segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Chuva - XLVIII

 

Entretanto a vacina para a SIDA foi posta no mercado, claro, a um preço exorbitante. Ainda assim houve uma corrida maciça ao medicamento. A Europa e a América do Norte esgotaram todos os stocks disponíveis em muito pouco tempo.

Já as zonas mais afectadas, sobretudo o continente Africano, continuavam sem ter acesso a ela em larga escala. Duas semanas depois o governo Brasileiro ameaçou quebrar a patente da vacina, tal como o fizera já antes com os antiretrovirais. O laboratório responsável pela vacina e o governo brasileiro encetaram conversações e foi o próprio laboratório que cedeu, disponibilizando a vacina no mercado a uma fracção do seu custo original.

No dia em que o anúncio saiu, ao fim da tarde, como era já costume, entrei no carro do Fernandes para irmos para Sassoeiros.

“Fernandes, está na hora de darmos usos ao dinheiro.”

Ele nem disse nada, limitou-se a olhar para mim com um ar inquiridor.

“Vamos gastá-lo todo em vacinas e vamos mandá-las para África.”

Ele desatou à gargalhada.

“Era esse o teu plano desde o começo, não era meu sacana?”

“Era.”

“Tu sabias que isto ia acontecer.”

“Claro que sabia. Aliás, falei disto ao John Smith, lembras-te?”

Ele continuou a rir.

“Então foi por isso que aceitaste o dinheiro.”

“Claro que foi. Lembras-te da menagem? A última frase era ‘Salva África’. Bem vou fazer os possíveis…”

“E com o dinheiro do laboratório que inventou a vacina. Posso dizer-te uma coisa? Não me levas a mal?”

“Podes, claro que podes.”

“Tu és mau. Aliás, tu não és mau, tu és muito, muito mau.”

“Achas?”

“Acho. Isso é de uma ironia cruel mesmo. Cruel para o laboratório, claro. Claro que a crueldade maior seria eles saberem…”

“Eles vão saber, Fernandes.”

“Achas mesmo?”

“Tenho a certeza.”


 

Chuva - XLVII

 

 

Escusado será dizer que a única pessoa com quem comentei toda a conversa, inclusive a mensagem, foi o Fernandes.

“Tu disseste isso ao primeiro ministro?”

“Disse. Claro que disse.”

“Bem, ele não deve ter ficado muito satisfeito…”

“Sabes, ele estava com receio de mim, logo à partida. Estava a tentar encaixar-me na máquina para poder ter algum controlo sobre mim. Em vez disso, a conversa acabou por ser proveitoso por outros motivos.”

“Achas que eles vão conseguir evitar o atentado?”

“Se queres saber, acho que não. Aquilo que tem de ser, tem de ser. E o atentado vai acontecer. Mas acho que vão conseguir conter os estragos.”

“e porque é que achas que não vão conseguir evitá-lo?”

“as mensagens até agora referem sempre algo que vai acontecer ou já aconteceu de forma inequívoca. As remissões aconteceram a posteriori, o miúdo estava noutro lado, o terramoto era imparável, a cura para a sida estava escondida. As coisas acontecem sempre, a questão é se conseguimos conter os danos ou não.”

“Por esse lado, és capaz de ter razão. De qualquer das maneiras amanhã vamos ter a certeza, não é?”

E foi.

No dia seguinte fomos vendo os canais noticiosos internacionais. Pouco depois da hora do almoço é dada a notícia de que houve um acidente com uma plataforma petrolífera no golfo do México e que uma maré negra começava a alastrar, mas que as autoridades estavam já a tentar controlar a situação. Era elogiado o nível de resposta.

Mas foi a meio da tarde que veio a surpresa.

O Presidente dos Estados Unidos da América convoca uma conferência de imprensa. Lembras-te?

“Concidadãos Americanos, às dez e trinta e dois da manhã pela hora da costa leste, um ataque terrorista contra uma plataforma petrolífera no golfo levou a um derrame massivo de petróleo. As consequências só não foram piores devido à prontidão das equipas de salvamento e de contenção deste tipo de desastres. A prontidão da resposta só foi possível devido ao trabalho dos serviços secretos, mas também e sobretudo devido a uma previsão do Sr. Gabriel Guerra, o cidadão Português, que já tinha previsto o terramoto em Lisboa e que tinha afirmado que a indústria farmacêutica detinha uma cura para a sida que ainda não tinha sido revelada.

Ao Sr. Gabriel quero expressar os meus agradecimentos pessoais bem como a gratidão de todo o povo Americano.

Esta, como outras previsões anteriores provou estar certa, pelo que esta administração, com base na mensagem que foi revelada anteriormente, vai proceder a uma investigação sobre as empresas americanas de investigação médica e insta a que outros países, com empresas de investigação neste ramo, façam o mesmo.”

Ouvi isto e só pensei no meu amigo John Smith.

Dois dias depois recebi uma carta por mensageiro especial. Era dele, do presidente americano. Expressava a gratidão do seu país e oferecia-me uma cidadania honorária, convidando-me a visitar o seu país.

Nem preciso de te dizer que a partir dai tornou-se impossível a minha vida ser a mesma. A imprensa procurava-me insistentemente, convites para todo o tipo de actos que possas imaginar…

…começaram a oferecer-me dinheiro para aparecer em eventos, vê lá...

Recusei tudo.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Chuva - XLVI

Como calculas não foi surpresa nenhuma. O dia decorria normalmente quando o telefone tocou. Atendi.

“Sim?”

“Eu desejava falar com o Sr. Gabriel Guerra, por favor.”

“É o próprio.”

“Sr. Gabriel, fala Manuel Pereira.”

“Bom dia, Sr. Primeiro-Ministro.”

