sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Consequencias (XXVIII de XLIII)



Alex sentia-se cada vez mais nervoso, à medida que o táxi se aproximava da morada que Paola lhe tinha dado. Se por um lado jantar com uma mulher bela como ela devia ser algo que o deixava feliz, a verdade é que dentro de si subsistiam pensamentos conflituosos.

Teve de os pôr de lado quando o táxi chegou. Ele ligou-lhe e ela atendeu de imediato.

“Já cá estou.” Disse, quando o carro encostava à frente do prédio onde ela morava.

“Desço já.” Respondeu ela com aquela nota melodiosa na voz a que ele se tinha habituado nos últimos meses.

Alex saiu do táxi e aguardou-a e quando ela apareceu à porta do prédio, ficou literalmente sem respirar por um pouco tempo.

Ela vinha com um vestido azul safira, até aos pés com uma enorme abertura sobre a sua perna direita. O vestido parecia abraçar-lhe o corpo com naturalidade, pronunciando as suas magnificas formas. O cabelo que lhe caia escorrido até ao meio das costas emoldurava na perfeição o seu rosto, onde os seus olhos pareciam faiscar, quase no mesmo tom do vestido. Os saltos tornavam-lhe as pernas ainda mais longas e contribuíam para a sensação de que ela flutuava, com a fluidez do tecido a criar uma sensação de leveza. E o sorriso dela era o suficiente para iluminar a noite.

Alex abriu a porta do táxi e deu-lhe a mão, ajudando-a a entrar, dando em seguida a volta ao carro e entrando no outro lado. Ela voltou-se para ele, com um ar de gozo.

“Passa-se alguma coisa?”

“Fiquei sem palavras. Só isso.”

“A sério? Não é como se não me visses todos os dias nos últimos tempos…”

“Pois, mas nunca te tinha visto assim.”

Ela riu.

Dirigiram-se ao Row on 45 onde pediram um menu de degustação acompanhado por um Château Mont-Redon Châteauneuf-Du-Pape tinto. Enquanto começavam a comer Paola reparava que ele estava mais contido que o normal.

“Parece que hoje estas menos bem-disposto que o costume.”

Ele sorriu.

“Deixaste-me sem palavras.”

Ela soltou uma gargalhada.

“Por mais que isso seja um elogio que qualquer mulher deveria apreciar, e podes acreditar que eu o aprecio, não me parece que seja só isso.”

Ele não respondeu. Continuaram a comer e a beberricar o vinho até que ela perguntou:

“Alex, se não é indiscrição, há quanto tempo é que não tens uma saída assim…”

“Bem, assim, com este luxo todo, nunca tive, para te ser franco.”

“Não desvies a conversa.”

“Desde que vim para o Médio Oriente, há um ano e uns meses.”

“Porquê?”

“Falta de oportunidade, falta de vontade…”

Paola olhou para ele com um olhar de quem não acreditava que fosse tão simples, que deixou Alex algo desconfortável. Ela sorriu ao notar o desconforto.

“O que é que ela te fez?”

“Perdão?”

“Ela, fosse quem fosse, deve ter feito algo mesmo muito estranho…”

Alex ficou a olhar para ela, sem saber o que responder. Ela continuou:

“É que não é por nada mas estou habituada a que as pessoas com quem saio sejam mais… pró-activas.”

“E sais assim com tanta gente?”

“Não, mas saio com alguma. Deixa-me contar-te uma história. Quando sai da universidade casei-me com o meu namorado que já vinha da escola secundária. Queríamos ter a nossa casinha nos subúrbios, os dois filhos e meio… o costume. Ao fim de três anos de casamento descobri que ele gostava mais de uma colega de trabalho do que de mim. Pouco depois do divórcio surgiu a oportunidade de vir trabalhar para aqui. Como mulher é algo mais restritivo para mim, é verdade, mas como estrangeira, não sou muito importunada. Não estou numa relação com ninguém, mas… sou humana. Tenho necessidades.”

“Compreendo perfeitamente. E se não deves nada a ninguém…”

“Exacto. Mas também nunca quis ter uma relação porque não consigo confiar em ninguém a esse ponto, percebes. A traição deixou marcas.”

Alex anuiu.

“E tu?”

Alex respirou fundo, olhou para os olhos e o sorriso convidativo dela e resolveu contar a sua história de uma forma resumida, enquanto continuavam a degustar.

Quando ele acabou continuaram em silêncio por um longo tempo, com ela a reflectir acerca do que ele tinha contado.

“Então deixa-me ver se percebi bem. A tua mulher levou-te para uma festa de troca de casais sem te dizer nada, tu percebeste e disseste-lhe que não querias nada daquilo, ela não ligou e saiu com outro homem, tu saíste com outra mulher, ambos tiveram sexo nessa noite mas tu, justificadamente magoado, saíste de casa, mataste o casamento e enfiaste-te num buraco no médio oriente.”

Alex anuiu novamente.

“Ou seja, ela destruiu o casamento, destruiu a tua proximidade com a tua família, com os teus filhos que vês de vez em quando, quando eles e tu podem, com os teus amigos, com o sitio onde tinhas raízes e deixou-te com um amargo de boca tão grande que nem sequer olhaste para outra mulher até agora, é isso?”

“Quando pões isso dessa maneira, é.”

“E tu deixaste. Só porque nem sequer querias olhar para ela.”

“Porque percebi que a vida que tinha era uma mentira e queria deixar tudo para trás.”

“Ok. Mas o que é que era mentira? Era a tua relação com ela? Com os teus filhos, com os teus amigos? E porque é que achas que era uma mentira?”

“Porque se ela me amasse nunca teria feito o que fez.”

