segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Chuva - XXX

 

Estava perdido nestas conjecturas quando o Fernandes apareceu. Entrou, sentou-se ao volante e, visivelmente cansado, encostou-se para trás e fechou os olhos sem dizer uma palavra.

Deixei-me ficar em silêncio, não o queria incomodar, percebes?

Ao fim de um bocado ele abriu os olhos e voltou-se para mim.

“Que dia do caraças, pá.”

“Acredito.”

“Tu não fazes ideia do que se passa ali… Mas enfim… E tu? Estás bem?”

“Estou, não aconteceu nada de especial.”

“Pá, estou com uma fome…”

“Tenho aqui sandes, se quiseres.”

“Quero pois.”

Dei-lhe uma sandes de atum que ele comeu deliciado e de forma quase sôfrega. No meio das largas dentadas que dava lá arranjou espaço para me perguntar “olha lá, e a tua casa?”.

“Aparentemente não sofreu grandes estragos, mas o prédio que está ao lado está em risco de derrocada e eles fecharam a zona. Não creio que lá consiga entrar.”

“Mas estão lá as tuas coisas todas, não estão?”

“Pois…”

“Pá, temos de ver isso assim que abrirem estradas para a margem sul. Dizem que a ponte não foi muito afectada, embora precise de alguns trabalhos por causa do comboio, mas que o trânsito vai ser reaberto, embora condicionado, em breve.”

“Sim. Mas até lá tenho tudo dentro de casa. Só tenho a mochila com as sandes e a roupa que tenho no corpo.”

“Pois… Bem, vamos até minha casa, ver se ficou inteira. Preciso de descansar um bocado.”

“E se não ficou?”

“Olha, se não ficou, logo se vê. Alguma coisa se há-de arranjar. E olha lá, voltaste a pensar na história da entrevista?”

“Não. Mas agora que falas nisso, se calhar não é uma má ideia. Acho que tens razão.”

“Falamos com o Rafa depois. Hoje tenho mesmo de descansar.”

“Sim. Amanhã também é dia.”

A casa dele era uma vivenda em Sassoeiros. Quando chegamos parecia estar tudo relativamente bem. Foi quando entramos que percebemos que lá dentro nem por isso. Havia vidros partidos por todo o lado, estantes que tinham cedido despejando o seu conteúdo no chão e, praticamente tudo o que se podia partir com o impacto estava partido.

Sabes qual foi o comentário dele a isto tudo? “Quando a mulher das limpezas vir isto vai-se passar…”

Mas pelo menos tínhamos um teto acima das nossas cabeças. Havia electricidade e a arca congeladora tinha-se aguentado. Conseguimos comer uma magnifica refeição de micro-ondas que nos deixou mais reconfortados do que as sandes com que tínhamos enganado o estômago. Não havia era água, mas havia cerveja. Detesto cerveja. Aliás, detesto tudo o que tenha álcool. Não gosto dos efeitos. Parece que me faz perder o controle. Mas hoje não havia grandes opções. Era isto ou ficar com sede.

Ele lá se foi deitar. Eu encostei-me em cima da cama do quarto de hóspedes e fiquei a desenhar o meu novo personagem a noite toda.

Já de manhã levantei-me e deambulei um bocado pela casa. No escritório dei com um computador. Liguei-o. Tinha internet. Tentei ligar-me ao computador de minha casa. Consegui. Ele estava ligado. Isso queria dizer que havia electricidade no meu prédio. Comecei a descarregar tudo o que era importante para este, não fosse o diabo tecê-las…

Já passava do meio da manhã quando o Fernandes apareceu com um copo de leite na mão.

“Bom dia. Dormiste bem?”

“Sim, menos do que tu, mas sim.”

“Ainda bem.”

“Moras aqui sozinho?”

Ele respirou fundo, o que indiciou que esta conversa não era muito bem-vinda. Mas eu precisava que ele pensasse que me importo.

“Moro.”

“Então porquê uma casa deste tamanho?”

A vivenda tinha dois andares mais um sótão amplo e mais um pequeno terreno à volta onde estava uma garagem para dois carros.

“Porque quando a comprei não morava.”

“E o que é que aconteceu?”

“O costume. Um gajo mais bonito, mais jovem, mais presente e com mais papel.”

Apesar da maneira casual como ele dizia as coisas percebia que havia sido algo complicado para ele. O falar daquela maneira era só uma maneira de se defender de algo que o magoou. Sabes, acho que o Fernandes era um bom tipo. Um bocado duro no trato, mas bom tipo.

“Bom, mas temos coisas mais urgentes em que pensar. Sempre queres que eu fale com o Rafa?”

“Sim. Eu dou-lhe a entrevista.”

Ele puxou do telefone, falou com o Rafael, combinou horas e quase em seguida saímos de Sassoeiros em direcção a Lisboa.

“Vamos passar pelo hospital onde trabalho. Lá deve haver água e pelo menos, enquanto eu vejo como estão as coisas, podes tomar um duche. Temos que te arranjar umas roupas também. Afinal, vais aparecer na televisão…”

Chuva - XXIX

 

Acordei.

