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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Nmismo: Os Tugos e o grande reino da Arabutã (continuação)


O chamado reino de Arabutã tinha muito espaço livre! Mesmo muito! Tinha tanto espaço livre que não tardou muito a que os Tugos, confinados a um pequeno rectângulo de terra nos confins dos reinos do meio (embora na altura ainda ninguém chamasse reinos do meio aos reinos do meio, uma vez que to-dos achavam que os reinos do meio estavam numa ponta), começassem a ser lá despejados e começas-sem a fazer quintas para produzir cevada com fartura. Ainda assim, a capacidade dos barcos que fizeram as primeiras travessias dos mares de Atlén não eram muito grandes, para além de que a viagem durava semanas e era perigosa! Assim sendo, viraram-se para os vermelhos locais como força de trabalho!

Os vermelhos nunca haviam trabalhado um dia da sua vida! O mais próximo do conceito era caçar, e mesmo isso era feito apenas em caso de necessidade. As florestas providenciavam tudo o que necessitavam.

Ainda assim, alguns foram forçados a experimentar trabalhar, mas não gostaram! Quiseram obriga-los à força a trabalhar, mas eles continuaram a não gostar! A dada altura começaram a refugiar-se nas florestas, de onde saiam apenas para roubar produto da destilação da cevada! É que eles acabaram por se tornar os Nmistas mais que perfeitos. Cumpriam o ritual todos, mas mesmo todos os dias. Pior, até as mulheres cumpriam o ritual, coisa inédita até então…

Consequentemente, os Tugos chegaram à conclusão de que não os deviam incomodar e Arabutã de-morou muito, mas mesmo muito tempo a encher, sobretudo de povos Bárbaros que eram convidados nos reinos do sul a promissoras carreiras enquanto trabalhadores agrícolas em troca de cama, mesa e jogos de sado-masoquismo. Digamos que os Bárbaros não ficavam muito contentes, para espanto dos Tugos, que não percebiam o porquê…
Entretanto, o filho de um dos Reis dos Tugos acabou por ir para Arabutã e, lá chegado, declarou que seria imperador de lá do sítio e que Arabutã deixava de pertencer aos Tugos. Embora nunca ninguém tenha percebido o porquê, além da mania das grandezas do rapaz, a coisa acabou por ficar assim e todos os que lá estavam passaram a ser designados por Aranbutaneiros, o que era complicadíssimo de dizer, mas ainda assim, foi o que ficou!
Durante os séculos que se seguiram, até ao grande cataclismo, os Aranbutaneiros e os Tugos sempre se acharam povos irmãos, o que muito divertia as outras nações. Todos os outros diziam “são povos irmãos porque podemos escolher os amigos ou os aliados! Já a família…”
E foi assim que nasceu e se estabeleceu o reino de Arabutã, mas ainda haviam de se passar alguns séculos até que a história mais influente deste reino acontecesse…

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Nmismo: Os Tugos e o grande reino da Arabutã

Como já foi afirmado exaustivamente, mas convém sempre reforçar, os Nmistas não pensávam! Os Radicais radicalizavam esta proposição, fazendo do não acto de não pensar uma refinada arte, aprimorada ao longo das suas vidas. Enquanto jovens eram castigados assim que se lhes apresentava no espírito qualquer resquício de um pensamento, e isto fazia deles adultos não pensantes, coisa de que se orgulhavam! Aliás, o prestigio social entre os radicais media-se exactamente pela capacidade de não pensar.
Para terem uma ideia mais ou menos concreta do que eram os reinos, impérios e republicas radicais, aquilo era uma espécie de Rússia, mas numa versão a esteróides!

Depois havia os Racionalistas Absolutistas que, embora não pensassem, raciocinavam, meditavam, cogitavam…
…e a vida era mais simples para eles, um bocadinho menos caótica…

Mas, muito antes do estabelecimento dos reinos Racionalistas Cientologistas e das guerras que os baniram, já aqui relatadas, muito antes do tempo a Mattatturru, filho de Matturru, o grande rei da Lupolândia, muito antes de Uruk, o pequeno, séculos antes de Balbaaq, o asqueroso, ter pisado o mundo, muito antes das três correntes Nmistas se terem separado, estas três correntes equiparavam-se a classes sociais, sendo os radicais os mais numerosos, Os absolutistas uma espécie de elite, e os cientologistas a elite da elite!

Mas isto numa época em que se acreditava que o mundo era plano e que o Sol era uma enorme lanterna arrastada por um carro de bois no céu, conduzido por um qualquer Deus inominável, uma vez que as crenças religiosas desses tempos acabaram por se perder nas trevas do tempo.
Nessa altura o grande mar de Atlen ainda não tinha sido atravessado, e consequentemente os Méricos ainda não existiam…
…ou por outra, existiam, mas estavam lá quietos na vida deles e não se chamavam a eles próprios de Méricos.

Foi por esta altura que a Tugalândia se constituiu, bastante contra a vontade dos reinos vizinhos que não viram aquilo com muito bons olhos, sobretudo os Hiberes, a quem as terras pertenciam! A coisa foi tal que, séculos depois, aquando do grande cataclismo, ainda existiam disputas territoriais entre as duas nações!

Um dos cientologistas Tugos, Mareas, o Nauta, assim chamado porque enjoava cada vez que punha os pés num barco, achou que se devia saber o que estava nos limites do mundo. As lendas afirmavam que só havia dragões e outros bichos esquisitos, mas como nunca ninguém tinha visto um dragão ou coisa que sequer se parecesse (o mais perto era um crocodilo, mas nunca ninguém tinha visto um a cuspir fogo, além de Benzequias, o Tretas, a quem ninguém dava qualquer crédito, sobretudo após as sessões Nmistas de sábado à tarde) Mareas não acreditava muito que a realidade fosse como as lendas afirmavam! Assim, após chatear a cabeça de seu tio, Colonus, o Lavrador, assim chamado porque tinha uma enorme quinta para as bandas de Idevê-Las que era a sua verdadeira paixão e para onde ia cultivar batatas e couves sempre que podia, durante anos, lá conseguiu que este lhe oferecesse um barquito e financiasse uma expedição ao fim do mundo!

Ora, como sabemos hoje em dia, o mundo é redondo, pelo que nunca conseguiram cumprir o objectivo, mas após terem descoberto uma catrefada de ilhas que ninguém sabia que existiam, fazendo da expedição um sucesso, outras vieram, alargando o mundo consideravelmente, até que chegaram a um sítio por demais interessante! Quando chegaram apenas viram florestas a perder de vista e resolveram chamar de Arabutã ao local! Só mais tarde descobriram que aquilo afinal tinha lá gente, que eram vermelhos, e ficaram cheios de inveja porque os homens de lá não precisavam de fazer a barba!


Rapidamente estes povos vermelhos aderiram ao Nmismo. Bastou-lhes provar o produto da destilação da cevada em recipientes de sílica fundida (a nomenclatura de “caneca” só foi inventada mais tarde), uma vez que mesmo antes de lá chegar o Nmismo eles já não pensavam…

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Nmismo: as mudanças do paradigma Nmista (continuação)

Foi também nesta altura, depois de descobrirem que o mundo era redondo pela simples constatação de que se se andasse a direito sempre na mesma direcção sem acabava no ponto de partida (facto este que foi constatado por Arius, o Errante, segundo as lendas) que resolveram dividir o mundo em várias zonas, conforme os pontos cardeais.

Assim sendo, as terras do meio e as que ficavam para lá do mar de Atlen passaram a ser conhecidas como Ocidente e todos os territórios a leste como Oriente!

Nessa altura os Méricos impunham-se cada vez mais como uma potência global e, numa tentativa de tentar equilibrar a balança, os reinos das terras do meio resolveram juntar-se numa federação, o que pareceu uma boa ideia a toda a gente, menos às pessoas que lá habitavam!

A verdade é que, muito antes de se ter feito a travessia do mar de Atlen e de se ter chegado ao estremo dos orientes, as terras do meio foram protagonistas de imensas guerras, tendo as mais recentes culminado com a quase extinção da corrente cientológica. Mas mesmo antes do Nmismo se ter imposto, eram frequentes as escaramuças e mesmo as guerras abertas nesta região! O resultado é que, embora hoje em dia todos coabitassem pacificamente, ninguém gostava de ninguém! Ora, uma federação onde a união é imposta não tem condições de se conseguir aguentar!

No entanto, havia enormes vantagens comerciais numa união e, como tal, caminhou-se nessa direcção, embora já ninguém ousasse falar de uma federação, que não era bem vista pela maior parte da população!

E foi assim que se avançou para esta ideia no pressuposto de que todos seriam iguais, e o povo dos reinos mais pobres aplaudiu esperançado! Mas, como costuma acontecer nestas coisas, eram todos iguais, mas uns eram mais iguais que outros!

Felizmente, devido aos preceitos Nmistas, ninguém pensava nisto! E durante alguns anos a união foi progredindo.
No entanto, cada vez mais havia uma centralização de poder que deixava os povos descontentes e muita gente começou a perguntar-se se a união teria sido assim tão boa ideia!
Até que um dia, por imposição central, impuseram uma rígida cota de produção de tremoço à ilha reino de Saxus, do qual era rei Gordius, o Castanho!

Isto fez de imediato aumentar o preço do tremoço, uma vez que os Saxius passaram a ter de o importar, o que foram excelentes noticias para Germius, mas más para Saxus!
Descontentes com a situação, Gordius, o Castanho, exigiu que fossem levantadas tais restrições, mas tal não lhe foi concedido. Como resultado começou a enfrentar uma cada vez maior pressão interna, isto apesar de tentar reforçar junto do seu povo as vantagens de pertencer à União das Terras do Meio como era formalmente conhecida!

