sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Renascimento (XXXI de XL)

 Phil tinha mudado o local dos seus encontros secretos de sexta-feira à tarde para um motel. Seria mais seguro para os dois. Vinha sempre de transportes públicos para evitar que o seu carro fosse avistado naquela parte da cidade. 

Esperava já pela sua amante quando ouviu bater à porta do quarto. Levantou-se, abriu a porta cautelosamente e ficou desiludido. O mesmo tipo que nem se apresentara da outra vez estava ali, novamente. Mas desta vez nem sequer estavam num sítio publico. Phil sentiu medo.

-Então, Phil. Onde estão as suas maneiras? Não me convida para entrar?

Receoso, abriu a porta e o estranho entrou confiante. 

O estranho olhou em volta com um ar divertido. Era óbvio o objectivo destes quartos, alugados por períodos pequenos.

-Phil, espero que isole o colchão com plástico. Sabe Deus o que já por aqui passou…

O estranho evitou a cama e o sofá, pegando numa cadeira de plástico e sentando-se nela. Phil sentou-se no sofá, se bem que depois daquela observação do estranho, todo o ambiente lhe parecia um tóxico.

-Espero que não esteja surpreso por me ver. Na nossa primeira conversa disse-lhe que haveria mais coisas a falar, e cá estou eu.

Dito isto o estranho tirou um envelope do casaco que colocou em cima da mesa, fazendo sinal a Phil para o abrir.

Phil abriu o envelope e descobriu dezenas de fotos, arregalando os olhos ao reconhecê-las.

-Phil, sei que conhece bem as fotos que estão no topo. São as fotos de Miranda MaCallum que mostrou a Robert antes de ele desaparecer, não é verdade?

-Sim… - respondeu debilmente Phil, enquanto o sangue se esvaia da sua face.

-E as outras?

Phil foi passando pelas fotos e vendo que havia dezenas de mulheres retractadas.

-Sabia de algumas, - admitiu – mas não de todas.

-É justo. Sabe, até acredito em si.

Phil continuou a passar pelas fotos, sem saber o que dizer. Jamais lhe passaria pela cabeça ver algumas daquelas mulheres retractadas naquelas fotos.

-E agora chegou o momento que lhe disse que chegaria. Há que fazer uma escolha.

Phil começou a sentir suores frios. O estranho continuou.

-Por trás da porta numero um: Você vai denunciar esta situação toda à Procuradoria-Geral e à imprensa. Vai alegar que embora tivesse conhecimento, tinha zero provas. Vai alegar que uma fonte desconhecida lhe forneceu as provas e que a sua consciência não o deixa ficar calado. Vai acusar nominalmente o seu antigo patrão e tentar ao máximo escudar a editora das acusações.

-Isso pode arruinar a minha carreira. Estamos a falar de gente muito influente.

-Por outro lado, por trás da porta número dois, recusa-se a fazer alguma coisa em relação a tudo isto, o que é razoável para alguém na sua posição. Claro que provavelmente, se isso acontecer, a sua esposa poderá vir a receber provas irrefutáveis das suas actividades, bem com o seu sogro. E sabe bem o que isso lhe pode custar.

-Não pode fazer isso.- Respondeu Phil, quase à beira de um ataque de pânico.

-Meu caro, claro que posso. Portanto, porta número dois é ruina quase imediata. Mas alegre-se. Atrás da porta número um pode até estar algum prestígio. Nos dias de hoje será visto como um aliado das mulheres, ganhará a admiração dos média… No fim será difícil para a sua própria família não o ver como um herói. Pode-lhe causar alguns problemas? Sim. Mas não a ruina.

O estranho levantou-se e dirigiu-se à porta.

-Phil, dois conselhos: Acabe com as suas escapadelas e não pense em fazer nada de estupido. Tem uma semana para tomar uma decisão. Não voltaremos a falar. Serão os seus actos que determinarão o seu destino.

O estranho saiu, deixando Phil com o desconforto na alma, de não saber o que fazer, e o desconforto no corpo, parecendo-lhe o quarto uma zona de catástrofe. Até se sentia mal só de respirar. Saiu logo atrás do estranho. Quando chegou ao carro, depois de todo o caminho no metro, pegou no telemóvel e ligou. Assim que ouviu a voz feminina atender do outro lado disse:

-Olha, temos de falar…


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Renascimento (XXX de XL)

 Cassandra estava quieta como um manequim, com uma costureira a andar à sua volta enquanto verificava as ultimas alterações ao seu vestido de noiva, quando o seu telemóvel tocou. Viu quem era e atendeu.

