quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Depois do Inferno Verde - Capítulo 7

 



A manhã começou como a anterior. Benedita acordou com a luz a entrar pela cortina mal fechada e o som abafado do trânsito de Toulouse. Óscar já estava de pé, mas o seu “bom dia” saiu seco, quase automático, sem entoação. Movia-se pelo quarto com passos decididos e curtos, como quem não vê graça nenhuma em madrugar.

Não trocaram muitas palavras até estarem sentados num café de esquina, com mesas pequenas e toalhas de papel amassadas pelo vento. Ele bebia o café rápido, quase como se fosse remédio, e só ao segundo croissant começou a mostrar sinais de que o humor lhe regressava ao rosto.

— Vamos dar uma volta. — disse, limpando as mãos com um guardanapo.


Acabaram a caminhar lado a lado junto ao Canal du Midi, onde a água refletia as árvores alinhadas e barcos de passeio passavam lentamente. O ar tinha cheiro de folhas húmidas e diesel distante. Caminhavam ao mesmo passo, mas cada um com o olhar fixo em direções diferentes.

Foi ele quem quebrou o silêncio.

— Então… e quando chegares a Paris? Quais são os teus planos?

Ela hesitou, olhando para a superfície do canal como se fosse encontrar lá a resposta.

— Não sei. — disse, por fim, com um encolher de ombros. — Não pensei tanto à frente.

— Onde é que vais ficar? — insistiu ele.

Silêncio.

— Tens alguém lá?

Ela abanou a cabeça.

— Como é que vais ganhar dinheiro?

Ela mexeu nos cabelos, desconfortável.

— Vou arranjar qualquer coisa.

— E para os castings? Vais como? Precisas de te apresentar bem, não é? Roupa, transporte…

As respostas dela foram sempre vagas ou inexistentes. Óscar deixou o silêncio falar por si e não voltou ao assunto.


Abandonaram a margem do canal e seguiram para o centro histórico. A primeira paragem foi na Place du Capitole, onde a fachada imponente do edifício dominava a praça. Passaram algum tempo a observar os detalhes arquitetónicos e a circulação de pessoas. Artistas de rua desenhavam caricaturas, um músico tocava acordeão, e o ar cheirava a café recém-moído das esplanadas.

Seguiram depois para a Basílica de Saint-Sernin, imponente e silenciosa, com vitrais coloridos a projectar manchas de luz no chão de pedra. Benedita percorreu o interior com atenção, enquanto Óscar parecia mais curioso com as linhas da construção do que com qualquer simbolismo religioso.

Ainda antes do almoço, fizeram uma pausa breve no Jardim Japonês de Compans-Caffarelli, um refúgio verde com pontes de madeira e carpas a nadar sob nenúfares. Sentaram-se num banco à sombra, ouvindo o som constante da água de uma pequena cascata.

Ao meio-dia escolheram um restaurante próximo do Marché Victor Hugo. Óscar pediu cassoulet, um guisado de feijão branco com confit de pato e salsichas da terra. Benedita optou por magret de canard com batatas salteadas e molho de frutos vermelhos. Provaram um pouco do prato um do outro e trocaram comentários ocasionais sobre o sabor e a apresentação.

Depois de almoço, caminharam até às margens do Rio Garonne, atravessando a Pont Neuf para apreciar a vista da cidade refletida na água. Ficaram ali alguns minutos, encostados à balaustrada, a ver o movimento lento dos barcos e das gaivotas.

Pouco depois, decidiram regressar ao carro e deixar Toulouse para trás.


A meio da estrada, já a caminho de Albi, Benedita comentou:

— Reparaste que não tens bagagem?

Óscar soltou uma gargalhada curta.

— Reparei, sim.

— Então?

— Então… a decisão da viagem foi um bocado súbita.

Ela virou-se para ele, intrigada.

— Súbita como?

Ele ajeitou a posição no volante, os olhos fixos na estrada.

— Estava num semáforo vermelho, num cruzamento, a caminho do trabalho. E pensei que gostava mesmo de experimentar o carro em Nürburgring. Quando ficou verde, em vez de seguir em frente… virei à esquerda.