Ainda assim, começaram a haver motins por toda a parte, devido ao elevado preço dos tremoços e, por fim, ele teve de se curvar e resolveu perguntar ao povo o que fazer!
Contrariamente ao que toda a União esperava, o povo escolheu não fazer parte da União!
Esta situação acabou por fazer com que outros povos lhes quisessem seguir o exemplo, libertando-se assim de regras impostas e restringindo o acesso aos seus recursos e a união acabou por se desfazer, para prejuízo de todos…

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Nmismo: as mudanças do paradigma Nmista

As descobertas de Uruk, o Pequeno, desenvolvidas por Matatturru, filho de Maturru, antes deste se vir a tornar o mais reverenciado rei da Lupolândia, iniciaram uma verdadeira revolução no Nmismo.
Não foi preciso mais do que uns séculos para o Nmismo se expandir ainda mais e se tornar uma verdadeira civilização global. O Nmismo deixou de ser a principal civilização do mundo conhecido para se tornar a principal civilização do mundo, porque entretanto que que era desconhecido deixou de o ser ao longo daquele que ficou conhecido como o século Nmista das luzes!

Claro que isto não foi completamente isento de problemas nem a maravilha que os leitores podem estar a imaginar! Não foi uma utopia…
No fundo, dentro do mundo Nmista, voltaram a coexistir três correntes de pensamento, visto que Matatturru voltou a inserir a corrente cientológica no seu reino e, sendo o seu reino o mais poderoso do mundo à altura, devido ao lúpulo, os Absolutistas e os Radicais tiveram de se curvar.

Os desenvolvimentos por que o mundo passou fizeram com que reinos quase sem importância, sendo o principal deles Citrix, que era governado por Acidius, o Vitaminado, ganhassem estatuto durante algum tempo, quando viram as suas produções de limões atingirem preços nunca vistos, uma vez que produziam o melhor sumo para potenciar as baterias de Bagdad! Ainda assim, rapidamente se descobriram novas formas de produzir energia, a maior parte delas de forma mecânica o que culminou numa era industrial e num progresso tecnológico sem precedentes.

Mais ou menos trinta anos após a coroação de Matatturru foi inventada uma máquina capaz de transferir para um gráfico em papel as batidas cardíacas. O autor da invenção recusou qualquer crédito pela mesma, motivo pelo qual o seu nome ficou perdido na história, apontando para os antigos textos e afirmando que aquele era o electrocardiografo. Através de intrincados mecanismos, a corrente das baterias de Bagdad conseguia amplificar as batidas cardíacas permitindo verificar se algo estava vivo ou morto. Foi por este motivo que a corrente produzida pelas baterias se passou a designar de eléctrica.

Não muito tempo depois apareceu o electroencefalografo, o que foi visto como um triunfo da corrente cientológica, mas começou a causar graves problemas! A confecção de comida tornou-se algo de moroso e complicado devido ao facto de finalmente se poder cumprir todos os preceitos.
Foi por esta altura que se começaram a dar episódios como o de Zeferino de Arronches, mencionado no princípio destes textos.
Mas, aparte estes percalços, tudo parecia correr bem.

O facto de o comercio se globalizar começou a forçar os pequenos reinos a unirem-se para poderem competir o que redesenhou por completo o mapa do mundo. Algumas destas uniões deram problemas, devido à competição desmedida entre regiões que culminaram em guerras mais ou menos localizadas a principio, mas que acabaram por levar a duas guerras que envolveram por completo o mundo…
…apenas os Bárbaros e os Selvagens, cada vez menos presentes no panorama global, se mantinham à parte de tudo isto…

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Alguns casos interessantes da História Nmista

O reino de Ofídeum estava a braços com um grave problema.
Por todo o lado apareciam serpentes que atacavam indiscriminadamente tudo o que se mexesse.
O problema era tão grave que começou a ganhar contornos de uma epidemia.
Como tal, Viburus, o Bifurcado, rei de Ofídeum, achou boa ideia oferecer recompensas pelas cobras que fossem mortas e entregues.
Ora, a recompensa que era oferecida era muito superior ao custo de criar uma serpente. Os aldeões, através de um raciocínio lógico, aperceberam-se que se criassem serpentes poderiam ter um bom lucro. A consequência foi que um número espantoso de serpentes começou a ser entregue.
Quando Viburus, o Bifurcado, percebeu o que se passava deixou de imediato de oferecer as recompensas.
Os aldeões, por seu turno, ficaram com montanhas de serpentes para as quais não tinham qualquer uso. Como tal, soltaram-nas.
O resultado foi uma epidemia ainda maior de serpentes!



O presidente dos Méricos, Propélius, o Touro, faleceu quando se dirigia à varanda do seu gabinete presidencial para presidir sobre os festejos do dia do peru. Tropeçou no seu vice-presidente e ex-colega de equipa de “Arremesso do Anão”, Nanius, o Entanguido, e caiu da varanda!


Aquando do começo da guerra civil no império Atlénico, um lago entre Faboideae e Messe, numa zona remota, era patrulhado apenas por dois barcos, um de cada nação!
Os comandantes dos barcos eram amigos de longa data e juntavam-se frequentemente para beber produto da fermentação da cevada.
Quando estalou a guerra civil, o capitão do barco de Messe foi informado primeiro que o imperio caía e que as reinos estavam em guerra. Zarpou de imediato, atravessando o lago e abordou o barco do amigo, capturando toda a tripulação. Quando o capitão do barco de Faboideae apareceu, ainda em ceroulas, a perguntar-lhe se ele por acaso se tinha rendido aos costumes dos Selvagens para estar a fazer semelhante coisa, foi informado que estava agora prisioneiro de guerra.
Em seguida ambos os capitães foram beber produto da fermentação da cevada!


Cirurgix, o Cortador, era um médico de guerra que conseguia fazer amputações em tempo record.
Um dia, numa demonstração da sua técnica, ao amputar a perna de um soldado ferido em batalha em pouco mais de 5 segundos, cortou também os dedos do seu assistente.
Aparentemente a operação foi tão chocante que uma das pessoas da assistência teve um ataque e morreu, bem como o paciente e o assistente, vitimas de infecções.
Até hoje é o único médico que conseguiu ter uma taxa de mortalidade de trezentos por cento numa operação!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Nmismo e as secas de Sábado à tarde (continuação)

Se é verdade que a modalidade empilha-recipientes-de-sílica-fundida (que mais tarde, para grande alívio dos adeptos recebeu o nome de empilha-canecas para regozijo dos praticantes) era a modalidade mais praticada, levando a que houvesse competições locais, mais tarde regionais e tivesse chegado ao ponto de haver ligas nacionais e mais tarde globais, tendo sido Apinhos de Encastilus talvez o mais famoso praticante, campeão mundial consagrado por sete vezes consecutivas, uma outra modalidade apareceu na cidade de Arrogia que ganhou uma devoção ímpar. De tal forma que, apesar de ser uma modalidade que nasceu nos Templos dos Três Sábios, foram construídas mais tarde arenas inteiras, dedicadas aos Três Sábios, onde não só se podia praticar os rituais mais também assistir a este desporto.

A modalidade tinha o sui generis nome de Arremesso do Anão, que no fundo é auto-explicativo.

Era um desporto de equipa, em que as equipas eram formadas por dois elementos, normalmente um anão e um daqueles tipos que mais pareciam um boi do que um homem. Os anões eram pesados sempre antes de cada prova, porque havia regulamentos em relação ao peso de cada anão para ninguém sair beneficiado.
O outro membro da equipa pegava no anão e tinha de o lançar o mais longe possível para cima de um colchão. Um juiz verificava o local onde o anão tinha batido no colchão e, obviamente, ganhava a equipa em que o anão fosse lançado mais longe.

Se hoje em dia um desporto destes pode ser visto como algo que diminuiria as pessoas que sofrem de nanismo, como preconceituoso ou ofensivo, a verdade é que não faltavam anões a oferecerem-se para este jogo que se tornou tão popular que os praticantes gozavam de um prestígio que transcendia o de alguns Reis. Que o diga Propélius, o Touro, assim chamado porque além do seu tamanho e força descomunais ainda usava em elmo enfeitado com chifres, que, devido à sua enorme popularidade, chegou a presidente dos Méricos, tendo o seu colega de equipa como vice-presidente, Nanius, o Entanguido.

O jogo ganhou ainda um outro impulso pouco tempo depois de Velcrus, o Pega-Monstro, assim chamado porque era um chato do caraças que aparecia em todo o lado sem ser convidado e se fazia de convidado quer o quisessem lá ou não, ter inventado dois tecidos que se agarravam um ao outro com uma firmeza impressionante.
Era feito um enorme alvo com um dos tecidos e um fato para os anões noutro e estes, quando arremessados ficavam colados ao alvo, sendo a pontuação medida pela pontaria ao centro do alvo.
Já tinham feito o mesmo com flechas, mas não tinha a mesma piada…

Grandes campeonatos se espalhavam pelo mundo Nmista e mais além, tendo os Selvagens e os Bárbaros adoptado também este desporto, e foi assim que os Sábados à tarde deixaram de ser uma interminável seca, excepto para os Nmistas Radicais, o que permitiu ao Nmismo Racionalista expandir-se e afirmar-se.

Claro que hoje em dia este tipo de desportos seria impensável…

terça-feira, 17 de maio de 2016

O Nmismo e as secas de Sábado à tarde

Como já foi referido bem lá para trás, uma das coisas que levou a que os Radicais ganhassem um fervor quase religioso em relação ao Necrofagismo Macrobiotico Existencialismo foi o facto de as tardes de Sábado serem incrivelmente chatas! Bebiam, comiam tremoços e ficava-se por aquilo. Alguns ainda tentaram fazer outras coisas, como falar, mas descobriram que aquilo era uma armadilha…
…Afinal, começavam a falar de trivialidades e quando davam por isso estavam a pensar, o que implicava em pesadas penitências! Aliás, as penitências eram de tal forma cruéis e desumanas que acabaram por nunca ser mencionadas nos escritos.