-Sim, Miranda, bom dia.

-Bom dia. Já sei que não estás em casa…

-Não, estou aqui nos últimos acertos ao meu vestido. Acho que está pronto.

-Sempre ficaste com aquele que vimos juntas?

-Sim. Era o mais simples. Não me estou a ver a descer aquela igrejinha centenária num vestido ultra espampanante. Acho que o Tobias fugia logo.

Riram-se as duas. Miranda continuou.

-Olha, estou a sair agora do tribunal. Vamos almoçar?

Combinaram o local e uma hora depois sentavam-se ambas à mesa de um restaurante Português em Queens. 

-Estás mesmo com “saudades”, como dizem eles por lá. – Riu-se Miranda olhando em volta admirando a escolha de Cassandra.

-Acredita. Mal posso esperar. Creio que dentro de uns dois meses tenho tudo tratado e posso ir de uma vez por todas.

-Cá para mim tu tens é “saudades” do Tobias…

Cassandra corou.

-Sabes, nós não chegamos a tanto…

Miranda olhou para ela admirada.

-Não? Mas eu pensei que vocês lá…

-Não. O Tobias foi sempre um verdadeiro cavalheiro… Por mais que eu quisesse que ele às vezes não fosse. As coisas arrancaram mesmo foi depois de nos virmos embora. Estávamos constantemente a trocar e-mails e por vezes depois dele jantar, ligava-me e passávamos horas ao telefone, e fomos falando…

-Bem, isso é mesmo um romance à moda antiga. Então não tens “saudades”, está é cheia de vontade de… - Desse Miranda piscando-lhe o olho enquanto ambas se riam como adolescentes. 

-E tu? Notícias do Rob?

-Não. Nada.

-Sabes que existem telefones, telemóveis, e-mails…

-Sabes, saí hoje do tribunal. Finalmente Robert MaCallum foi declarado morto, sete anos depois do seu alegado ultimo avistamento. Neste momento sou a herdeira de todo o seu legado.

-E então?

-Sou a herdeira de tudo aquilo que ele deixou para trás e com o que não quer qualquer relação. Nem sei se é boa ideia entreter a noção de que ele quereria alguma coisa comigo.

-Amiga, para alguém tão inteligente, às vezes és um bocadinho densa.

Miranda ficou calada, sem saber o que responder à amiga, que continuou:

-De qualquer maneira, daqui a pouco tempo vais ter de te confrontar com ele. Afinal, ele vai ser o padrinho de casamento do Tobias…

-Eu sei. Aquilo que também sei é que quero que o nome MaCallum se transforme em algo que ele possa ver como bom.

-Falando nisso, como vai a Patrícia?

-Está a gerir tudo como eu esperava. As obras estão bem adiantadas e creio que devem estar concluídas também dentro de um ou dois meses.

-E depois, que vais fazer? Vais ter o Rob como vizinho e mudar-te para lá?

-Não sei. Depende. Para já a Patrícia vai administrar a quinta e depois verei…


quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Renascimento (XXIX de XL)

Miranda saiu do táxi, nos arredores de Nova-Iorque, e teve de confirmar se estava na morada certa. A vizinhança não parecia muito recomendável, bem como o bar onde se encontrava. Entrou e viu Marcus sentado numa mesa afastada. Dirigiu-se a ele e sentou-se na mesa.

-O que vai querer tomar? – Perguntou este.

-Uma água.

Marcus fez Sinal a uma empregada e fez o pedido.

-Sr. Marcus, presumo que o seu pedido para nos encontrarmos aqui não seja por acaso.

Marcus olhou para ela e sorriu, mas ficou em silêncio enquanto esperava que a empregada trouxesse uma garrafa e um copo, que deixou na mesa. Quando esta se afastou, ele falou finalmente.