Benedita piscou os olhos, sem saber se ele estava a brincar.

— Só assim?

— Só assim.

Ficou a olhá-lo, como se tentasse medir até que ponto ele podia estar a dizer a verdade. Mas não havia sorriso de ironia, nem qualquer esforço para impressionar. Era apenas um facto.


Chegaram a Albi já com a luz a descer. A cidade parecia feita de tijolo cor de terracota, e ao longe a Catedral de Sainte-Cécile erguia-se como uma fortaleza gótica, imensa e sólida contra o céu da tarde.

Subiram a rua estreita que levava à entrada. Por fora, as paredes altas e quase lisas davam-lhe um ar de fortaleza mais do que de igreja. Mas ao entrar, o mundo mudou.

O interior estava mergulhado num silêncio fresco, e o ar cheirava a pedra antiga e cera derretida. Vitrais altos filtravam a luz em manchas azuis, vermelhas e douradas que se projectavam no chão. O tecto abobadado, pintado com frescos minuciosos, parecia tão alto que obrigava o olhar a perder-se. Filas de colunas finas sustentavam a nave como um bosque petrificado. O coro, ricamente talhado em madeira, era um labirinto de detalhes.

Benedita parou a meio do corredor central, a cabeça inclinada para trás, como se tentasse absorver tudo de uma vez. Óscar ficou mais atrás, olhando em volta com um respeito silencioso, quase surpreso com a própria reação.

— É… grande. — disse ele, num tom que não fazia justiça ao que lhe ia no rosto.

— É muito mais que grande. — murmurou ela.

Ficaram ali alguns minutos, cada um imerso na sua própria sensação de pequenez diante daquela construção, antes de saírem para as ruas que começavam a encher-se de sombras.


Jantaram num restaurante local, uma sala de pedra baixa com luzes quentes. Conversaram pouco, mas houve uma leveza nova na forma como partilharam o pão.

Depois do jantar, caminharam até um hotel próximo. Na receção, Óscar pediu um quarto com duas camas individuais. O empregado, preenchendo o registo, ergueu os olhos.

— A identidade da rapariga, por favor?

Óscar respondeu sem hesitar:

— É minha filha. Benedita Campos.

Ela ficou a olhá-lo, surpresa, mas ele apenas assinou o papel e devolveu-lhe a caneta, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Depois do Inferno Verde - Capítulo 6



Voltaram à estrada com o sol já a baixar sobre os telhados inclinados de Foix. O almoço terminara com gargalhadas tímidas — ela a gozar com o sotaque dele ao tentar pronunciar “cassoulet”, ele a contar-lhe como quase ficou preso no castelo por ter passado por uma porta com o aviso “accès interdit” por curiosidade.

O ambiente no carro estava diferente. Mais leve. Mais solto. Falavam de detalhes da visita, da vista do alto da torre, do espadachim reformado que fazia demonstrações no pátio, da loja de souvenirs onde Óscar quase comprou uma espada de brincar “só para provocar a filha”.

A estrada era agora um fio tranquilo que os levava em direção a Toulouse, onde Óscar anunciou com naturalidade:

— Hoje ficamos lá a dormir.

Ela não contestou. Limitou-se a olhar a paisagem a passar.

— Não tens mais roupa? — perguntou ele, como quem lembra algo no fim de uma lista.

Ela encolheu os ombros.

— Tenho outros calções. E mais duas t-shirts. Uma delas é aquela larga... com que durmo.

— Só isso?

Ela assentiu.

Ele não disse mais nada. Mas, ao chegarem à cidade — ruas largas, prédios em tijolo avermelhado, trânsito a abrandar o ritmo da tarde — dirigiu-se a uma zona comercial sem dar explicações.

Acabaram por entrar numa loja de roupa.

Ela ficou parada à entrada.

— Não posso comprar nada.

— Podes sim. — respondeu ele, já a andar pelos corredores. — És minha convidada. Não discutas.