Mas se os radicais se radicalizaram, o resto do mundo não estava disposto a isso.
Foi Vigurax, o Robusto, ilustre filósofo Nmista, quem começou a dar um sentido a esta preocupação crescente, percebendo que a mesma era um perigo para o Nmismo. Se tudo continuasse como estava, muitos dos reinos Nmistas deixariam de o ser, arranjando algo mais interessante para fazer nos Sábados à tarde.
Mas, apesar de se dedicar a filosofar, meditar, discorrer, conjecturar, cogitar, considerar, supor, presumir e calcular uma série de aspectos importantes nesta questão, não foram os seus esforços que resolveram o problema, embora tenham sido fundamentais para se perceber que havia um problema!
Como todos os grandes saltos à frente, tudo aconteceu por acaso, no Templo dos Três Sábios da cidade de Agregos no distante reino de Encastilus, cujo rei, àquela altura, era Empilhus, o Amontoador.

Conta-se que foi aí que um grupo de homens, já bastante aborrecidos numa tarde de sábado qualquer, começaram a fazer apostas acerca de quem conseguiria empilhar mais recipientes de sílica fundida (na altura o nome “caneca” ainda estava longe de vir a ser utilizado) num formato piramidal.
Quando a notícia chegou aos ouvidos de Vigurax, o Robusto, já há muito tempo que ele se debruçava sobre o problema do aborrecimento e percebeu de imediato que a resposta ia por aquele caminho.
Daquele momento em diante passaram a ser encorajadas estas e outras actividades que causassem algum entusiasmo sem que fosse necessário pensar.

O empilhamento de recipientes de sílica fundida passou a ser uma das actividades mais praticadas no mundo Nmista e não teve qualquer competição durante algum tempo até que, sem se saber muito bem como, apareceu em cena aquele que seria o desporto Nmista preferido…

Os Méricos (continuação)


A guerra civil Mérica lá acabou com uma vitória da facção do norte, liderada por Abraão, o Barbudo! Aquilo até podia ter trazido paz à terra, mas não trouxe porque os Méricos eram casmurros como só eles. Mas, numa nota positiva, deixaram de andar à porrada uns aos outros abertamente!

Os Méricos, além de casmurros, não eram brilhantes! Isso só por si, levando em conta quem continuamente povoava a Mérica, não era surpreendente! No entanto eram espertos o suficiente para perceber que não eram brilhantes. Como tal, importavam pessoas brilhantes de outros países e, assim que os apanhavam lá, tornavam-nos Méricos.

Isto levou a que a Mérica se transformasse numa sociedade com alguns distúrbios bipolares! Por um lado havia o grosso da população que não era propriamente brilhante. Eram razoavelmente honestos, pelo menos a maioria, eram trabalhadores esforçados, pelo menos alguns, eram homens e mulheres de fibra, porque não tinham outro remédio, mas não deviam muito à inteligência.
Por outro lado, havia toda uma classe dirigente importada, com algumas pessoas de intelecto superior e que, praticamente sozinhas, fizeram a Mérica avançar e prosperar!

Se as outras nações já despejavam gente na Mérica que era um disparate, quando a Mérica se tornou prospera todos para lá queriam ir. Espalhou-se pelo mundo a ilusão de que a Mérica era uma espécie de terra prometida, que qualquer um que fosse para a Mérica poderia ser bem-sucedido, que a Mérica era a terra dos sonhos e das oportunidades.
Os jovens dos reinos radicais, por exemplo, tentavam de todas as formas cumprir o sonho e ir para a Mérica como sonho supremo de rebeldia.

Mesmo na fronteira sul de Mérica havia um território enorme chamado Agávius, terras dos povos mais selvagens entre todos os povos selvagens. Eram tão selvagens, mas tão selvagens que a bebida que eles faziam, produto da destilação da fermentação do sumo de um cacto chegava a ser tão forte que após um trago era possível ver elefantes voadores cor-de-rosinha a saltar levemente de nenúfar em nenúfar através dos lagos. Era tão potente que, depois de a beber havia quem afirmasse ter visto Deus, embora ninguém se lembrasse nunca de como ele era, excepto pelo facto de ser mesmo, mas mesmo muito grande! Era tão potente que havia quem afirmasse que em bebê-la se poderia chegar à unicidade com o Universo…
…Haver, havia, mas que se saiba nunca ninguém lá chegou mas todos tinham valentes ressacas depois de tentarem. Era tão potente que todos os que a bebiam juravam no dia seguinte que nunca mais beberiam uma gota, marcados pelo arrependimento atroz e que durava, normalmente, até ao fim da tarde, altura em que já se tinham esquecido das promessas da manhã.
O sucesso de Mérica levava a que enormes quantidades de Agavianos tentassem de todas as maneiras possíveis emigrar para lá. Mas com o seu enorme sucesso, com tanta procura, algo que não deixava de ser irónico, visto que foi uma nação fundada por quem não queria para lá ir, Os Méricos começaram a não deixar que lá entrasse toda a gente, mas apenas quem lhes convinha. Mas isso não impedia os Agavianos de tentarem de todas as maneiras possíveis.

Isto começou a ser um problema, sobretudo quando os próprios Méricos começaram a acusar os Agavianos de lhes roubar os trabalhos que eles não se dispunham a fazer de qualquer maneira.
Queria isto dizer que, apesar da evolução de Mérica enquanto nação, os Méricos continuavam a não ser brilhantes! Isto reflectia-se, sobretudo, na sua escolha por governantes. Se durante bastante tempo escolhiam pessoas proeminentes, heróis da nação, generais com provas dadas nos campos de batalha, chegou a uma altura em que escolhiam os governantes mais pela sua figura e popularidade do que por capacidades comprovadas.
E foi assim que um dia chegou à presidência Trumphas, o Descabelado!

Trumphas, o Descabelado, era um estalajadeiro que conseguiu fortuna criando uma rede de estalagens. Depois foi investindo e diversificando, conseguindo sólidas posições na produção se cevada e tremoço o que aumentou o seu pecúlio para níveis quase obscenos. A única coisa que lhe faltava era poder político, e usou de todas as armas que tinha à disposição para ser eleito, sobretudo o medo que os Méricos sentiam de serem invadidos por populações Bárbaras ou Selvagens. Apresentou-se como uma alternativa aos que faziam da política uma carreira e foi eleito porque afirmava que queria uma Mérica diferente! Uma Mérica mais em contacto com o seu povo. Uma Mérica mais voltada para si. Uma Mérica que valorizasse os Méricos!
Uma vez eleito, mandou Fazer um enorme muro a toda a volta de Mérica para impedir que lá entrasse fosse quem fosse! A Mérica era dos Méricos!

O problema que teve foi que, graças à Nascença Nmista, o mundo estava cada vez mais pequeno. As diferenças entre Nmistas e Bárbaros esbatiam-se e, mesmo com os Selvagens, à excepção de uns quantos conflitos que tinham origem sobretudo no negócio do contrabando de tremoços, havia uma paz relativa e uma cada vez maior abertura!
Mas a Mérica fechou-se!
Mais, expulsou todos os que não eram Méricos.

Foi então que a Mérica colapsou. Uma vez que eram maioritariamente os Agavianos que faziam os trabalhos que os Méricos não queriam fazer, uma vez expulsos levaram o seu conhecimento de volta para Agávius enquanto a Mérica se tornou no local mais sujo e nauseabundo do mundo Nmista. Isto levou a que, progressivamente, As terras fossem sendo abandonadas.
Já bem perto do grande cataclismo, os únicos que ainda viviam em Mérica eram os descendentes dos que já lá estavam antes de Mérica ter sido fundada…
…e esses refutavam acerrimamente quando os chamavam de Méricos!

E quanto a Trumphas, o Descabelado? Bem, esse ficou para a história como um exemplo do que a falta de noção pode fazer a uma grande nação!
A história de Mérica foi contada por gerações como o pior exemplo daquilo que uma democracia pode fazer a um grande país, sobretudo se os seus governantes não forem, no mínimo, brilhantes…
…Coisa que, como sabemos, os Méricos não eram!

segunda-feira, 9 de maio de 2016

As baterias de Bagdad (continuação)

-Que estranho fenomeno trazes até mim, Matatturru, filho de Matturru? Como é possível fazer tal coisa?
-Mestre, vós não o sabeis, estais aqui neste modesto exílio há muito tempo, e pouco sabeis do mundo.
-Falas a verdade meu discípulo.
-Deixai-me então contar-vos esta história. Nas minhas deambulações pelo mundo foram muitas as vezes que passei na cidade de Correntia, porque esta se encontra numa encruzilhada de caminhos, como sabeis. No entanto a Correntia de hoje nada tem a ver com a cidade dos tempos antes do vosso exílio.
É uma cidade que se expande, vibrante, pela força do comércio. A Rainha Cintilátia, a Resplendorosa, encoraja o crescimento, é uma grande patrona das artes e tem encorajado novas ideias e a renovação na cidade é espantosa! As praças têm fontes de onde a água jorra de estátuas tão perfeitas que parecem vivas, as ruas são pavimentadas e limpas e largas o suficiente para que quatro carroças possam andar lado a lado. Os mercados estão cheios de iguarias locais e exóticas vindas de todas partes do mundo.