“Sr. Gabriel, estou a ligar-lhe porque estou interessado em ter uma conversa consigo. Creio termos algumas coisas que podemos discutir em conjunto. Aparentemente o meu assessor não foi muito bem sucedido em transmitir-lhe o convite…”

“Não, não foi. Sabe Sr. Primeiro-Ministro, à partida não vejo o que teríamos para falar e ele não foi muito bem sucedido em dizer-me porque deveríamos ter essa mesma conversa.”

“Sr. Gabriel, sabe, no meio desta crise que enfrentamos vozes como a sua podem causar algum alarmismo, podem desacreditar as instituições e gerar situações que tem o potencial de ser desestabilizadoras. Creio que devíamos falar para tentar chegar a terrenos comuns. Que me diz?”

“Digo-lhe o mesmo que lhe disse a ele. As minhas horas de almoço são bastante limitadas. Como tal, se quer insistir teria de ser noutros moldes ou num fim-de-semana.”

“O próximo sábado, depois de amanhã, seria conveniente?”

“Sim, não vejo qualquer inconveniente.”

“Então podíamos encontrar-nos em…”

“Desculpe-me interrompe-lo, mas eu não tenho transporte próprio. Não poderia disponibilizar-me um transporte?”

“Mas claro. Nesse caso mandarei alguém buscá-lo no Sábado, por volta do meio-dia.”

“Muito bem então. Ficarei a aguardar.”

“Bom dia Sr. Gabriel.”

“Bom dia, Sr. Primeiro-ministro.”

Desliguei o telefone. Eu tinha razão. Ele queria mesmo falar comigo. Desde o debate eu tinha deixado de ser apenas um tipo que fazia umas previsões de coisas que iam acontecer e passei a ser alguém com uma posição política marcada. Tendo em linha de conta a maneira como as pessoas olhavam para mim, eu era, neste momento, um trunfo. Só que era um trunfo fora do baralho e isso era perigoso.

Ao fim da tarde, assim que entrei para dentro do carro, virei-me para o Fernandes e perguntei “Adivinha lá quem é que me telefonou hoje.”

Ele olhou para mim, levantou o sobrolho e respondeu “Só podes estar a brincar…”

“Não, não estou.”

“O nosso Primeiro ligou-te?”

“É verdade. Vou almoçar com ele no Sábado.”

“Bem, estás a ficar importante. Isto a continuar assim ainda acabas como ministro ou, quem sabe até, presidente da republica.”

“Não me parece. Não tenho perfil para isso.”

“Mas tens apoio. Tu não achas que se neste momento te candidatasses a alguma coisa, fosse o que fosse, não estava ganho logo à partida?”

“Acho que não seria assim tão linear…”

“Mas era, acredita.”

Realmente era bem capaz de ser verdade. Era um trunfo fora do baralho, mas se entrasse no baralho continuava a ser um trunfo.

Por outro lado, as opiniões que tinha demonstrado tornavam difícil encaixar-me num qualquer quadrante, a não ser como independente, claro. Mas ainda assim, ser independente por alguém faria com que fosse uma bandeira de campanha.

O sábado acabou por chegar e com ele, ao meio dia, um carro para me vir buscar. Fui conduzido até um restaurante na avenida de Roma. Entrei e pude ver o espanto das pessoas à medida que passava. Fui levado a uma sala reservada. Quando entrei o Primeiro-ministro levantou-se de imediato para me cumprimentar com um sorriso largo estampado no rosto. Fiquei a pensar até que ponto é que aquele sorriso era honesto, ou se não seria apenas um gesto estudado.

Cheguei rapidamente à conclusão de que o era. Este homem não era assim. Esta era a sua mascara de primeiro-ministro, milimetricamente estudada por assessores de imprensa, cuidadosamente montada para agradar ao primeiro impacto…

…mas não a mim. Era fácil vê-lo à transparência. Eu assustava-o. Intimidava-o.

Escolhemos o que queríamos e em seguida ficamos sozinhos na sala. Uma janela que aparentava ser espelhada deixava entrar a claridade da rua sem que fossemos vistos. Havia privacidade. Esperei que ele dissesse algo que fosse para além das trivialidades de circunstância.

“Deve estar a perguntar-se do porquê deste convite, não, Sr. Gabriel?”

“Para lhe ser completamente franco, não muito.”

“O Sr. é um homem curioso…”

“Sou?”

“Sim. Logo à partida não estou a ver muita gente que recusasse um convite do Primeiro-Ministro.”

“Bem, nesse aspecto sim, sou um homem curioso. Sabe, embora dê alguma relevância ao cargo não a dou a quem o ocupa.”

“Mas porquê? Afinal quem o ocupa é uma escolha dos seus concidadãos, não é?”

“É. Mas é uma escolha que, se formos a ver bem, para muita gente não seria a primeira opção. Sabe, não acho que, de há muitos anos a esta parte, andemos a escolher o melhor dos melhores. Antes pelo contrário, somos forçados a escolher o mais razoável dos disponíveis.”

“Tem uma fraca opinião dos políticos.”

“Tenho alguma razão objectiva para ter melhor opinião? Mas creio que não foi para discutir as minhas opiniões que quis falar comigo… Ou foi?”

“Também. Sabe, o debate e tudo aquilo que disse fez com que ficasse no ar um mau estar nos vários sectores políticos. O senhor desrespeitou o governo e a assembleia da república. Como calcula isso não é muito bom para a democracia…”

“Pois, mas a vantagem de estarmos em democracia é que tenho a liberdade para desrespeitar o governo, a assembleia da república, os tribunais e até a presidência… Afinal não foi essa uma das conquistas da revolução?”

“Claro. Mas sabe, pessoas que estão em posições em que podem influenciar a opinião pública da maneira que o Sr. está agora deviam ter algum cuidado.”

“Porquê? Disse alguma coisa que não fosse verdade?”

Ele ficou a olhar para mim. Esperava talvez que me sentisse algo mais intimidado estando frente a frente com ele, mas já tinha visto que não era assim.