Ela protestou, mas ele não lhe deu margem. Acabou por escolher umas calças de ganga, uma camisa leve, mais duas t-shirts, roupa interior, meias e um par de ténis. No provador, Benedita olhou-se ao espelho com um desconforto novo: não estava habituada à sensação de merecer nada daquilo.

Ele também comprou roupa — uns jeans escuros, duas camisas, cuecas, meias.

Ela reparou, com estranheza, que até então ele não trouxera bagagem alguma. Nem mochila, nem mala, nem saco de viagem. Nada.

A constatação ficou por dizer, mas instalou-se no fundo do pensamento.


No hotel, pediram um quarto com duas camas individuais.

— Só isso? — perguntou a rececionista.

— Só isso. — respondeu Óscar, com um meio sorriso.

No quarto, cada um levou a sua roupa para o armário sem grande cerimónia. Ela foi tomar banho primeiro. Quando saiu, com o cabelo húmido preso numa toalha, vestida com a t-shirt larga e os calções, Óscar entrou com o necessaire improvisado que acabara de comprar. Disse apenas: “Dois minutos” — e desapareceu para a casa de banho.

Quando ele saiu, o vapor escapava-se pela porta entreaberta e o som do secador já preenchia o quarto. Ela estava em frente ao espelho, a secar o cabelo com um ar distraído. Só quando se virou e o viu, congelou por um instante.

No peito dele, ligeiramente à mostra por entre os botões da camisa entreaberta, estava uma cicatriz longa e recente, ainda com tons de rosa escuro. Um sulco vertical, limpo, cirúrgico. Um corte de bisturi, não de vida selvagem.

— O que foi isso? — perguntou ela, já com o secador desligado.

Ele olhou para ela com um sorriso matreiro.

— Morri.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Morreste?

— Sim. Mas nem Deus me quis no céu, nem o Diabo no inferno. Acabei por ficar por cá.

Ela sorriu, apesar de si mesma.

Mas ele ficou sério. Sentou-se na beira da cama e, com um gesto lento, abotoou a camisa.

— Tive problemas cardíacos. Graves. Deram-me três meses se não fizesse a cirurgia. E mesmo com cirurgia, as probabilidades eram más.

Ela ficou calada. O cabelo ainda pingava um pouco, a toalha agora esquecida nas mãos.

— Fiz a operação há poucos meses. Ainda me estou a habituar à ideia de estar vivo.

Ela sentou-se na cama em frente, sem dizer nada. Como se a revelação criasse um novo território, mais íntimo, mais frágil, entre os dois.

Ele deitou-se devagar, de lado, voltado para a parede.

— Boa noite, Benedita.

— Boa noite, Óscar.

A luz apagou-se. O quarto ficou em silêncio.

E entre as duas camas, naquela zona invisível onde as palavras já não chegam, havia agora uma coisa nova: confiança.


sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Depois do Inferno Verde - Capítulo 5


 

Já iam em França havia meia hora quando Óscar tirou os olhos da estrada por breves segundos e fixou um painel castanho à beira da autoestrada. Um letreiro turístico com letras brancas anunciava:

Foix — Château Médiéval

Uma imagem do castelo desenhava-se ao lado, num traço quase romântico: torres altivas numa colina, com o vale a seus pés.

Sem dizer palavra, ele mudou de faixa e saiu da estrada principal.

Ela franziu o sobrolho e olhou para ele.

— Porquê? Saímos do caminho?

— Quando não se tem destino... mais vale aproveitar a viagem. — respondeu ele, sem tirar as mãos do volante.

Ela não sorriu.

— Mas nós temos um destino.

Ele apenas sorriu, como se não valesse a pena explicar o que acabara de dizer.


A cidade de Foix revelou-se aos poucos, aninhada entre colinas verdejantes. Ruas estreitas, pedras antigas, fachadas coloridas, o murmúrio de uma cidade que envelheceu com dignidade.

Estacionaram o carro ao fundo de uma ruela íngreme e subiram a pé até ao castelo. A fortaleza, empoleirada sobre um afloramento rochoso, dominava a paisagem com as suas três torres robustas — vestígios de um tempo de guerra e honra, agora convertidos em museu e miradouro.