Tive o privilégio de assistir a este crescimento ao longo dos últimos anos, por lá ter passado tantas vezes. Cintilátia, a resplendorosa, é amada pelo seu povo e respeitada por todos os outros reinos.
Na primeira vez que lá estive as baterias fizeram sucesso, sobretudo entre os mais jovens. Quase todos gostam da impressão na língua…
-É natural… - disse o mestre, não sem uma nota de orgulho na voz.
-Já na segunda vez que por lá passei vi algo que me desconcertou. Os jovens tinham descoberto que poderiam aumentar a sensação usando múltiplas baterias, de que que fossem interligadas. Quando vi tal coisa nem podia acreditar.
-Mas não poderiam tê-lo feito apenas maior?
-Pois que já há muito os Radicais de Colossium o haviam tentado, mas na realidade o efeito não foi diferente… Mas quando em Correntia juntaram várias, isso aconteceu. Intrigado com aquilo, comecei a fazer experiências. Descobri que alguns materiais não servem. A madeira, por exemplo, não funciona. Mas os metais funcionam, daí as ligações por cobre, visto que é fácil ser moldado. Durante anos, à noite, quer estivesse numa estalagem algures no mundo, ou numa tenda, fui conduzindo experiências e comecei a reparar que a partir de um certo número de baterias, não só o formigueiro se tornava intenso como quando aproximava os fios de cobre produzia-se um pequeno clarão entre os dois. Quantas mais baterias, mais intenso o clarão.

-Achei isso curioso há pouco, quando haveis largado o pedaço de ferro…
-Exacto. O que vos fez lembrar?
-Um raio num dia de trovoada!
-E foi quando meditei sobre o que via que cheguei à conclusão que talvez fosse mesmo. Reparai no vosso criado… - o pobre coitado acordara e levantava-se com todo o cabelo eriçado – …onde haveis algum dia observado algo que fizesse isto ao cabelo de alguém?
-Quando se está demasiado próximo de um raio que cai numa trovoada! Pelos Três Sábios. Falais a verdade! Mas, e essa coisa do ferro incandescente?
-Bem, quando há um número suficiente de baterias ligadas, reparei que o ferro aquecia quando em contacto com os dois lados. Mas se fosse muito fino derretia com um pequeno clarão e se fosse muito grosso só ficava quente, mas quando tem a proporção ideal fica assim, incandescente!
-E que utilidade prática descobristes para isso?
-Torna fácil acender fogueiras!
Uruk, o Pequeno, matutou.
-Mas não é muito prático, pois não?
-Não, mas funciona…

Ficaram, ambos os dois, em conjunto um com o outro, em dualidade, mergulhados numa longa meditação. Para ajudar, Uruk, o Pequeno, pediu a um criado – um diferente do que tinha desmaiado, porque o pobre Bárbaro tinha receio de voltar a entrar na sala - para trazer produto da fermentação da cevada em recipientes de sílica fundida a que Matatturru, filho de Matturru chamava agora de canecas, bem como dois pires de tremoços. Uruk, o Pequeno, ficou surpreendido com o nome que Matatturru dava aos recipientes.
-Canecas?
-Sim, é como são chamadas na maior parte dos lugares. Foi um costume que se disseminou da cidade de Polo.
-Da cidade de Polo? Mas como, se eles não pensam, pelos três Sábios…
-Não foi ideia deles. Foi um forasteiro que passou por lá e deu esse nome, e eles acharam que era mais simples que dizer “recipiente de sílica fundida”!
-Pois… Agora que falais nisso, sabeis que nome os Bárbaros destas terras dão ao produto da fermentação da cevada?
-Nome? – Perguntou Matatturru, filho de Matturru. Nunca lhe ocorrera que a bebido pudesse ter outro nome!
-Cerveja!
Matatturru, filho de Matturru acenou com a cabeça e sinal afirmativo.
-Soa bem! Que dizer que isto que está na minha mão é uma caneca de cerveja!
-Nem mais!
-Parece-me bem. Doravante chamar-lhe-ei assim!
E mergulharam novamente numa meditação silenciosa.

Ao fim de muito tempo, vários pires de tremoços e muitas canecas de cerveja depois, Uruk o Pequeno pediu:
-Podíeis mostrar-me o que acontece com um ferro mais fino?
Matatturru, filho de Matturru assentiu em silêncio e assim o fez. O ferro aqueceu rapidamente, ficou em brasa até ficar quase branco, irradiando bastante luz até que, simplesmente, derreteu.
-Como podeis ver, queimou-se!
Uruk, o Pequeno, assentiu. Mas depois perguntou:
-E o que aconteceria se não se pudesse queimar?
-Como assim?
Uruk pegou numa caneca, virou-a ao contrário e colocou-a por cima de uma vela que os iluminava. A chama da vela tremeluziu e depois apagou-se!
-Se não houver ar, o ferro não se pode queimar!

Animados com a ideia começaram a fazer algumas experiências. Arranjaram um círculo de cortiça para vedar a caneca, atravessaram-no com dois fios de cobre onde puseram uma barra de ferro fina e encostaram os fios aos que vinham das baterias. As primeiras experiências resultaram em fracasso, mas, à medida que foram ajustando a grossura do ferro, foram tendo resultados bastante diferentes.
Dois dias depois, após inúmeras tentativas, quando parecia que iam fracassar novamente, o ferro que estava quase a derreter não o fez completamente, a chama extinguiu-se, o ferro ficou brilhantemente incandescente, com uma luz amarelada mais forte que vinte velas.

E foi assim que foi descoberta a primeira lâmpada eléctrica.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

As baterias de Bagdad

Naqueles dias, após anos de viagens pelos quatro cantos do mundo Nmista, da cidade de Polo à cidade de Stix, do deserto de Shamar até aos longínquos reinos para lá do mar de Atlen, Matatturru, filho de Maturro o grande rei da Lupolândia e um dos dois últimos Nmistas Racionalistas Cientologistas, chegou finalmente ao reino bárbaro de Pingates, de que era rei Temulentius, o Ébrio, onde se tinha refugiado o seu velho mestre, o outro Nmista Racionalista Cientologista, Uruk, o pequeno!

O mestre, modesto como sempre fora, vivia num pequenino palácio de três pisos construído em mármore rosa, com as paredes interiores e exteriores finamente trabalhadas em baixo relevo com padrões e motivos Nmistas, todo mobilado com modestos moveis esculpidos em madeiras exóticas trazidas das mais longínquas florestas tropicais. O palácio tinha ainda um modesto jardim de seis hectares com fauna e flora de diferentes regiões e um enorme labirinto de sebes que representava para os Necrofagistas Macrobiótico Existencialistas Racionalistas Cientologistas a procura pelo conhecimento supremo, a busca pelo eletrocardiógrafo e o eletroencefalógrafo que encerravam em si a promessa do cumprimento pleno dos preceitos Nmistas! Além dos jardins, as terras da propriedade espalhavam-se até onde a vista alcançava, com luxuriantes searas de cevada e campos de tremoceiros. Era como um reduto Nmista em plenas terras Bárbaras.

Uruk, o Pequeno, recebeu Matatturru, filho de Maturru, com o peito cheio de orgulho, os olhos carregados de emoção e os braços amplamente abertos num enorme abraço.
-Matatturru, filho de Maturru, os meus olhos exultam ao comtemplar-te após todos estes anos. Trazes marcado na tua fronte o conhecimento de anos de viagens e nos teus olhos a sabedoria de um Nmista que sabe o seu lugar no mundo. Além disso ainda estás com bom ar e um bocadito mais gordito, o que te assenta bem, porque ereis um pau-de-virar-tripas!
Matatturru prostrou-se à sua frente em sinal de respeito e respondeu:
-Velho mestre, eis-me aqui depois de ter percorrido o mundo desde os desertos de Shamar e das torres de Ashtram até à cidade de Polo, espalhando a vossa sabedoria, feliz por vos ver mais uma vez antes de assumir o meu lugar como rei da Lupulândia e com grandes novidades.

Entraram na casa e Uruk, o Pequeno, fez de imediato sinal aos seus criados para que trouxessem algo frugal para comerem, tendo os mesmos trazido de imediato picanha de gado bovino criado junto às intrigantes florestas virgens de Amaz pelos bárbaros vermelhos que se auto-denominavam de Andinos, feijão preto e farinha de mandioca trazidos dos distantes reinos selvagens de Arabutã e tubérculos, de Solanum, fatiados e fritos em óleo, todos eles reinos para lá do grandioso mar de Atlen e todas as iguarias comprovadamente mortas.

Repastaram-se em silêncio, cumprindo os preceitos Nmistas e, finda a refeição, Uruk o Pequeno perguntou finalmente:
-Então que novidades trazeis, amado discípulo, Matatturru, filho de Matturru.
-Melhor do que relatar, mostrar-vos-ei! – E pediu a um dos criados que lhe trouxesse uma caixa que tinha ainda guardada na carroça em que viajava.
Quando o criado voltou, abriu rapidamente a caixa e mostrou o conteúdo ao seu mestre.
Uruk, o Pequeno, não ficou impressionado. A caixa apenas continha cerca de sessenta pequenas baterias de Bagdad encaixadas numa larga tabua num padrão geométrico alternado que fazia lembrar um favo de uma colmeia. A única coisa pouco normal era o facto de entre elas haver pequenos pedaços de cobre de uma forma pouco usual, estando sempre o tubo de cobre ligado ao cilindro de ferro da bateria seguinte, saído da última um longo fio do metal que ia acabar a milímetros do primeiro fio. No fundo aquilo apenas parecia uma salgalhada.

Reparando que o mestre não estava impressionado, Matatturru sorriu e pediu ao criado sumo de limão suficiente para encher todas as baterias. Depois de uma quantidade absurda de limões e duas horas depois e criado voltou e Matatturro encheu cuidadosamente as baterias. Uruk mantinha-se num silêncio expectante, não fazendo ideia de onde aquilo ia chegar.

Depois Matatturru pediu ao criado que tocasse nas duas pontas de cobre que percorriam as baterias. O criado olhou algo receoso para Uruk, o Pequeno, e, tendo este feito um subtil sinal, avançou e tocou em ambas as duas pontas ao mesmo tempo. De imediato uma convulsão percorreu todo o seu corpo e caiu no chão desacordado.