“Sabe, a questão às vezes não é onde está a verdade mas a maneira como é dita…”

“Ou como não o é, pura e simplesmente.”

Ele sorriu, sabes. Um sorriso de reconhecimento. Lá fora as nuvens tornavam o céu cinzento, escondendo o sol.

“Gabriel, o Sr. é um homem de carácter. Um homem com ideias bem definidas. Sabe com um homem como o senhor podia fazer muito pelo país.”

“Por outro lado também começo a ser incomodo, não é? Diga-me fala-me neste momento como primeiro-ministro ou como líder partidário?”

“Há alguma diferença?”

“Claro que há.”

“Por exemplo?”

“O primeiro-ministro deve pôr os interesses do país acima de tudo.”

“Também o líder partidário.”

“Não, o líder partidário deve defender os interesses do partido que representa.”

“Mas as duas coisas não diferem.”

“Claro que diferem. Os interesses do partido são os interesses de uma parte da população do país. Não reflectem a totalidade.”

“No entanto, para o primeiro-ministro ter o cargo, por princípio, esses interesses reflectem os interesses da maior fatia da população.”

“Não, para o líder partidário aceder ao cargo isso é verdade, mas não acha que uma vez que acede deve levar em conta os interesses da totalidade da população e não só da franja que lhe deu acesso ao cargo? Mais ainda, deve levar em conta os seus interesses futuros, ainda que no imediato as atitudes que toma não sejam amplamente reconhecidas?”

“Quer com isso dizer…?”

“Que o dever do primeiro-ministro é antecipar as necessidades futuras e não tentar remediar as presentes.”

“Não ceder a populismos e sondagens?”

“Exacto. É que acho que existe sempre uma noção algo errada de tentar levar avante apenas os interesses do eleitorado que o primeiro-ministro, e mais, não os interesses futuros mas sim os mais imediatos, nunca conseguindo resolver eficazmente os problemas do estado.”

“Não pode ver as coisas só assim. Há imponderáveis, factores externos que por vezes são impossíveis de antecipar, e que são até negados para não causar males piores…”

“O problema é que, mais cedo ou mais tarde não há volta a dar as situações. O acumular de remendos leva inevitavelmente a uma rotura, e quando isso acontece…”

Ele parou a olhar para mim, e vi o medo no olhar dele. Medo de que eu dissesse a palavra revolução. Medo que de alguma maneira eu lhe desse essa previsão, lhe dissesse que o pais ia mudar. Claro que não o fiz. Mas ele percebeu que estava num jogo em que não podia ou devia continuar.

Lá fora a chuva começou a cair, copiosamente.

“Pondo as coisas por esse prisma, falo consigo enquanto líder partidário.”

“É bom saber. Nesse caso digo-lhe que não tenho qualquer simpatia ou respeito pela pessoa que representa, o líder partidário, nem qualquer afinidade com os seus ideais ou opções.”

“Bem, o que acabou de me dizer deita por terra o propósito da conversa que queria ter consigo.”

O meu telemóvel tocou. O som de uma mensagem a chegar. Não sabia o que esperar. Abri a mensagem.

 

Fé mal direccionada fará negras as águas límpidas. Amanhã. Ele fará o que é certo.

 

Li num relance, fingi que não tinha importância.

Por um lado tinha algum receio de que a informação não estivesse correcta, mas a mensagem tinha chegado e a frase fazia sentido. Tinha a tentação de confirmar a mensagem, mas a lógica dizia-me que seria difícil uma sequência de palavras que fizesse sentido aparecer se o sistema não tivesse funcionado sem falhas.

“E qual era o propósito?”

“Queria convidá-lo para se juntar ao meu “staff”. Creio que seria uma mais valia…”

Aproveitava as pequenas pausas na nossa conversa para pensar no significado da mensagem. Fé mal direccionada?

“E no entanto estava a fazê-lo sem me conhecer de lado nenhum. Não o estaria a fazer por saber que eu lhe daria vantagens numa sondagem?”

Ele limitou-se a sorrir.

“Então agora deixe-me dizer-lhe uma coisa. Sabe qual é o verdadeiro propósito deste encontro, Sr. Primeiro-ministro?”

Ele deixou de sorrir e eu continuei.

“O verdadeiro propósito é transmitir aos seus congéneres rapidamente que amanhã vai haver um ataque terrorista.”

Ele ficou parado a olhar para mim, sem palavras.

“E mais, creio que será um atentado contra uma plataforma petrolífera pertencente a empresas americanas no golfo do México.”

Ele estava branco.

“Mas isso dá um numero de plataformas extremamente elevado…”

“O pior é que o atentado criará uma maré negra. Devem ser tomadas medidas que possam minimizar uma catástrofe ambiental.”

Ele olhou bem para mim.

“Tem a certeza do que me está a dizer?”

“Não só tenho como estou aqui para lhe o dizer.”

Ele pegou de imediato no telemóvel e entrou em contacto com alguém que presumo que era o ministro dos negócios estrangeiros. Minutos depois falava com o embaixador dos Estados Unidos da América.


Chuva - XLV

“Pá, não estava à espera que fosses tão mau.” Disse o Fernandes.

“Porquê?”

“Porque tens sido sempre bastante mais recatado.”

“É verdade. Não gosto desta exposição. Mas sabes. De alguma maneira tenho sido empurrado para as situações, e acho que não é suposto manter-me à margem dos acontecimentos.”

“Sabes, é interessante ir vendo a tua mudança de atitude. Pareces estar bem mais à vontade, mais solto. Pareces diferente de quando te conheci.”

“E estou. Bastante diferente.”

“Pareces importar-te mais…”

Não respondi a esta observação. Na verdade, nem mais, nem menos. Exactamente a mesma coisa. Mas estava naquele jogo e tinha de ir jogando segundo regras que não tinham sido estabelecidas por mim.

Estávamos a caminho de Sassoeiros, na auto-estrada. Ficamos um pouquinho em silêncio e eis que o Fernandes continua.