-Não, não é por acaso. Sabe, depois do que me contou tomei um interesse especial no seu caso. Não foi à toa que lhe disse que havia uma diferença entre querer justiça ou vingança. Tive uma pessoa próxima que por falta de discernimento, ingenuidade, necessidade ou seja por que motivo for, porque no fim os motivos interessam sempre menos que os actos, foi vítima, tal como a senhora foi. Infelizmente, se no seu caso teve uma perda, no meu também. Percebe assim que tenho um investimento pessoal em lidar com este tipo de pessoas…

-Percebo perfeitamente.

-Dito isto, digo-lhe que tive uma conversa interessantíssima com um senhor chamado Phillip Kane. Não sei se o nome lhe diz alguma coisa?

-Não, sendo franca, nada.

-Pois bem. É um advogado. Há oito anos atrás era o braço direito do CEO da companhia discográfica do seu marido.

Miranda fez uma súbita expressão de profunda surpresa.

-E confirmou que foi ele que…

-Sim. Digamos que consegui ter com ele uma conversa aberta e honesta, coisa que creio ser rara, pelo menos em relação a ele. Mas, entretanto, não só confirmei como consegui obter a provável localização das fotos, não só as que lhe dizem respeito, mas aparentemente dezenas de outras.

-Sabe onde estão?

-Sei onde estavam há oito anos. Presumo que ainda estejam no mesmo local. São trofeus. Ele não os quereria longe.

-Compreendo.

-Tenho de lhe dizer que, como parte interessado, as fotos serão obtidas, pelo menos se ainda lá estiverem. Mas, o seu acesso a elas depende do que pretende fazer com a prova documental.

-Como assim?

-Se o seu interesse for somente obter justiça contra a pessoa culpada, conte comigo. Até lhe digo mais, uma vez que a minha firma está envolvida, terá de pagar os nossos serviços, mas eu suportarei metade dos custos. Mas se o seu interesse for vingança cega, não conte comigo. Quando para apanhar culpados se destrói inocentes pelo caminho, não vale a pena.

-Compreendo. Desde aquele dia no seu escritório, quando me fez menção a justiça ou vingança, que fiquei a pensar nisso. Quero sobretudo justiça. Não quero vir a sentir-me culpada por danos colaterais.

-Gosto de saber que estamos de acordo. E, voltando ao começo da conversa, não é por acaso que não estamos no meu escritório, ou em sua casa. Estamos aqui porque aquilo que vamos falar não é a maneira mais ética de fazer as coisas, mas será a mais eficaz.

-E o que propõe?

-Bem, nada disto interessa até termos as fotos em nossa posse. Com alguma sorte, isso ocorrerá nas próximas horas. Tenho alguém infiltrado na equipa de limpeza do edifício. Caso tenhamos as fotos deveremos tentar contactar com todas as partes visadas de forma privada, dar-lhes as fotos e o poder de decisão do que fazer com elas.

-Mas não acha que essas pessoas podem querer exercer alguma espécie de vingança, também?

-Claro que é uma possibilidade. Mas nós vamos dar uma saída que evite isso, tentando explicar as consequências de uma vingança cega. Mas no fim, não podemos ser responsáveis pelas atitudes de outros. Só as nossas. E se tivermos essas fotos comprometedoras, creio ser um dever, no mínimo, moral, de lhes entregar as fotos para que façam o que bem entenderem.

-Claro. – Respondeu Miranda embora pudesse prever claramente as consequências.

-Darei a todos a mesma opção que lhe vou dar a si.

-Que é?

-Liberdade.

-Como assim?

-Enquanto essas fotos existirem, poderão vir a lume. E é impossível saber se, nestes anos, não terão sido feitas cópias. No entanto, se aparecerem de propósito…

-Como assim?

-Imagine que o senhor Phillip Kane tem um súbito rasgo de consciência, não consegue viver com ele próprio e denuncia ele o antigo patrão, expondo a sua conduta e escudando o resto dos executivos da editora de repercussões…

-E porque faria ele isso?

-Sabe, quando o seu marido desapareceu, ele saiu da editora para uma empresa legal de alto gabarito, onde entrou de imediato como sócio, o que é muito invulgar. Acabou por conhecer e casar-se com a filha de um dos advogados sénior e herdeira de uma fortuna colossal. Em caso de divórcio, não tenho dúvidas que o sogro não só lhe acabaria com a carreira, como o deixaria destituído. Portanto, neste momento, o senhor Kane teria muito a perder. E pode vir a perdê-lo, se o sogro e a esposa vierem a receber alguns vídeos com as actividades que ele costuma ter nas sextas-feiras à tarde e que envolvem uma barrista ruiva.