Uruk, o Pequeno, viu aquilo e ficou espantado, tentando racionalizar o que tinha visto sem encontrar qualquer explicação. Mas o que viu a seguir foi ainda mais assombroso.
Matatturru deixou cair, ao de leve, um pequeno pedaço de ferro por cima dos dois pedaços de cobre e, de imediato, após umas quantas e fascinantes faíscas parecidas com pequenos raios da trovoada, o ferro ganhou a coloração avermelhada que tem quando aquecido, irradiando luz e calor.
Uruk, o Pequeno, deixou a boca cair aberta, estupefacto com o que presenciava.

Matatturru sorria.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

O primeiro (e único) império Nmista (continuação)

…pelo menos por algum tempo.
Um Império precisava de uma coisa fundamental: um Imperador!
Entre as muitas discussões ao mais alto nível, houve um acordo entre as nações de manter os congressos nacionais e as fronteiras, devido a algumas animosidades regionais que existiam desde os tempos em que aqueles povos eram Bárbaros e Selvagens, e que persistiam ainda. Mas achou-se conveniente criar um congresso único, que era eleito.

No entanto, como a figura do imperador retiraria todo o poder simbólico aos Reis, estes conseguiram convencer os respectivos congressos de que deveriam ser eles, por acordo, a eleger o Imperador.
E foi daqui que advieram os problemas. Se os Reis eram figuras simbólicas, os Imperadores tomaram as rédeas do poder executivo, trazendo para o seu lado responsáveis pelas diversas áreas dentro do império. E tudo corria bem, até que se deu a crise do tremoço.

Após a vitoria de Exudax sobre a Vinlândia, os Selvagens trataram de substituir a cultura de cevada pela de tremoço o que provocou uma baixa de preços sem precedentes e lançou Faboideae numa crise nunca antes vista. Esta queda económica arrastou também os outros reinos que tiveram de sustentar Faboideae durante a crise. O Imperador naquela altura, Vigarus, O Escroque, junto com a sua equipa executiva, teve de tomar medidas impopulares que, de alguma maneira, não afectavam a realeza, que continuava a levar a vida de sempre como se não se passasse nada.

O povo começou a falar e a perguntar qual a legitimidade que Vigarus, o Escroque, tinha para tomar tais medidas, uma vez que não tinha sido eleito. Pior, porque é que as famílias Reais não eram afectadas, havendo alguns que afirmavam que isso se devia ao facto de o Imperador ser escolhido pelos Reis.
Mas pior que isso foi Vigarus, o Escroque, chamar a si o poder de vetar todas as leis que tivessem impacto económico que fossem aprovadas nos congressos regionais, retirando assim todo o poder de decisão a estes últimos, instaurando assim a primeira ditadura não assumida da história.
Muitas vozes se levantaram contra esta situação que, ao fim de alguns anos, já era Imperador Atados, o Coitado, levou a uma revolta popular e a uma guerra que acabou com o Império e fez com que os diversos povos vivessem em permanente ódio durante séculos.

Foi por isto que nunca mais ninguém se lembrou de criar um Império Nmista.
Outros o tentaram mais tarde, alguns mesmo pela força, mas foram situações que, tal como esta, nunca se sustentaram no tempo.

Felizmente, hoje em dia isto não passaria, obviamente, pela cabeça a ninguém…

O primeiro (e único) império Nmista

Já vos falei nestas pequenas crónicas do reino de Faboideae. Este reino, famosíssimo por lá se produzirem os melhores tremoços do mundo, era apenas um dos reinos que se encontrava para lá do grande mar de Atlen, tendo todos eles, em comum o facto de, apesar de terem a figura do rei como chefe de estado, o rei não tinha poderes políticos, sendo que todas as decisões eram tomadas por um congresso de representantes eleitos pelo povo. Ou seja, eram os percursores daquilo que se denomina hoje de monarquia parlamentarista.
Outro dos reinos era Arearis, também famoso pela magnífica qualidade dos recipientes de sílica fundida, sendo os seus artesão famosos no mundo inteiro.
Havia ainda o reino de Messe, no qual se cultivavam antigas estirpes de cevada que tinham um gosto incomum e do qual se obtinha o produto da fermentação da cevada mais famoso e disputado de sempre.
Embora estes três reinos exportassem boa parte da sua produção para todo o mundo conhecido, onde estes produtos eram pagos a peso de ouro, a verdade é que a maior parte do comércio que faziam era entre si, por uma mera questão de proximidade, visto que tudo o que mandavam vir do outro lado do grande mar era dispendioso. Assim sendo, só alguns produtos essenciais, como o Lúpulo da Luplândia, ou alguns produtos de luxo, como as baterias de Bagdad, eram importados.
No entanto, à medida que os séculos foram passando, as distâncias foram ficando mais curtas, fruto da evolução dos meios de transporte. Além disso, reinos Bárbaros como a Vinlândia, ou Selvagens, como Exudax, produziam produtos de qualidade inferior, mas a preços que arrasavam as suas exportações.
Foi neste clima que Arturus, o Marreco, Rei de Faboideae, Vulpes, a Raposa, Rainha de Arearis e Céliaco, o Gasoso, Rei de Messe se reuniram, mandatados pelos respectivos congressos, para tentar encontrar uma solução para aquilo que se adivinhava ser uma catástrofe económica a médio-longo prazo.
Apesar do encontro inicial ter dado sinais positivos, houve anos de complexas negociações. Começaram por estabelecer uma área de comercio livre entre todos para tentar combater a concorrência de produtos que se fabricavam localmente mas que chegavam do outro lado do mar muito mais baratos.
A coisa aparentemente deu algum resultado pelo que resolveram evoluir ainda mais a coisa. E tanta foi a evolução que culminaram num Império, o primeiro Império Nmista que se auto-intitulou de Império Atlenico!
O povo rejubilou e tudo parecia ir bem…

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Os Mosaícos e o Nmismo (continuação)

Se é verdade que o mundo Nmista regozijou com a chegada dos Mosaícos à Vinlândia, também o é que houve uma carrada de pessoas que não acharam grande piada: os Vinlandeses!

Se estes já não viam com muito bons olhos terem de ser subservientes a Shamash, verem os seus territórios ocupados por um bando de pastores Nmistas convertidos foi uma afronta terrível. No entanto, estando a Vinlândia sem exército desde que o mesmo tinha sido derrota-do pelos exércitos Nmistas de Shimiu, o Parvo, lá encolheram os ombros.

Mas foi então que os Mosaícos se começaram a apoderar de terras que pertenciam a clãs antigos para fazer pastos para as ovelhas, escorraçando os proprietários. Isto criou uma revolta cada vez maior nos Vinlandeses que acabaram por se voltar para os poucos combatentes que ainda existiam, refugiados nas montanhas, tentando ajudá-los como podiam! Esses guerreiros começaram assim a lutar em campanhas curtas contra pequenas povoações Mosaícas, arrasando-as e dispersando o gado.

Claro que os Mosaícos começaram a acusar estes guerreiros de fazer uma guerra suja.
Ainda assim, tudo aquilo não passava de pequenas escaramuças quase sem importância. E tudo ficou assim durante algum tempo…
…até que os Mosaícos começaram a querer reclamar também terras de Exudax que, tal como as da Vinlândia, diziam ser de onde ti-nham vindo os seus antepassados.

Ora, os Selvagens de Exudax, fruto do contrabando de tremoços para Shamash, tinham bastante poderio económico e bélico. Quando os primeiros ataques Mosaícos as terras de Exudax começaram, os Selvagens fizeram pactos com os Bárbaros rebeldes e estalou uma guerra aberta.

Os Mosaícos, vendo-se entalados entre o deserto de Shamar e as terras selvagens de Exudax, em desvantagem numérica e em relação aos exércitos de Exudax comandados por Osiah, o Bárbaro rebelde Vinlandês, profundo conhecedor da sua nação, pedem ajuda às nações Nmistas, implorando-lhes que pensassem bem no que significava ter mais aquela parte do mundo como terras Nmistas.
Foi aqui que tudo acabou por dar para o torto.
Em primeiro lugar, o Nmismo, desde as suas origens, nunca se tinha imposto pela força.



Em segundo lugar os Mosaícos foram dados como proscritos do Nmismo. Como sabemos, pensar era a única coisa que não era permitida.

Ainda assim, os Mosaícos resistiram durante anos às investidas dos exércitos de Exudax cada vez mais engrossados por rebeldes Vinlandeses. Mas por fim acabaram por ser derrotados, sendo dispersados e expulsos daquelas terras, mas juraram que haviam de voltar e que as terras dos seus antepassados haviam de ser suas.

Infelizmente, não se sabe, até hoje, o destino que levaram os Mosaícos, pelo que não seria de espantar que eles, ao fim destes milénios, ainda por aí andem à espera de uma oportunidade...

Os Mosaícos e o Nmismo

Como já perceberam por esta altura (a não ser que seja este o primeiro pedaço de texto que estão a ler sobre o Nmismo e, nesse caso, não perceberam nada nem vão perceber, a não ser que andem para trás – se bem que tenho uma suspeita-quase-certeza que ainda assim não vão perceber grande coisa, mas olhem, é o que se arranja…), a não ser entre os Nmistas Radicais, o Nmismo nunca foi encarado como uma religião, apenas como um modo de vida! Mais, era uma corrente existencialista que apenas poderia entrar em rota de colisão com religiões que convidassem a pensar, mas isso, como todos sabemos, é uma contradição com a própria religião. Não há religiões que convidem a pensar, antes pelo contrário, quando alguém pensa demais é como um vírus infeccioso que põe em causa os dogmas de fé, simplesmente porque se usa do bom senso! Afinal de contas, nem é preciso olharmos para textos sagrados para perceber que qualquer pessoa que pense tem alguns problemas lógicos graves em relação a qualquer religião.
Vejamos alguns exemplos:

-Os deuses clássicos, da Grécia e de Roma (que são os mesmo rebaptizados – aparentemente os Romanos não tinham grande imaginação) eram uns bêbados putanheiros sanguinários e as Deusas eram umas intriguistas, cabras umas para as outras e umas putas serigaitas que fariam corar uma prostituta de hoje em dia, e aquilo era encarado de forma natural, uma vez que os homens da altura eram uns bêbados putanheiros sanguinários e as mulheres eram intriguistas, cabras e putas, justificando a sua maneira de ser com um “se os Deuses e as Deusas fazem assim…”

-Já outros causam problemas bem mais subtis mas igualmente válidos, como por exemplo, e como muito bem apontou Cavanna em “As Sagradas Escrituras”, Deus não pode ser ao mesmo tempo eterno e omnipotente, uma vez que para ser omnipotente tem que deixar de ser eterno, uma vez que pode por fim a si próprio, mas se for eterno deixa de poder por um fim a si próprio deixando de ser omnipotente! Mas ainda bem que existe a contradição e a fé que faz tanta gente relevar estes pequenos problemas idiotas. Graças a Deus!