“Alex… se calhar nada foi uma mentira, já pensaste nisso?”

“Tu divorciaste-te porque o teu marido te traiu e dizes-me isso?”

“Eu divorciei-me porque ele se envolveu com ela e já fazia planos para se divorciar e continuar a vida com ela. Se fosse só pelo sexo tinha ficado fula, mas não me tinha divorciado.”

Alex olhou para ela com algum desconforto. Ela sorriu.

“Alex, sexo é uma função biológica e tem o significado que lhe quiseres dar. E a diferença é que para uma mulher, como presumo que para um homem também, sexo sem sentimento é pura diversão. Sexo sem sentimentos dispensa julgamentos, até porque não interessa o que a outra pessoa pensa. Por isso é que tantas mulheres fazem loucuras com os amantes que nunca fariam com os maridos. Porque o julgamento do marido importa. O do amante não.”

Alex continuou em silêncio.

“Mas homens como tu, homens verdadeiramente apaixonados por alguém, vêem o sexo como uma validação dos seus sentimentos e ver a mulher que prometeu ser deles dar-se a outro é um golpe terrível. Eu compreendo-te e compreendo a tua dor. Mas,…”

“Mas…?” perguntou Alex enquanto ela bebia mais um gole de vinho.

“Mas a verdade é que se calhar para ela nada daquilo tinha a ver com sentimentos, que é o que verdadeiramente interessa para ela. Ela ia experimentar uma coisa diferente, dar-te algo diferente a experimentar, e era só para ser diferente, divertido, uma pedrada no charco.”

A expressão de Alex tornou-se sombria.

“Não a estou a querer desculpar com isto. Num casamento tão longo como o vosso, e se eram próximos, ela devia saber qual seria a tua reacção. Mas pensa que estás refém de algo que se calhar não devias estar.” Ela colocou a mão na dele “Para a castigar deixaste tu de viver. Achas que fizeste bem? Não achas que está na hora de viveres outra vez?”

Alex continuou em silêncio até que ela disse:

“Sabes, nunca vi como eram as suites do St Regis…”

Um sorriso maroto apareceu no rosto de Alex que respondeu:

“Por sorte, eu sei quem te pode providenciar uma visita guiada.”

“Isso por acaso é um convite?”

“Podes acreditar que é.”


quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Consequências (XXVII de XLIII)



Paola entrou no quarto de Alex ao principio da tarde, como se tornara costume nos últimos dias, para o levar a piscina, para os exercícios de reabilitação.

“Boa tarde, Alex. Está na hora de irmos para a nossa sessão.”

Alex olhou para ela encavacado e não se mexeu.

“Se calhar é melhor esperarmos mais um bocado. Não me estou a sentir muito bem.”

Paola olhou para ele e estranhou.

“Não te estas a sentir bem, como?”

Alex corou, mas não adiantou grande coisa. Paola mediu-lhe a temperatura, que estava normal e foi-lhe fazendo perguntas, para tentar avaliar a má disposição dele, mas ele respondia negativamente quando ela lhe perguntava por sintomas ou nem respondia, ficando acabrunhado.

“Bem, não vejo realmente nada de errado contigo. Devíamos ir.”

“Mas era melhor esperarmos um bocado…” disse ele, corando novamente.

“Alex, deixa-te de tretas. Vamos lá.” E destapou-o, como fazia todos os dias, para lhe vestir os calções de banho. Só então se tornou evidente o motivo do embaraço de Alex, que ainda se tentou cobrir, mas sem grande sucesso.

“Ora então é este o problema?”

Alex apenas acenou afirmativamente, envergonhado.

“Já estás assim há muito tempo?”

“Um bom bocado.”

“Não precisas de ficar envergonhado. Eu sei que isto não é nenhum elogio à minha pessoa. Isto é comum em pessoas com lesões na espinha e chama-se priapismo. É involuntário. Não precisas de ficar envergonhado por causa disto.”

Alex lá cedeu e deixou-a vestir-lhe os calções de banho. Já depois de vestido, e de o ajudar a sentar-se na cadeira de rodas, ela olhou para ele com um sorriso sacana e disse “E também é verdade que de qualquer maneira não tens motivo nenhum para estar envergonhado.” Piscando-lhe o olho.

Ele olhou para ela e sorriu finalmente.

“Bem, se continuas com essas provocações, ainda sou capaz de ter de te convidar para jantar.” Disse ele sorrindo.

“Não pode ser. Sou tua fisioterapeuta e não posso confraternizar com pacientes. Além disso, não há grande privacidade no refeitório. Era esquisito.”

Riram os dois e seguiram para os exercícios.

A cumplicidade entre Paola e Alex foi crescendo diariamente, com as provocações entre ambos a, por vezes, levarem-nos às lagrimas de riso. E a verdade é que estas interações se tornaram um balsamo para os espirito de Alex. Estas interações não passaram despercebidas a Tiago e Patrícia quando vieram vê-lo umas semanas depois. Quando eles vieram ele já conseguia andar por curtos espaços de tempo com auxilio de uma bengala.

“Pai, o que é que se passa com a fisioterapeuta?” perguntou Tiago, notando o à vontade entre ambos.

“Nada filho. Já a convidei para jantar varias vezes, mas ela diz que não pode porque eu sou paciente e porque a cantina não é o sitio mais romântico…”

Riram-se os dois.

“Bem, seja lá o que for que se passa, gosto de te ver assim. É estranho que sempre que te vi bem, parecias ter uma nuvem negra por cima, e depois de teres sido ferido, quase teres morrido e ficado paraplégico, vejo-te mais bem-disposto do que me lembro em anos…”

Alex limitou-se a sorrir e piscou o olho ao filho.

