segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Lilith - V - Revelação

Vinte e uma horas.

Se até aqui me sentia fascinado por ela, neste momento o meu fascínio ia além dela, passava pela história que me contava. Já não estava interessado em julgá-la verdadeira ou falsa, mas via que fazia sentido. Já tinha lido várias vezes as passagens que ela me mostrava e, no entanto, nunca tinha olhado para elas desta maneira e, de certa forma, observando a frio, com distância, o que ela dizia encaixava perfeitamente no texto.

– Tenho uma pergunta e um pedido para te fazer.

– Diz.

– Primeiro a pergunta. Em lado nenhum dos textos que me apontaste apareces tu. Apontaste-me incongruências, mas não há aqui o teu nome, não está aqui nenhuma Lilith. Já li por alto como chegaram à tua existência aqui, mas gostava que me explicasses por tuas palavras.

– É justo. Tudo bem, eu conto. Em toda a Bíblia apenas aparecia uma referência ao meu nome, no «Livro de Isaías», no capítulo 34, versículo 14. Mas escusas de procurar aí, porque as traduções encarregaram-se de me fazer desaparecer. Sabes, não me quero escusar a responder-te, nem o vou fazer, mas temos tempo e eu estou aborrecida. E se fôssemos a um lado qualquer e continuássemos a conversa mais logo?

Fiquei despontado e não fingi o contrário. Ela riu.

– Não faças essa carinha de amuado – disse. – Temos todo o tempo do mundo. E quem sabe até acontece alguma coisa de interessante…

Resignei-me.

– E queres ir onde?

– A um sítio movimentado, com gente. Quero um sítio com gente bonita, por mais artificial que seja. Vamos a Lisboa.

– Mas isso é a uma hora e tal daqui…

– Eu sei, mas tu por acaso tens mais alguma coisa planeada para esta noite?

E fomos.

A viagem foi rápida; no que pareceu um instante, estávamos em Lisboa. Todas as minhas tentativas de reatar a conversa foram infrutíferas. Ela desviava sempre a conversa para outro lado, ou interrompia-me com uma música qualquer que estava a passar na rádio na altura.

Na ponte sobre o Tejo falámos acerca de onde iríamos e acabámos por nos decidir, por escolha e quase imposição dela, por um dos sítios mais badalados da noite lisboeta.

Não me agradavam muito estes ambientes e não via muito bem o propósito de estarmos ali. Continuava com os meus compromissos editoriais em mente e pensava no tempo que perdia. Enquanto remoía tudo isto em silêncio, ela voltou-se para mim e disse:

– Relaxa. Aprecia. Não podes escrever sem viver, senão vais escrever acerca de quê? Tens tempo, acredita.

Escolhemos uma mesa, sentámo-nos, pedimos bebidas e em seguida ela levantou-se.

– Apetece-me dançar – disse, e dirigiu-se à pista de dança, sem esperar por mim.

Deixei-me ficar sentado. O ritmo da música de dança não combina com os meus gostos pessoais. Fiquei a vê-la no meio da multidão que se apinhava e que abandonava os corpos à batida forte. Fui bebendo e apreciando o espaço e as pessoas, o glamour, as mulheres e os homens a tentarem parecer mais do que são na realidade, os mini-jogos de sedução, as trocas de olhares, a exibição. Estava farto destes jogos há tanto tempo! Já não tinha paciência para tentar impingir-me a alguém.

Ela voltou ao fim de uma meia hora e sentou-se. Pegou de novo na sua bebida.

– Então? Divertido?

– Nem por isso…

– Mas podias estar, se quisesses.

– Talvez…

– Bastava quereres.

– Porque é que achas isso?

– Queres mesmo que te diga?

– Quero.

– À tua direita, junto ao bar, está uma mesa com três mulheres. Nessa mesa está uma morena. Não olhes de repente. Olha, mas disfarçadamente. Vês a morena?