“Olha lá, tu por acaso tens carta de condução?”

“Tenho. Por acaso até tenho.”

“E já pensaste em comprar um carro?”

“Mas porquê?”

“Para poderes andar à vontade de um lado para o outro…”

“Estás farto de me servir de motorista?”

“Não é nada disso, pá. Deixa-te de tretas. É porque estás sempre dependente de mim e assim ficavas mais à vontade.”

“Mas não vou comprar um carro. Em primeiro lugar detesto conduzir, e em segundo não há dinheiro.”

“Não há dinheiro?!”

Por estes dias o dinheiro do cheque do laboratório estava comodamente instalado numa conta em genebra. Dai o espanto do Fernandes.

“Não, não há. Aquele dinheiro não é meu.”

Ele ficou a olhar para mim. Calculo que tenha pensado o que é que eu queria dizer com aquilo de o dinheiro não ser meu.

“E já que falamos no dinheiro, porque é que o dinheiro não está numa conta tua?”

“Ora, Fernandes. Achas que eles me deram aquele dinheiro porquê?”

“Para te calar.”

“Claro. Mas para isso o dinheiro tem de ter um rasto que leve até mim.”

“Mas achas que por esta altura não chegam até ti através de mim?”

“Chegam, mas a ligação não é clara. Além disso vai dificultar o facto de irem atrás do dinheiro quando ele sair da conta…”

“Mas como é que eles fariam isso? É uma conta de um dos mais prestigiados bancos a nível mundial. De certeza que lhes é impossível…”

“Tu acreditas no pai natal, Fernandes? Tu não achas que estes gajos só não têm acesso ao que não querem? Eles vão saber para que é que o dinheiro foi utilizado, sim.”

“E, já agora, vais usá-lo para quê?”

“Depois vês…”

Claro que o percebia. Qualquer outra pessoa se teria sentido tentada pela quantia em causa, pelo menos, quanto mais não fosse, para melhorar um bocadinho a sua vida, a nível de conforto e mobilidade. Mas eu não sentia, de todo, nenhuma necessidade neste momento, por isso ia usá-lo como te disse. Não resistia a dar uma chapada de luva branca.

Entretanto chegamos a Sassoeiros. Saímos do carro e fomos imediatamente chamados por um homem, na casa dos trinta, que estava ao portão. Eu não lhe liguei, mas o Fernandes lá foi ver o que o homem pretendia.

Acabou por deixar o homem entrar e ele veio directamente ter comigo.

“Sr. Gabriel Guerra?”

“O próprio.”

“Sou assessor do Sr. Primeiro Ministro.”

Olhei para ele e não sei porquê apeteceu-me chateá-lo.

“Ainda bem para si, pelo que vejo.”

O tipo parecia o típico executivo, com um fato cinzento com riscas verticais, o que sem dúvida lhe dava um aspecto de ser mais alto do que na realidade era. Creio que era esse mesmo o objectivo pretendido. Alem disso, usava uns óculos de massa que lhe davam um ar mais pesado e mais velho. Basicamente queria parecer o que não era.

“O meu nome é Amílcar Sousa e estou aqui em nome do Sr. Primeiro-ministro para o convidar para um almoço informal.”

“Pois bem, Sr. Amílcar, diga ao seu ilustríssimo patrão que as minhas horas de almoço são bastante limitadas pelo que não poderia ter um almoço com ele, pelo que tenho de declinar o convite. Só o tempo de deslocação faria com que eu não tivesse sequer tempo para comer.”

“Bem, mas é um convite do Sr. Primeiro-ministro. Com certeza que arranjará algum tempo…”

“Como lhe disse o meu tempo é tão limitado que aceitar seria uma indelicadeza, pois teria de comer a correr e isso seria, no mínimo indelicado.”

O homem parecia baralhado com as minhas respostas. Sem saber como reagir. Claro que ele esperava que eu o recebesse com um sorriso com abertura. Não esperava que eu recusasse.

“Não creio que fosse considerado indelicado. Aliás, tenho a certeza que a sua entidade patronal, caso fosse explicado o motivo, disponibilizaria tempo para o efeito.”

“É provável, mas sabe, eu trabalho num arquivo que está caótico desde o terramoto e ainda ando a reorganizá-lo. Embora a minha entidade patronal disponibilizasse o tempo, eu apenas iria adiar ainda mais a minha tarefa, o que me causaria transtorno pessoal. Como tal, mantenho a minha resposta. Diga-lhe que estou indisponível. Além disso também considero descortês ser convidado por entreposta pessoa. Se ele sabe onde estou também me pode convidar directamente, pessoalmente ou não.”

O homem continuou parado, tentando arranjar argumentos para me convencer. Eu estiquei-lhe a mão, para o cumprimentar, como gesto inequívoco de que a nossa conversa estava terminada.

“Tenha uma boa tarde.” E virei-lhe as costas entrando em casa.

O Fernandes passou por ele, cumprimentou-o também e disse “Sabe, ele às vezes é muito temperamental…” com um sorriso de gozo e seguiu-me, fechando a porta.

Já dentro de casa virou-se para mim.

“Olha lá, então tu recusas um convite destes?”

“Claro.”

“Pá, deu-me gozo ver a cara do tipo, mas diz-me lá, porquê?”

“Nunca ouviste dizer que o fruto proibido é o mais apetecido? Não vou demorar a almoçar com ele, descansa. Mas neste momento ele tem mais interesse em mim que eu nele. Aliás, muito mais. O meu interesse em falar com ele não é nenhum.”

“Então porque é que vais falar com ele?”

“Porque tudo isto tem sido uma escalada, sabes. Como se eu estivesse a ser empurrado numa direcção, e nada tem acontecido por acaso. Este convite e este almoço vão servir para alguma coisa.”