A visita dos filhos não foi muito proveitosa, porque apenas se podiam ver durante algumas horas todos os dias. No entanto eles aproveitaram a estadia para conhecer algumas particularidades do Dubai, incluindo a pista de Ski coberta no meio do deserto e os arranha céus.

Duas semanas depois, um Alex quase recuperado totalmente e que já apenas usava a bengala como segurança arrumava as suas coisas para sair.

“Não te ias embora sem dizer nada, pois não?” perguntou Paola enquanto entrava no quarto.

“Claro que não. Estou só a acabar de arrumar as coisas.”

“Vais já para o aeroporto, para voltares ao trabalho?”

“Amanhã. Hoje ainda tenho uma noite por aqui, numa suite do St. Regis, por isso vou aproveitar.”

Paola assobiou.

“Uma suite no St. Regis? Muito bem, senhor Alexandre. Vai passar uma noite de luxo.”

“Espero bem que sim. Pelo preço espero que as camas sejam, pelo menos, decentes…”

Ela riu. Ele continuou já mais sério.

“Queria agradecer-te o que fizeste por mim e como me trataste. Vou ter saudades tuas.”

Ela olhou para ele de alto a baixo, de uma maneira muito pouco discreta e depois, com um brilho nos olhos e um sorriso sacana disse:

“Sabes, já não és meu paciente…”

Alex ficou a olhar para ela durante algum tempo, como se estivesse a afirmar a medo uma decisão que ele já sabia tomada.

“Bem, nesse caso, dar-me-ias a honra da tua companhia para um jantar?”

Ela olhou para ele, fazendo um ar sério e respondeu:

“Bem, isso depende… Se for aqui na cantina, não estou muito inclinada…”

“Não, eu estava a pensar em algo mais elevado, como uma roulotte de cachorros à beira da estrada, ou assim…”

Ela desatou a rir. Tirou um pequeno bloco e uma caneta do bolso da bata onde escreveu qualquer coisa e deu-lhe.

“Tens aí a minha morada e o telefone. Podes apanhar-me às sete e meia.”

“Está combinado”

Ela piscou-lhe o olho e virou-se para sair dizendo:

“Até logo, então.”


quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Consequências (XXVI de XLIII



O telefone de Patrícia tocou uma única vez e ela atendeu de imediato.

“Pai?!”

“Filha,” disse a voz grave e calma do outro lado “soube que te ligaram algumas vezes por causa de mim, e por isso liguei primeiro para ti. Vou ligar para o Tiago a seguir.”

“Pai, ele está aqui comigo, estamos em casa.”

“Em casa…” murmurou Alex

“Vou pôr o telefone em alta voz.”

“Olá pai.” Disse Tiago de imediato, com uma nota de preocupação na voz.

“Olá. Só estou a ligar para dizer que estou vivo.”

“Mas como é que estás?” perguntou Patrícia

“Segundo um médico me disse, ou pelo menos o que percebi, levei um tiro nas costas, fui operado, estive em coma induzido até há umas horas atrás. Não corro risco de vida e estou num quarto de hospital melhor que alguns hotéis de cinco estrelas em que já estive.”

“Ainda bem pai,“ respondeu Tiago que conhecendo o pai acrescentou “mas quais são as más notícias?”

Alex respirou fundo antes de responder.

“O ferimento apanhou uma área na coluna vertebral a meio das costas. Parece que a operação foi complicada, ainda mais porque onde isto aconteceu só me conseguiram estabilizar e demoraram umas horas até operar. A operação correu bem, mas ainda há muito inchaço e muita incerteza.”

“E que é que queres dizer com isso?”

“Bem, neste momento não sinto nada da cintura para baixo, mas os médicos estão confiantes que a situação vai melhorar conforme o inchaço passar, mas com algumas reservas. De qualquer maneira, acho que vou ter uma recuperação um bocado comprida pela frente.”

Houve um silêncio chocado enquanto do outro lado tentavam processar a informação. Foi Patrícia quem falou, finalmente. 

“Pai, o que é que precisas?”

“De nada. Não quero que se preocupem. Estou a ser cuidado por especialistas de renome mundial, num hospital de luxo. E prometo que vos dou as boas ou as más novidades. Vou dar o vosso número ao chefe da minha segurança e se acontecer algo comigo que eu não vos possa contactar, ele contacta. Não vos vou esconder nada.”

“Podemos ir visitar-te?”

“Claro que sim. Vocês sabem que são sempre bem-vindos. Mas nesta altura não faz grande sentido. O médico disse-me que me iam manter umas duas semanas sob observação e com sedativos por causa das dores, portanto por agora, acho que não vale a pena. E se isso causar distúrbio, também não. Não é como se estivesse a morrer.”

“Ok, pai.” Respondeu Patrícia “pelo menos as boas notícias valeram a pena.”

“Bem, agora vou descansar mais um bocado que aquilo que me dão deixa-me grogue. Beijos para os dois.”

“Descansa bem, pai” disseram os dois particamente em coro.

Alex desligou a chamada e pousou o telefone, pensativo.

Do outro lado, os dois irmãos olhavam para a mãe, que lhes devolvia um sorriso agradecido por a terem deixado estar ali.

“Só me apetece ir para lá.” Acabou Marie por dizer “Eu devia estar lá, ao lado dele.”

Os dois irmãos entreolharam-se com uma expressão de resignação.

Alex pousou o telefone que parecia pousar uma tonelada. Um médico entrou na sala:

“Bom dia, senhor Alexandre. Então, como estamos?”

“Acho que já vi melhores dias” Respondeu Alexandre com a cabeça pesada e desconforto das dores que sentia.

