segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Consequências (XXXV de XLIII)



Patrícia, embora absorta pelos convidados, observara tudo isto à distância, e vendo Paola sair e o ar do seu pai, rapidamente se dirigiu ao DJ que prontamente anunciou que chegara o momento da dança da noiva com o pai.

Alex, apanhado de surpresa e ainda com os seus pensamentos meio ausentes viu a sua princesa dirigir-se a si com um sorriso do tamanho do mundo enquanto a pista de dança clareava, deixando-lhe novamente o coração cheio. Patrícia arrasta-o para o meio da pista e começou a dançar com ele, aninhando-se.

“Gostas mesmo dela, não gostas?” perguntou Patrícia.

“Tu conheceste-a. O que é que há para não gostar? Ele esteve lá no meu ponto mais baixo, deu-me força e incentivou-me todos os dias durante meses e depois… Acordou-me! Como é que posso deixar de gostar?”

Patrícia sorriu.

“E a mãe?”

Alex não respondeu, porque não sabia ele próprio. Aninhou a filha de volta e acabaram a dança, sob os aplausos dos convivas.

Alex foi até ao bar, onde ia para pedir um whisky, mas lembrou-se que tinha o carro e pediu antes uma soda. Podia quase sentir fisicamente o olhar de Marie em si.

Acabou de beber, deixando o copo no balcão e dirigiu-se directo a Marie, de olhos colados nela, que simplesmente corou, ficando claramente embaraçada, e quando chegou ao pé dela simplesmente estendeu a mão, sem uma única palavra.

Ela, meio receosa, aceitou a mão dele e ele guiou-a para a pista onde começaram a dançar.

Marie aninhou-se nele, encostando a cabeça ao seu peito, sentindo-o e não conseguiu conter lagrimas de felicidade. Ele notou e falou finalmente, numa voz suave:

“Estás bem?”

Ela agarrou-o mais.

“Shhh!” disse ela “fica assim, fica só assim…”

Ele embalou-a até ao final da música e ela largou-o renitente. Ele conduziu-a de volta à mesa, agradeceu-lhe com um aceno e afastou-se, começando a confraternizar com outros convidados.

Patrícia e Tiago viam isto à distância com um sorriso do tamanho do mundo.

Quando quase todos os convidados já tinham dispersado, Alex apareceu ao pé de Marie e Tiago, que já se preparavam para partir e perguntou a Marie:

“Tens boleia para casa? Tenho de lá ir pôr o carro, de qualquer maneira…”

Marie hesitou, olhando para o filho, mas este, ao ouvir as palavras do pai só disse à mãe:

“Vejo-te mais logo.” e enfiou-se no carro partindo de imediato.

Alex levou-a até ao carro, ajudo-a a entrar, entrou em seguida e arrancaram. Fizeram o caminho em silêncio. O sorriso no rosto de Marie parecia quase iluminar o habitáculo do carro. Alex ia para entrar com o carro na garagem quando Marie o parou.

“Vais ficar?”

“Não, vou só pôr o carro na garagem e chamar um táxi.”

“Não. O carro é teu. Leva-o.”

Alex sorriu e acenou em aceitação.

“Estás diferente.” Disse ela quando ele ia já para abrir a porta, parando-o.

“É, tenho ouvido muito isso. Estou maior. Treino militar intensivo todos os dias tem os seus efeitos.”

“Sim, estás maior, mas não era disso que estava a falar.”

“Então?”

“Não sei… É difícil de explicar o que é.”

Alex sorriu.

“Sentir a morte por perto faz ter uma perspectiva diferente das coisas.”

Ela acenou, percebendo.

Ele saiu, abriu a porta dela e ajudou-a, levando-a à porta de casa. Ela abriu a porta e ele voltou-se para partir quando ela falou, parando-o.

“Alex,… volta para casa.”

O tempo pareceu ficar suspenso por algum tempo, mas depois ele seguiu e partiu.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Consequências (XXXIV de XLIII)



Estavam à porta da Igreja, Aguardavam que a marcha nupcial começasse a tocar quando Alex se voltou para a filha e comentou:

“O comportamento da tua mãe está um bocado estranho…”

“Isso é porque eu a avisei que hoje não queria dramas. Ela anda a evitar-te. Acho que se não a tivesse avisado ela tinha saltado para o teu colo esta manhã, quando partiu os pratos, mesmo com a Paola ao teu lado. Não calculas a crise de choro que houve na cozinha.”

Alex sorriu, percebendo perfeitamente. “Melhor assim…” pensou.

A marcha começou a tocar e foi com felicidade e orgulho que Alex escoltou Patrícia, entregando-a no altar. Esta irradiava beleza e felicidade, bem como o seu noivo que a aguardava. 

A cerimónia decorreu sem problemas. Os noivos cumprimentaram e agradeceram a todos os convidados, levaram o banho de arroz e seguiram para o local da recepção, onde tiraram as fotos com os convidados. 

A costumeira foto com os pais da noiva foi absolutamente normal, mas a com os pais de ambos colocou Marie ao lado de Alex pela primeira vez, e a tensão de Marie era palpável. Quando o fotógrafo pediu para todos darem as mãos, Alex sentiu Marie a tremer na sua mão. Quando o fotografo os libertou ela manteve a mão na de Alex por tanto tempo quanto pôde, largando-o em seguida e afastando-se rapidamente sem olhar para ele. 

Fora estes pequenos momentos, Alex aproveitava para passar todo o tempo com Paola, que reparava nos olhares furtivos de Marie.

Numa altura em que Alex se afastou, Paola aproveitou a oportunidade e, vendo mais uma vez Marie a observá-la, levantou-se e foi direita a ela.

“Marie, eu sou Paola.” Estendendo-lhe a mão.