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Chuva - XLIV

Na segunda-feira chegou o telefonema com a confirmação do debate. Disseram-me onde e a que horas teria de estar. O debate seria em directo na quinta-feira seguinte.

O resto da semana passou sem acontecimentos dignos de nota. Claro que todos os dias acontecia qualquer coisa, cada vez que saia à rua. As pessoas reconheciam-me e vinham ao meu encontro. Muitas vezes só queriam tocar-me. A maior parte delas falava-me de como estavam arrependidas de não terem ouvido. Outras agradeciam porque, por terem ouvido se tinham salvo. Contrariamente às minhas expectativas, havia quem tivesse ouvido.

Apesar de tudo o que sentia, comecei a ser permissivo. Tinha de me mostrar amável e afável. Compreendi que de alguma forma me tornara um símbolo de algo maior que eu. E comecei a perceber o que a igreja quereria de mim.

Aposto que tinham pena de eu não me manifestar professo da religião deles. Afinal, as pessoas ouviam o que eu tinha para dizer, e já ninguém ouvia a igreja, nem mesmo os próprios católicos.

Na quinta-feira, à hora marcada, lá estava eu no estúdio. Eu, a equipa de produção e mais ninguém. Foi curioso o facto de toda a gente ter ficado surpreendida com a minha pontualidade. Aparentemente já avisavam da hora mais cedo para que, mesmo com os atrasos, as pessoas chegassem a tempo para que tudo fosse tratado e o programa pudesse ir para o ar a horas.

Aos poucos os restantes convidados foram chegando. Eram todos conhecidos uns dos outros e à medida que iam chegando iam-se cumprimentando e pondo alguma conversa em dia. Eu era a única pessoa ali que não estava relacionada com ninguém.

Para te ser absolutamente honesto, não fixei o nome de ninguém. Os partidos tinham mandado representantes que não os comprometeriam. Apenas conhecia o presidente da câmara de Lisboa, que ali, ia falar por ele e pelos presidentes de câmara das outras áreas afectadas, representando assim o poder local.

Todos eles, sem excepção, olhavam para mim e ficavam na dúvida se me falavam ou não. Creio que tinham o problema de não saber como lidar comigo. E era natural. Não faziam ideia das minhas opiniões, simpatias ou filiações, logo também não sabiam como me podiam abordar.

Finalmente fomos todos dispostos num semi-circulo de mesas em que o meio ficava aberto e onde a jornalista que ia moderar o debate andaria livremente.

Claro que não te vou entediar com pormenores do debate que foi tão amplamente visto, mas digo-te aquilo que me foi passando pela cabeça.

Aquilo parecia uma aula de oratória. Demagogia ao seu mais alto nível. A nível partidário via os partidos que tiveram responsabilidades de governo a defenderem-se como podiam, enquanto os partidos da oposição se lançavam a eles, numa discussão carregada de acusações e defesas ocas, mas sem qualquer conteúdo que fosse para além de uma utilização absolutamente correcta da língua portuguesa. Mas para além das acusações não havia um indício de uma ideia do que devia ter sido feito para minorar a situação.

Outros iam falando da catástrofe, do número de vidas perdido, dos milhões de prejuízos, de o facto da catástrofe, apesar do que foi, ser uma oportunidade para requalificar Lisboa, e de o facto de o sector da construção e obras publicas ser o sector que ia agora puxar pela economia do país.

Deixei-me ficar calado a observar aquele circo. Havia de facto os acrobatas, os palhaços, os malabaristas, os artistas de trapézio e um ou outro que se julgava domador de feras selvagens. E eram todos sem excepção absolutamente ridículos, mesquinhos, empenhados em defenderem-se apontando sempre as baterias para o lado. Nenhuma culpa foi assumida por ninguém. Enfim, o habitual em debates, seja de que tipo for.

Ao fim de uma meia hora de hipocrisia medíocre a moderadora voltou-se finalmente para mim e faz uma pergunta. A pergunta que fez denotou imediatamente que eu não estava ali para dar opiniões.

“Gabriel Guerra, o Sr. Foi a primeira pessoa no mundo a prever um terramoto ao minuto. Não ficou desiludido e surpreendido com a reacção das pessoas? Com o facto de não o levarem a sério?”

“Para ser franco, não. Nem uma coisa nem a outra. Ao fim ao cabo, já houve dezenas de previsões de terramotos, alguma com dia marcado e tudo. E no entanto, que me lembre, nenhuma se realizou. Portanto a reacção das pessoas foi a normal, aliás foi a mesma que eu teria nas mesmas circunstâncias.”

“Mas, diga-me, tinha mesmo a certeza de que ia acontecer…?”

“Tinha.”

“E porquê?”

“Porque a maneira como chegou a informação não me deixava margem para dúvidas.”

“O Gabriel tem dito que as informações lhe são reveladas, não é?”

“é exacto.”

“Posso perguntar-lhe por quem?”

“Pode, mas essa é uma resposta que eu não tenho para lhe dar.”

“Quer isso dizer que não faz ideia?”

“Quer. Não tenho a mínima ideia. Apenas conheço o veículo por onde as mensagens são reveladas, mas não identifiquei a origem.”

Percebi neste momento que o papel que era suposto eu desempenhar nesta farsa mascarada de jornalismo sério estava acabado, e que era suposto eu sair de cena.

“já agora, se me permite tecer uma ou outra consideração…” disse eu quando a moderadora se preparava para mudar o foco das atenções.

“Com certeza, Sr. Gabriel.”