– Vejo.

– Estás a intrigá-la e ela quase não tirou os olhos de ti desde que chegámos.

– E como é que sabes isso, se quase desde que chegámos tens estado lá em baixo?

– Pura e simplesmente, sei. E quando eu te disser vais olhar directamente para ela e ela vai olhar directamente para ti e vai sorrir, como se fosse um convite.

– Deixa-te de coisas…

– Faz o que eu te digo. – Aguardou um momento. – Olha agora.

Olhei. A morena olhou para mim e cruzámos o olhar. Ela sorriu de uma maneira que era um convite explícito, quase inequívoco.

– Agora olha para trás de mim, para a pista de dança. Vês a loura platinada com um vestido branco curto? Tem estado a observar-te também. Vais olhar para ela por um bocadinho de tempo e vais ver o que acontece.

Fiz o que ela me disse. A loura estava lá tal como ela me disse, e quando fixei o meu olhar nela, ela olhou-me, sorriu, e dançou de uma forma algo mais sensual, como se fosse um convite a que me juntasse a ela.

– Vês? Só não estás divertido porque não queres. Há mais por aí, mas depois podias começar a ficar convencido…

– Deixa-te de coisas – disse-lhe. – Coincidências…

– Sabes, no mundo não há coincidências. E eu trouxe-te aqui por um motivo.

– Que é…?

– Posso dizer-te mil coisas para te descrever quem sou, mas às vezes é mais simples mostrar-te. E sei que se o mostrar vais prestar mais atenção ao que tenho para te dizer. A questão é: estás curioso ao ponto de quereres que te mostre?

A verdade é que ainda que não estivesse, neste momento a minha curiosidade estava ao rubro.

– Estou.

– Pois, muito bem, então. Estão aqui centenas de pessoas. Podia dizer-te para escolheres qualquer uma. Mas para tornar tudo ainda mais difícil vou-te dizer para escolheres uma mulher. Mas atenção, quero que escolhas uma que notoriamente goste de homens, que esteja com um e a ser admirada por mais uns quantos. Escolhe bem e com cuidado.

Deixei o meu olhar vaguear pela sala em busca de alguém que se enquadrasse no perfil que ela tinha pedido. Havia algumas, mas uma em particular chamou-me a atenção. Uma ruiva magnífica, linda, voluptuosa, abraçada a um homem daqueles que chamam mesmo a atenção, cheio de classe e charme. Podia-se ver na expressão dela que estava completamente caída por ele. Mas isso não impedia que todos os homens que estavam nas mesas em volta dessem tudo para estar na pele dele. Era realmente um magnífico exemplar do género feminino.

– Aquela – limitei-me a dizer-lhe.

Ela olhou.

– Boa escolha.

Dito isto, levantou-se e o tempo pareceu abrandar e era como se tudo de repente começasse a andar em câmara lenta. Nesse instante, toda a sala notou a sua presença. Podia ver nos olhos de quase toda a gente algum espanto, admiração e mesmo desejo. Todos os jogos de sedução pararam. Todos os olhares a acompanharam. Com aquele andar que eu já não estranhava, cheio de certeza, de leveza, com uma graça felina, atravessou a sala com o olhar fixo na mulher que eu tinha indicado. Esta estava ainda abraçada ao homem, mas o seu olhar estava cativo naquela mulher que quase flutuava na sua direcção, quase como se estivesse encantada.

Lilith chegou-se ao pé dela, bem perto, e parou. Levantou o braço na direcção dela. Ela largou o homem com quem estava, entregou-se nos braços de Lilith como se esta fosse alguém a quem sempre procurara. Abraçaram-se. As suas bocas colaram-se num beijo e o tempo pareceu atrasar ainda mais. Aquele beijo pareceu durar uma eternidade e via o abandono com que a mulher se entregou. Quando o beijo acabou, Lilith largou-a, virou-lhe as costas e começou a afastar-se. A mulher fez uma expressão de dor, como se a tivessem ferido de alguma maneira.