“Calculo que sim” respondeu o médico com um sorriso.

O médico fez alguns testes, verificando que ainda não havia reacção na parte inferior do corpo. Alex não se conteve.

“Doutor, o que é que isto significa?”

“Bem para já significa que temos de esperar mais algum tempo até termos certezas. A sua coluna foi afectada e temos que dar tempo ao tempo. Quando a inflamação começar a passar, estamos confiantes que recuperará.”

“Mas há sempre uma hipótese de não recuperar, não?”

“Sendo sincero, há. Mas não seja pessimista, homem. Afinal, uma das coisas a seu favor é a excelente forma física em que está. Tem que ter calma e paciência…”

Nas duas semanas seguinte Alex foi sendo submetido a exames regulares. As dores tornavam-se menos intensas e as drogas para as dores foram sendo retiradas o que lhe deixava as ideias mais claras. Mas com isto vieram as intermináveis horas solitárias em que ficava agarrado à cama e perdido nos seus pensamentos. E todo aquele ano parecia passar como um filme na sua cabeça em repetição.

À medida que as drogas foram sendo aliviadas, Alex começou a pedir a Miguel para lhe trazer os assuntos mais urgentes e depois começou mesmo a fazer reuniões por videoconferência com o seu secretário, que lhe passava informações e a quem Alex dava orientações. Os médicos não o deixavam dedicar muito tempo, mas esta interrupção e este foco eram para ele uma bênção.

Ao fim de duas semanas o seu corpo finalmente reagiu, uma simples sensação fugidia e um pequeníssimo reflexo, mas o suficiente para o seu médico sorrir.

“Boas noticias, senhor Alexandre. As feridas fecharam bem, não há complicações e os sinais de recuperação estão à vista. E isto são más notícias, mas não para si.” Alex olhou para ele com um ar intrigado e o médico riu “Mas são más notícias para umas quantas enfermeiras que estavam a gostar muito de o ver por cá.”

Alex riu com vontade.

Uns dias depois foi transferido para outras instalações, onde iria receber tratamentos de fisioterapia. Estava instalado no quarto há algum tempo, um local tão luxuoso como o anterior, quando uma mulher entrou no quarto.

“Olá, senhor Alexandre.” Disse ela com uma voz melodiosa onde, mesmo sem ver, se notava o sorriso com que as palavras tinham sido ditas “É um gosto conhecê-lo.”

Alex olhou-a finalmente. Parecia ter pouco mais de 30 anos, alta, esguia sem ser magra, cabelo preto e uns olhos azuis que pareciam faiscar e nem a bata do hospital conseguia esconder as suas formas. O cabelo apanhado num rabo de cavalo ainda lhe dava uma aparência mais jovem. Ela simplesmente continuou.

“O meu nome é Paola, sou italiana e sou a sua fisioterapeuta. Vamos passar muito tempo juntos nos próximos dias.”

“Dias?” perguntou Alex, admirado.

“Bem, mais uns dois meses, se tudo correr bem. E vai correr. Afinal vou ser eu a tratar de si. Vai ver que vai ter tempo para se fartar de mim.”

“Tenho duvidas em relação a isso…” respondeu Alex com um sorriso.

“Não tenha. Eu consigo ser mesmo muito chata.”

Ela chegou uma cadeira de rodas para perto da cama e perguntou-lhe:

“Vamos?”

“Vamos começar já?”

“Não há melhor altura que agora, mas também lhe quero mostrar a clinica.”

Ajudou-o a passar para a cadeira e depois foi-o guiando por corredores. À medida que iam passando por salas ela ia explicando para que eram e por fim chegaram a uma enorme piscina coberta.

“Sabe nadar, senhor Alexandre?”

“Trate-me por Alex, por favor. Sim sei.”

“Óptimo. Assim preocupo-me menos consigo.”

Ela levou a cadeira até um elevador e este começou a baixar a cadeira para dentro de água a um ritmo penosamente lento.

“Não saia daqui, Alex. Eu volto já.”

“Não demore, senão ainda sou capaz de ir dar uma volta por ai…” disse ele sorrindo.

Ela apenas sorriu e deixou-o no elevador. Voltou logo em seguida num fato de banho e com uma touca, trazendo uma na mão para ele. Mergulhou na piscina com graciosidade e dirigiu-se a ele, colocou-lhe a touca na cabeça e libertou-o da cadeira de rodas.

Ficaram algum tempo na piscina, com ela a assisti-lo para alguns exercícios que pareciam básicos, mas para ele pareciam impossíveis. Depois ela levou-o de volta para o quarto.

“Por hoje chega, Alex. Não podemos forçar nada e só queria que te ambientasses. Já agora, hoje vais comer no quarto, mas a partir de amanhã vens ao refeitório comer. Vais adorar a comida daqui. O chefe é italiano como eu…” disse ela piscando-lhe o olho.

“Quer dizer que nos próximos tempos vou ganhar um pneuzinho, não?”

“Não.” Disse ela olhando-o com um olhar provocador “Não podemos estragar ‘isto’” disse ela fazendo um gesto indicativo do seu corpo inteiro “Calculo a quantidade de namoradas que me iam desejar a morte se isso acontecesse”

“Quantidade de namoradas?”

“Sim, já vi que não tens aliança… Portanto deves andar por aí a partir corações.”

Alex riu-se.

“Não há muitos corações para partir por onde eu tenho andado… Bem, com a excepção do da minha cozinheira e governanta, mas acho que elas não estão interessadas.”

“Não? Porquê?”

“Bem já estão ambas nos sessentas…”

“Olha que há por aí muita velha depravada. Eras capaz de ficar surpreendido…”

A simples imagem mental provocou-lhe uma careta e ela riu.