“Eu não tenho qualquer duvida de qual é o motivo porque estou aqui. Estou aqui porque previ um terramoto ao minuto e porque sou bom para as audiências deste programa. Claro que prever um terramoto ao minuto é algo excepcional. Mas prever este terramoto não o era. Aliás, este terramoto ia acontecer, ponto final. A única questão era quando. Aquilo que me surpreendeu não foi a reacção das pessoas. Afinal, já houve tantos a gritar ‘LOBO’ que já ninguém liga. Aquilo que me deixa realmente surpreendido é o facto de a maior parte das organizações que estes senhores representam não terem previsto e tomado atitudes em relação a um acontecimento desta natureza, que ao fim ao cabo era quase uma certeza. O facto de haver obras licenciadas sem se pensar no que poderia acontecer. Falaram há pouco de ser uma oportunidade de requalificar a cidade, mas uma das zonas brutalmente afectadas foi requalificada há muito pouco tempo, e grande parte dela é neste momento um monte de ruínas.”

A indignação e o incómodo dos outros começou a fazer-se sentir. Começaram, como era óbvio, a querer falar, numa tentativa apenas aparente de se defenderem, mas tentando cortar-me a palavra. Eu continuei, olhando, não para eles, mas directamente para a moderadora, nos olhos, fixo.

“eu ainda não acabei de falar.”

Ela estagnou a olhar para mim. Vi a inquietação que lhe trespassou o espírito. Acalmou de imediato o resto do painel, a custo, enquanto eu me mantive calado, quieto, à espera. Quando finalmente tudo acalmou virou-se para mim e disse “Continue, por favor.”

“Obrigado. Vocês são todos culpados do que aconteceu. Uns por actos. Os senhores que representam a construção sabem tão bem como eu que os estragos em certas partes da cidade se deveram em exclusivo à ganância e ao lucro fácil que levou a não cumprir normas de construção que até existem. Afinal temos legislação. Os outros, são culpados por omissão. O poder local por falta de fiscalização efectiva das obras que foram sendo feitas. O poder executivo e a assembleia da república por andar meramente a reboque de situações e não as prever com a devida antecedência. Basicamente, este debate não passa de chuva no molhado. Não são apresentados culpados. Não são apresentadas ideias. A verdade é que ninguém aqui sabe quem são os culpados e ninguém aqui tem a mínima ideia do que fazer a seguir. Os partidos da oposição apenas tentam retirar dividendos políticos de uma situação que merecia mais respeito que isso. Os partidos do governo defendem-se dizendo que a culpa está no passado. Claro que no meio de tudo isto estão as pessoas com as vidas devastadas. Mas esses como sempre, só são importantes na altura das sondagens.”

Por esta altura todos se mantinham calados. Por esta altura eu tinha-os na mão e eles sabiam todos disso. Nem a própria moderadora se atrevia a dizer fosse o que fosse. Apenas olhava para mim com um ar de quem não sabia o que fazer a seguir em relação a mim.

“Meus senhores, eu, enquanto cidadão, não filiado em nenhum quadrante politico, não filiado em nenhuma corrente religiosa, pergunto-vos aqui, olhos nos olhos, frente a frente, algum de vocês tem realmente algo de útil a dizer as pessoas que nos vêem? Algum de vocês tem algo que vá para além do que é obvio? Algum de vocês quer admitir a sua própria culpa em tudo o que aconteceu, sendo humilde, pedindo desculpa às pessoas que viram vidas devastadas por causa de más opções politicas e administrativas, por causa de corrupção? Algum de vocês quer admitir que vai tentar mudar o estado das coisas, mas tentando realmente, sem demagogia? Ou esta farsa vai continuar?”

Ninguém disse nada. Absolutamente nada.

“Aparentemente a farsa vai continuar, por isso pode continuar sem mim.”

Levantei-me e sai do estúdio.

No dia a seguir os jornais não falavam de outra coisa, lembras-te? De como o debate continuou morno, de como tudo o que foi dito a seguir não teve qualquer conteúdo e foi praticamente uma assunção de culpa.

E viste o resultado com movimentos de cidadãos a organizarem-se, pondo em causa a classe política e a própria organização partidária. Se alguma coisa de bom resultou disto tudo foi realmente o facto de se ter criado uma nova consciência nas pessoas, de a classe politica ter sido obrigada a reformular-se.

Claro que já muitos tinham afirmado antes o que eu disse. Mas nenhum deles tinha previsto um terramoto ao minuto…


Chuva - XLIII

Às quinze horas de sábado lá estávamos, eu e o Fernandes, a chegar ao novo Centro Paroquial do padre João Chaves.

“Mas porque é que me arrastaste para aqui?”

“Tu é que abriste a porta ao padre, portanto não te queixes. Se ele não tivesse entrado em casa nós não estaríamos aqui. Quer isto dizer que estás aqui porque queres.”

“Tu e a tua lógica… A verdade é que não vim aqui fazer nada.”

“Vieste fazer companhia, o que já não é nada mau.”

Como sempre, quando não me conseguia contradizer, pôs-se a resmungar qualquer coisa e acabou por se calar.

Quando saímos do carro a reacção das pessoas foi aquela de que eu já estava à espera. A mesma contenção, a mesma humildade nos olhos. Já a minha reacção limitou-se a ser um sorriso, mais ou menos franco. Embora disfarçasse cada vez melhor o desconforto não passava.

O Padre João veio apressadamente ao nosso encontro.

“Sejam bem-vindos. Venham, venham…”

E levou-nos.

Dentro do pavilhão estava tudo preparado, aparentemente para uma cerimonia religiosa, com cadeiras desdobráveis montadas para que as pessoas se sentassem, e na área onde havia um pequeno palco, um altar improvisado. Havia uma azáfama enorme enquanto acabavam de montar o que faltava por parte de muita gente ligada à paróquia. No entanto cada vez que uma das pessoas ocupadas me via, parava por alguns instantes, não sei se apenas pela surpresa de me ver ali ou se por algo mais.

“Peço desculpa pela confusão, …” disse o padre João “… estamos um pouco atrasados. D. Martinho apenas nos conseguiu confirmar a presença cá ontem e claro, alterou-nos os planos todos.”

Não fazia ideia de quem era D. Martinho, mas calei-me. Afinal viria a descobrir dai a pouco, provavelmente, portanto a pergunta seria irrelevante.

