motivo para alarme. Depois
de alguns minutos e de verificar a documentação, o agente devolveu-lhe os
papéis, desejou boa viagem e deixou-os seguir.
O carro
voltou à estrada, cortando o ar fresco da tarde, até que, por volta do meio da
tarde, chegaram finalmente a Rocamadour.
A visão era
arrebatadora: a vila erguia-se em socalcos íngremes na encosta de um penhasco,
como se desafiasse a gravidade. As casas de pedra clara encaixavam-se umas nas
outras, subindo até ao santuário que coroava a falésia. Ao longe, as torres e
muralhas destacavam-se contra o azul intenso do céu, enquanto o vale do Alzou
serpenteava lá em baixo, verde e luminoso.
Pararam o
carro e subiram a pé pelas ruas estreitas, ladeadas por lojas de artesanato e
pequenas esplanadas. O som das badaladas ecoava entre as paredes de pedra,
criando uma atmosfera intemporal.
Benedita
olhava em redor, maravilhada.
— É como se
tivesse saído de um postal… — disse, quase num sussurro.
Óscar, menos
dado a expressões poéticas, assentiu apenas com um leve sorriso, mas não
conseguia esconder que estava igualmente impressionado. A combinação de
história, fé e geografia tornava aquele lugar único. Era impossível não sentir
que, ali, o tempo tinha um ritmo diferente, mais lento, quase sagrado.
Decidiram
subir até ao santuário. A escadaria era longa e irregular, composta por degraus
gastos por séculos de peregrinações. Óscar subia com passo constante, enquanto
Benedita, curiosa, parava de vez em quando para espreitar pequenas capelas
laterais e ler as placas de pedra gravadas com mensagens de devoção.
Quando
chegaram ao topo, encontraram a esplanada principal do santuário, aberta sobre
o vale. A basílica erguia-se com uma imponência silenciosa, as paredes em pedra
clara marcadas pelo tempo, as janelas estreitas filtrando a luz dourada da
tarde. Entraram em silêncio, quase instintivamente.
Lá dentro, o
ar era fresco e cheirava a cera e incenso. O som dos passos ecoava no pavimento
de pedra. Benedita deteve-se diante de uma estátua antiga da Virgem Negra, o
olhar fixo nos traços austeros e na cor escura que contrastava com o dourado do
trono.
— É mais
pequena do que imaginei… — murmurou, como se falar alto pudesse quebrar o
encanto.
Óscar não
respondeu. Limitou-se a observar o interior, reparando nos vitrais que deixavam
entrar raios de luz multicolorida e na forma como essa luz se projetava nas
paredes, como manchas vivas.
Saíram por
uma porta lateral e seguiram por um caminho estreito até ao miraCávado. A vista
dali era arrebatadora: o vale do Alzou estendia-se em curvas suaves, salpicado
de campos e pequenas aldeias. O vento leve trazia o som distante dos sinos e o
farfalhar das folhas nas árvores que se agarravam às encostas.
— Dá para perceber
porque é que este lugar ficou sagrado para tanta gente — disse Óscar, apoiado
na mureta de pedra.
Benedita
limitou-se a acenar, absorvendo o momento.
Ficaram ali
durante alguns minutos, sem falar, até que o sol começou a descer, pintando o
céu com tons alaranjados. Então, retomaram o caminho para a vila, descendo
lentamente as ruelas estreitas.
Ao chegarem
novamente ao carro, decidiram que não valia a pena continuar estrada fora
naquela noite. Encontraram um pequeno hotel na base do penhasco, com vista para
o vale. O interior era simples mas acolhedor, com chão de madeira e paredes
caiadas. No balcão, Óscar pediu um quarto com duas camas individuais.
— Alguma
bagagem? — perguntou o rececionista.
— Não —
respondeu Óscar, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Receberam a
chave, subiram ao quarto e pousaram o pouco que traziam. Lá fora, o céu já
estava a transitar para o azul profundo da noite, e as primeiras luzes de
Rocamadour cintilavam na encosta, como se quisessem marcar presença mesmo no
escuro.
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