sábado, 30 de agosto de 2025

Depois do Inferno Verde - Capítulo 9

 




Quando Benedita abriu os olhos, a luz suave da manhã já atravessava as cortinas. Óscar estava de pé, junto à pequena janela do quarto, a olhar para a rua lá em baixo. Tinha as mãos nos bolsos e um ar distante.

— E agora? — perguntou ela, num tom quase tímido, ainda ensonada.

Ele voltou-se apenas o suficiente para lhe lançar um olhar breve.

— Agora vamos tomar o pequeno-almoço.

O tom seco não a surpreendeu. Já tinha percebido que ele não era propriamente um homem de manhãs calorosas.

Poucos minutos depois, estavam sentados numa mesa de canto, no café modesto que ficava junto ao hotel. O aroma a pão quente misturava-se com o cheiro intenso de café acabado de moer. Comeram em silêncio. Benedita manteve-se discreta, enquanto ele devorava uma torrada com manteiga e bebia um café curto e escuro. Só depois de dar o último gole, Óscar pareceu finalmente “acordar” para o dia.

— Preciso da tua identificação — disse, limpando a boca com o guardanapo.

Ela franziu o sobrolho.

— Para quê?

— Só preciso — respondeu, sem mais explicações.

Hesitou por um momento, mas acabou por pegar na carteira e tirar o cartão de cidadão, empurrando-o pela mesa. Foi então que ele tirou do bolso, pela primeira vez desde que estavam juntos, um smartphone.

O ecrã acendeu-se e, de imediato, foi inundado por notificações: mensagens, chamadas não atendidas, alertas de e-mail. O som constante de avisos ecoou na mesa, até que ele, com um gesto rápido, os silenciou sem sequer olhar.

— Parece que andam à minha procura — comentou, num tom que não revelava qualquer urgência.

Colocou o cartão dela em cima da mesa e, com a câmara do telemóvel, tirou duas fotografias — frente e verso. Em seguida, percorreu a lista de contactos e ligou para um número, levando o telemóvel ao ouvido.

— Bom dia — disse quando foi atendido. A voz dele ficou mais grave e séria. — Sim, sou eu.

Pausou, ouvindo o que vinha do outro lado.

— Sei que toda a gente anda à minha procura. Não, não estou perdido… nem desaparecido. Estou bem.

O tom no telefone parecia carregado de preocupação.

— Não, não preciso de nada para mim. Mas quero que trates de uma coisa. — Fez uma breve pausa, lançou um olhar rápido a Benedita e continuou: — Tenho comigo uma rapariga. Pode estar dada como desaparecida.

Houve silêncio do outro lado. Ele retomou:

— Sim… Benedita Almeida, portuguesa. Quero que informes as autoridades de que está segura e comigo. Que será entregue em segurança em Portugal.

Escutou por mais alguns instantes.

— Exactamente. Quero que isso fique registado oficialmente, para evitar problemas na fronteira.

O tom dele suavizou ligeiramente.

— Obrigado. Sabia que podia contar contigo.

Terminou a chamada, abriu o e-mail, enviou as fotografias do cartão e guardou o telemóvel no bolso, sem dar qualquer atenção às dezenas de notificações que ainda piscavam no ecrã.

Por fim, olhou para ela com um meio-sorriso, mas os olhos denunciavam que falava a sério:

— Os teus planos para Paris… vão ter de mudar.

Benedita franziu o cenho, inclinando-se ligeiramente sobre a mesa.

— O que é que estás a fazer?

Óscar recostou-se na cadeira, passando a mão pela barba curta.

— A evitar complicações legais por te ter comigo… e, ao mesmo tempo, a tirar-te da lista de jovens procuradas.

Ela manteve-se em silêncio por um momento, tentando processar a ideia.

— Procuradas?

— Se desapareceste de casa e tens dezasseis anos, é quase certo que alguém reportou. Podia ter problemas por atravessar fronteiras contigo. Assim, fica tudo claro para quem mandar parar o carro.

— E depois?

— E depois seguimos a viagem — disse ele, como se fosse a coisa mais simples do mundo.

Ela respirou fundo, mexendo distraidamente no guardanapo.

— E Paris?