Marie hesitou um pouco, mas estendeu a mão e cumprimentou-a.

“Muito gosto.”

Paola sorriu-lhe. Um sorriso aberto, quente e convidativo.

“Acho que temos qualquer coisa em comum…” Marie olhou para ela, como que interrogando-a “O Alex!”

Marie corou.

“Queria dizer-te que percebo o que querias fazer, porque o querias fazer, mas, se o Alex que conheço é igual ao que tu conheceste, custa-me entender que não previsses as consequências. E que espero que entendas o que causaste.”

Marie apenas assentiu, pálida, mas sem sentir que Paola a julgava. Antes, que a entendia.

“O Alex continua a construir muralhas à volta dele. E só tu é que as podes derrubar.”

Marie continuava a olhar para ela atónita. A expressão de Paola tornou-se dura, de repente.

“Mas também queria aproveitar para te avisar que se lhe partires o coração outra vez, eu apanho o primeiro voo do Dubai e arranco o teu do teu peito com as minhas mãos.”

Marie encolheu-se a estas palavras.

“Eu não estou com o Alex…” disse numa voz meio trémula.

A expressão de Paola suavizou-se e um sorriso enigmático bailou no seu sorriso e nos seus olhos. Levantou uma mão, fazendo uma festa no rosto de Marie e disse simplesmente na sua língua nativa:

“Ciao, cara.”

Voltou-se e caminhou em direcção a Alex que por esta altura as observava de perto da pista de dança, agarrando-lhe a mão e levando-o para a pista.

Ao fim de umas quantas danças e no fim de um slow, Paola disse:

“Esta na hora. Tenho de ir.”

“Tens a certeza que não queres que te leve ao aeroporto?”

“Não, precisas de estar aqui, para a tua filha. Além disso não gosto de despedidas embaraçosas…”

Abraçou-se a ele, elevou-se e beijou-o com, fervor, com paixão a que ele correspondeu. 

Marie sentiu um baque no peito, como se o seu coração se estilhaçasse e naquele momento percebeu tudo o que ainda não tinha percebido. Sentia-se completamente perdida, desamparada, como se o chão se estivesse a abrir debaixo de si.

Paola quebrou o beijo e virou-se caminhando para a saída sem olhar para trás. Apenas fez um pequeno aceno a Marie e saiu. Alex viu-a a partir com o coração pesado.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Consequências (XXXIII de XLIII)



O táxi parou às oito da manhã de domingo, Alex fez contas com o taxista e saiu em seguida, dando a volta ao carro e abrindo a porta, ajudando Paola a sair. Faziam um par esplendoroso, ele vestido com um fato ajustado Hugo Boss e ela com um magnifico vestido verde esmeralda até aos pés e com um ombro destapado.

Alex olhou para a casa e respirou fundo. 

“Estas bem?” perguntou Paola.

Ele não respondeu, apenas anuiu, e, dando-lhe o braço, aproximou-se da porta que estava aberta e por onde algumas pessoas fardadas passavam atarefadas levando embalagens para dentro da casa, de certeza alguma empresa de catering contratada para fornecer comida aos convidados da noiva antes de seguirem para a Igreja.

Alex parou antes de entrar, na duvida se o deveria fazer sem se anunciar ou não. Era estranho ter esta reacção numa casa que tecnicamente ainda era sua, mas que na prática não o era e de onde ele tinha saído há quase dois anos e meio sem ter qualquer intenção de voltar.

Tiago ia a passar da sala para a cozinha quando os viu ali parados, mudou de rumo imediatamente, cumprimentou Paola e depois atirou-se para os braços do pai. 

Marie saia da cozinha ainda a responder a alguém quando virou a cabeça, viu Alex e parou, ficando estática e deixando cair os pratos que tinha na mão que se escaqueiraram no chão com um estrondo.

Alex olhou para ela e deu-lhe um leve aceno com a cabeça.

Ela olhou para Alex, depois para Paola e claramente não sabia como reagir. Acabou por se virar e voltar a correr para dentro da cozinha.

“A tua mãe pareceu feliz por me ver.” Comentou Alex para o filho.

“Não ligues. Daqui a pouco passa-lhe. Já falo com ela. Mas o que é que estás a fazer aqui fora? Entra.”

As pernas de Alex pareciam mexer-se com um enorme esforço, arrastando-o finalmente para dentro da casa, ao mesmo tempo que ouvia a filha a descer as escadas e a perguntar “O que é que aconteceu? O que é que se partiu?” com Tiago a responder-lhe “Está tudo bem, a mãe deixou cair uns pratos e partiram-se, só isso.”

Entretanto ela chega ao fundo das escadas e vê o pai com Paola à entrada da sala e lança-se nos braços dele sem qualquer cerimónia.

“Pai. Até que enfim.”

Depois deu um abraço apertado a Paola.

“Pai, tenho de voltar para o quarto, que estava lá com a maquilhadora, mas não vás para lado nenhum, ouviste?”

Alex riu.

“Não, querida, não vou a lado nenhum.”

Entraram finalmente na sala. Alex olhou em volta e nada parecia ter mudado. Tudo parecia ter acontecido na noite anterior e ao mesmo tempo parecia também uma recordação distante.

“Tiago, vais ter de falar com alguém para nos dar uma boleia depois.”

“Não vieste de carro?”

“Não, vim de táxi. E se for preciso chamo um para ir, mas se houver boleia…”

“Não sejas parvo.” Disse Tiago, retirando-se por momentos e voltando com uma chave que entregou ao pai “Está na garagem. É melhor tirares o carro para a rua antes que chegue mais pessoal. Não te preocupes que está tudo em ordem. Tenho dado umas voltas com ele aos fins de semana, para o manter…” e depois acrescentou com um sorriso sacana “E além disso, aparecer em algum lado com um Mustang clássico abre muitas portas, se é que me entendes…”

Alex olhou para ele com um ar sério e disse:

“Filho, deixa-me dizer-te uma coisa que como teu pai me vejo obrigado a dizer.” Tiago levantou o sobrolho “ Quando encontrares a mulher certa, não a deixes fugir. Casa-te com ela e vive a tua vida.” Tiago assentiu, surpreendido com o ar sério do pai que continuou “ Mas enquanto não encontrares, diverte-te com as erradas.”