– NÃÃÃÃÃO! – Gritou com um tom de desespero.

Lilith voltou-se para ela novamente e limitou-se a olhá-la. A mulher caiu de joelhos no chão e as lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto, como se lhe tivessem arrancado um pedaço. Como se naquele momento o seu coração se tivesse partido. Como se tivesse encontrado o amor da sua vida e o tivesse perdido.

O homem que acompanhava a mulher estava atónito a olhar para ela, sem saber o que fazer.

Lilith afastou-se no mesmo passo seguro, de volta na minha direcção.

– Vamos. Já fizemos tudo o que tínhamos de fazer aqui – disse-me quando chegou ao pé de mim. Segui-a, completamente estupefacto pelo que tinha presenciado.

O tempo voltou ao normal.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Lilith - IV - Criador

Dezanove horas.

Bateram à porta. Desta vez abri com confiança e não estranhei vê‑la ali. Ela olhou para mim e sorriu.

– Trouxe vinho – disse, num tom jovial. – Convidas-me para jantar?

– Bem, se trouxeste o vinho…

Fomos até à cozinha. Ela caminhou com a mesma graça, com a mesma leveza.

– Espero que sejas um bom cozinheiro… – disse-me.

– Tenho um microondas – respondi.

– Tens noção de que isso não é muito impressionante?

– Tens noção de que não estou a tentar impressionar-te?

– Será?

– É.

– Acredito em ti.

Tirei a comida das formas de alumínio para os pratos que pus a aquecer no microondas enquanto abria a garrafa para deixar o vinho respirar.

– Tenho muitas perguntas para te fazer – disse-lhe.

– Calculo que sim, mas primeiro jantamos. Vais ver que o vinho até ajuda e pelo menos não te dá a dor de cabeça que aquele whisky te deu.

Olhei para ela. Apetecia-me perguntar-lhe como é que ela sabia disso, mas resolvi seguir a sua indicação e deixar as perguntas para depois do jantar.

Jantámos cedo e fomos falando de trivialidades. Depois saímos para o terraço com os copos de vinho na mão e sentámo-nos apreciando o princípio da noite, que estava amena.

Apetecia-me bombardeá-la com perguntas, mas contive-me. Foi ela que iniciou as hostilidades.

– Então? – Começou. – Encontraste-me?

– Depende. – Fiz uma pausa para organizar as ideias. – Sabes, toda a razão me diz que é impossível aquilo que me contaste, logo não posso acreditar que sejas quem afirmas ser.

– E no entanto, bem lá no fundo, subsiste a dúvida que te deixa curioso, não é? E se eu for mesmo? Como é que posso saber que o whisky te deixou com dor de cabeça, como é que podia saber no meio de centenas de livros onde estava aquele, especificamente, como é que sabia que tinhas escrito meia dúzia de linhas depois de me veres na praia? Aliás, como é que eu sabia que me tinhas visto? Isto tudo são perguntas para as quais não tens resposta e que te deixam a dúvida. Mas eu não estou aqui para te dar certezas. Acreditas no que quiseres acreditar.

Assenti.

– Também tens que perceber que, caso sejas quem afirmas, nada do que li acerca de ti é muito elogioso.

Ela riu.

– Claro que não é. Não se pode dizer que tenha uma personalidade muito fácil…

– Personalidade difícil até compreendo, mas súcubo? Demónio da noite? É um pouquinho mais à frente…

– Sabes, quando olha, hoje em dia, para uma mulher totalmente independente e livre ainda o fazes com desconfiança. Agora transpõe isso para há sete mil anos atrás em sociedades totalmente controladas por homens e diz-me o que achas que seria normal acontecer. E olha bem para mim. Pareço-te alguém que anda a roubar os espíritos de criancinhas na noite?