Ele pousou o olhar nela, sério.

— O que é que esperas realmente encontrar lá?

A pergunta apanhou-a de surpresa. Mordeu o lábio, pensativa, antes de responder.

— O melhor cenário possível? — perguntou, como quem precisa de confirmar que podia sonhar alto.

— O melhor cenário possível — assentiu ele.

Ela endireitou-se ligeiramente, com um brilho nos olhos.

— Chegar lá, arranjar um quarto pequeno, talvez dividir com alguém. Conhecer pessoas ligadas ao mundo da moda. Ser chamada para castings. Conseguir trabalhos… bons trabalhos, que me abram portas. Pouco a pouco, ganhar nome, tirar fotografias para revistas, viajar. E um dia… um dia ser reconhecida na rua.

Óscar ouviu tudo em silêncio, sem interromper. Quando ela terminou, ficou a observá-la por alguns segundos, como quem pesa cada palavra antes de falar. Mas o que viesse a seguir, ficaria para o resto do caminho.

Acabaram o pequeno-almoço em silêncio, cada um perdido nos seus pensamentos, e saíram do hotel. O Corvette aguardava no parque, brilhando ao sol da manhã, como se a viagem que os esperava fosse tão simples como seguir o asfalto até ao horizonte. Óscar guardou o telemóvel no bolso, abriu a porta do condutor e, sem trocar mais palavras, pôs o motor a ronronar com um som grave e reconfortante.

A estrada em direcção a Rocamadour estendia-se diante deles, serpenteando por colinas e campos que começavam a despertar com a luz dourada. O carro avançava suave, como se cada mudança de velocidade fosse uma respiração medida.

— Então — disse Óscar, rompendo finalmente o silêncio — já me disseste qual é o teu melhor cenário. Qual seria, na tua cabeça, o pior?

A pergunta caiu sobre ela como uma pedra na água. Benedita desviou os olhos para a paisagem, seguindo com o olhar um bando de pássaros que cruzava o céu. Demorou alguns segundos a falar.

— O pior cenário? — repetiu, mais para si do que para ele. Respirou fundo. — Ficar na rua… sem dinheiro. Depender de estranhos para comer. E… — hesitou, como se fosse preciso atravessar um terreno perigoso para chegar às palavras — e acabar por me envolver em coisas que não quero. Drogas. Gente errada. E… redes de prostituição.

O carro seguiu firme na faixa, a paisagem a deslizar lentamente pelas janelas. Quando ela terminou, um silêncio pesado instalou-se. Não havia mais nada para dizer naquele momento. Apenas o som constante e grave do motor preenchia o habitáculo, um ruído quase hipnótico, que convidava a pensar no que tinha sido dito — e no que não tinha.

Óscar acabou por quebrar o silêncio.

— E qual achas que é o cenário mais provável? — perguntou, sem tirar os olhos da estrada.

Benedita mordeu o lábio inferior e demorou a responder.

— Não sei… — admitiu, finalmente.

A estrada continuava calma, até que, perto de uma povoação maior, o trânsito foi afunilado por cones e sinais de paragem. Vários polícias controlavam os carros, e um deles ergueu a mão na direção do Corvette, mandando parar.

O agente aproximou-se, de uniforme impecável, e pediu os documentos em francês:

— Bonjour, vos papiers, s’il vous plaît.

Óscar inclinou-se ligeiramente para a frente e respondeu, num francês carregado de um sotaque que beirava o cómico:

— Désolé… je ne parle pas français… do you speak English?

O polícia assentiu com um pequeno sorriso.

— Yes, I speak English — respondeu, mas com um sotaque tão carregado que fez com que os cantos da boca de Óscar se erguessem. Por um instante, quase esperava ouvir uma frase saída da série cómica ‘Allô, ‘Allô!’.

O agente pediu-lhe que aguardasse e afastou-se com os documentos. Benedita olhou para Óscar, inquieta, lembrando-se do que ele dissera sobre possíveis complicações por estar com ela. Quando o polícia regressou, a expressão era séria.

— Sir, could you step out of the vehicle, please?