A visita foi feita em silêncio. Passaram pelas salas escuras onde antigos senhores feudais planearam batalhas, viram armas penduradas em paredes de pedra, escadas estreitas que levavam a pontos de vigia, onde o vento parecia carregar séculos de histórias. No alto da torre mais antiga, observaram o vale inteiro — a cidade a seus pés, as casas apinhadas, as florestas ao longe, a estrada por onde tinham vindo.

Ali em cima, o mundo parecia quieto. Ele tirou os óculos escuros e ficou algum tempo a olhar a distância. Ela apoiou-se na muralha, sem dizer nada.


Desceram devagar e acabaram por encontrar uma esplanada sombreada, com vista parcial para o castelo. Um restaurante simples, com toalhas de pano e cheiro a carne grelhada.

Ela parou à porta, hesitante.

— Eu... não tenho dinheiro.

Ele virou-se para ela com naturalidade.

— Eu também não te pedi nada.

— Mas...

— Estás convidada.

Ela não se mexeu. A dúvida no rosto era maior do que a fome.

— O que é que queres de mim?

Ele sentou-se à mesa, puxou a cadeira ao lado e respondeu, olhando para a carta:

— Nada.

Ela sentou-se, devagar.

— Nada?

— Nada. — repetiu ele.

O silêncio prolongou-se entre os ruídos de talheres e conversas em francês ao redor.

Foi ele quem retomou:

— Achaste que eu queria alguma coisa de ti?

Ela não respondeu logo. Depois assentiu com a cabeça, sem o encarar.

Ele inspirou devagar.

— Sabes... — começou, pousando os cotovelos na mesa — quando te vi na estrada, nem ia parar. Nem pensei nisso. Mas houve qualquer coisa na tua postura... no modo como estavas ali, sozinha, firme… não sei. Tocou-me. Lembrou-me as minhas filhas.

Ela olhou para ele, surpresa.

— Não podia, em consciência, deixar uma rapariga sozinha num sítio daqueles.

Houve um silêncio breve. Depois ele perguntou:

— Como é que foste ali parar?

Ela baixou os olhos. O garçom aproximava-se, mas ele fez-lhe sinal para esperar.

— Tinha apanhado boleia com um camionista. Ia para Paris. — começou ela, devagar. — No início foi simpático. Mas depois... começou a deixar claro que queria "alguma compensação" pela viagem. Quando eu disse que não... ele deixou-me ali mesmo. No meio do nada.

Ela encolheu os ombros, num gesto que tentava ser leve, mas que doía só de se ver.

— Estive ali horas. Até tu parares.

Óscar não disse nada durante alguns segundos. Apenas olhava para ela, com a expressão fechada de quem compreende mais do que gostaria.

— Achaste que os meus motivos eram os mesmos dele?

Ela acenou, sem vergonha.

— Ainda achas?

Desta vez, ela olhou-o de frente.

— Não.

O garçom aproximou-se novamente. Óscar fez sinal para que se aproximasse.

— Vamos almoçar? — disse, como quem muda de capítulo.

Ela assentiu. E pela primeira vez em dias, pareceu respirar com menos peso.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Depois do Inferno Verde - Capítulo 4

 


A paisagem francesa abria-se como uma sucessão de postais em movimento. Colinas suaves, campos de girassóis, pequenas aldeias de telhados vermelhos adormecidas sob o sol. O Corvette seguia pela estrada nacional com o motor contido, como se respeitasse o silêncio que pairava dentro do carro.

Óscar mantinha-se concentrado na estrada, mas os olhos iam e vinham, alternando entre o horizonte e o rosto dela, à sua direita. Por fim, perguntou, com a voz calma de quem não quer ferir:

— E a tua família?

Ela demorou a responder. Não foi um silêncio de dúvida — foi o silêncio de quem precisa recuar no tempo, buscar uma resposta demasiado antiga.

— Não tenho. — disse, simplesmente.

Ele lançou-lhe um olhar de soslaio, rápido. Depois voltou a focar-se no volante.