Mas, como podemos observar, o Nmismo não entrava em confronto com qualquer das religiões que havia na altura, algumas delas bem esquisitas, como por exemplo na cidade de Perempto onde adoravam um ramo de árvore petrificada de onde os habitantes acreditavam tinha nascido o universo, ou a estranha crença do reino de Doblez em que todos acreditavam que o Universo é uma mera ilusão e não existia na realidade, sendo toda a existência o produto de um sonho de uma baleia azul, de cujo ventre teria nascido o Universo, se bem que também havia um povo bem lá para sul, cujo nome se perdeu na história, que acreditava que os ornitorrincos eram avatares!

Já nos reinos e cidades Radicais não havia cultos – os poucos locais de culto eram construídos e mantidos por estrangeiros – visto que eles não pensavam…

Havia um povo, bárbaros convertidos, que se auto-intitulavam de Mosaíco. Os Mosaícos acreditavam que eram filhos de Pubo, o grande fermentador, que tinha criado o Universo a partir da fermentação. Este povo era composto por tribos nómadas que se dedicavam sobretudo à pastorícia e eram conhecidos pelo queijo picante e com um cheiro nauseabundo que produziam, cujo sabor era algo de fenomenal. Embora fossem originalmente Bárbaros fermentadores de mosto, converteram-se ao Nmismo e quiseram ter direito a criar uma nação. Aquilo pareceu algo lógico ao mundo Nmista, mas havia a questão de onde os encaixar.
Balbaaq, o Asqueroso, que se dizia ser descendente destes Bárbaros convertidos, viu nisto uma oportunidade e convenceu Shimiu, o Parvo, a dar-lhes as terras da Vinlândia, coisa que não caiu bem aos Vinlandeses Bárbaros que já lá estavam, com o argumento de que eles iriam Nmizar a Vinlândia e que, além disso, no fundo até eram o mesmo povo visto que várias das tribos Mosaícas tinham vindo originalmente daquela região, coisa  era impossível de confirmar ou desmentir, visto que os registos históricos dos Bárbaros e dos Selvagens eram inexistentes. Apenas havia uma tradição oral que se perdia na noite dos tempos que o afirmava.
E foi desta maneira que a Vinlândia se tornou um reino Nmista, mas foi então que as coisas começaram a dar para o torto…

terça-feira, 3 de maio de 2016

As dualidades das Bolas de Berlim - uma perspectiva Nmista

Há muitos, muitos, muitos, mas mesmo muitos, mas tantos que nem se sabe quantos, só se sabe que foram mesmo muitos anos atrás aquele que foi por muitos considerado como o mais genial cozinheiro de sempre, Pomax, o Orbe, inventou algo que maravilhou o mundo inteiro: a Bola!
A Bola era um bolo profundamente Nmista! Era nem mais nem menos que uma bola de massa frita em azeite ou óleo polvilhada com açúcar. A sua simplicidade tão grande e a sua versatilidade tão vasta, podendo ser comida em quase qualquer ocasião, fez com que se tornasse um bolo imensamente popular.
Qualquer Nmista, em qualquer parte do mundo, poderia pedir uma Bola, e sabia exactamente o que lhe seria servido. Embora os sabores variassem ligeiramente de região para região, devido às características da própria farinha, as variações eram diminutas, sendo o bolo o único verdadeiramente uniforme no mundo inteiro.
Pomax, o Orbe, tornou-se um nome de trazer por casa, em boa parte graças à Bola, e os seus pergaminhos de receitas eram vendidos nas feiras e mercados por todo o lado. É dito que Pomax inventou muitas outras coisas, como os Peixinhos-da-horta, os panados e até o gelado frito, tão famoso ainda hoje em dia nos restaurantes de comida chinesa!
A receita da bola colocou no mapa a cidade de Óbesia, junto ao rio Bagos, que até ai era apenas comentada por ter a menor esperança de vida de todo o mundo Nmista, embora nunca ninguém à altura tenha percebido o porquê!
A Bola ganhou tal fama que a receita acabou por passar para os povos bárbaros e selvagens, o que foi uma sorte, pois sobreviveu ao longo de milhares de anos, vindo a reaparecer há alguns seculos atrás na cidade de Berlim. No entanto foi precisamente aqui que começou a dualidade das Bolas de Berlim.
Sendo um bolo Nmista, qualquer adepto poderia entrar numa pastelaria e pedir uma Bola. Toda a gente sabia o que era e a questão estava arrumada. No entanto, os Alemães, descendentes de povos selvagens, receberam a receita já com algumas alterações, como o hábito de rechear as bolas com geleias de frutos vermelhos. Isto só por si não seria significativo, não houvesse um povo, o Luso, que quando teve as Bolas na mão, tratou de alterar ainda mais a receita original. Ora isto, aos radicais causava problemas. Vejamos o exemplo abaixo:

Um Nmista entra numa pastelaria e afirma:
-Eu quero uma Bola.
-Uma bola?
-De Berlim!
-Com creme ou sem creme?

E pronto, para um Nmista Radical levantava-se logo a impossibilidade de responder, visto que para isso teria de pensar! O resultado, normalmente, era saírem das pastelarias com graves conflitos interiores e com fome, o que levou a muitos suicídios inexplicados…
No entanto, este problema não seria intransponível para um Absolutista, que poderia raciocinar um pouco, ou até meditar e responder:

-Com creme.
-De creme de ovo? Creme de pasteleiro? Creme de chocolate? Creme de avelãs? Doce de leite? Doce de maracujá?

E poderia continuar aqui a dar exemplos de recheios, uma lista quase tão extensa quanto a variedade imensa da doçaria Portuguesa. Isto levaria inexoravelmente a uma meditação profunda, para chegar a uma decisão, o que, embora estivesse dentro dos cânones Nmistas, era chato!
Ainda assim, mesmo que o Nmista se sentisse inclinado para tal meditação e respondesse:
-Com creme de ovo. (por exemplo; não afirmo aqui que este recheio seja melhor que todos os outros, embora de facto o seja)
Levaria de imediato com a pergunta:
-Redonda ou comprida?
O que implicaria mais uma decisão e mais alguns momentos de meditação profunda!

Esta dualidade é exemplificativa dos problemas que assaltam o Nmismo nos dias de hoje, razão pela qual há apenas dois Nmistas no mundo, sendo que o Nmista Radical não come bolas de Berlim! Aliás, a própria menção às mesmas fá-lo contorcer-se e fechar-se numa posição fetal enquanto récita repetitiva e continuamente o mandamento único, “Não Pensarás!”.
Já o único Nmista Absolutista ainda vivo, depois de muito meditar nesta problemática, resolveu a questão de uma maneira simples: pede sempre uma Bola de Berlim redonda com creme de ovo…

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Teorias Nmistas: T.I.A. – Teoria da Imbecilidade Associativa

O Necrofagismomacrobioticoexistencialismo deparou-se desde há longo tempo com problemas cuja resolução levou, de forma algo lenta, é certo (pelo facto de não poderem pensar), mas inexorável, à criação da Teoria da Imbecilidade Associativa, doravante aqui referida por TIA.
Foi Uruk, o pequeno, com todo o tempo livre que tinha no exilio e provavelmente estimulado pelos estalos na língua das Baterias de Bagdad que, através da observação directa e pura chegou à formulação desta teoria.
Afinal não é de todo difícil encontrar imbecis, pelo que através de um simples processo de elucubração se pode chegar a conclusões que, embora absolutamente claras e lógicas, podem até ser chocantes para algumas pessoas.
Qualquer organização que seja, num dado momento da sua existência, infiltrada por um imbecil, passa a tender imediatamente para a imbecilidade.
E porquê?
Deve-se isto ao facto de os imbecis conseguirem de tal forma imbecilizar todos os processos que, embora por vezes contra a vontade da maioria, estes ficam tão distorcidos que não há volta a dar. Por norma tem de se refazer todo o processo de forma a desimbeciliza-lo. Claro que isto, dá trabalho, que é uma coisa que ninguém gosta de ter. Assim sendo, a única maneira segura de desimbecilizar um processo é, por norma, retirar  o imbecil da equação.
Ora isto nem sempre é fácil. Existem apenas duas opções para tal:

Opção 1 – o imbecil é despedido e pronto, repõe-se assim o equilíbrio dentro da organização.

Opção 2 – é impossível despedir o imbecil, pelo que, a maneira mais simples de conter os danos é promover o imbecil a um cargo de chefia de um departamento onde não haja imbecis. Há assim a esperança de os subalternos conterem a imbecilidade do chefe.