“Bem, por hoje ficamos por aqui. Alex. Amanhã vamos ter um dia mais preenchido. Descansa bem.”

“Obrigado, até amanhã.”

E quando ela ia a sair, virou-se para ele e piscou-lhe o olho com um sorriso maroto.

Alex sorriu. Como é que era aquela frase do vídeo daquela musica do Elton John e George Michael? “Ragazze italiane, portatemi in Paradiso”


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Consequências (XXV de XLIII)



Alex sentiu-se a acordar lentamente. Tentou abrir os olhos mas o esforço parecia incomensurável. Tentou mexer-se, mas era como se o seu corpo não estivesse lá. Deixou-se ficar um pouco e as recordações do ataque vieram-lhe à memória. “Fui atingido” pensou. 

Tentou respirar fundo, mas o ar parecia queimar os seus pulmões. Finalmente conseguiu entreabrir os olhos e ficou ofuscado pela luz que inundava o espaço onde ele estava. Aos poucos os olhos habituaram-se à claridade e ele viu que se encontrava num quarto de hospital, mas sentia-se completamente desorientado. Foi então que viu Miguel, que parecia dormitar numa cadeira ao fundo do quarto.

Tentou falar, mas apenas um débil gemido lhe saiu dos lábios. No entanto foi o suficiente para despertar Miguel que, assim que olhou para ele levantou-se e dirigiu-se a ele, ao mesmo tempo que carregava num botão que estava ao lado da cama.

“Bem-vindo, pá. Por momentos a coisa parecia que estava má…” Disse ele com um sorriso.

Alex queria responder, mas o seu corpo parecia não querer reagir.

“Tem calma. Estás no hospital e já não corres perigo de vida. Já agora, só para que saibas, estás no Dubai, num hospital privado.”

Entretanto uma enfermeira entra no quarto rapidamente e olha para Alex com um sorriso.

“Olha, o nosso paciente dorminhoco acordou. Seja bem-vindo, senhor Alexandre.”

Alex sentia o torpor dos sentidos a deixá-lo aos poucos enquanto a consciência parecia retornar devagar à sua mente. Mas, ao mesmo tempo uma dor lancinante começava a percorrer-lhe o corpo. Tentou mexer-se com o desconforto, mas não conseguiu.

A enfermeira aproximou, agarrou numa seringa com um liquido que injectou na linha de soro que estava ligada ao seu braço.

“Isto deve ajudar às dores. Sei que deve estar confuso mas esteve a dormir por mais de uma semana e as drogas ainda estão a sair do seu sistema. Daqui a algumas horas já deve sentir-se menos confuso”

A enfermeira destapou-lhe os pés e deu pequenas picadas neles. Alex não as sentiu e os pés não se moveram. Ela ficou sem expressão e apenas continuou a falar.

“Agora tem de descansar e dar algum tempo à sua cabeça para assentar. Mais logo um médico virá falar consigo. Agora feche os olhos e descanse.”

Talvez porque ainda estava zonzo, ou por causa daquilo que ela tinha posto no soro, Alex sentiu o enorme cansaço ao mesmo tempo que o alivio das dores. A enfermeira saiu e, mesmo antes de deslizar para o sono ouviu Miguel a dizer:

“Alex, tens que te aguentar. O pior já passou. Alem disso, ia ficar muito mal no meu currículo o ter-te deixado morrer, portanto, não é uma opção.” E a última coisa que Alex ouviu foi Miguel a dizer-lhe com um tom algo emocionado e pouco característico nele “E obrigado por me salvares a vida.”


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Consequências (XXIV de XLIII)




Eram onze e meia da noite quando Marie entrou em casa, ainda abalada pelo que tinha acabado de se passar. A sua cabeça estava num turbilhão, bem como as suas emoções.

Dirigiu-se à cozinha onde foi beber um copo de água, deixando a sua bolsa e chaves em cima da mesa da cozinha, e dirigia-se já para o quarto quando o seu telemóvel começou a tocar. Voltou atrás uma vez que o tinha deixado na sua bolsa, agarrou-o e viu o nome da sua filha no visor. A esta hora? O seu coração apertou-se de repente.

“Sim, filha.” Respondeu quando atendeu.

“Mãe, não te passes. Estás sentada?” Marie sentiu a gravidade na voz da filha e sentou-se de imediato, preparando-se para más noticias.

“Diz, filha. O que é que se passa?”

“Mãe, acabei de desligar o telefone. Estive a falar com um médico. O pai foi atingido por um tiro nas costas, e está neste momento a ser transferido para um hospital no Dubai.”

 Embora estivesse sentada, uma vertigem passou por todo o seu corpo, sentiu que o chão queria abrir-se debaixo dos seus pés e sentia o coração a bater nos seus ouvidos.

“Mas como é que ele está?”

“Parece que é grave. Ainda não me sabem dar mais notícias. Ligaram-me porque eu estava listada como contacto de emergência. Para já só me disseram que o estabilizaram e estão a evacuar para o Dubai, para um hospital particular de topo, onde vai ser operado.”

“Temos de ir ao Dubai…” respondeu Marie resoluta.

“Mãe, não comeces já a ficar acelerada. Não vais fazer nada ao Dubai. Provavelmente nem te deixavam vê-lo. Só te disse porque como dizem que é grave, quero que saibas. Mais não vais fazer nenhum disparate nem vais para lado nenhum. Vais fazer como eu e esperar. Ele está em excelentes mãos, com os melhores médicos de toda aquela região a tratar dele. Vamos esperar. Percebeste?”

Marie respirou fundo, e embora não fosse o que queria, sabia que a filha tinha razão.