– Dizem que o diabo é charmoso.

– Seria, se existisse.

– E não existe?

– Não.

– Mas Deus existe.

– Claro que sim.

– E foi ele que te criou…

– De certa forma, sim.

– De certa forma? Disseste-me que acordaste e viste Yahvé, e disseste que era um pai para ti…

– Era, não. É. Mas não te disse que ele era Deus. Nem sequer ele alguma vez me disse que era Deus. Ele disse-me que era o criador.

– Então quem é Deus?

– Isso é uma pergunta para a qual ninguém tem uma resposta. Nem mesmo Yahvé. Que é para ti Deus?

– Para mim? Bem, Deus é uma força eterna, omnipresente, omnipotente…

– Pois, mas isso não diz grande coisa acerca d’Ele, pois não? Não revela propriamente traços de personalidade.

– É verdade.

– Então digo-te isto. Deus é tudo. E nessa capacidade também tu e eu e o ar que nos rodeia e o mais e os micróbios e os átomos e as estrelas e o universo inteiro são Deus. Quer isto dizer que, à partida, és divino por natureza e por inerência. Não precisas de fazer nada para o ser. Simplesmente és, tal como Deus simplesmente é.

– Então quem é Yahvé?

– É o criador.

– E o criador não é Deus?

– Não. Ser chamado de Deus não implica que O seja.

Fiquei um bocado a remoer na lógica disto tudo. Sem dúvida que havia coerência no que ela me dizia e uma certeza dada pelas suas respostas rápidas que não deixava de me surpreender. Ela não precisava de pensar para me responder, simplesmente respondia com a certeza que só é dada pelo conhecimento.

– Ainda tens a Bíblia à mão? Vai buscar. Quero mostrar-te uma coisa.

Fui e voltei rapidamente. Ela pegou-lhe e abriu-a precisamente na página que procurava.

– Lê o versículo 22.

O livro aberto era novamente o «Génesis», e o versículo indicado rezava:

«Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente, …»

Olhei-a.

– Agora lê o versículo 11.

Li.

«E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?»

Ela olhou-me.

– O que é que achas de estranho?

– Bem, se queres que te seja franco, nada.

– Então olha e lê. Se Deus no versículo 11 fala na primeira pessoa, porque é que em 20 fala no plural? A não ser que fale com alguém igual a ele, não é? «Eis que o homem é como um de nós.»

– Queres dizer que há mais do que um Deus?

– Não, quero dizer que há mais do que um criador.

Lilith - III - O mito de Lilith

Onze da manhã.

Acordei de um sono pesado, entrecortado com visões de paraísos perdidos, de presenças divinas, de tentações.

Pensei na noite anterior, como um sonho absolutamente estranho, e decidi que mudaria a marca de whisky que tinha andado a beber. Claramente, esta não me favorecia.

Levantei-me com uma dor de cabeça do tamanho do mundo, sinal evidente de ressaca, mas, por outro lado, o resto do meu corpo não se sentia como tal. Estava, inclusivamente, com fome. Muita fome.

Resolvi comer qualquer coisa, levantei-me, dirigi-me à cozinha e, ao passar na sala, que ficava no caminho, notei o perfume adocicado que pairava ainda no ar, suave mas pleno de insistência. A minha dor de cabeça passou de imediato, como se aquele perfume contivesse o remédio para os meus males.

Em cima da mesa da sala a Bíblia que ela tinha ido buscar à estante e que me dera para ler. Afinal não fora um sonho. Ela tinha estado ali, presente, fosse ela quem fosse.

Todo o meu ser racional se recusava a acreditar que tinha estado a falar com uma personagem mitológica, pelo menos nas suas próprias palavras. Não deixava, no entanto, de ser fascinante.