Ela continuou, com a voz nivelada:

— Fiquei órfã aos seis anos. Os meus pais morreram num acidente de carro.

Ele não esperou que ela desenvolvesse.

— Lamento.

— Não faz mal. — respondeu ela logo, sem hesitação. — É só um facto. Já foi há muito tempo. Nem sequer me lembro do rosto deles.

Houve algo de seco e definitivo naquelas palavras. Como se ela não tivesse dito aquilo para provocar pena, mas apenas para pôr ordem na cronologia da conversa.

— Fui criada num orfanato. — prosseguiu, após uma pausa. — Lá pelos arredores de Leiria. Não era mau, mas também não era casa. Quando fiz dezoito, tive de sair. Deram-me um emprego e um quarto. Coisa modesta. Salário mínimo. Só percebi depois que, depois da renda, mal tinha dinheiro para comer.

Fez uma pausa curta e suspirou.

— Então... mandei tudo para trás. Peguei na mochila e decidi vir para Paris. Tentar a sorte.

Óscar manteve-se em silêncio durante alguns segundos. Depois disse:

— Foi por isso que estavas à boleia?

Ela assentiu levemente.

— Não tinha dinheiro. E... também gosto da aventura.

Ele esboçou um sorriso.

— Já te meteste em alguma situação chata?

A expressão dela mudou. Não abruptamente — foi mais como uma sombra a passar pelo rosto. Ficou calada por uns segundos, olhando a estrada como se o alcatrão pudesse oferecer-lhe outra resposta.

— Já. — respondeu enfim. A voz agora era menos firme. — Mas não importa.

Ele não insistiu.

O carro continuou a rodar, veloz e silencioso, entre campos abertos e memórias que se ficavam por dizer.

Durante algum tempo, o carro seguiu em silêncio. As perguntas pairavam no ar como folhas secas que ninguém queria apanhar.

Mas foi ela quem acabou por retribuir a curiosidade, com voz calma:

— E a tua família?

Ele encolheu os ombros, sem desviar o olhar da estrada.

— Devem estar em casa. Provavelmente. Ou então não.

Ela franziu o sobrolho, ligeiramente confusa.

— Então por que é que estás aqui... sozinho?

Ele soltou uma risada breve e sem alegria.

— Porque mais vale só do que mal acompanhado.

A resposta ficou a ecoar durante alguns segundos. Ela olhou-o de esguelha, hesitante.

— Há... problemas familiares?

Ele curvou os lábios num sorriso amargo.

— "Problemas familiares" é um termo simpático. Não abarca o que se está a passar.

Ela ficou calada por um momento, como se ponderasse até onde podia ir.

— Estás a fugir de alguma coisa?

Desta vez, ele não respondeu logo. Continuou a conduzir por mais uns bons quilómetros, o silêncio entre eles de novo preenchido apenas pelo motor, pelo som abafado da estrada a passar sob as rodas.

Depois disse:

— Conheces os aborígenes australianos?

Ela abanou a cabeça.

— Têm uma coisa chamada walkabout. É uma espécie de ritual... quando um jovem chega a certa idade, larga tudo e vai sozinho para o deserto. Dias, semanas, às vezes meses. Sem rumo. Para se encontrar, ou para perder-se. Às vezes as duas coisas são a mesma.

Ele respirou fundo. A estrada seguia plana à frente, e o céu começava a mudar de tom — um azul mais pálido, com nuvens longas como pinceladas.

— Estou a fazer mais ou menos isso.

Ela olhou-o durante alguns segundos, como quem vê uma peça de puzzle a encaixar-se. Depois voltou-se para a frente.

— Faz sentido. — murmurou.

E ficaram assim, lado a lado, duas solidões em movimento. Ele em busca de alguma coisa que talvez não queira encontrar. Ela à procura de tudo o que ainda não tem.


quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Depois do Inferno Verde - Capítulo 3

 


Saíram do quarto pouco depois das oito, ambos já vestidos e com os rostos ainda meio apagados pela noite mal dormida.