Tinha fome. Era quase de noite e não tinha comido nada o dia todo. Tirei uma sandes e uma garrafa de água da minha mochila e fui comendo.

Depois de comer fiquei ali sozinho dentro do carro. Se por um lado me apetecia ir ver do Fernandes, por outro isso implicava entrar novamente naquela sala e enfrentar um monte de gente e isso não queria fazer.

Comecei a pensar na situação e quanto mais pensava mais me apercebia que não estava minimamente preparado para lidar com ela. A minha mascara tinha-me servido bem enquanto eu era invisível, mas agora mostrava-se ineficaz. Tinha de criar algo de novo. Não podia apenas tentar adaptar-me.

Situações como a de há umas horas atrás, ou como a minha conversa com o Rafael, tinham-me demonstrado que o meu verdadeiro eu tinha tendências para aflorar quando havia situações com as quais eu não contava ter de lidar.

Mas também sabia que não o conseguiria fazer de um dia para o outro, precisava de algum tempo e de algum espaço. Tinha de ver com clareza o que me esperava para saber como agir quando lá chegasse.

Foi este o momento em que a mascara que usei durante tanto tempo começou a ser descartada. Já não havia utilidade para ela, e se eu me queria preservar havia que ser algo diferente. Tinha de ser alguém capaz de lidar com as pessoas, porque as pessoas viriam ter comigo, quer eu quisesse, quer não.

Aliás, o mundo ia querer saber de mim. Hoje em dia havia muito poucos fenómenos locais e algo desta dimensão era transmitido em directo para o mundo inteiro. Mas quem é que eu seria?

Comecei a construir meticulosamente tudo o que vieste a conhecer depois. Cada pormenor. Cada situação e reacção à mesma. Como se me estivesse a programar a mim próprio. Mas para ser sincero, aquilo que mais me custava era ter a noção de que as pessoas quereriam tocar-me. Isto fazia-me tremer. Enojava-me.

Mas este meu reflexo tinha de ser contido, percebes? Se eu não o fizesse o meu gesto seria sempre interpretado de alguma maneira, certa ou errada. Ainda assim, antes o fosse da maneira errada, como a leitura que o Rafael tinha feito. Creio que se ele tivesse a mínima suspeita do porquê de eu não lhe ter estendido a mão, as consequências seriam muito más.

Foi ali, no parque de estacionamento do Hospital, sentado num carro, que o novo Gabriel nasceu. Ainda demoraria algum tempo a saber tudo acerca de si próprio e tinha de ter cuidado com as falhas, mas nasceu e começou a existir.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Chuva - XXVIII

  

Aquilo que não te consigo mesmo descrever é a cara do Fernandes quando entrou na sala, uns cinco minutos depois, e deu com aquilo. Nem precisou de me procurar, bastou olhar para onde todos os outros estavam a olhar.

A sala estava ainda mais cheia. À medida que as pessoas iam entrando, e assim que sabiam o que se passava, juntavam-se aos outros. O silêncio respeitoso só era interrompido quando alguém era chamado no altifalante ou se alguém passava de repente. De resto, mais parecia a atitude que as pessoas têm dentro de uma igreja. Mesmo que não sejam crentes, parece que quando se entra há imediatamente uma tendência para baixar o tom de voz. Naquele momento aquela sala do hospital parecia uma igreja em que eu era, estupidamente, o objecto de adoração.

Também não te consigo descrever o alívio que senti ao ver o Fernandes aparecer. O meu pretexto. Levantei-me de imediato e fui ter com ele. Assim que cheguei ao pé dele abracei-o, para poder chegar com a minha boca perto do ouvido dele e sussurrei “Tira-me daqui”. A minha repulsa pelo contacto foi menor do que o pavor que estava a sentir de ter toda aquela gente em plena contemplação.

“Anda mais eu.” Disse ele, e arrancou de volta para dentro dos corredores. Segui-o.

Quando já estávamos sozinhos ele disparou “Que raio se estava a passar ali atrás, pá?”

“Reconheceram-me.”

“E ficaram assim?”

“Foi…”

“Bem, pensando bem até nem é tão descabido como isso…”

“Mas é muito, mas mesmo muito desagradável para mim.”

“Pelo que estou a ver, acho que vais ter que te habituar…”

Nem respondi. Mas sim, ele tinha razão. Pelo menos durante algum tempo, teria que me habituar. O que me reconfortou é que a memória das pessoas costuma ser curta.

“Mas olha lá, como é que aqui chegaste? Já há transportes para Lisboa?

“Não. Apanhei boleia num helicóptero de reportagem.”

“O Rafa falou contigo, então…”

“Sim.”

“O que é que ele queria?”

“Que eu lhe desse uma entrevista.”

“E tu?”

“Disse-lhe que não.”

Havias de ver a gargalhada que ele deu.

“Se eu bem o conheço deve ter ficado fulo…”

“Para te ser franco não sei. Disse-lhe que não porque não tenho mesmo nada para dizer…”

“Pois… Mas não sei se não fizeste mal. Sabes, vais ser chateado por meio mundo, e, pelo menos, este gajo é sério em relação ao que faz. Se calhar mais valia falares com ele e dares a entrevista do que seres chateado durante não sei quanto tempo por uma data de gente. Mas isso vês depois. Dormiste alguma coisa?”