-Ainda assim, acusar o ex-empregador não terá o mesmo efeito?

-Ele pode sempre alegar que contratualmente não poderia revelar nada que pusesse em causa e editora.

-E isso é verdade?

-É. Mas também é que se ele não acusar a editora, mas sim somente a pessoa… De qualquer forma, se ele o fizer e o problema se tornar público as fotos não terão peso algum. E podem até ter o efeito contrário, gerando simpatia pelas vítimas e pelo próprio Phillip. Ele vai ser o herói sensação das mulheres e jamais a mulher se divorciaria dele. Ia parecer mal. E entretanto os contractos assinados sob pressão poderão eventualmente ser renegociados… E todos ficam a ganhar menos uma pessoa.

-O culpado!

-Sim. Que me diz?

Mirada bebeu alguma da sua água e respondeu.

-Digo que, se calhar enquanto vítima, devia ser eu a contactar com as outras vítimas. Acredito que terão mais empatia comigo.

Marcus sorriu.

-Então, vamos ver se os deuses da boa fortuna nos bafejam com sorte e se as fotos aparecem ainda hoje…


terça-feira, 15 de outubro de 2024

Renascimento (XXVIII de XL)

 -Pá, mas que raio se passa aqui? – Perguntou Rob ao Zé quando entrou no estabelecimento dele pelas dez da manhã.

-Bom dia para ti também! – Respondeu o Zé – Estou um bocado ocupado, vais ter de esperar pelo café.

-Mas de onde é que saiu este pessoal todo?

A casa estava a abarrotar de homens com um aspecto mais ou menos rude a comer sandes e a beber qualquer coisa, maioritariamente cerveja.

-Aparentemente é a pausa a meio da manhã.

-Hã?

-Não sabias que a Herdade do Monte foi vendida?

-Vendida? A quem? Não me digas que foi a Cassandra que a comprou depois de lá ter ficado…

-Não, A cassandra comprou uma casa na Aldeia do Tobias. Já a viste? Está a ficar um casarão…

-Já vi, já. Mas então e a herdade?

-Não sei… Acho que nem o pessoal que lá está a trabalhar sabe.

-Mas vão lá fazer o quê?

-Sei lá, pá. Se calhar são mais uns espanhóis a plantarem vinha e oliveiras para depois mandarem tudo para Espanha e nós termos de importar de lá mais caro o que saiu daqui… O costume, portanto.

-Enfim… Mas o café sai ou não?

-Achas que eu estou pouco ocupado? Espera um bocadinho que este pessoal já se vai embora e voltas a ficar com a casa toda para ti.

-Espero que não dêem cabo do jornal. – Disse Rob com um ar um pouco chateado.

-Espero que não se ponham a fazer as palavras cruzadas. Isso é que era chato.

De repente mais um carro apareceu e estacionou. A porta abriu-se e um longo par de pernas torneadas apareceu primeiro. “Lá, vamos nós…”, pensou Rob para si próprio, mas quando a dona das pernas acabou de sair do carro, Rob descansou. Não era Miranda.

O pessoal que ali estava a comer, falar, rir, calou-se de repente com a sua chegada e quando ela entrou no estabelecimento, podia ouvir-se um alfinete a cair. Todos os olhos estavam postos nela, mas ela não parecia minimamente incomodada. Aliás, parecia nem reparar.

Dirigiu-se ao balcão, ficando ao lado de Rob, para quem nem sequer olhou e dirigiu-se directamente ao Zé:

-Do you speak english?

-“Um pouquinho” – respondeu o Zé no seu inglês arranhado carregado de sotaque Alentejano.

-Ainda bem. – Respondeu a jovem – Já reparei que é o único estabelecimento da região. Queria propor-lhe um acordo.

O Zé ficou intrigado e ela continuou.

-O meu nome é Patrícia e trabalho para a fundação que está a fazer a renovação da Herdade do Monte. Vamos ter cerca de trinta trabalhadores em permanência e queria saber se posso fazer um acordo consigo de maneira a providenciar pequenos-almoços, almoços e jantares a estes trabalhadores.