Ela trazia novamente a roupa do dia anterior, agora seca e ligeiramente amarrotada. O cabelo apanhado de forma apressada, os olhos ainda cansados. Ele mantinha o mesmo tom prático de sempre: t-shirt escura, jeans, óculos de sol já no rosto antes mesmo de saírem para a luz.

Trocaram poucas palavras na receção. Apenas o necessário. Um bom dia murmurado à senhora idosa, um obrigado seco no momento do pagamento. Saíram para a rua fria e silenciosa, onde o Corvette os esperava como um animal inquieto ao sol.

A estrada serpenteava ainda entre montes e aldeias pequenas quando pararam num restaurante à beira da estrada — desses com toldo esbatido, mesas de ferro e cheiro persistente a café queimado.

Sentaram-se junto à janela, de frente um para o outro, cada um com a sua chávena e o seu prato — croissants, pão com manteiga, sumo de laranja. Comeram em relativo silêncio. Ela parecia ainda meio ausente, os olhos vagueando pela janela como se procurassem qualquer coisa na paisagem. Ele, por seu lado, parecia prisioneiro de um mau acordar: sobrancelhas carregadas, movimentos curtos e secos, o café bebido em goles bruscos.

As únicas frases trocadas foram funcionais:

— Queres açúcar?

— Não, obrigado.

— Vais comer isso?

— Sim.

Nada mais.

Voltaram à estrada já perto das dez. O sol começava a subir, quebrando o frio da manhã. A paisagem tornava-se mais suave, menos agreste. A linha invisível da fronteira passou por eles com um pequeno sinal azul onde se lia FRANCE, ladeado pelas estrelas da União Europeia.

Foi só ali, depois de quilómetros partilhados e palavras evitadas, que ela se virou finalmente para ele.

— Chamo-me Benedita.

Ele olhou-a de relance, sem surpresa, e depois deixou que um pequeno sorriso se desenhasse nos lábios.

— Óscar. — respondeu. — Muito prazer, Benedita.

Ela voltou o rosto para a frente, mas esboçou um sorriso discreto. E naquele breve instante, entre uma curva e outra, havia qualquer coisa de novo no ar — como se tivessem finalmente atravessado não só uma fronteira geográfica, mas outra mais funda, mais difícil de nomear.

O silêncio voltou, mas já não era o mesmo. Havia nele agora uma espécie de trégua tácita, uma aceitação de presença. A estrada tornava-se mais plana, os campos abriam-se em tons de trigo e verde claro, e o sol, subindo, ia secando o que restava da noite.

Ela olhou pela janela durante algum tempo, depois voltou-se de novo para ele:

— Já ias para Paris?

Ele abanou a cabeça, sem tirar os olhos da estrada.

— Não.

Ela esperou um momento antes de perguntar:

— Então... por que vais?

— Para te deixar lá.

A resposta saiu num tom simples, como quem diz um facto. Sem floreados, sem pose de salvador.

Ela ficou a observá-lo, talvez a tentar perceber o que havia por trás daquela disponibilidade. Depois perguntou:

— E depois?

Ele deu uma leve risada, mas não respondeu de imediato. O motor ronronava com gosto, embalado pela estrada lisa.

— Depois… quero ir até Nürburg.

— Nürburg?

— Sim. — disse ele, finalmente virando-se ligeiramente para ela. — Para experimentar este carro no circuito de Nürburgring.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— A sério?

— A sério. — confirmou, agora com um brilho nos olhos que não tinha mostrado antes. — E além disso… sempre posso aproveitar para esticar o carro nas Autobahns. Na Alemanha há troços sem limite de velocidade. E este bicho foi feito para correr.

Ele pousou brevemente a mão sobre o volante, como quem afaga um animal de estimação.

Ela ficou em silêncio. Olhava-o agora com uma curiosidade nova — como se, pela primeira vez, visse nele alguém que também estava em fuga, mesmo que não dissesse. Não fugia de ninguém em particular. Mas fugia de ficar parado.

Talvez fosse isso que os ligava sem saberem.

Dois corpos em trânsito.

