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O quarto era simples: duas
camas individuais separadas por uma mesa-de-cabeceira com um candeeiro de luz
amarelada. Um sofá gasto encostava-se à parede oposta, e a janela, de
caixilharia antiga, deixava entrar um ar fresco e o som abafado da rua estreita
lá em baixo.
Benedita pousou a mochila junto à parede, mas não se afastou dela.
Ficou ali, de pé, a observá-lo enquanto ele deixava as chaves do carro na mesa-de-cabeceira.
— Porque é que disseste que eu era tua filha? — perguntou, com uma
mistura de surpresa e desconfiança.
Óscar endireitou-se e olhou-a de soslaio.
— Querias mesmo que o empregado te pedisse identificação?
Ela corou, baixou o olhar, e ficou em silêncio.
— Tens mesmo dezoito anos? — perguntou ele então, sem rodeios.
O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado do que o quarto
inteiro. Benedita mexia nas alças da mochila como se quisesse desfazer um nó
inexistente.
— Por esta altura… — continuou Óscar, a voz calma mas firme — já
podias confiar em mim.
Ela respirou fundo, como quem carrega um peso que já não aguenta
sozinha. Quando finalmente ergueu os olhos, a sua expressão tinha uma sombra de
vergonha, mas também de desafio.
— Tenho dezasseis.
Óscar não disse nada de imediato. Apenas a fitou, medindo cada
gesto, cada mudança no seu rosto.
— Cresci num orfanato — começou ela, com a voz baixa, quase
ensaiada, mas carregada de um cansaço antigo. — Fui para lá quando tinha seis
anos… depois do acidente.
Hesitou, como se procurasse coragem.
— Os meus pais morreram num carro. Eu estava no banco de trás. Lembro-me
do barulho… e de acordar num hospital. Mas não me lembro das caras deles. Nem
do toque. É como se tivessem desaparecido de mim.
Fez uma pausa, e o silêncio pareceu comprimir o ar entre os dois.
— Depois… vieram as famílias de acolhimento. Algumas eram
simpáticas, davam-me roupa, comida… mas nunca me senti em casa. Outras… —
mordeu o lábio inferior, desviando o olhar — outras tratavam-me como se eu
fosse um peso morto que tinham de carregar.
Endireitou-se, como se quisesse que as próximas palavras soassem
mais fortes.
— A última foi dessas. Chamavam-me preguiçosa, inútil. Mandavam-me
fazer tudo e, se não era perfeito, havia gritos… e às vezes pior que gritos.
O tom quebrou um pouco.
— E eu… simplesmente decidi ir embora. Não tinha nada para levar.
Peguei nas poucas coisas que eram minhas e saí. Não sabia para onde. Só sabia
que não queria voltar.
Por um momento, Benedita olhou-o de frente, quase desafiando-o a
julgá-la.
— E foi assim que acabei na estrada.
Óscar passou a mão pela barba curta, olhando-a em silêncio. Não
havia traço de reprovação no seu rosto — apenas uma gravidade silenciosa.
— Agora já sabes. — disse ela.
Óscar ficou
alguns segundos em silêncio, a olhar para ela. Depois deu um passo lento na
direção da cama e sentou-se ao lado dela. Sem dizer nada, puxou-a para um
abraço.
Benedita não
resistiu. Encostou-se ao peito dele, o rosto contra a sua t-shirt, e começou a
chorar — primeiro em silêncio, um soluço quase contido, depois com um ritmo
mais intenso, até que o choro se tornou convulsivo.
Ele
passou-lhe a mão pelo cabelo, num gesto lento e constante, como quem tenta
acalmar um animal ferido. Murmurou palavras baixas, mais pelo tom do que pelo
sentido, e deixou que ela esvaziasse aquela dor que parecia antiga demais para
caber numa rapariga tão nova.
Aos poucos, o
choro foi abrandando. O corpo dela relaxou e o peso contra o peito dele
tornou-se o de alguém vencido pelo cansaço.
Óscar
manteve-se imóvel, sentindo-lhe a respiração abrandar, até perceber que ela
adormecera. Com cuidado, deitou-a na cama, puxou o cobertor por cima dela e
ajeitou-o para que a cobrisse bem.
Ficou ali,
sentado na beira da cama, a observá-la dormir. O rosto dela, livre da tensão,
parecia ainda mais jovem. Sentiu uma pena profunda, não apenas da história que
ela lhe contara, mas daquilo que ela nunca lhe disse — o peso silencioso que
carregava.
E, por um
momento, pensou que, em comparação, a sua própria dor talvez não fosse assim
tão grande.
Agora só segunda, não é?
ResponderEliminarBom fim de semana, sô Gil
Alô bom dia :) Só para chatear, publiquei hoje! :)
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