“Sim. Mas promete-me que me dás noticias assim que souberes de alguma coisa mais.”

“Prometo, mãe. Agora deixa-me avisar o Tiago, que ainda não lhe disse.”

Desligaram a chamada e Marie deixou-se ficar atónita, sentada sem saber o que fazer. As sextas-feiras pareciam ter o condão de ser dias maus para ela.

Subiu ao quarto, tirou a roupa, foi tomar um duche, deitou-se, mas o sono não veio, afugentado pela preocupação. Levantou-se, foi até a cozinha onde se sentou com um bloco e uma caneta e começou a escrever.


“Sei que nunca lerás estas palavras e por isso sei que te posso dizer tudo aqui.

Não quero que penses que escrevo estas linhas para justificar alguma coisa. Aquilo que fiz não tem justificação e tu sabias disso, mesmo quando eu me convenci do contrario.

Não consigo calcular a dor que te causei, por isso nem me atrevo a pedir perdão por algo que nem sequer compreendo. E sabemos ambos que na verdade eu não o mereço.

Ainda assim, queria poder estar aí ao teu lado, poder suportar-te, ajudar-te, cuidar de ti.

O que te vou contar a seguir pode ser estranho, mas, uma vez que nunca vais ler isto, não vai fazer diferença.

Primeiro quero dizer-te que a tua aliança me acompanha todos os dias para onde quer que vá. Coloquei-a num fio e anda sempre junto ao meu peito.

Sabes o Homem com quem me viste a sair da festa? Não, não estou a falar dele para te magoar, embora possa parecer, mas, tenho de te contar isto. Ele chama-se Guilherme. Há uns meses atrás cruzei-me com ele por acaso… Bem, confesso, não foi por acaso. Ele tem negócios com o meu patrão, o Fernando, e cruzamo-nos quando ele foi à empresa por causa de uma reunião.

Já agora, num aparte, sim, eu agora trabalho e o Fernando, para que saibas, é o marido da Lisa. Eles têm-me ajudado muito mais do que eu acho que mereço.

Mas voltando ao Guilherme, quando nos cruzamos ele mencionou que tinha sabido o que aconteceu e convidou-me para um café, depois do trabalho, para falarmos um pouco. Acabei por aceitar, falámos, eu contei-lhe o que se tinha realmente passado, uma vez que ele não sabia mesmo, só tinha ouvido rumores e foi um bom café. Deixou-me um cartão com o contacto dele que eu não usei.

Duas semanas depois ele foi à empresa outra vez e voltou a convidar-me. Voltei a ir e mais uma vez a conversa foi agradável e soube-me bem ter alguém com quem falar.

Como ele não tinha o meu telefone, começou a ligar para o de trabalho para me convidar e estes cafés tornaram-se uma ocorrência semanal. Para te ser honesta, a determinada altura eu já ansiava por estes cafés. Não pela companhia de um homem, mas porque parecíamos estar a estabelecer uma ótima relação de amizade. Bebíamos o café e eu podia falar de tudo e ele tinha sempre um sorriso compreensivo, alguém que me encorajava. Era uma espécie de terapia para mim ter alguém com quem falar, um espelho que ouvia as minhas preocupações e os meus anseios sem julgamentos. Comecei a confidenciar-lhe os meus medos, as minhas frustrações, e ele, numa escala menor, fazia o mesmo, falando de coisas que corriam menos bem na sua vida profissional ou pessoal.

De algumas semanas para cá ele começou a convidar-me para um jantar e alguma diversão a seguir, como irmos ao teatro ou outra coisa do género. Fui sempre recusando, mas ele foi insistindo, dizia-me que eu merecia um pouco de diversão…

Curiosamente cedi hoje.

Soube-me bem arranjar-me para sair pela primeira vez em um ano. Não, se queres saber, não usei nenhum vestido mais revelador ou qualquer outra coisa especial, mas mesmo assim soube bem sair em roupas um bocadinho diferentes das que uso no dia-a-dia. Ele veio buscar-me e fomos para o restaurante. Durante a refeição notei os olhares mais insistentes dele, mas, se queres que te diga até me estavam a saber bem ao ego.

Apesar dos olhares, ele não deixou de ser um perfeito cavalheiro. Fomos ver uma peça de teatro, uma comédia, e tenho de admitir que me diverti bastante. Ri como já não me lembrava há muito. Estava a ser uma boa sexta-feira.

Saímos do teatro e ele trouxe-me a casa, fomos falando da peça que tínhamos visto no caminho, chegamos e ficamos no carro a conversar um bocadinho. Mas o olhar dele tornou-se mais penetrante e a conversa foi esmorecendo, até ficarmos de olhos fixos um no outro. Eu podia ver claramente no olhar dele o que ele queria e tenho de te confessar… Não estava ser fácil resistir. Afinal, apesar de tudo, sabes bem que sou uma fêmea de sangue quente e brinquedos e a imaginação não substituem uma presença. O álcool do jantar, a boa disposição… a solidão… estavam a deixar-me num estado em que eu não queria estar, mas por esta altura o meu cérebro gritava-me para parar, mas o meu corpo reagia e eu estava petrificada.

Mas nessa altura ele disse ‘ainda não consigo acreditar que o teu marido te tenha deixado desta maneira… Eu jamais te faria isso. Sabes, finalmente passou um ano. Podes ver-te livre desse fardo e seguir em frente, livre.’ e podes não acreditar, mas nesse momento a tua aliança pareceu ficar mais pesada à volta do meu pescoço e foi como se eu acordasse de repente de um sonho. Nesse momento creio que a minha expressão deve ter mudado bastante. Ele percebeu e tentou desdizer o que tinha dito, mas já era tarde.