Desataram todos a rir e Alex pediu a Tiago para fazer companhia a Paola enquanto ele tirava o carro da garagem.

O carro estava ali, como ele o tinha deixado. Parecia estar pacientemente à espera dele. Entrou, sentiu o cheiro do cabedal dos estofos, sentiu o volante na mão, colocou a chave na ignição, ligou-o e ele despertou com um rugido. Carregou no botão para abrir a porta da garagem, retirou o carro, que estacionou na rua em frente à casa, e voltou para junto de Paola e Tiago, que estavam absortos a conversar um com o outro.

Tornou-se óbvio, ao longo da manhã, que Marie evitava entrar na sala a todo o custo. Alex apenas a viu de relance quando ela passava no corredor para ir para os quartos, no piso de cima. A casa foi-se enchendo de convidados, Muitos deles desconhecidos de Alex, provavelmente colegas a amigos da filha e outros família e conhecidos de longa data que, quando o viam, o cumprimentavam efusivamente.

A meio da manhã a noiva desceu finalmente, para se juntar aos convidados e posar para as fotos com todos eles. Alex não conseguiu conter uma lágrima de emoção quando a filha se chegou ao pé dele, deslumbrante no seu vestido de noiva.

“O meu bebé.” Disse-lhe ao ouvido enquanto a abraçava “Parece que ainda ontem andava contigo às cavalitas…”

“É para veres que estás a ficar velhote.” Respondeu a filha com um ar brincalhão e a irradiar felicidade “Mas vou ser sempre, sempre o teu bebé. Mas pode ser que daqui a algum tempo tenhas outro para levar às cavalitas…” continuou ela, piscando-lhe o olho.

Alex olhou para a filha com um ar intrigado, e depois sorriu.

“Já?”

“Pois, não estava planeado, mas fizemos tantos projectos nos últimos tempos que um concretizou-se…”

Alex abraçou-a novamente e disse-lhe ao ouvido:

“Parabéns, mamã.”

“Parabéns, avô.” Respondeu ela.

Daí a pouco Marie finalmente juntou-se aos convidados. Alex viu-a a descer do primeiro andar, com um vestido elegante e discreto. Mas nunca se aproximou ou interagiu com Alex. No entanto ficou extremamente surpreendida quando Lisa e Fernando chegaram e o cumprimentaram, bem como a Paola, como se fossem amigos de há muito.

Assim que teve uma oportunidade, Marie puxou Lisa para um quarto.

“Lisa, vi-te a cumprimentar o Alex e a rapariga que está com ele…”

Lisa sorriu.

“Não te ponhas a fazer filmes na tua cabeça, por favor. Ontem fui jantar fora com o Fernando e encontramo-los no restaurante. Acabamos por ficar à conversa e jantamos e saímos juntos a seguir. Não há mais história por trás.”

“Quem é ela?” perguntou Marie.

“A tua filha não te disse?”

“Sei que se chama Paola, é Italiana e foi a fisioterapeuta do Alex quando ficou ferido.”

“Sim, e ficaram amigos e o Alex fez questão que ela viesse. Mas ela tem avião ao fim da tarde, não vai ficar até ao fim da festa. Creio que tem de estar no Dubai amanhã de manhã…”

“Eles não vão ficar?” perguntou Marie com algum medo nos olhos, a imaginar que apenas veria Alex por umas horas antes de ele partir novamente.

“Ela não vai ficar. O Alex voltou permanentemente. Vai voltar ao cargo que tinha. Não tenhas medo, ele não vai para lado nenhum. E a Paola não morde. É muito simpática até. Acho que ias gostar de falar com ela.”

Marie recebeu todas aquelas informações, mas continuou sem saber o que fazer. Mas o facto de saber que Alex não iria embora acendeu uma esperança.

“Marie, agora vai-te compor, levantas o queixo e vais lá para fora cuidar dos convidados e ser a anfitriã perfeita. Hoje não é dia para lidar com estes esqueletos. Deixa-os no armário por mais um bocadinho.”

Marie olhou-se ao espelho, ajeitou-se, levantou o queixo e saiu do quarto já com um sorriso e uma disposição diferente.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Consequências (XXXII de XLIII)



Chegaram à cidade de origem de Alex na sexta-feira antes do casamento ao final da tarde. A longa viagem deixara-os exaustos, mas não o suficiente para não partilharem uma noite preenchida.

No sábado andaram às voltas pela cidade, com Alex a fazer questão de mostrar todos os locais de interesse a Paola. Ao fim da tarde voltaram ao hotel, vestiram-se a rigor, estando Paola deslumbrante naquele mesmo vestido que usara na primeira vez que estiveram juntos e saíram para ir jantar. 

“Esse vestido trás recordações…” observou Alex no caminho.

“Achei que seria bonito. Usei-o na minha primeira noite contigo, e uso-o na última.”

Alex sorriu e deu-lhe um beijo terno e Paola aninhou-se ainda mais nos seus braços naquele banco de trás do táxi que os levava ao destino.

Paola fez questão de ir ao melhor restaurante da cidade e acabaram no mesmo restaurante onde ele tinha estado com Marie naquela fatídica noite.

Foi aqui que Alex descobriu que o francês de Paola era perfeito.

“A minha avó era francesa…” explicou ela com um sorriso.