“Mas sentem-se, por favor. Eu tenho de ir, mas voltarei aqui assim que for possível, estejam à vontade.”

Sentamo-nos e ficamos a ver a confusão de pessoas que acabavam de montar as coisas necessárias à cerimónia. Acabei por me voltar para o Fernandes e perguntei “Olha lá, sabes quem é o tal D. Martinho?”

“Sei, por acaso sei. É o bispo auxiliar de Lisboa.”

“Ah! Então vai cá estar o chefe. Por isso esta confusão para garantir que tudo estará perfeito.”

“Pois, …” disse o Fernandes “… agora imagina que vinha o chefe do chefe, o cardeal patriarca.”

“Bem, a avaliar por isto, nesse caso, teria de estar tudo mais que perfeito…”

“Olha, acho é que no meio disto tudo vamos apanhar uma seca.”

“Então?”

“Pá, se o bispo cá vem bem podes esperar ter de levar com uma missa de hora e meia…”

“Achas?”

“Tenho a certeza.”

Eis algo que não me apetecia mesmo. Ter de assistir a uma cerimónia religiosa cheia de pompa e circunstância, com todos aqueles rituais…

…naquela altura arrependi-me de ter aceite o convite. Mas agora era tarde demais. Já cá estava.

O padre João voltou para junto de nós uns quinze minutos depois.

“Peço mesmo desculpa por não vos ter recebido melhor, mas já não esperávamos nada disto e, como calculam, toda a gente me vem pedir opiniões acerca de tudo…”

“É normal. Afinal o senhor é o pastor e eles são meras ovelhas.” Disse eu. O meu reparo mereceu uma subtil cotovelada por parte do Fernandes.

O padre João olhou para mim, sorriu e disse “É em parte verdade. Mas digam-me, gostam do novo curral?”

Apreciei a maneira como o padre encaixou o comentário, levando as coisas com humor. Acho que muitos se teriam sentido ofendidos e incomodados.

“É um curral bem jeitoso.”

“Sabem, foi construído apenas com o esforço e os contributos da comunidade. Não é tudo o que desejaríamos, mas é aquilo que foi possível. Mas agora temos um espaço que podemos usar como apoio social e até para alguns espectáculos. É mais uma maneira de tentar juntar a comunidade.”

Entretanto um homem aproximou-se, interrompendo-nos, para avisar que o bispo tinha acabado de chegar.

“Desculpem-me, …” disse o padre “… mas tenho de ir. Falamos depois da cerimónia.”

E afastou-se apressadamente, saindo da sala. Dai a pouco voltou a entrar com um homem que presumi à altura tratar-se do bispo.

Entretanto as pessoas que até então estavam na rua começaram a entrar e a ocupar as cadeiras vagas. Ainda assim acabou por ficar muita gente de pé.

A cerimónia começou com um cântico que acompanhou a entrada do padre João e do Bispo devidamente paramentados. Foi uma seca. Mesmo. Sabes aquelas alturas em que o tempo, de repente, começa a andar devagar e não passa? Uma extensa homilia de quase duas horas com o bispo, que a presidia, a estender-se em divagações e considerações acerca da comunidade e da fé em Cristo…

…para te ser franco, quase adormeci. A sério. Parecia um daqueles discursos chatos de políticos que se fartam de usar artifícios de oratória para repetirem a mesma coisa vezes sem conta, mas sempre de maneiras diferentes, e no fim, quando espremes o sumo de todo o discurso não se disse nada que se aproveitasse e podias ter resumido tudo a uma frase…

…não há paciência no mundo que chegue.

E se eu me sentia aborrecido, nem calculas o Fernandes, que por duas vezes quase adormeceu. Aliás, se não fosse eu a dar-lhe umas cotoveladas, ele tinha mesmo adormecido, e por mais que eu achasse que o devia ter deixado dormir, estávamos na fila da frente e tive a certeza de que ele ia ficar chateado de fazer essa figura em frente a um tão destacado membro do clero.

Mas como não há mal que sempre dure, lá acabou a cerimónia religiosa e a festa ganhou contornos mais pagãos. O padre João lá se aproximou novamente de nós, desta vez trazendo o bispo a reboque. Quando chegaram apresentou-nos.

“Sr. Bispo, este é o Dr. Álvaro Fernandes …” cumprimentaram-se os dois “ …e este é o Sr. Gabriel Guerra”

O Bispo estendeu-me de imediato a mão cumprimentando-me.

“Temos ouvido falar muito de si, Sr. Gabriel.” Que admiração… “Diga-me Sr. Gabriel, o que é que faz na vida?”

“Arquivo fichas.”

“Ah! Uma ocupação como outra qualquer…”

“Sim, necessária como outra qualquer. Afinal se as fichas não forem arquivadas há com certeza um caos.”

“Pois, e a ordem é necessária… Diga-me, é frequentador desta paroquia?”

“Não, não sou. Estou aqui apenas por convite do padre João.”

“Mas é católico, com certeza.”

“Não, não sou católico.”

“Não? Então qual a fé que professa?”

“Nenhuma.”

O bispo ficou surpreendido por esta minha afirmação. Tão surpreendido que me parecia quase incomodado.

“Confesso que estou surpreendido. À luz do que tenho conhecimento acerca de si julgava-o um homem de fé…”

Esta afirmação, quase uma interrogação, estava a tornar-se uma constante.

“Depende da definição.”

“Como assim?”

“Para si um homem de fé tem de estar ligado a alguma religião, tal como um politico tem de, pelo menos, ter alguma simpatia por um partido. Ora eu, enquanto cidadão sou automaticamente político, porque tenho no dia-a-dia de tomar opções políticas. Claro que não tenho de simpatizar ou de me identificar com algum partido por causa disso.”

“Quer dizer que acredita em Deus.”

“Depende da definição.”