-Trinta? É capaz de ser complicado. Como vê, tenho um espaço algo limitado.

-Sim, compreendo. Mas as refeições não têm de ser feitas aqui. Pode providenciar a comida e entrega-la na herdade.

-Bem, assim talvez se arranje qualquer coisa. Claro que depende também de outras coisas…

Patrícia sorriu.

-Diga-me, quarenta euros por pessoa, por dia, parece-lhe razoável? Para as três refeições, incluindo bebidas e sobremesas.

O Zé ficou um bocado sem saber o que pensar. Olhou para Rob, que encolheu os ombros. 

-Não me parece mal, para ser franco. Ao longo de quanto tempo?

-O tempo que as obras demorarem, o que esperamos que seja apenas dois ou três meses.

-Sabe que aqui só faço comida que é habitual por aqui. Dietas especiais a coisas afins…

-Sim, perfeitamente. Mas isso são detalhes que podemos rever com mais pormenor caso se disponha a aceitar.

Zé olhou para Rob e este acenou com a cabeça como que dizendo-lhe “o que é que tens a perder?”

-Pois bem, - acabou por responder o Zé – aceito. 

Patrícia sorriu pela primeira vez desde que tinha entrado e o seu rosto pareceu iluminar-se de repente.

-Sr. Carlos, - chamou, olhando para os operários presentes, vindo um homem pequeno mas robusto, com a pele marcada pelo sol, de imediato ao pé dela – este é o Sr. Zé. Ele vai providenciar-vos todas as refeições. Acerte todos os detalhes com ele, por favor.

-Sim, senhora. - Respondeu Carlos num tom subserviente.

Dito isto, Patrícia voltou-se para Zé, estendeu-lhe a mão, que Zé apertou num cumprimento.

-Foi um gosto, senhor Zé. 

-O gosto foi meu.

E ela virou-se, saiu, entrou no carro e partiu.

O Zé ainda estava atónito quando o Rob lhe perguntou com um sorriso de gozo estampado na cara:

-Então? E desta que renovas o estabelecimento? 

O Zé só se riu e abanou a cabeça.


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Renascimento (XXVII de XL)

 Phil estava sentado a bebericar o seu Gin num luxuoso bar em Manhattan, numa cabine semiprivada quando um estranho se sentou à sua frente, sem cerimónia, sorrindo.

-Desculpe, amigo – disse com um ar que tinha tanto de surpreso como de aborrecido – mas espero companhia e há mais lugares vagos por aí.

-Lamento, mas hoje a sua companhia não vai poder vir.

Como se se tratasse de uma deixa numa peça de teatro, o seu telemóvel tocou. Ele viu quem era no visor, olhou para o estranho e atendeu.

-Sim?

-Oi, querido. Olha, desculpa mas hoje não vai dar. Tive uma rotura de um cano em casa e tenho de ir para lá, por causa dos canalizadores… Desculpa. Queria tanto ver-te…

-E eu a ti. Vai lá. Depois combinamos qualquer coisa.

-Eu prometo que vai valer a pena – disse a voz do outro lado num tom provocador.

E sem mais palavras Phil desligou a chamada e encarou o estranho.

-Sabe, Phil, nós precisávamos de ter esta conversa e, pelo que temos observado, este seria o único momento possível.

-Creio estar em desvantagem. Como disse que se chamava?

-Não disse. E isso é um detalhe inconsequente para a nossa conversa. 

-E o que o leva a crer que eu queira falar consigo?

-Tenho motivos para pensar que não só falará, como até poderá vir a colaborar e, quiçá, ser visto como uma espécie de herói. Não que o mereça, para ser franco. Mas estou-me a adiantar.

Entretanto chegou um empregado que trouxe outro Gin para Phil e uma bebida para o estranho.

-Phil, lembra-se de há uns oito anos atrás, quando deixou a companhia discográfica?

Phil, não respondeu, limitando-se a olhar para o estranho. Depois levantou-se, mandou com umas notas para cima da mesa e virou-se para sair.

-Se fosse eu a si não faria isso. – Disse o estranho de repente - Sabe, basta eu mandar uma mensagem com o meu telemóvel e em minutos a sua esposa que neste momento, enquanto falamos, está num centro comercial, numa loja de roupas para crianças, ficará a saber com detalhe o que acontece quando sai cedo do trabalho às sextas-feiras… como hoje, por exemplo.