Estavam já a comer e conversavam animadamente quando a expressão de Paola, que estava de frente para a entrada, mudou.

“Que foi?” Perguntou Alex intrigado.

“Podes não acreditar no que eu te vou dizer, eu nunca tive tendências lésbicas, mas a mulher que está a entrar agora convertia-me.”

Alex, intrigado, tentou olhar discretamente e reparou no casal que entrava no restaurante. Fez um ar algo frustrado.

“Que foi?” Perguntou Paola “Conheces?”

Alex respirou fundo.

“É a Lisa.”

Paola ficou a olhar para aquela mulher perfeita que parecia deslizar no restaurante pelo braço com um homem, com um ar quase intocável.

“Esta é a Lisa?” Tentou confirmar com um ar completamente estupefacto.

Lisa e Fernando seguiam pelo restaurante para a mesa que estava reservada para eles, guiados pelo garçom. Lisa reparou no olhar insistente daquela mulher na sua direcção, quase incomodativo. Parecia extremamente admirada. Olhou de relance para o homem que a acompanhava e que estava de costas, quando passava e parou. Olhou bem para o homem com um ar admiradíssimo, levou as mãos à boca e exclamou:

“Alex!”

Fernando estacou de repente e perguntou a Lisa:

“O Alex?”

Lisa não se conteve.

“O que é que estas aqui a fazer?”

Alex respondeu com um ar meio acabrunhado, meio culpado:

“A jantar…”

Lisa caiu em si, de repente, olhou para a mulher, que ainda olhava para ela embasbacada e apresentou-se:

“Peço desculpa. O meu nome é Lisa e este é o meu marido, Fernando.”

Foi Alex quem falou.

“Esta é Paola, uma amiga.”

Depois das apresentações, Lisa continuou:

“Desculpem, mas foi mesmo uma surpresa ver o Alex aqui. Vieste para o casamento?”

“Claro. Não me ia perdoar se não viesse.”

“Desculpem a intromissão. Nos vamos seguir para a nossa mesa. Foi um gosto ver-te Alex e um gosto conhecê-la, Paola.

E seguiram. Fernando, que tinha ficado em silêncio, murmurou qualquer coisa a Lisa, que lhe respondeu. Pararam e Fernando voltou atrás.

“Alex, peço desculpa mais uma vez, será que podíamos falar?”

Alex sabia que provavelmente este era um dos problemas que tinha deixado para trás e que teria de resolver.

“Claro que sim. Quando quiser.”

“Que tal se nos juntássemos a vocês? A não ser que seja inconveniente…”

Tendo Alex contado todos os pormenores daquela noite a Paola, com detalhes de requinte, apenas olhou para ela, numa pergunta silenciosa e, tendo ela anuído, respondeu finalmente:

“É um gosto.”

Fernando falou com um garçom e uma mesa foi posta de imediato ao lado, sentando-se Lisa ao lado de Alex e Fernando ao lado de Paola. 

O casal recém-chegado fez o pedido e foi Alex que iniciou a conversa.

“Antes de mais, Lisa, tenho de te pedir desculpa por aquela noite. Não estava em mim e tu não merecias que te tivesse tratado como tratei.”

Lisa apenas sorriu e foi Fernando quem falou.

“Sabes porque é que quis falar contigo?”

Alex olhou para ele sem saber o que viria dali, tentando preparar-se para o que achava que merecia ouvir.

“Porque não sabia se ia voltar a ter oportunidade de te agradecer.”

Alex estava à espera de tudo… Mas não disto.

Foi Lisa quem falou.

“Podemos falar abertamente?”

Todos anuíram.

“Alex, sabes que eu só percebi que tu não fazias ideia do onde estavas metido até ser tarde demais.”

“Sim, eu sei.”

“A Marie sabia que ias ficar fulo, mas nunca pensou que tu simplesmente desaparecesses. Durante a tarde a seguir tentei ligar-lhe, mas quando não consegui, e levando em conta o estado em que eu sabia que estavas, comecei a ficar preocupada que tivesse acontecido algo de catastrófico. Quando cheguei a vossa casa dei com Marie quase catatónica. Pedi ajuda ao Fernando, conseguimos acalmá-la o suficiente para ela nos dizer o que se tinha passado.”

Foi Fernando quem continuou.

“Sabes, elas não faziam genuinamente ideia do porquê da tua reacção ser tão violenta. Isto deu azo a uma conversa que surpreendeu as duas. E um dos resultados dessa conversa é aquilo porque temos de te agradecer. Eu sei que foi o fim do mundo para ti, mas para mim e para a Lisa foi um aprofundar da nossa relação que nunca teria sido possível de outra maneira, se calhar. E vamos estar sempre gratos a ambos por isso.”

Alex olhava para eles, espantado. 

“E queríamos dizer-te isto, pessoalmente, já que não sei se algum dia nos veremos novamente com tempo para uma conversa.”

Alex sorriu finalmente.

“Eu vou ficar por cá. Teríamos tempo. Mas obrigado.”

O resto da refeição, depois de o elefante ser retirado de cima da mesa, correu com boa disposição, com o quarteto a acabar por sair para um bar com música ao vivo onde estiveram e dançaram até ao fim da noite. Lisa e Fernando deixaram Alex a Paola no hotel.

Finalmente aninhados um no outro, Paola cativou o olhar de Alex com aqueles olhos faiscantes e um sorriso que tinha uma ponta de tristeza por trás.

“É a nossa última noite.” Disse ela.

Alex anuiu com tristeza no olhar.

“Hoje… Quero que me ames!” Disse ela com um ar absolutamente sério.

E Alex, tomou-a, mergulhou nela, e ela nele e nessa noite entregaram-se totalmente.


terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Consequências (XXXI de XLIII)



Apesar de atazanar constantemente a cabeça do pai ao longo do Fim-de-semana, não conseguiu que este se comprometesse a ir a um casamento na sua cidade natal.