Na maior parte das vezes é usada a opção 2, visto que a opção 1 acarreta, por norma, problemas com sindicatos e com outros imbecis também. Ora sendo esta opção tão largamente utilizada, o problema sobe de tom, uma vez que entre as próprias chefias se cria um mau estar geral. Assim como quando os imbecis são subalternos começa a haver algum desconforto por causa dos colegas, uma vez que entram às horas que querem, saem às horas que querem, fazem o que querem e quando querem, ninguém lhes dá trabalhos de responsabilidade pela sua reconhecida imbecilidade e quando tem alguma tarefa menor e falham ninguém lhes chama a atenção pelo simples facto de que já se esperava que falhassem, quando eles são promovidos para os cargos de chefia, continuam exactamente no mesmo registo sendo que os quadros superiores acabam por agir da mesma forma, nunca os responsabilizando por nada e desculpando os erros com a frase “coitado, também não se esperava mais dele…”.
 Mas o problema mais grave advêm do facto de que os próprios subalternos, não sendo de todo imbecis, começarem a aperceber-se das vantagens de ser imbecil, ganhando assim tendências para a auto-imbecilização. Por tudo isto o facto de um único imbecil ser autorizado a existir dentro de uma organização pode levar à imbecilização de toda a estrutura produtiva.
Se a organização não tiver uma estrutura suficientemente forte a nível dos seus altos quadros que lhe permita debelar numa altura precoce o alastramento da imbecilidade, verá sem qualquer sombra de dúvida a produtividade descer a pique, sendo que chegará a uma altura em que a sua mera existência é uma imbecilidade.
Mas mais grave ainda é se tudo isto se passar num serviço público. De facto, nos serviços públicos os imbecis vão subindo nas hierarquias pela própria força dos números e, quando chegam ao ponto de serem directores gerais e administradores, por norma o passo a seguir é passarem para a política activa, tornando-se parte das estruturas executivas ou legislativas de um estado.
Infelizmente, esta teoria de Uruk, o pequeno, aquando da sua divulgação, foi recebida com cepticismo por parte da maior parte dos imbecis que a receberam, pelo que nada mudou…
…desde aquela altura perdida na noite dos tempos até aos dias de hoje!

terça-feira, 26 de abril de 2016

A cidade de Misândria

Se é verdade que o hábito de beber o fruto da fermentação da cevada por copos de sílica fundida, ou canecas como começavam a ser chamadas segundo o costume que se disseminou da cidade de Polo, também o é que as mulheres não partilhavam do ritual dos sábados à tarde.
Diga-se também que, para a maior parte das mulheres, os rituais de sábado à tarde eram um descanso. Verem-se livres dos homens por umas horas dava-lhes a hipótese de fazerem coisas que normalmente não faziam, como pôr as casas em ordem, porem as conversas em dia e fazerem coisas que só às mulheres diziam respeito e pelas quais os homens tinham pouco ou nenhum interesse.
No entanto, naqueles tempos, alguns grupos de mulheres não viam com bons olhos o facto do ritual Nmista ser um exclusivo masculino. Muitas perguntavam:
-Mas porque é que tem de ser assim? Porque não podemos nós ir também aos templos dos três sábios e passar as tardes a beber produto da fermentação da cevada, sem pensar!
Os homens, por seu turno, nem emitiam uma opinião, sobretudo porque para o fazer teriam de pensar, o que contradiria tudo aquilo em que acreditavam. Para eles, embora não fizessem ideia do porquê, o ritual aplicava-se somente a eles…
Mas o problema agudizou-se na cidade de Misândria. Depois de muitas discussões entre as mulheres, estas resolveram fazer algo que nunca tinha sido feito em toda a história conhecida até então, pelo menos de forma concertada! Uma greve!
Aliás, quando elas disseram que iam fazer uma greve para reivindicar os seus direitos, todos os homens ficaram intrigados, sobretudo porque ninguém tinha ideia do que seria uma greve!
Mas depois lá perceberam que uma greve era alguém deixar de fazer algo que era importante fazer até que lhe fosse reconhecido um direito!
Tendo percebido isto, perceberam que a greve a que as mulheres se propunham poderia trazer alguns problemas! Mas, como sempre, não pensaram muito no assunto!
Já as mulheres, ao anunciarem a greve, afirmaram que não se deitariam com os seus maridos até que lhes fosse reconhecido o direito a juntarem-se a eles no ritual de sábado à tarde!
Ainda assim, como provavelmente podem adivinhar, os homens continuaram a não pensar no assunto por motivos que, por esta altura, já devem ser óbvios.
Mas ao fim de alguns meses a greve começou a causar problemas!
Os dois principais problemas eram os seguintes:

-O nível de agressividade na cidade aumentou. As escaramuças por coisas que noutras alturas não teriam qualquer importância estavam a tomar proporções épicas.

-O número de prostitutas que chegavam de fora até à cidade, vindo atrás de uma procura cada vez maior, produzia uma tensão palpável na cidade, com lutas entre as prostitutas e as esposas dos homens da cidade a ganharem contornos de guerras campais.

Foi o rei Adamash XIV, o Alegre, que quis pôr fim a esta situação, decretando que qualquer mulher que o desejasse se podia juntar aos rituais de sábado à tarde, desde que observasse os mandamentos.

A noticia foi recebida com aclamações por todos, excepto as prostitutas, e começou assim uma nova era…

…que durou apenas algumas semanas.
Foi por esta altura que se descobriu porque é que o ritual era quase um exclusivo masculino:
-É que era impossível a uma mulher não pensar…
…a não ser que estivesse a dormir, e mesmo assim por vezes ainda acontecia!

Apesar de o decreto nunca ter sido revogado, as mulheres foram-se afastando do ritual, uma vez que se viam impossibilitadas de o cumprir. E por fim, tudo voltou a como estava antes, excepto pelo facto de a população masculina de Misândria ter ficado reduzidíssima, visto que muitos homens deixaram a cidade para trás e partiram rumo a outros destinos e do numero de mulheres abandonadas ter subido de acordo com a redução da população masculina!

Algum tempo depois disto os Selvagens destiladores atacaram Misândria e esta, devido ao facto de quase não ter exercito para a proteger, foi a única cidade Nmista que caiu desde os tempos em que a história existia…

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Continuação da história de Balbaaq, o Asqueroso



Os Resguardadores eram uma profissão que tinha surgido entre os Bárbaros!
Quando alguém tinha algo muito valioso ou a que estimava bastante, fosse uma jóia, uma estátua, uma carroça, uma casa ou até mesmo uma mulher, podia dirigir-se a um Resguardador.
Este, inquiria o proprietário acerca do bem e de que o queria resguardado, avaliava o risco e propunha uma quantia que teria de lhe ser paga anualmente para o bem ficar Resguardado.
Por exemplo, o valor de resguardo de um palácio numa zona de conflito era bastante mais elevado do que o de um palácio idêntico numa zona pacífica. Ou o valor de Resguardo contra inundações de uma colheita numa zona de inundações era muito maior do que que o Valor do mesmo tipo de resguardo numa zona onde estas não fossem comuns!
Claro que, caso houvesse algum dano na propriedade enquanto o contrato estava válido e esse dano constasse no contrato, o Resguardador pagaria por inteiro o valor do bem danificado, resolvendo assim o contrato.

Balbaaq, após adquirir as Torres dos Três Sábios por uma quantia fabulosa, dirigiu-se ao mais conhecido dos Resguardadores da Vinlândia, reino bárbaro mais próximo de Shamash com quem havia boas relações comerciais, e Resguardou as torres. No entanto, embora tivesse de despender mais dinheiro, Resguardou-as pelo triplo daquilo que lhe tinham custado.

Entretanto, fez algumas modificações nas torres, alugando terraços para os ricos e poderosos cujo valor aumentava conforme se subia na torre. Fez apenas uma excepção, reservando o penúltimo terraço para si e o superior que foi oferecido a Shimiu, o Obtuso, atitude que agradou imenso ao rei.

Durante algum tempo a situação manteve-se assim enquanto Balbaaq, o Asqueroso, observava com vivo interesse as batalhas entre os Barbaros da Vinlândia e os Selvagens de Exudax. Os Bárbaros ganhavam cada vez mais vantagem, destruindo as culturas de tremoço e substituindo-as por cevada, encarecendo os tremoços contrabandeados a um ponto que deixou de ser rentável, anulando assim as fabulosas margens de lucro que tinham feito de Balbaaq um dos homens mais ricos de Shamash, e quem sabe do mundo.

Foi então que o desastre aconteceu.
Numa única noite, incêndios que deflagraram em ambas as torres destruíram-nas por completo. Para grande desgosto dos habitantes de Ashtram as torres foram reduzidas a ruínas, causando estragos enormes e incontáveis mortes por toda a cidade. Nas ruínas das torres foram descobertas garrafas de produto da fermentação do mosto e rapidamente foi acusado um dos lideres guerreiros radicais dos Bárbaros, Osiah, o Fanático.

Algo assim não devia passar impune e, assim sendo, Shimiu não teve outra alternativa senão declarar guerra aos Bárbaros. Estes, estando a lutar em duas frentes, foram rapidamente subjugados pelos superiores exércitos de Shamash, fazendo com que os Selvagens recuperassem o seu território original. Shamash, ocupou a Vinlândia e, com a desculpa das escaramuças que ainda havia com guerreiros Vinlandeses que se refugiaram nos montes e recusaram a assumir a derrota, mantiveram o território ocupado, colocando no governo do mesmo alguns poderosos locais cuja lealdade pendia conforme a sua disposição para se submeterem à vontade de Shamash. A cevada fluía da Vinlândia para Shamash a preços nunca antes vistos, resolvendo de vez o problema da escassez de produto da fermentação da cevada.

E Balbaaq?
Bem, esse acabou por receber o triplo do que tinha pago pelas torres, reconstruiu-as para alegria da população da Ashtram, embora tenha tornado o acesso a elas mais caro, desculpando-se com os custos da reconstrução, e voltou a ter lucros fabulosos com o contrabando de tremoços de Exudax, multiplicando rapidamente a sua fortuna.