Decidi que iria procurar referências a Lilith. Comi, agarrei no carro e estava em Lisboa pouco mais de uma hora depois. Fui a casa buscar o portátil e fui em seguida para a Baixa, em busca de alguma livraria que tivesse obras relacionadas com esoterismo e onde pudesse encontrar esta personagem. A meio da tarde já me dirigia novamente para o meu isolamento, com meia dúzia de livros debaixo do braço e um portátil com internet móvel.

A semana seguinte foi passada a ler com afinco acerca de Lilith, e descobri que era quase sempre associada a demónios e súcubos. Era a tentadora, um demónio vingativo que andava pelo mundo a matar crianças no berço e ainda no ventre das mães, que tentava homens jovens que dormiam sozinhos para poder dar à luz criaturas demoníacas, e mais uma série de coisas, nenhuma delas muito abonatória. Era uma figura transversal a quase todas as civilizações, havendo representações suas na Suméria, no Egipto, na Grécia e por consequência em Roma, e ao longo da Idade Média, sendo que era costume colocar amuletos por cima das portas ou nas paredes dos quartos das crianças com a inscrição «Lilith – abi», que quer dizer «Lilith – vai-te para as proteger da morte súbita. Alguns estudiosos consideravam mesmo que esta expressão é a origem da palavra inglesa Lullaby, que quer dizer canção de embalar, sendo que originalmente se referiria a uma evocação ou oração cantada para proteger as crianças durante o sono. Por outro lado, começava nos dias de hoje a ser vista como uma imagem da independência feminina e da procura da igualdade entre os sexos. Existiam inclusivamente revistas com o seu nome.

A minha cabeça enchia-se de perguntas sem resposta.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

EA WRC PUMA

Lilith - II - À procura de Lilith

Três da manhã.

– O nome só por si não te diz nada?

Pensei um pouco.

– Lilith? Não, não me diz nada.

– Então talvez seja melhor eu mostrar-te quem sou.

Olhou para as minhas estantes repletas de livros. Levantou-se com suavidade, dirigiu-se a elas, e pegou num livro. Quase tive a ilusão de que o livro tinha saltado da estante para ir ao seu encontro.

– Já leste este livro?

Reparei que tinha a Bíblia Sagrada na mão.

– Todo não.

Ela sorriu.

– Quem eu sou está explicado nos versículos 26 e 27 do capítulo 1 do livro do Génesis.

Passou-me o livro para a mão. Procurei o que ela me tinha indicado. Encontrei com facilidade e li:

 

26

«E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.

27

E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.»

 

Já tinha lido aquela passagem outras vezes e não achei nada de estranho.

– E então? – Perguntei.

– Bem, se continuares a ler, vais descobrir a segunda criação a partir do versículo 7 do capítulo 2.

– Segunda criação?

– Pensa. Deus criou tudo até ao sexto dia. Só depois recriou?

– Parece-me apenas uma descrição mais pormenorizada do sexto dia…

– Mas não é.

Li novamente o capítulo 1 desde o começo e o capítulo 2, mas continuei com a mesma sensação. Ela percebeu isso.

– Já ouviste falar na Cabala? – Perguntou-me.

– Já. É um conjunto de textos místicos judeus.

– Sim. É isso mesmo. E no Zohar?

– Não, nunca ouvi falar. Quer dizer, o nome não me é estranho, mas não sei do que se trata.

– O Zohar é um comentário cabalístico à Bíblia hebraica. É lá que me encontras.

Fiquei a olhar para ela, provavelmente com um ar estranho. Ela riu-se.

– Poupo-te o trabalho – disse. – Sou Lilith, primeira mulher de Adão, criada do barro primordial juntamente com ele.

Foi a vez de eu me rir.

– Para alguém com a tua idade estás muito bem conservada.

– Estou, não estou?

– Agora a sério…

– Eu falo sempre a sério.

Parei a olhar para ela e fiquei a pensar na sensação que me provocava.

– Não te posso obrigar a acreditar em mim, mas vou-te contar uma história. E a escolha de acreditares ou não é tua.