Aqueles dias acabaram, os meses foram passando e a data do casamento aproximava-se.

Alex pensava muitas vezes na conversa que tinha tido com Paola e era verdade. Para castigar a mulher tinha abdicado de tudo, até de viver. E a verdade é que, de alguma maneira ter estado perto da morte, ter duvidas se voltaria a andar, passar por todo aquele processo de reabilitação, deu-lhe outra perspectiva sobre a vida.

Tinha a certeza de que ela já teria seguido em frente e que ele seria já só uma memória. As palavras que ela escrevera mais para ela própria que para ele, aquele desabafo… Havia que resolver os assuntos de uma vez por todas. E ele queria estar perto dos netos, quando eles aparecessem. Queria reclamar a sua vida de volta.

Tudo começou com um simples telefonema.

“Alex, viva, tudo bem contigo?”

“Tudo bem Paulo. Olha, o tipo ainda quer vir para aqui?”

“Quer pois. Tu estas finalmente farto disso, não?”

“É um tudo nada monótono e quando não é a animação não é saudável.”

Paulo riu-se. 

“Tudo bem, só te peço que o treines por umas duas semanas e depois podes sair. Mas já agora, queres ir para onde, para ver onde te encaixar?”

“Quero ir para casa.”

“Ok. Ficas a saber que, seja qual for a tua posição, mesmo que seja o teu antigo lugar, vais manter o vencimento e as regalias que tinhas ai. É uma espécie de agradecimento por teres passado pelo inferno.”

“Acredita que gosto de saber isso. E olha, não me importava com a minha antiga posição. Quero ter um bocado de tempo para a família.”

“Fazes bem. Vou falar com o tipo e aviso-te quando ele chega. Quando é que queres partir?”

Que tal de hoje a três semanas? Deve dar tempo para ele chegar e para eu lhe passar o trabalho, e tenho um compromisso aí a que não posso faltar nesse fim-de-semana.”

“Perfeito. Vemo-nos aqui então se segunda a três semanas.”

Desligaram a chamada e em seguida Alex ligou outro numero.

“Alô bonitão.” Respondeu a voz sensual do outro lado.

“Alô Paola. Tem planos para daqui a três semanas?”

“Sabes que ainda que tivesse, mudava-os.”

“Bem, não sejas tão rápida a responder antes de saberes onde te queria levar…”

“Seja onde for, levas-me sempre ao céu…”

Alex sorriu.

“Já te disseram que és uma provocadora?”

“Já se me constou. Mas então qual era o teu plano?”

“Seres a minha companhia no casamento da minha filha.”

Caiu um silêncio.

“Alex, não sei se é boa ideia…”

“Ouve. Eu vou sair daqui. Vou voltar para casa. Pensei muito no que tu disseste há uns tempos e acho que tenho de enfrentar esta situação de uma vez por todas. Quando partir de hoje a três semanas, já não volto.” Ele sentiu a ponta de tristeza do outro lado, mas continuou “Eu sei que aquilo que temos é casual. Era para ser, foi e é. Uma relação entre nós nunca esteve nas cartas e tu foste bem explicita em relação a isso na nossa primeira saída e sei que continuas a achar o mesmo. Mas, aparte isso tudo, és uma amiga especial, apoiaste-me ao longo de meses e agora voltamos a ver-nos se voltarmos a ver-nos. Queria que viesses comigo, que passasses o fim-de-semana lá, em jeito de despedida, e que partilhasses comigo a felicidade da minha filha, que também já te conhece.”

Paola ouviu-o emocionada.

“Alex, se fazes questão, eu vou. Sabes perfeitamente que a amizade entre nós vai ficar. Mas sim, é possível que não nos voltemos a ver. Mas será que a minha presença não vai causar problemas?”

“Já lá há problemas para resolver de embarda. Mais um, menos um…” disse ele com riso na voz. Ela riu também e disse finalmente:

“Claro que vou, Alex.”

E quando este telefonema chegou ao fim marcou outro numero em seguida.

“Patricia?”

“Sim pai.” Respondeu a voz animada do outro lado.

“Só para te dizer que vou.”

“Até que enfim. Estava difícil. Quando é que chegas?”

“Não te preocupes eu trato de mim. Eu apareço durante a manhã de domingo. Mas…”

“Mas…?”

“Levo companhia.” Um silêncio longo fez-se sentir “Há problema?”

“A Paola, certo?”

“Sim.”

Ouviu a filha a respirar fundo.

“Tudo bem, pai. Só quero que apareças. Quero ter-te aqui nem que seja só por um dia.”

Alex sorriu, omitindo que ia ficar.

Acabaram o telefonema e, estranhamente, sentiu um peso a querer levantar de cima de si.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Consequências (XXX de XLIII)



Alex passou os meses seguintes mergulhado no seu novo normal. A sua rotina dividida entre a casa onde morava e a sede da empresa, com algumas ocasionais escapadas de fim-de-semana ao Dubai.

Mas houve um dia em que recebeu um telefonema de Patrícia que lhe pareceu estranho. Atendeu assim que viu o nome dela aparecer no visor.

“Olá, filha.”

“Olá pai.”

“Está tudo bem?”

“Sim, está tudo. Olha estou a ligar-te para tentar combinar encontrarmo-nos. Precisava de falar contigo.”

“Acerca de…?”

“Temos de falar pessoalmente. Não é coisa que queira falar por telefone.”

“Mas é alguma coisa de grave?”

“Não, pai. Não é nada de grave, está descansado. Só que é algo que quero falar pessoalmente.”

Alex pensou um pouco.

“Então e quando é que te dava jeito?”