Óscar obedeceu sem hesitar. Benedita sentiu o estômago apertar. Os dois afastaram-se alguns metros e conversaram num tom baixo, mas ela conseguiu apanhar algumas palavras. O polícia mencionara um alerta de pessoa desaparecida em nome de Óscar. Com uma calma imperturbável, ele explicou que não estava desaparecido, que viajava por iniciativa própria e que não havia motivo para alarme. Depois de alguns minutos e de verificar a documentação, o agente devolveu-lhe os papéis, desejou boa viagem e deixou-os seguir.

O carro voltou à estrada, cortando o ar fresco da tarde, até que, por volta do meio da tarde, chegaram finalmente a Rocamadour.

A visão era arrebatadora: a vila erguia-se em socalcos íngremes na encosta de um penhasco, como se desafiasse a gravidade. As casas de pedra clara encaixavam-se umas nas outras, subindo até ao santuário que coroava a falésia. Ao longe, as torres e muralhas destacavam-se contra o azul intenso do céu, enquanto o vale do Alzou serpenteava lá em baixo, verde e luminoso.

Pararam o carro e subiram a pé pelas ruas estreitas, ladeadas por lojas de artesanato e pequenas esplanadas. O som das badaladas ecoava entre as paredes de pedra, criando uma atmosfera intemporal.

Benedita olhava em redor, maravilhada.

— É como se tivesse saído de um postal… — disse, quase num sussurro.

Óscar, menos dado a expressões poéticas, assentiu apenas com um leve sorriso, mas não conseguia esconder que estava igualmente impressionado. A combinação de história, fé e geografia tornava aquele lugar único. Era impossível não sentir que, ali, o tempo tinha um ritmo diferente, mais lento, quase sagrado.

Decidiram subir até ao santuário. A escadaria era longa e irregular, composta por degraus gastos por séculos de peregrinações. Óscar subia com passo constante, enquanto Benedita, curiosa, parava de vez em quando para espreitar pequenas capelas laterais e ler as placas de pedra gravadas com mensagens de devoção.

Quando chegaram ao topo, encontraram a esplanada principal do santuário, aberta sobre o vale. A basílica erguia-se com uma imponência silenciosa, as paredes em pedra clara marcadas pelo tempo, as janelas estreitas filtrando a luz dourada da tarde. Entraram em silêncio, quase instintivamente.

Lá dentro, o ar era fresco e cheirava a cera e incenso. O som dos passos ecoava no pavimento de pedra. Benedita deteve-se diante de uma estátua antiga da Virgem Negra, o olhar fixo nos traços austeros e na cor escura que contrastava com o dourado do trono.

— É mais pequena do que imaginei… — murmurou, como se falar alto pudesse quebrar o encanto.

Óscar não respondeu. Limitou-se a observar o interior, reparando nos vitrais que deixavam entrar raios de luz multicolorida e na forma como essa luz se projetava nas paredes, como manchas vivas.

Saíram por uma porta lateral e seguiram por um caminho estreito até ao miraCávado. A vista dali era arrebatadora: o vale do Alzou estendia-se em curvas suaves, salpicado de campos e pequenas aldeias. O vento leve trazia o som distante dos sinos e o farfalhar das folhas nas árvores que se agarravam às encostas.

— Dá para perceber porque é que este lugar ficou sagrado para tanta gente — disse Óscar, apoiado na mureta de pedra.

Benedita limitou-se a acenar, absorvendo o momento.

Ficaram ali durante alguns minutos, sem falar, até que o sol começou a descer, pintando o céu com tons alaranjados. Então, retomaram o caminho para a vila, descendo lentamente as ruelas estreitas.

Ao chegarem novamente ao carro, decidiram que não valia a pena continuar estrada fora naquela noite. Encontraram um pequeno hotel na base do penhasco, com vista para o vale. O interior era simples mas acolhedor, com chão de madeira e paredes caiadas. No balcão, Óscar pediu um quarto com duas camas individuais.

— Alguma bagagem? — perguntou o rececionista.

— Não — respondeu Óscar, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Receberam a chave, subiram ao quarto e pousaram o pouco que traziam. Lá fora, o céu já estava a transitar para o azul profundo da noite, e as primeiras luzes de Rocamadour cintilavam na encosta, como se quisessem marcar presença mesmo no escuro.


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