Limitei-me a acenar. Afinal de contas, o que tinha eu a perder? Ela começou.

 

«A primeira recordação que eu tenho é de acordar. Não foi um acordar normal, como quando acordas de manhã de um sono pesado, foi antes um tomar de consciência repentino. Olhei para o lado e ali estava eu, embora não fosse eu. É difícil explicar-te por palavras porque não pode haver uma descrição precisa do que senti. Estavam ali mais duas entidades. Uma era eu também, embora separado de mim. O outro não.

Aquele que não era eu falou:

– Eu sou Yahvé, o criador. Tu és Adão –, falando para a outra parte de mim que me era externa – e tu és Lilith. – Disse para mim directamente. – São homem e mulher e ambos são um só, criados à minha imagem e semelhança. Este lugar onde estão chama-se Éden, e tudo o que aqui está é vosso. Nada tem nome, pelo que o nome de cada uma destas coisas será dado por vós.

Sabes, à altura ainda nem havia perguntas. Não conseguia formular nada. Tudo à minha volta era novo, belo e maravilhoso. Levantei-me, bem como Adão, e saímos em exploração, numa verdadeira aventura de conhecimento. Cheirávamos, provávamos, tocávamos e olhávamos para tudo. Deitávamo-nos e fechávamos os olhos só para ouvir os sons. Tudo era bom.

Com o tempo, fomos descobrindo mais e mais e quanto mais coisas descobríamos mais queríamos descobrir. Yahvé vinha frequentemente ao nosso encontro e ensinava-nos, tirava-nos dúvidas, respondia às nossas questões com a paciência com que um pai ensina um filho. E ele era na verdade o nosso pai.

Até que houve um momento maravilhoso. Adão e eu descobrimos que, embora já não estivéssemos unidos, havia ainda uma maneira de sermos um só, ainda que por breves momentos. Descobrimos o sexo, e tudo o que de bom advinha dele.

Mas depressa me apercebi de que ambos sentíamos as coisas de maneira diferente, díspar. Percebi que o que eu sentia era muito mais forte em termos físicos do que ele. E descobri que ele se acomodava. E descobrimos a rotina. E ao fim de algum tempo, depois de longas conversas com ele, decidi ir falar com Yahvé. Perguntei-lhe o porquê de tudo aquilo e ele explicou-me que ambos tínhamos sido feitos de maneira a ver o mundo de forma diferente para que nos complementássemos. Não podíamos ser iguais na nossa natureza. Compreendi. Mas o tempo foi-se arrastando e nada mudava e a minha insatisfação cresceu. Houve uma altura em que o meu coração ansiava por mais e mais não havia ali. E então, apesar do medo que sentia, e contra os conselhos de Yahvé, decidi partir.»

 

– História interessante. A única coisa que não explica é como é que, passado este tempo todo, estás aqui à minha frente.

– Se pensares um bocadinho, é fácil descobrires.

– Como assim?

– Só depois disto é que Yahvé criou Eva, porque Adão ficou sozinho. E só depois é que se deu o pecado original e a expulsão do paraíso. Ora eu e Adão somos de natureza divina, criados à imagem e semelhança de Yahvé. Adão perdeu parte dessa natureza ao ser expulso. Eu não.

Fiquei a olhar para ela enquanto pensava nas implicações do que me acabara de dizer.

– Quer isso dizer que és imortal?

– Sim, quer. Quer também dizer que nada do que eu faça é pecado, uma vez que não tenho em mim o pecado original. Sou o único ser humano que existe que é a verdadeira natureza de Yahvé, logo não posso ser bem nem mal. Sou tudo.

Deixei-me estar, não acreditando no que ouvia.

Ela levantou-se e dirigiu-se para a porta.

– Já tens muito em que pensar, por ora – disse. – Voltarei em breve. Procura-me e vais-me encontrar. Quando estiveres preparado voltarei.