“Bem, em qualquer fim-de-semana que tenhas livre, ou assim…”

“E queres ir a algum sítio em especifico?”

“Não. Só quero mesmo falar contigo.”

Alex consultou a sua agenda.

“Este próximo fim-de-semana é impossível, mas no outro dá para ti?”

“Sim, dá.”

“OK, então vou tratar do avião…”

“Pai, vou levar uma pessoa comigo.”

“Uma pessoa…” pensou Alex intrigado.

“Tudo bem.” Acabou por responder “Podes trazer quem quiseres, com uma exceção.”

“Eu sei, pai. Não te preocupes. Não te faria isso.”

Falaram mais um pouco, a combinar pormenores, e acabaram a chamada, que deixou Alex extremamente intrigado. O que é que seria tão importante que tinha de ser falado em pessoa?

Uma semana e meia depois esperava a filha no Aeroporto. Esta, assim que o viu e como era costume correu para ele, abraçou-o e cobriu-o de beijos.

“Que saudades, pai.”

Alex apertou-a contra si. Também para ele as saudades eram demais.

“Pena que o teu irmão não veio…”

Patrícia soltou-se do abraço e disse ao pai:

“Fui eu que lhe pedi para não vir desta vez.”

Só então Alex reparou no rapaz que os observava de forma tímida a poucos metros, claramente não sabendo o que fazer. Foi Patrícia quem tomou a iniciativa, agarrando a mão do rapaz e arrastando-o para a frente de Alex.

“Pai, este é o Josué.”

O rapaz estendeu a mão, claramente intimidado por Alex, que lhe apertou a mão com vigor.

“Olá Josué.”

“É um prazer conhecê-lo, senhor. Tenho ouvido falar muito de si.”

Alex olhou para a filha com uma expressão interrogativa no rosto.

“Pai, o Josué é meu namorado.”

Isto mudava tudo. Alex encarou o jovem com um ar sério e sobrolho levantado, como que avaliando se este espécime estava à altura da tarefa que parecia estar a propor-se.

“Teu namorado? Há quanto tempo?”

“Não que tenhas muito a ver com isso, mas tínhamos começado a namorar há pouco quando tu partiste.”

“E só agora é que sei?”

“Pai, não é como se estivesses ali ao lado. Estás do outro lado do mundo.”

A estas palavras, Alex encolheu os ombros. Por mais que quisesse ser presente na vida dos filhos, não podia escapar à realidade dos factos. Não havia proximidade e isso fazia com que perdesse o fio à meada da vida dos que lhe importam.

Saíram do Aeroporto e foram para uma casa alugada pelo fim-de-semana. Quando chegaram, Patrícia ficou surpresa por ver Paola na cozinha a acabar o almoço para todos. Patrícia apresentou Josué a Paola e depois vieram para o terraço, onde o pai apreciava um aperitivo antes do almoço.

“Pai, o que é que se passa com a Paola?”

“Nada, filha. Ficamos amigos e de vez em quando, quando tenho uma folga, venho até aqui e passo uns dias com ela…”

“Amigos, hã?”

“Sim, amigos.” respondeu Alex com um sorriso sacana.

“Aposto que já coloriram bastante esta amizade.”

“Não sejas indiscreta, menina. Não te fica bem.” Respondeu Alex, o que fez a filha soltar uma rizada.

“Pelo menos já percebo porque é que estas assim.”

“Assim como?”

“Mais leve, como se te tivesse saído um peso dos ombros.”

Entretanto interromperam a conversa quando Paola os chamou para almoçar.

Comiam em relativo silêncio com Alex a observar Josué pelo canto do olho e este quase sem conseguir levantar os olhos do prato. Ele começava a perceber o que se passava, mas queria que a filha ou Josué dissessem alguma coisa de uma vez por todas.

“Patrícia, o que querias falar comigo afinal?”

“Caramba, que direto. Estás assim tão curioso?”

“Estou. Há uma semana e meia que ando a pensar o que poderá ser, por isso…”

Patrícia sorriu e depois deu uma cotovelada em Josué, que finalmente levantou os olhos do prato encarando a expressão séria, até austera, de Alex.

“Senhor Alex,” começou o jovem com a voz não muito segura “fui eu quem pediu à sua filha para falar consigo.”

Alex manteve-se calado e imóvel, o seu olhar sem vacilar. O rapaz estava cada vez mais nervoso e Alex, embora não o demonstrasse por fora, ria-se por dentro.

“Então… Não há altura como agora. Desembucha, rapaz.”

O jovem hesitou, mas olhou para o sorriso de Patrícia, que lhe pareceu dar alento e continuou:

“Sabe, eu…” O rapaz parecia à beira de um ataque de pânico.

“Tu o quê?” perguntou Alex, inclinando-se para a frente na cadeira de forma quase ameaçadora. O rapaz engoliu em seco e disse rapidamente:

“Queria pedir-lhe a mão da sua filha em casamento.”

Alex inclinou-se novamente para trás, com o mesmo ar sério. Depois olhou para a filha e perguntou:

“Ele não é sempre assim, pois não?”

“Não, pai. Mas ele está um bocadinho intimidado.”

Paola só observava tudo isto com um sorriso enquanto o jovem parecia querer encolher-se na cadeira e desaparecer.

“Intimidado? Com quê?”

“Ora, contigo… Não é por nada mas bem te podias mascarar de Wolverine e andar por aí em tronco nu. Acho que não ficavas a dever muito ao original. És um bocadinho intimidante.”

Alex encolheu os ombros e sorriu finalmente enquanto Paola se desmanchava a rir com a situação.

“Então mas vocês não falaram já disto? Não aceitaste já?” perguntou Alex a Patrícia.

“Sim, mas ele insistiu em falar contigo pessoalmente… e para te ser franca, concordo com ele.”