Isto parou Phil, que olhou para o estranho e voltou a sentar-se.

-Isto é alguma tentativa de extorsão?

-Não, de todo. Como lhe disse é uma conversa. Mas para esta conversa dar frutos, tem de ser uma conversa honesta. Sendo um homem inteligente, como sei que é, partirá certamente do pressuposto que há coisas que sabemos à partida, portanto tentar nega-las de alguma maneira só o fará parecer mal aos nossos olhos. E já percebeu que queremos e faremos o que for necessário para garantir a sua honestidade. Portanto tudo o que acontecer consigo a seguir a esta conversa será uma directa consequência dos seus actos, para o bem e para o mal. Estamos entendidos?

Phil anuiu.

-Pode então responder à minha pergunta?

-Sim, lembro-me perfeitamente.

-Porque é que saiu abruptamente da companhia? Segundo entendo tinha a total confiança do CEO e de certeza que este cobriria qualquer oferta que lhe fosse feita. Afinal, não teria sido útil mantê-lo por perto?

-Porque é que acha isso?

-Porque sabia, por certo, de muita coisa que se passava no topo da editora.

-Quando eu saí assinei um acordo que me proíbe de usar qualquer informação que tenha de um modo que prejudique a editora.

-Certo. Mas porquê sair?

-Se calhar precisava de novos desafios…

O estranho sorriu.

-Lembra-se do que eu disse acerca da honestidade? Como é que podemos criar uma relação de confiança se continuar a insistir em distorcer a realidade.

-Como assim?

-Vejamos: É o homem de confiança da pessoa no topo da companhia durante anos; de repente sai para uma firma onde entra directamente como sócio; Graças a isso e a ter expandido o seu círculo social, está agora casado com uma herdeira de um império financeiro de biliões. Torna-se óbvio que a sua saída só lhe trouxe sucesso. Mas ambos sabemos que o motivo pelo qual saiu não foi procurar novos desafios. Assim como ambos sabemos que a sua boa fortuna não foi totalmente fruto de trabalho árduo e alguma sorte.

Phil, engoliu em seco.

-Tentemos mais uma vez, de forma mais definitiva. Porquê sair?

Phil fez uma pausa. Podia dar dezenas de respostas e argumentar de forma plausível, capaz de convencer um júri, para todas elas. Afinal, era isso que fazia na vida. No entanto neste momento duvidava que isso lhe trouxesse alguma vantagem. Analisou bem a sua posição e, sentindo-se encurralado respondeu:

-Por causa do desaparecimento de Robert MaCallum.

-Vê? Não é mais fácil ser honesto? Continuando nesta veia de honestidade, importa-se de elaborar? Como é que as duas coisas se relacionam?

Phil ficou a olhar para o estranho. O que é que ele saberia ao certo? Supostamente ninguém a não ser ele próprio, o seu antigo patrão e o próprio Robert MaCallum poderiam saber de alguma coisa. Teria Robert deixado algo escrito que tivesse vindo a lume agora? Qual seria a probabilidade? Mas também, qual seria a probabilidade de ele estar num bar numa sexta-feira à tarde a ter esta conversa?

-Sabe das fotos? – Limitou-se a perguntar.

O estranho acenou afirmativamente com um sorriso.

-Aquilo que nós pensamos é que, quando Robert desapareceu, o seu antigo patrão percebeu que se ele de repente reaparecesse aquela reunião poderia explodir-lhe nas mãos. Afastá-lo seria uma opção. Foi o que aconteceu, não foi?

-Foi. – Confirmou Phil com um ar derrotado.

-Pronto. Viu, não foi assim tão difícil.

Phil queria relaxar mas algo lhe dizia que esta conversa ainda não tinha acabado.

-E agora é onde as suas acções terão consequências.

Phil tremeu por dentro.

-Por acaso tem conhecimento do sitio onde estão guardadas estas fotos?

-Não. – Respondeu Phil, causando um ar desapontamento no estranho, começando este a pegar no telemóvel. Acrescentou de imediato – Mas sei onde estavam há oito anos. Num cofre, no gabinete do meu antigo patrão.

O estranho sorriu.