 

Agarrou a capa e saiu, fechando a porta atrás de si, e deixando-me com uma sensação de vazio tão grande que só me apeteceu chorar.

Eram quatro da manhã.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Lilith - I - Lilith

 Duas da manhã.

Após o pouco que escrevi sento-me agora aqui, sem saber para onde continuar.

As minhas únicas companhias são os cigarros que vou queimando lentamente, o copo de whisky de malte, o barulho das ondas do mar, das quais através da janela apenas consigo distinguir o reflexo da lua na espuma e esta insónia e mal-estar de alma.

Sinto-me desconfortável em mim, com vontade absoluta de escrever, vontade de deixar correr os meus dedos nas teclas desta máquina de escrever, mas não o faço porque pareço não ter nada para dizer a não ser ideias desconexas.

Talvez devesse experimentar fazer isso mesmo, deixar os dedos correr…

Piauehg erpiuhaeuhgap biepiauegi auehpisy gatyetoa eaegrouygapoy fpaiuergaip eurpiaegvpiae …

Não, não é boa ideia, embora espelhe o que sinto.

Mas quem lê precisa de palavras, de conexões, de entendimento e não deste exercício fútil que não leva a lado nenhum.

Estou só, sinto-me só, e é se calhar essa solidão que me leva a não fazer sentido a não ser para mim, mas mais importante, a não necessitar de fazer sentido a não ser para mim. Mais do que só, sinto-me deprimido, e creio ser esse o principal problema. Talvez a ideia do isolamento não fosse tão boa quanto parecia.

Batem à porta.

São duas e meia da manhã num local quase deserto onde ninguém vem sem um propósito e batem à minha porta. Fico sobressaltado e receoso. Vou à porta ver quem é. Não adiantaria tentar fingir que não está ninguém, quando as luzes estão acesas e são provavelmente as únicas luzes visíveis em quilómetros. Assalta-me o medo do que possa ser.

Espreito. Lá fora uma mulher, aparentemente só.

Abro a porta apenas ligeiramente.

– Sim? – Questiono.

– Olá, Miguel.

A voz dela chegou até mim e a única comparação que consigo encontrar para o que senti na altura é a de estar a beber um mel tão doce, mas ao mesmo tempo tão suave que não sacia. Imediatamente senti que queria continuar a ouvi-la, não queria deixar de a ouvir, como se a simples voz desse significado a algo em mim. Senti-me tocado, quase comovido sem conseguir perceber o porquê.

– Desculpe, conhecemo-nos?

– Não da forma como perguntas, mas de uma certa maneira, sim.

Continuei estático, apenas com a porta entreaberta.

– Não me convidas para entrar?

A minha hesitação era como o meu silêncio. Notória. Ela soltou uma pequena gargalhada.

– Miguel, podes estar descansado. Não estou aqui para te assaltar, para te roubar órgãos enquanto dormes ou para te fazer mal de alguma forma, e estou completamente sozinha. Então? Deixas-me entrar?

Franqueei-lhe a porta, sem dizer uma única palavra. Ela entrou, tirou a capa que a cobria e pendurou-a no cabide que ali estava, sem sequer olhar para ele, como se fosse um gesto absolutamente familiar de quem conhecesse bem a casa.

Era a mulher que tinha visto na praia esta tarde, sem dúvida. Vê-la agora, aqui, de perto, deixou-me perturbado.

Era alta, e não há outro adjectivo para a descrever que não seja perfeita. Os cabelos pretos escorriam em cascata com uma leve ondulação até ao meio das costas e contrastavam com uns olhos do azul mais intenso que já tinha visto. Tão intenso que parecia faiscar. A tez morena realçava-os ainda mais. As roupas leves que estavam agora por cima do seu corpo não o apagavam nem realçavam, mas também não era necessário. O seu corpo tinha as proporções exactas, um equilíbrio e harmonia como nunca tinha visto e o seu rosto fazia lembrar as estátuas de Vénus e Afrodite. Uma beleza intemporal, clássica, suave mas marcante, com a força que essa mesma suavidade tinha. Toda ela parecia irradiar algo que escapava à minha compreensão.