Alex esticou a mão a Josué, que lhe apertou a mão, e disse-lhe:

“Bem-vindo à família.”

Mais tarde, enquanto ambas as mulheres estavam na conversa a arrumar a cozinha e depois dos cafés, Alex arrastou Josué para o terraço, sentaram-se numa pequena mesa com digestivos na mão.

“Presumo que já conheças a tua futura sogra…”

“Sim, conheço, claro.”

“E sabes o que se passou?”

“A Patrícia contou-me tudo na altura. Ela passou bastante mal.”

“Ok, então à luz disto, fica ciente do que te vou dizer: se alguma vez tentares fazer alguma estupidez em relação à minha filha eu prego-te os tomates a uma tábua antes de te dar um tiro na cabeça.” O rapaz olhou para ele de olhos muito abertos “E não, não estou a brincar. Por outro lado, se ela fizer algo de mesmo muito estupido, antes de falares seja com quem for, falas comigo. Percebeste?”

O rapaz olhou para ele de uma forma assustada, mas anuiu.

“Ótimo.” Continuou Alex “Agora anda cá e dá-me um abraço.”

O rapaz respirou fundo, sorriu e abraçou o futuro sogro. Alex continuou:

“Estou a confiar-te aquilo que é mais precioso para mim. Eu sei que não percebes agora, eu não percebi quando estava na tua situação, mas um dia vais perceber.”

Falavam todos, mais à tardinha, quando Alex perguntou:

“Então e já planearam alguma coisa? Sítio, data?”

“Não, pai. O Josué queria pedir a tua permissão primeiro.”

“Bem, temos de pensar onde vai ser o casamento…”

“Pai, vai ser em casa, obviamente.”

Alex olhou para a filha.

“Não pode. Ou então não vou poder estar presente.”

“Porquê?”

“Porque assim que o avião pousar devem levar-me direto para uma esquadra e lá vem os advogados…”

“E porque é que achas que isso ia acontecer?”

“Por causa do divorcio…”

Patrícia olhou para o pai, abanou a cabeça, levantou-se e disse-lhe:

“Aguenta aí esse pensamento. Venho já.”

Quando voltou trazia umas folhas de papel cuidadosamente dobradas que entregou ao pai.

“Lê isto, por favor.”

Alex reconheceu a caligrafia espalhada pelas folhas e respondeu de imediato:

“É melhor não. Não estou interessado em mentiras ou justificações…”

Patrícia respirou.

“Pai, isto foi escrito para ti, mas nunca foi escrito com a intenção de leres. Encontrei estas folhas amachucadas no lixo no dia a seguir a saber que tinhas sido baleado e resolvi guardá-las. Por isso, lê.”

Alex olhou para Paola sem saber o que fazer. Nem sequer queria pegar nos papeis que a filha lhe estendia, mas o olhar calmo de Paola e a afirmação dela fizeram com que ele se decidisse e agarrasse os papeis.

Leu as palavras com calma e com uma expressão dolorosa, debaixo de um olhar preocupado de Paola que mantinha uma mão no seu braço, como que para o reconfortar e acalmar. Quando ele acabou de ler a sua expressão estava ilegível. 

“Ela nunca tratou do divorcio?”

“Não,” respondeu Patrícia “Nem vai tratar. Por isso não tens desculpa absolutamente nenhuma para não ir a casa para o meu casamento. E se não fores só por causa da mãe… Vais descobrir o que é uma filha furiosa, percebeste?”


sábado, 7 de dezembro de 2024

Consequencias (XXIX de XLIII)



Ele deixou-a entrar à frente no quarto enquanto ficava para trás, para fechar a porta. Ela entrou vendo o quarto apenas iluminado por umas luzes led de ambiente no tecto e pelas luzes que entravam pelas enormes janelas, dos edifícios na baia, seguido por um mar que se esbatia num horizonte longínquo com um “Uau!” e, quando ele ia a acender a luz ela parou-o:

“Não acendas. Já viste esta paisagem?”

Para ele a beleza da paisagem, por mais de cortar a respiração que fosse, era neste momento realçada pela visão da presença dela, de olhos fixos no mundo lá fora, uns metros à sua frente. Era um sentimento, um momento. Talvez por tudo o que tinha passado até aqui, sabia que este momento iria ficar com ele. Não a noite, mas este singelo momento pontilhado por luzes num sitio que lhe era estranho, e ao qual a única ligação que teria era este momento.

Ela virou-se, reparou no olhar dele, sério e profundo. Sorriu-lhe. Sentia a hesitação dele. Percorreu os poucos metros que os separavam, prendeu-o no seu olhar. Ele olhava para aqueles olhos claros e límpidos que pareciam reflectir as luzes do mundo lá fora e pareciam faiscar completamente hipnotizado e ao mesmo tempo receoso, como se quisesse soltar-se daquele encantamento. Mas ela não o deixou e aproximou-se e colocando os braços à volta do seu pescoço colou os lábios aos dele com uma suavidade que o surpreendeu. Ela sentiu-o a ficar tenso nos seus braços. Quebrou o beijo, chegou ao seu ouvido e disse:

“Não há expectativas, não há ilusões, nem sequer há amanhã. Há esta noite e tu apeteces-me desde que ti vi pela primeira vez. Não há passado, não há futuro. Há agora.”

E dito isto voltou a colar os seus lábios aos dele, forçando a sua língua, envolvendo-o, devorando-o e dando-lhe um gosto do seu desejo que ele finalmente começou a corresponder.

Ela afastou-se dele, puxou-o para o sofá, onde o fez sentar, deu uns passos para trás, desapertou o vestido e este fluiu como agua até se depositar aos seus pés, revelando o seu corpo gloriosamente nu. Caminhou para ele, ajoelhando-se à sua frente e deslizou pelo seu corpo acima, procurando um outro beijo, mais calmo, menos voraz, enquanto ia-lhe desapertando os botões da camisa e acariciando o seu peito e tronco enquanto o fazia e quando acabou deslizou a mão pela sua erecção, por cima das calças e soltou uma risada.