-É justo. E diga-me, o que é expectável que esteja nesse cofre? Além destas fotos, claro…

-Dezenas de outras. De várias pessoas, a maior parte artistas ou aspirantes e em alguns casos outras agentes.

-E é prática corrente serem depois usadas contra estas pessoas, certo? – Perguntando o estranho olhando para ele como se ele fosse desprezível.

-Sim.

-Muito bem, Phil. Como lhe disse, as suas acções, daqui para a frente, ditarão consequências. Escolha-as com cuidado. Por exemplo, creio que achará que será do seu melhor interesse que esta nossa conversa nunca tenha acontecido. 

Phil anuiu.

O estranho levantou-se.

-A sua conta está paga. E sua mulher estará em casa daqui a vinte minutos. Sugiro umas flores e chocolates.


sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Renascimento (XXVI de XL)

 Cassandra esperava já no apartamento de Miranda quando esta entrou e ficou surpresa ao vê-la.

-Olá, a Patrícia não me avisou que estavas aqui, senão tinha tentado despachar-me.

-Olá, não faz mal, também não estou aqui assim há tanto tempo. A Patrícia disse-me o que foste fazer.

-Advogados e tribunais. Seria suposto ser mais simples declarar alguém como morto, quando já está desaparecido há oito anos.

-Porque é que estás a ter problemas?

-Porque aparentemente como ouve alegados avistamentos até há seis anos atrás, o ministério público está a tentar contestar. E nós estamos a tentar demonstrar que esses avistamentos nunca foram comprovados. Se calhar tenho de aguardar mais uns meses até ter isto despachado. Quando fizerem sete anos do último avistamento, já não há impedimento.

-E o resto?

-Bem, tenho tido notícias dos investigadores. Acho que há muita coisa alegada, mas não conseguiram ainda obter provas…

-Sabes que hoje em dia, num caso destes, bastaria vir a público que alguém estava a conduzir uma investigação e o próprio publico se encarregaria de os condenar.

-Verdade, mas eu pergunto-me que propósito maior serviria isso?

-Não os deixar impunes?

Miranda sorriu.

-Sabes, quando chegamos de Portugal vinha consumida com essa ideia. Devia expor tudo, deixar a companhia em ruinas, arrastá-los todos para baixo… Mas e os que não têm culpa? Os que não sabiam de nada e ficam com a vida em risco por causa das decisões estupidas de uns quantos. Eu adorava fazer isso. Mas se calhar há outras maneiras. Se calhar pode-se conseguir tornar algo mau em algo bom.

Cassandra ficou admirada. Miranda perguntou:

-Bem, mas não viste falar comigo só para saber novidades, ou foi?

-Sabes que eu quero saber sempre as novidades, mas não foi só por isso. Tenho uma novidade e tinha de te contar pessoalmente.

-Então?

-Bem, tenho-te dito que tenho falado com o Tobias quase todos os dias…

-Sim. – Respondeu Miranda com um sorriso maroto.

-Bem, também sabes que eu tenho andado a tentar convencê-lo a dedicar-se a fazer aquelas peças de artesanato a tempo inteiro, mas que ele estava na dúvida…

-Sim, já me tinhas contado. E então?

-Bem, convenci-o.

-Ai sim? Conta!

-Bem, estávamos a falar e eu perguntei-lhe se ele consideraria deixar o trabalho e dedicar-se à escultura se nos casássemos.

Miranda ficou literalmente sem palavras a olhar para Cassandra com o ar mais admirado que alguém conseguiria imaginar. Finalmente lá conseguiu juntar algumas palavras.

-Bem,… Dizer-te que estou surpreendida é pouco. E ele?

-Ele disse logo que não.

-Logo assim de caras?

-Completamente. Disse que jamais iria depender de alguém, fosse quem fosse. Tinha vivido a sua vida até ali sem depender de ninguém… Aquelas coisas que tu calculas e sabes.

-E tu?

-Perguntei-lhe se isso implicava que ele não queria casar comigo. E ele volta-se e diz “Isso é diferente, eu não quero é estar dependente de ti, só porque tens a tua fortuna. Além disso, sabes que eu jamais sairia daqui”.

-E tu?

-Comprei lá uma casa. Entretanto mostrei as coisas que trouxe e mais umas fotos de peças dele, algumas que ele ainda não tinha acabado, ao Guido,…

-Qual Guido?