Percebi ali completamente as intenções dele. Não que não tivesse as minhas desconfianças antes, mas relevava, de uma forma demasiado ingénua talvez. Acabei por lhe agradecer a noite e o tempo que tinha passado comigo, a amizade e o apoio, mas disse-lhe que era melhor não nos voltarmos a ver. Pude ver a desilusão no rosto dele, mas não insistiu, eu sai do carro e ele partiu. E ainda estava às voltas com estes pensamentos quando tive notícias de que estás a lutar pela vida.

Não posso deixar de me sentir culpada por tudo, até por tu estares aí, nesse estado.

Mas quero que saibas que tu és o meu marido, és o meu homem e podes até odiar-me ou nunca mais falar comigo, mas no que depender de mim, o nosso casamento nunca será desfeito, pelo menos até que tu o queiras. E, se tu o quiseres, não vou querer nada de ti, nem mesmo o que deixaste para trás. 

Nos últimos meses tenho trabalhado e tenho-me sustido e ganhei algum orgulho nisso.

Sei que nunca vais ler estas palavras, que não passam de um desabafo de alguém que não sabe o que fazer. Mas quero que saibas que sou, para sempre, tua. Que errei, que sou imperfeita e que o meu erro foi de tal forma grande que não merece perdão. Mas que este ser imperfeito te pertence, de corpo e alma, acredites nisso ou não.”

Acabou de escrever com lágrimas nos olhos, olhou para as folhas, onde algumas lágrimas caiam e esborratavam a tinta, amachucou as folhas e mando-as para o lixo, seguindo para o quarto onde pacientemente aguardou pelo sono que teimava em não chegar.

Foi no lixo que Patrícia encontrou as folhas quando entrou em casa no dia seguinte logo cedo, ainda a mãe dormia. Depois de as ler, com o coração apertado, endireitou as folhas o melhor que pode, passando-as a ferro para tirar a maior quantidade de vincos possível e depois dobrou as folhas cuidadosamente e guardou-as.


sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Consequências (XXIII de XLIII)



O carro começou a abrandar à medida que se aproximavam de uma carrinha trombada à beira da estrada, com algumas pessoas a fazerem sinal para pararem.

“O que é que achas?” perguntou o condutor a Miguel.

Miguel olhou em volta, tentando avaliar a situação. O transito era escasso, e não deixava de ser estranho ver uma carrinha tombada no meio do nada, mas vendo apenas dois homens na estrada a fazer sinal para pararem… Não era uma situação usual e Miguel estava apreensivo.

“Passa devagar, mas não pares.”

“Achas que pode ser alguma coisa?” Perguntou Alex.

“Não sei…”

O condutor abrandou, não parando e, quando passavam pela carrinha, de dentro dela saíram mais três homens armados que dispararam uma salva de intimidação para os fazer parar. O condutor acelerou e o carro começou a ser baleado enquanto ganhava velocidade. Enquanto ainda ganhava aceleração, um dos homens que iam no banco de trás olhavam para os assaltantes, vendo um ajoelhar-se no chão com uma bazuca no ombro. Só teve tempo de gritar “Bazuca” antes do carro ser atingido atrás, por baixo. A explosão matou um dos homens e feriu o outro gravemente ao mesmo tempo que levantou o carro no ar, fazendo-o dar uma volta e aterrando no tejadilho que, por ser reforçado, aguentou o impacto. No entanto, as janelas estilhaçaram com a pressão em excesso, deixando os ocupantes do carro, ainda abalado, praticamente expostos quando desapertavam os cintos e literalmente caiam dos seus lugares.

Os atacantes continuavam a disparar, mas por sorte o SUV tinha ficado com a traseira danificada virada para eles, e o dano acabava por encobrir os ocupantes. Miguel abriu rapidamente um compartimento da porta mais próxima, assim como todos os outros, tirando Uzis e começaram de imediato a retaliar fogo. 

Como era de esperar o mais assoberbado era Alex.

“Mas quem são estes gajos?” Perguntou.

“Provavelmente assaltantes de estrada a ver se ganham alguma coisa com um rapto.”

“Com este tipo de armamento?”

“É o que mais há por aqui. Estes tipos devem ter desertado de alguma das facções e agora andam a fazer isto. O armamento não é incomum. E isto não me parece uma operação militar ou já nos teria caído mais gente em cima.”

“E agora o que fazemos?”

“Aguentamos. O alerta já saiu quando atacaram e deve aparecer um helicóptero dentro de uns minutos.”

Embora estivessem num impasse, estavam completamente expostos, no meio da estrada. Os atacantes começaram a tentar atingir as laterais da carrinha, tentando chegar pêlos flancos o mais que podiam antes de serem visto e haver fogo em resposta. Um desses tiros fez ricochete e atingiu Alex nas costas, tirando-lhe o ar de repente.

“Fui atingido” disse, ao mesmo tempo que levava a mão às costas e sentia o sangue.

Miguel olhou para ele. 

“Porra.” Exclamou com frustração. “Estás bem?”

“Acho que não.” Respondeu Alex a sentir-se estranho. Olhou para a frente, para lá de Miguel que descurou a sua atenção por sua causa por um único momento e viu claramente um dos assaltante que ia para atirar em Miguel, vindo da lateral da estrada e disparou, vendo-o a cair de imediato. Entretanto passou um Helicóptero por cima delas, metralhando a estrada e os restantes assaltantes com uma precisão brutal, dando depois a volta para aterrar a alguns metros deles. Miguel retirava já Alex do carro, e gritava “tragam macas, temos feridos”.