Mas a maior consequência disto foi que nunca mais houve um dia de paz naquela região, à excepção do deserto de Shamar, que continuava a ser tão quente, mas tão quente, que ninguém lá ia!


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Balbaaq, o Asqueroso

Sendo o mundo conhecido por aquela altura quase todo Nmista, seguindo mais ou menos à risca, conforme as facções os preceitos do Necrofagismo Macrobiotico Existêncialismo, a verdade é que subsistiam ainda reinos bárbaros onde os mesmos não eram observados.

Havia povos que preferiam o produto da fermentação do mosto, sendo que outros, absolutamente selvagens, que destilavam o produto anterior e o próprio produto da fermentação da cevada em aguardentes e whisky. Para lá dos limites Nmistas, a selvajaria parecia não ter qualquer limite!

No entanto, reinos limítrofes como o de Shamash, cuja principal cidade era Ashtram, à beira do deserto de Shamar, faziam frequentemente trocas comerciais com reinos barbados, cujos produtos podiam ser obtidos com menos custo que a importação de dentro da zona Nmista.

Ashtram prodizia sobretudo limões, fruto cada vez mais na moda devido às baterias de Bagdad cuja popularidade crescia exponencialmente, fazendo com que Uruk, o pequeno, embora no exilio em terras barbaras, continuava a receber percentagens pelas vendas, o que fazia dele rico e respeitado.
Ashtram, no entanto, via-se vítima do seu crescimento, não conseguindo produzir cevada suficiente, pelo que tinha de a importar para suprir a crescente demanda.

Pior que isso, não produzia tremoços, e os importados eram caríssimos, pois vinham de longe, do outro lado do grande mar de Atlen, do grande reino de Faboideae. Por outro lado, os dos selvagens que viviam depois do deserto de Shamar eram mais baratos, mas a importação de lá não era vista com bons olhos, visto que os destiladores eram muito, mas mesmo muito mal vistos pelos Nmistas.
Mas à medida que a cidade crescia, o problema tornava-se mais evidente.

Nos tempos do grande rei Shimiu, o Obtuso, o problema tornou-se tão grave que, para não haver falta de tremoço nem cevada, o reino precisava desesperadamente de dinheiro. Então viraram-se para o único que os poderia ajudar.

Balbaaq, o Asqueroso, não era assim chamado por ser pequeno, raquítico, irritante e parecido com uma verruga enrugada retirada do rabo de alguém, mas sim porque era a mais vil criatura alguma vez vista sobre a terra e debaixo dos céus e isto era quando queríamos falar dele de uma forma simpática. Não era boa pessoa…

No entanto, fruto do contrabando ilegal de tremoço dos selvagem destiladores estava riquíssimo. Mas começava a ter um grave problema, visto que, após uma guerra entre selvagens e bárbaros, os bárbaros conquistavam terreno onde deixavam de produzir tremoço e produziam cevada, o que era bom para a cidade, visto que os preços baixavam, mas mau para ele.

Foi neste clima que Shimiu, o Obtuso, em desespero se lhe dirigiu, pedindo-lhe um empréstimo de uma soma inominável para conseguir pôr as finanças da cidade em ordem. E foi neste clima que ele viu uma oportunidade.

Balbaaq, o Asqueroso, acedeu a conceder o dinheiro, mas nunca como empréstimo. Propunha-se a comprar as torres dos três sábios, famosas no mundo inteiro por serem altas. Muito altas. Mesmo, mesmo muito altas. Tão altas que custava a respirar no topo. Tão altas que os telhados estavam sempre cobertos de neve, apesar do calor abrasador à superfície. Tão altas que raramente se via o topo por causa das nuvens.

Shimiu, o Obtuso, não achou aquilo boa ideia. Afinal havia quem viesse de longe para beber o produto da fermentação da cevada gelado no cimo das torres. Mas a situação era desesperada e ele acabou por aceder.


No dia seguinte Balbaaq, o Asqueroso, dirigiu-se às terras barbaras onde havia alguns Resguardadores...

(continua)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Continuação da história da cidade de Polo

-Para sempre sejam elevados os três sábios! Que nunca vos faltem tremoços nem o produto da fermentação da cevada. – disse Matatturru, com a sua voz sonante e límpida quebrando o silêncio quase religioso do templo dos três sábios, estilhaçando-o mesmo, parecendo que repente que o silêncio tinha caído ao chão e se tinha desfeito em mil pedaços, como se o próprio silêncio naquele espaço estivesse tão congelado como congelada estava a noite que durava já há quatro longos meses por aquelas palavras.

Os olhares que o encararam, olhos azuis e frios em rostos pálidos e angulosos, ao mesmo tempo inquiridores e cheios de desprezo por alguém que certamente não era daquelas paragens.
-Que os teus recipientes de sílica derretida sempre se encontrem cheios. – Rosnou-lhe o que estava mais próximo dele, devolvendo a saudação ancestral de uma forma áspera e seca.
Todos os que estavam no Templo se aproximaram de repente, com os olhares duros e frios, rodeando-o, com caras de poucos amigos, deixando-lhe apenas como via de fuga a porta que dava para a cidade gelada atrás de si.

Nunca Matatturru tinha sido recebido assim em lugar algum. Começava a desconfiar que aquela viagem até Polo podia afinal não ter sido tão boa ideia como lhe parecera quando sufocava de calor em Ashtram, na orla do escaldante deserto de Shamar, o sítio que é tão quente, mas tão quente que se pode estrelar um ovo à sombra, um sítio tão quente que quando um homem vai mictar a urina se evapora antes de tocar no chão, um sítio tão quente que para beber água nos raros poços que há tem de se descer ao poço, porque se se lançar um balde para apanhar água ela evapora antes de chegar à superfície, tão quente que para ferver água para um café depois do jantar basta levantar uma pedra e pôr uma chaleira lá debaixo por dez minutos, e tão desolado, mas tão desolado que nem areia tinha, só pedras escaldantes onde nada, mas mesmo nada crescia! Sair dali para ir para um sítio mais fresco parecera-lhe uma excelente ideia, se bem que quando ainda estava longe de Polo estivesse já a pôr em causa a ideia, mas agora, aqui rodeado por estes vigorosos gigantes pouco amistoso, por pouco não lhe passavam pensamentos pela cabeça. Graças aos três sábios que assim não era!

-Sois um dos Absolutistas?
Pareceu a Matatturru que havia ali alguma animosidade em relação aos Absolutistas. Matutou um pouco e respondeu:
-Mas claro que não! A minha verdadeira fé é o mandamento único do qual homem algum se deve desviar: Não pensarás!

As faces fechadas abriram-se de repente num sorriso largo, e a atitude dos presentes mudou repentinamente e trouxeram-lhe produto da fermentação da cevada em canecas, cujo o nome ele estranhou, visto que nunca lhe passara pela cabeça chamar-lhe outra coisa que recipiente de sílica derretida, o que era normal, visto que não pensava, mas explicaram-lhe que um estrangeiro que por ali tinha passado tinha chamado caneca aos recipientes de sílica derretida e eles acharam muito mais prático chamar áquilo caneca, ao invés de recipiente de sílica derretida e ele gostou do nome e foi recebido como um irmão que chega de longe e se junta ao resto da família que o esperava já há muito, e deram-lhe tremoços e guardanapos de papel e convidaram-no e juntar-se a eles e a contar novas histórias de terras longínquas que eles já estavam fartos sempre das mesmas e já tinham ouvido a história do urso de estimação de Olgaf, o Hirsuto e já não o podiam ouvir mais e celebraram como já não se celebrava há muito.

Muito mais tarde, conversava Matatturru com Olgaf, o Hirsuto, depois de ouvir a história do urso de estimação umas duas vezes quando este lhe disse com genuína alegria no olhar:
-Estou mesmo feliz que sejas um verdadeiro crente! Nós odiamos os Absolutistas!
Matatturru sabia que havia animosidades, mas eram aliados. Era raro um sentimento destes.

-Mas porquê, irmão?
-Porque nos governam! E nos roubam a maior parte daquilo que tanto nos custa a ganhar, a taxa de utilização do Polo!
-Pois! Mas eles são assim tantos para vos dominar desta maneira?
-Não, são um punhado deles!
-Então porque não vos revoltais?
-E porque havíamos de fazê-lo? Vivemos, afinal, numa democracia…
-Numa democracia?
-Então mas não me havíeis dito que eles são poucos…
-De facto são…
-Então quem vota neles?
-Nós, quem mais?
-Mas isso quer dizer que os podíeis substituir em qualquer altura…
Olgaf olhou para ele, estupefacto! Depois de alguns segundos a olhá-lo acabou por dizer:
-Não percebi!
-Então, se é uma democracia, se sois vós que votais, porque os elegeis a eles?
-Porque se não os elegermos e votarmos neles ainda acabamos por votar em alguém pior.
-Então porque os odiais, se sois vós quem lhes dá o poder?

Runlaf, o Bisonte, assim conhecido porque era tão grande como um, ouvia a conversa da mesa ao lado, pousou a sua caneca e encarou Matatturru.
-Irmão, aquilo que fazeis… Essas perguntas… - levantou-se e inclinou-se por cima de Mataturru que se encolheu na cadeira tremendo – Acaso sois vós um espião Absolutista? Não estareis vós a raciocinar?
Outros olhos olharam-no inquiridores.
-Pelos três sábios, acusais-me de tal acto que nem a palavra ouso pronunciar? Pondes em causa a minha palavra? Pela maldição do Grande Olho na Muralha de Stix que assim não é!
-Então porquê as perguntas?
-Sou de fora! Quero saber os costumes locais! Não pretendo ofender algum dos meus irmãos inadvertidamente…
A explicação parecia razoável e os ânimos serenaram!

Mais tarde Mataturru ficou a saber que não tinham limões por ali e, não podendo fazer nada com as Baterias de Bagdad, acabou por rumar a paragens mais quentes…