-Aquele da Galeria, que se meteu contigo uma vez que fomos ver uma exposição…

-Ah! Esse Guido. – Respondeu Miranda a rir-se.

-Sim. Ele adorou as peças e algumas já foram vendidas por bons preços. Acho que ele não tem de se preocupar com picuinhices. E pronto.

-Isso que dizer o quê?

-Bem, que te quero convidar para madrinha de uma casamento que vai ser lá, para onde eu me vou mudar logo que as obras numa casa estejam concluídas.

-Vais deixar Nova-Iorque assim sem mais nem menos?

-Sim. Sabes, desde que voltámos… mesmo quando mandas buscar pão Alentejano e um pastel de nata a uma padaria portuguesa… Não tem o mesmo sabor. A comida aqui parece insalubre… Até as pessoas parecem insalubres por comparação. Pela primeira vez lá, fui feliz, verdadeiramente feliz. E acho que mereço.

-Sabes que mais? Também acho. Então e isso está para quando?

-Depende do andamento das obras. Ainda é capaz de demorar alguns meses.

Miranda abraçou a amiga com genuína felicidade. Depois só lhe disse:

-Bem, o que é um anúncio de noivado sem uma festa? Hoje vamos sair para comemorar. Patrícia, - continuou ela, virando-se para a assistente – estás convidada.

 


quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Renascimento (XXV de XL)

 Os dias já eram mais pequenos e as noites mais frias. Depois de mais um ensaio e a seguir a todo o resto do pessoal sair, Tobias voltou-se para o Rob:

-Sabes uma coisa? Vou mudar de vida.

-Como assim?

-Sabes aqueles coisitas que faço, candeeiros e candelabros em metal e quando estou aborrecido na oficina? A Cassandra levou umas fotos de umas coisas dessas e tenho andado a vender aquilo lá para os ricaços… Ela convenceu-me a deixar o trabalho e montar uma oficina minha e fazer isto.

-Olha que bom. De serralheiro para escultor… Qualquer dia aquelas tralhas que me deste ainda valem uma fortuna…

-Admira-te. Vai ver que ainda fico famoso. – Disse ele no gozo.

-Ainda falas com ela?

-Todos os dias. – Disse ele com um sorriso.

 -Isso pegou mesmo de estaca. Ainda bem para ti. Pena que ela esteja quase a meio mundo de distância.

-Por falar nisso, aquilo que eu queria mesmo falar contigo era outra coisa.

-Então?

-Eu e ela não estamos a achar muita piada a esta coisa de estarmos longe…

Rob olhou para ele meio preocupado.

-Não me digas que temos de procurar outro baterista…

-Não, nem penses nisso. Quer é dizer que tens de comprar um fato, que eu não te quero como meu padrinho vestido assim.

-Teu padrinho?

-Sim ela vai mudar para cá e vamos dar o nó. Já comprou uma casa lá ao pé da minha que está a ser toda renovada e assim que estiver pronta, ela vem.

-Não achas isso um bocado súbito?

Tobias encolheu os ombros.

-Nenhum de nós vai para novo. A maior parte das nossas vidas já está para trás. O que é que temos a perder? Não sei se sabes alguma coisa dela…

-Bem o que Miranda me contou ao longo dos nossos passeios.

-Também não me parece que ela tenha tido muito amor na vida. Pode ser que esta seja a hipótese.

Rob anuiu com um sorriso.

-Se estás feliz, eu estou feliz. E claro que compro um fato. Até aparo e penteio a barba, se quiseres. Mas já é só por ser para ti.

Riram-se os dois enquanto Rob puxava Tobias para um abraço

-Olha lá, e a Miranda?

-Sei lá da Miranda.

-Quando foi a última vez que falaste com ela?

-Quando ela veio aqui despedir-se.

Tobias abanou a cabeça desiludido com o amigo.

-Porquê?

-Porque ela tem de saber o que quer. Verdadeiramente. Ela anda há oito anos à procura de um fantasma. Um fantasma que eu já enterrei há muito. Eu já lidei com tudo o que tinha que lidar, mas ela não. Ela ainda carrega muita coisa com ela. E não posso ser eu a lidar com tudo isso. E além disso, ela sabe sempre onde me encontrar.

-Bem, lá isso é verdade.

-Pode ser que ela venha ao casamento…