O carro deslizava pela autoestrada com uma suavidade quase irreal. O ronco do motor, mesmo contido, fazia-se sentir mais no peito do que nos ouvidos. O mundo lá fora parecia correr devagar ao lado deles, enquanto tudo dentro do Corvette se mantinha em suspensão — um fragmento de estrada, um momento suspenso no tempo.

Ela quebrou o silêncio de novo, com uma pergunta aparentemente inocente:

— Tens este carro há muito tempo?

Ele esboçou um sorriso, como se a pergunta o divertisse.

— Dois dias.

Ela virou-se para ele, surpreendida.

— Dois dias?

— Sim. — assentiu, mantendo o olhar fixo na estrada. — Comprei-o e decidi fazer esta viagem. Sem destino certo. Só para o conduzir. Para o conhecer.

Fez uma pausa curta, e depois acrescentou:

— A maior parte das pessoas compra carros destes para os mostrar aos amigos ao fim de semana. Tirar umas fotos, dar umas voltinhas, parecer bem no Instagram. — Encolheu os ombros. — Eu comprei-o para o usar. Para o ouvir. E, se possível, para andar depressa.

Ela não respondeu logo. Havia uma sinceridade crua nas palavras dele. Não era vaidade. Era outra coisa. Um tipo de prazer solitário. Um gesto de afirmação tardia.

Passaram mais alguns quilómetros em silêncio, até ele lançar-lhe um olhar de lado, quase casual:

— E tu? De onde é que és?

— De perto de Leiria. — respondeu ela, depois de uma pequena hesitação.

Ele soltou um assobio curto.

— Estás longe de casa.

Ela não disse nada, mas os olhos perderam-se de novo na paisagem. Campos planos, fileiras de árvores, a sombra azulada de colinas distantes.

— E tu? — perguntou, depois de algum tempo. — De onde és?

— Braga. — respondeu ele, sem hesitar.

— Também vieste longe.

Ele deu uma leve risada.

— Quando sais sem destino, qualquer lugar pode ficar longe.

Ela assentiu devagar, sem sorrir. Talvez pensasse o mesmo — embora, no caso dela, o lugar de onde viera não fosse apenas geográfico.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Depois do Inferno Verde - Capítulo 2


 

A porta abriu-se com um rangido discreto. Ele entrou com dois sacos de papel nas mãos, o cheiro a batatas fritas e gordura doce a invadir de imediato o quarto. A luz continuava acesa, e a janela deixava entrar uma réstia da noite lá fora — uma brisa leve, fresca, montanhosa.

Ela estava sentada na cama, pernas cruzadas, com o cabelo ainda húmido a escorrer em fios pelos ombros. Trazia vestida uma t-shirt larga demais para o seu corpo — uma daquelas que se vendem em postos de estrada com slogans esquecíveis — e que lhe caía como um vestido improvisado, tapando-lhe quase até aos joelhos. A roupa do dia secava num cabide improvisado à porta da casa de banho.

Ela olhou para ele quando entrou, mas não disse nada.

Ele pousou os sacos sobre a mesa de cabeceira e, com um gesto prático, abriu-os.

— Trouxe o menu completo. Batatas, hambúrguer, refrigerante… o pacote todo. — disse, com um meio sorriso. — Não me culpes se estiver frio.

Ela esboçou um agradecimento quase imperceptível, pegando na caixa mais próxima com um cuidado que destoava do contexto. Desta vez, comeu devagar. Comedida. Como se cada dentada fosse medida e controlada. O apetite voraz da tarde desaparecera, substituído por uma contenção quase cerimonial.

Entre eles, a televisão presa à parede debitava o som abafado de uma série americana dobrada em espanhol — vozes com pouco nexo, cheias de clichés e gargalhadas de estúdio.

Comeram assim: um ao lado do outro, mas cada um no seu espaço. Ele sentado no sofá. Ela na beira da cama. A luz amarela do abajur fazia sombras suaves nas paredes.