“Esta já vem mais a propósito…” disse com uma gargalhada, fazendo-o rir também. Despertou-lhe cinto e tirou-lhe as calças e depois os boxers, revelando-o, agarrou-o, sentiu-o massajou-o.

“Vai devagar.” pediu ele meio embarassado “Já faz uns dias…”

“Não te preocupes…” disse ela com um ar malandro “ Se disparares antes do tempo eu sei maneiras de… recarregar…”

E com isto ela envolveu-lhe a glande com a língua, tomando-lhe um primeiro gosto e surpreendendo-o, descendo com a língua devagar ao longo do seu sexo e subindo novamente, agarrou-o com os seus lábios e sorveu-o devagar.

Continuou a beijá-lo, chupá-lo, massajá-lo, sempre com os olhos nos dele e com uma expressão de satisfação que parecia aumentar ainda mais as sensações de prazer que preenchiam os sentidos dele e que aumentavam de intensidade a cada momento. As sensações tornaram-se incontroláveis e ele acaba por se ver repentinamente apanhado por um orgasmo que abana todo o seu ser enquanto se sente sugado por aquela boca que não lhe dá descanso.

Ele finalmente quase colapsa e ela vem beijar-lhe a boca ainda plena do seu sabor, que partilham os dois plenamente, num beijo apaixonadamente voraz.

“Agora que já resolvemos o problema das explosões mais imediatas…” disse ela, com um fogo liquido no olhar “…que tal tratarmos das mais prolongadas?”

Ele levantou-se, pegou nela ao colo e levou-a para a enorme cama onde a deitou com suavidade. Livrou-se finalmente da camisa e ajoelhou-se no chão, no meio das pernas dela, cobrindo de pequenos beijos o interior das suas coxas, até finalmente sentir o adocicado sabor dela, provocando-lhe um arrepio e fazendo-a soltar um gemido. Ele continuou a lambê-la, a chupá-la, ora provocando-a suavemente ora lambendo ou chupando com intensidade. A respiração dela aprofundava-se e ele tentava segui-la instintivamente variando a intensidade ora para a provocar, ora para lhe dar precisamente o que ela queria.

Ela, que já tinha tido alguns bons amantes, sente-se a derreter na boca deste homem uma e outra vez, sem que ele lhe dê descanso. Cada vez que se sente a descer à terra uma nova onda toma conta do seu corpo e dos seus sentidos, leva-a a um novo pico, perde noção do tempo e até de si, deixando-se envolver pelas ondas de prazer que a fustigam.

Finamente, absolutamente rendida, olha-o nos olhos com ferocidade puxa-lhe a cabeça e diz de forma quase gutural “Quero-te” e ele obedece ao chamado dela, segue-a, colando a boca à dela, cheio do sabor do seu prazer, e começa a invadi-la lentamente sentindo a impaciência dela debaixo de si enquanto as ancas se empurram de encontro a ele, tentando ter mais dele, e ele entra finalmente por inteiro nela, de uma única vez, fazendo-a soltar um grito dos pulmões enquanto crava as unhas nas costas dele e o olha nos olhos e suplica “fode-me” a que ele acede com gosto, tomando conta dela, acompanhando-a, perdendo-se ela, rendendo-se por inteiro.

A noite prolongou-se até o sol começar a lançar a sua luz no horizonte, e só então se renderam, exaustos, satisfeitos.

Paola foi acordada suavemente.

“Tenho de ir. Tenho avião marcado daqui a pouco” disse-lhe Alex com um sorriso que mascarava a pena que tinha de a deixar agora. 

Ela ergueu-se, deu-lhe um beijo apaixonado e disse-lhe com um sorriso que não deixava dúvidas: 

“Sempre que estiveres por perto, tens o meu número.”

Ele olhou para ela com um sorriso malandro e respondeu:

“Isso é um bom incentivo para ir aparecendo…”

Ela piscou-lhe o olho.

Ele deu-lhe mais um beijo, pegou nas malas e saiu.

Horas depois estava de volta à sede do seu trabalho. A primeira coisa que fez, assim que chegou acompanhado por Miguel foi falar com o pessoal da segurança. Fez questão de agradecer pessoalmente a todos eles. Só depois voltou ao que era agora a sua casa, sendo efusivamente saudado pelas suas duas empregadas. 

Nessa noite recebeu um telefonema do seu colega Paulo.

“Viva, Paulo, tudo bem.”

“Tudo bem. Já estas de volta. Por esta altura já deves estar com saudades dos quartos do Dubai, não?”

“Não, está tudo bem. Conta coisas.”

“Olha, só para te dizer que temos um substituto para ti.”

“Um substituto?”

“Sim. Um gajo ambicioso e com sangue na guelra. E a quem também interessa o dinheiro, claro.”

“Mas querem substituir-me?”

“Não. Mas quero dizer-te que quando quiseres sair desse buraco não vai haver impedimentos. Basta dizeres. Mas enquanto ai quiseres estar, o lugar é teu. Todos vemos o trabalho que tens feito, mesmo quando estavas numa cama do hospital. Ninguém vai fazer nada nas tuas costas. Mas quando quiseres…”

Alex sorriu.

“Obrigado Paulo, fica anotado.”

Continuaram a falar de outros tópicos até ao fim da chamada e o assunto caiu ali.

A vida voltou a cair numa relativa rotina, se bem que ele agora estava muito mais alerta para o que o rodeava. 

E agora, de vez em quando, fazia uma viagem de fim-de-semana ao Dubai.