Caminhou até à sala com uma tal elegância que não parecia caminhar, antes flutuar, como se o seu corpo não tivesse peso. Sentou‑se no sofá e ficou a acompanhar-me com o olhar enquanto eu a seguia e até me sentar à sua frente.

Continuei mudo, sem saber o que dizer, esmagado pela sua presença.

– Sabes, Miguel, estou aqui para te ajudar.

Fez uma pausa, deixando-me absorver as suas palavras e como que deixando que todas as interrogações viessem à minha mente para as responder em seguida, antes que tivesse hipóteses de a formular.

– Claro que entendes que, como em qualquer relação humana, nada é isento de interesse, por mais altruísta que este seja. Tenho as minhas razões, que perceberás mais tarde. Não obstante, e apesar delas, vou-te ajudar, vou-te dar a história acerca da qual vais escrever e que te deixa tão desesperado. Aliás, só o simples facto de me teres visto esta tarde na praia já fez com que começasses a escrever qualquer coisa, não foi?

Assenti com a cabeça.

– Bem, mas por esta altura deves estar curioso acerca de quem eu sou, não é?

Assenti novamente.

– Pois bem, Miguel, chamo-me Lilith.

Lilith - Prologo

 

Não há nada pior do que olhar para uma página em branco sem ter ideia de como começar a preenchê-la.

Estava ali há cerca de dois meses, com prazos a aproximarem-se a uma velocidade vertiginosa e com um bloqueio como nunca tinha tido. Isolara-me na casa de praia, sem telefones, sem televisão, sem internet, sem computadores, apenas com uma máquina de escrever já velha e o carro que me permitia ir semanalmente às compras. De resto, reclusão absoluta, com os dias passados, na maior parte das vezes no terraço das traseiras, entre o rugir das ondas do mar de inverno que impregnavam o ar de maresia e as folhas de papel em branco, que eu começava já a olhar com algum desespero.

Em dois meses não tinha escrito uma única linha de jeito, e a um mês do prazo de entrega do livro já mal tinha tempo para o escrever, quanto mais delinear uma história.

Tinha plena consciência de quão grave seria falhar, de quanto esperavam de mim. E era precisamente esse receio que parecia bloquear-me ainda mais.

Aquele dia não era diferente de outro qualquer desde que me tinha desterrado voluntariamente naquele lugar. Estava no terraço sob o Sol de Inverno e a leve brisa fresca que passava, mas sem os apreciar, de tão absorvido e obcecado que estava com a folha de papel em branco que tinha à minha frente.

Eis que alguma coisa me chama a atenção pelo canto do olho, um leve movimento que não estava lá antes. Desloquei o olhar nessa direcção e vejo-a surgir por entre as dunas, com passadas seguras na areia desta praia deserta. Parou onde as dunas se desfazem em areal de praia, tirou todas as roupas e desceu nua em direcção à água. Não parecia incomodada pela brisa fresca nem atemorizada pelo revolto das ondas.

Segui-a à distância com o olhar, não percebendo mais do que a silhueta que se dava ao mar e que se deleitava nele. Depois saiu, subiu pelo areal até onde tinha deixado as roupas e deitou-se ainda molhada na areia esperando que o sol a secasse.

Por fim levantou-se, sacudiu a areia, vestiu-se e partiu.

Fascinou-me aquele momento.

Ela estava distante o suficiente para que eu não a conseguisse ver com clareza, nem distinguir roupas ou até as suas formas nuas quando foi à água, mas perto o suficiente para que conseguisse seguir os seus movimentos.

E foi quando ela partiu que resolvi escrever estas linhas…