“Mas só há um Deus…”

“Do seu ponto de vista. Se disser isso a um hindu acredito que ele se ria de si.”

“Não me vai dizer que acredita naqueles panteões de deuses hindus…”

“Não, não acredito. Mas também acho o seu deus pouco plausível.”

Levei outra cotovelada do Fernandes e foi notório o embaraço do padre João. Afinal estava ali um convidado dele a dizer ao chefe hierárquico que o motivo pelo qual ambos tinham emprego era…

…pouco plausível.

O bispo encaixou o comentário de uma maneira serena.

“Pode calcular que à luz do que acredito acabou de cometer uma heresia.”

“Sei que sim. E o facto de o saber deixa-me contente por já não existir o tribunal do santo ofício, pelo menos nos moldes de há uns séculos atrás.”

Este comentário causou mais moça e o bispo acusou o toque.

“Sabe, Sr. Gabriel, tenho de lhe confessar uma outra coisa, a si e ao padre João. Eu não era para ter vindo aqui hoje, mas depois soubemos que estaria presente. O Sr. Cardeal incumbiu-me de vir e de o conhecer, falar consigo. Mas este não é o local apropriado para podermos falar. Seria possível encontrarmo-nos noutra ocasião?”

“Sim, podemos.”

“Quer que o contactemos?”

“Não. Não me liguem, eu ligo-vos.” Disse eu com algum sarcasmo na voz.

“Espero que não o faça nos moldes de um patrão que está a recrutar pessoal…”

“Ora, D. Martinho, e acha que eu faria isso à santa igreja católica apostólica romana?”

Ele cumprimentou-me com um sorriso e seguiu. Já eu fiquei a pensar o que quereriam de mim…


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Chuva - XLII

Dois dias depois entra-me pela minha sala, no trabalho, um senhor com um aspecto absolutamente engomado, fato de corte impecável e aproxima-se de mim.

“Sr. Gabriel Guerra?”

“Sim.”

“Sr. Gabriel, estou aqui em representação de um canal de televisão. O meu nome é David Serra. Estamos a organizar um debate acerca do terramoto com representantes do governo e da sociedade civil, e gostaríamos de contar com a sua presença.”

“Um debate?”

“Sim, queremos falar acerca do que se passou antes, do que se podia ter evitado, do que se está a passar depois, com o esforço de reconstrução…”

“Percebo.”

“Estamos a tentar dar informações ao público em geral. Queremos que as pessoas tenham uma opinião baseada numa visão mais abrangente.”

“É uma iniciativa louvável, mas porquê a minha presença? Além do facto da previsão não tive qualquer intervenção no que quer que tenha acontecido antes, durante ou depois.”

“Sim, mas nem o Sr., com certeza, ignora o facto de que as suas palavras, por mais parcas que sejam, causarem hoje em dia um impacto vasto na opinião pública.”

“Não são as minhas palavras.”

“Mas é o Sr. Gabriel quem dá a cara, é o rosto dessas palavras. E basta ver o impacto que a sua última mensagem teve, a nível global. Sabe, acho que o público tem direito a ouvir a sua opinião.”

“E quem é que deu ao publico esse direito? Quem é que o definiu? Quer que lhe seja franco? Acho que o convite foi feito não por uma questão de opiniões, mas sim porque os seu chefes sabem que se eu aparecer as audiências disparam. Estou certo?”

O homem fez um trejeito de indignação. Mas acho que não o fez por eu ter dito algo que não é verdade, mas antes porque há verdades que por cortesia não deviam ser ditas.

Já te disse que não sou muito a favor de cortesias?

“Lamento que pense assim, Sr. Gabriel. Estamos mesmo interessados na sua presença.”

“E diga-me, quem mais fará parte do painel?”

“Representantes dos partidos políticos com assento na Assembleia da Republica, o presidente da câmara de Lisboa e alguns vereadores, e pessoas de vários quadrantes da sociedade civil, em geral. Ainda não lhe consigo dizer ao certo os nomes porque ainda não tivemos a confirmação. Ainda estamos fazer os convites.”

Pensei durante algum tempo enquanto ele olhava para mim, expectante.

A verdade é que não queria este tipo de exposição. Por aquilo que já te disse, podes calcular o quanto me revolvia as entranhas pensar em estar numa sala cheia de gente a falar acerca do sexo dos anjos sabe Deus por quanto tempo e cujo objectivo final não era nenhum. A verdade era esta. Podia estar toda a gente a falar, podiam até aparecer ideias nobres e validas, mas a verdade é que o resultado final seria o mesmo. O debate não passaria de uma cortina de fumo. Aliás, nenhum debate televisionado é mais do que isso mesmo, uma cortina de fumo.

Mal comparado, é darem uma dose de uma qualquer droga psicotrópica às pessoas, mas que não era bebida, fumada, cheirada ou injectada. Entra pelos olhos, ilude, mascara dores e sensações, mas no fim, quando o efeito passa, ou se toma nova dose ou volta-se a sentir os efeitos do que estava lá. Não resolvendo o problema na raiz, mascarando-o apenas, o problema apenas tem tendência a tornar-se maior, e o facto de a droga o mascarar apenas deixa que o tempo passe sem que os sintomas sejam evidentes.

Isto tudo levava-me a crer que a minha presença teria esse efeito nas pessoas.

Por outro lado eu sabia que cada vez mais haveria pressões para eu aparecer e que mais cedo ou mais tarde seriam inescapáveis. E, ao fim ao cabo, eu ainda não sabia ao certo qual o meu papel no meio de tudo.

E foi depois de tecer todas estas considerações que dei a resposta.

“Podem contar comigo no debate. Eu vou.”

“Muito obrigado, Sr. Gabriel. Posso ficar com um contacto seu para o avisar posteriormente quando tudo estiver organizado?”

Dei-lhe o numero dali, do trabalho. E em seguida ele saiu, satisfeito com ele próprio.