Alex foi levado para o helicóptero, bem como o outro ferido grave e o soldado falecido. Miguel e os outros dois homens iam esperar por outro transporte. O Helicóptero levou-os directamente para o Hospital, onde Alex foi levado já inconsciente, de urgência para o bloco operatório, bem como o outro homem ferido.

Miguel e os outros dois homens foram trazidos logo em seguida para serem vistos, embora não tivessem nada de grave, apenas pequenos cortes e nodas negras. Depois de serem vistos ficaram, para saberem do estado do companheiro e de Alex.

O estado do companheiro, embora o prognóstico fosse ainda reservado, parecia bem encaminhado, mas as notícias de Alex não eram tão boas. Aparentemente a bala tinha-se alojado perto da coluna vertebral e era uma operação de altíssimo risco para os recursos daquele hospital, pelo que os médicos apenas o tentavam estabilizar para poder ser transferido.

Só depois de saberem as notícias e saber que teriam de esperar, os homens se permitiram finalmente pensar no companheiro que tinha falecido enquanto se sentavam numa sala de espera num silêncio pesado.


Consequências (XXII de XLIII)



Entrou no sitio combinado por volta das cinco e meia da tarde, depois de ter saído do trabalho. Guilherme já lá estava, vendo-a chegar com um sorriso.

Guilherme levantou-se e ajeitou-lhe a cadeira como um verdadeiro cavalheiro. Perguntou-lhe o que ela ia querer e pediu de imediato a uma empregada antes de se sentar novamente.

“Estou feliz por teres aceite este convite.”

“Eu é que agradeço. Não tenho saído muito e não tenho grande coisa à minha espera em casa…”

“Não tens de agradecer.” Respondeu ele com um sorriso 

O café dela chegou e foram falando algum tempo do trabalho dela e de como tinha ido parar à firma de Fernando. Após algum tempo de conversa de circunstância e estando Marie já mais à vontade, foi Guilherme que finalmente tocou no assunto.

“Desculpa estar a falar nisto, mas soube que algo não tinha corrido bem e que estavas com problemas. É verdade?”

“É, é verdade.”

“Eu vi que estavas preocupada quando lhe ligaste pela primeira vez, no Sábado de manhã, mas depois pareceste ficar mais descansada.”

“Pois, mas o problema começou a revelar-se logo a seguir a deixares-me em casa. Arrancaste, eu dirigi-me à porta, entrei, não encontrei o Alex e liguei-lhe… E o meu mundo colapsou aí.”

“Mas o que é que aconteceu na realidade?”

Marie passou algum tempo a explicar tudo desde o começo. Guilherme ia ouvindo Marie com atenção, mas sem dar opiniões ou tentar dizer alguma coisa. Simplesmente ouvia. Quando ela acabou, ficaram os dois em silêncio por algum tempo até Guilherme dizer finalmente.

“Não fazia ideia de que se tinha passado isso tudo. Se eu soubesse, tinha virado o carro ao contrário e tinha ficado contigo.”

“Nem tu, nem eu. Para mim foi um choque. Sabia que o Alex ia ficar chateado comigo durante algum tempo, contava com isso. Mas nunca por nunca esperei que ele, de um momento para o outro me abandonasse e fosse para o outro lado do mundo.”

“Mas onde é que ele está?”

“Não sei. Ele nem aos filhos diz. Já os levou uma vez para o Chipre, para umas miniférias, mas não lhes diz onde está.”

“Para tu não saberes?”

“Não! Sabes, os meus filhos sabem que partilharem comigo o que não devem nunca mais saberão nada dele. Não creio que eles saibam mesmo. Ele diz que está numa zona de conflito e que não quer preocupá-los mais.”

“Numa zona de conflito?”

“Sim, provavelmente a gerir alguma coisa no meio de uma guerra qualquer…”

“Pois. Complicado. E tu, como é que estás a lidar com isto?”

“Olha, estou a levar a vida para a frente. Ele deixou algum dinheiro na nossa conta conjunta, mas só para eu poder fazer face a algumas despesas imediatas e eu tive de arranjar um trabalho para poder pagar as contas e manter um telhado por cima da cabeça.”

“Bem, e foste trabalhar para o Fernando…”

“Sim. Mas não foi por acaso.”

“Não? Porque é que dizes isso?”

“Porque foi a Lisa que foi sorteada com o Alex.”

Guilherme não pode deixar de rir.

“Que confusão… Sabes que a Lisa e o Fernando não foram à ultima reunião, e pelo que soube da minha mulher, não vão voltar.”

“Sei. Acho que isso também foi resultado diste situação…”

Guilherme simplesmente anuiu.

“Mas, no meio disto tudo, estás bem?”

“Não. Para te ser franca, ainda me sinto perdida.”

“E eu, agora ainda me sinto mais culpado.”

“Não sintas. Tu, tal como a Lisa, não tens culpa de nada. Vocês só foram apanhados nisto porque o vosso numero saiu. Não creio que sequer o Alex olhasse para ti como culpado de alguma coisa. A culpa é só minha.”

Caiu um silêncio pesado entre os dois. Foi Marie quem o quebrou.

“Se calhar é melhor eu ir indo…”

“Posso dar-te uma boleia, se quiseres.” 

“Obrigada, mas não, não é preciso.” Respondeu Marie com um sorriso. Fez menção de se levantar e Guilherme levantou-se de imediato, e, antes de se despedirem deu o seu cartão a Marie.

“Tens aqui os meus contactos. Se precisares de alguma coisa, alguém com quem falar, sair para te distrair, companhia… Estou à distância de um telefonema.”

“Obrigada, Guilherme.”

Saíram os dois do café, seguindo cada um para seu lado.