Quando terminaram, ele recolheu os restos — caixas de cartão, guardanapos manchados, copos de refrigerante a meio. Levantou-se, colocou tudo no pequeno caixote do lixo ao lado da cómoda, limpou as mãos aos jeans e voltou a sentar-se.

Ela ficou em silêncio, os olhos pousados na televisão sem realmente ver.

Ele olhou-a, levemente inclinado para a frente, e disse, num tom neutro mas claro:

— Podes ficar com a cama à vontade. Eu fico no sofá.

Ela virou-se para ele, como quem esperava ouvir outra coisa. Os ombros relaxaram, quase imperceptivelmente.

— Obrigada. — disse, baixo.

Sem cerimónias, ela deitou-se, puxando a colcha até à cintura. Enrolou-se devagar, como quem se protege do mundo com tecido alheio. Voltou-lhe as costas.

Ele apagou a luz da mesa de cabeceira, deixando apenas a da casa de banho, entreaberta, a iluminar o quarto com um tom pálido e frio.

Encostou-se no sofá. Não era confortável, mas era suficiente. Cruzou os braços, olhou o tecto durante alguns minutos. Depois fechou os olhos.

O ruído da televisão, agora quase murmúrio, enchia o espaço entre eles. E durante muito tempo, foi tudo o que se ouviu.

O quarto mantinha-se mergulhado numa penumbra macia. Só a luz da casa de banho, difusa, azulada, se filtrava pela porta entreaberta. Lá fora, o som longínquo de um carro passava pela estrada. A televisão, agora em volume quase inaudível, continuava a debitar episódios que ninguém via.

Ela já se deitara, o corpo enrolado sob a colcha, de costas para ele. O sofá rangia sob o peso dele, que se mantinha imóvel.

Passaram-se alguns minutos até ele falar.

— Não tenhas ideias esquisitas durante a noite.

A voz saiu seca, sem rodeios. Não abriu os olhos. Não mudou o tom. Como quem avisa, não como quem teme.

— Tenho sono leve. E tudo o que tenho de valor está trancado no carro. E não vais conseguir acesso.

O silêncio que se seguiu foi denso. Ela respirou fundo antes de responder.

— És sempre assim tão… pessimista?

Ele abriu um olho, devagar. Depois o outro. Virou ligeiramente a cabeça na direção dela, embora a luz mal lhe revelasse o rosto.

— Pessimista?

— Sim. — disse ela, com a voz ainda baixa. — Pelo que disseste agora. E também pela forma como reagiste quando eu falei de ir para Paris.

Ele soltou uma gargalhada breve, rouca.

— Isso não é pessimismo. É realismo.

Ficou um instante calado, e depois acrescentou, num tom que se tornou mais grave, mais cansado:

— Quando tinha a tua idade, também era um idealista. Durante muito tempo, aliás. Via o mundo com lentes cor-de-rosa. Acreditava em coisas boas, em planos, em finais felizes. Mas depois… há uma altura em que tiras os óculos.

Ela não disse nada.

Ele continuou, quase como se falasse para o escuro:

— E quando isso acontece… vês o mundo como ele é. E o mundo é feio. Não quer saber dos teus sonhos. Nem dos teus sentimentos. Podes passar a vida a cuidar de alguém, a despejar tudo o que tens nessa pessoa, e ainda assim descobrir que para ela… foste só útil. Como uma ferramenta. Uma ponte. E uma ponte não se ama. Usa-se.

A voz dele endureceu, mas não subiu.

— Mesmo quem diz que te ama… pode não te respeitar. E sem respeito… nada vale a pena.

Do outro lado do quarto, ela não respondeu de imediato. A colcha mexeu-se ligeiramente. Talvez estivesse a tentar encontrar nova posição. Talvez só estivesse a digerir as palavras.

Depois disse, num fio de voz:

— Boa noite.

Ele fechou os olhos outra vez.

— Boa noite. — murmurou.

O quarto ficou de novo em silêncio. Mas agora havia algo mais espesso no ar — uma memória partilhada sem nomes, uma dor sem explicação, uma trégua silenciosa entre dois desconhecidos que talvez, naquela noite, se tenham compreendido um pouco mais.