“Não.” Claro que não lhe disse que raramente dormia.

“Toma.” Disse ele enquanto me passava as chaves do carro para a mão. “Saindo pela porta por onde entraste viras à tua esquerda, sobes a escada e o carro está mesmo ai por cima. Descansa lá um bocado que eu vou lá ter contigo depois, quando isto estiver mais aliviado. Nessa altura falamos melhor.”

“Está bem. Fico lá à tua espera.”

Agarrei nas chaves e voltei à sala que tinha de novo mergulhado na confusão. Ainda assim, conforme passei quase toda a gente me seguiu com o olhar. Seguia as indicações e não foi difícil dar com o carro.

Só depois de me sentar me apercebi de o quanto estava cansado. Adormeci.

Chuva - XXVII

Sai do helicóptero e dirigi-me ao Rafael que me esperava um pouco afastado. Assim que me afastei o helicóptero levantou de novo e seguiu viagem.

O Rafael fez um sorriso aberto e esticou a mão para me cumprimentar quando cheguei ao pé dele. Eu não retribui o gesto, o que creio de o deve ter deixado um bocado sem saber como lidar comigo. Tenho a certeza que ele pensou que o meu gesto se devia à posição que ele tinha tido na conversa do restaurante, mas não. Tolerar o toque do Fernandes já era o que era…

Talvez devido a este meu gesto, assim que o helicóptero se afastou ele voltou-se para mim e disparou “Gabriel, pá, vou direito ao assunto. Quero entrevistá-lo.”

“Isso está completamente fora de questão.”

“Fora de questão? Mas fui buscá-lo, e tudo…”

“Sim, mas disse-me que queria falar comigo. Estou aqui e estamos a falar. Uma entrevista está fora de questão.”

“Gabriel, neste momento toda a gente quer saber quem você é, depois do que se passou. Acho que deve isso às pessoas.”

“Devo? Como é que devo alguma coisa a alguém? Que raio de lógica é essa? Então eu chego e digo o que vai acontecer, podiam ter-se salvo vidas, que não o foram porque os próprios serviços noticiosos encararam a noticia como se fosse uma partida de primeiro de Abril, e ainda assim eu estou em divida? Eu não devo nada a ninguém.”

“Se calhar não escolhi as palavras certas. Compreendo como se deve estar a sentir…”

Claro que não compreendia. Como é que podia compreender? Em nada do que lhe disse havia amargura ou ressentimento. Somente uma constatação de factos. Estava completamente indiferente ao que tinha acontecido. De um certo ponto de vista acho até que fui um espectador privilegiado do que aconteceu. Não é todos os dias que se assiste num camarote à destruição de uma cidade, e tinha sido algo magnifico de ver.

As vidas que se perderam?

Que se lixem. Há gente a mais no mundo, assim como assim. Se calhar isto é só uma maneira do planeta se tentar reequilibrar.

Ele continuou.

“Mas não acha que se deve dizer algo às pessoas?”

“Eu disse e ninguém ouviu.”

“Mas as pessoas agora vão ouvir.

“É provável. Eu é que não tenho mais nada para dizer.”

“Como assim?”

“Eu limito-me a ser um mensageiro. Passo as mensagens que me chegam. Não sou um iluminado, não tenho revelações a fazer. Disse o que tinha de dizer, quando tinha de o fazer. Agora não tenho mais nada. Não há profecias nem revelações.”

“Mas as pessoas vão querer saber quem você é…”

“Sim, mas isso é com elas, não comigo. Eu não tenho o mínimo interesse nisso.”

“Pá, caramba. Toda a gente gosta de reconhecimento.”

“Eu não sou toda a gente. Era isto que queria falar comigo?”

“Era…”

“Então estamos conversados.”

Virei-lhe as costas e arranquei. Acho que o deixei parado, especado a olhar para mim.

Resolvi ir ter com o Fernandes. Afinal já estava aqui e não era assim tão longe. Passei ao lado do estádio de Alvalade que não me pareceu muito afectado, excepto pelo facto de que muitos dos azulejos com que estava decorado se terem descolado e caído, deixando o edifício mais nu. Curiosamente estava bem melhor assim do que antes.

Atravessei a Cidade Universitária em direcção ao Hospital. No gigantesco relvado em frente às faculdades o exército começava a montar tendas de campanha.

A situação no Hospital era verdadeiramente caótica. Carros e ambulâncias chegavam e partiam, atrapalhavam-se uns aos outros. As pessoas insultavam-se e passei mesmo por uma situação em que os insultos verbais deram lugar à agressão física. Nada como uma catástrofe para revelar o que temos em nós de melhor, não é?

Todos têm prioridade. Todos querem ser o primeiro. Todos tem a certeza que o seu problema é muito mais grave que o do parceiro do lado.

Sabes, no fundo acho que ninguém é assim tão diferente de mim. A única coisa que me distingue das outras pessoas é que elas próprias se acham diferentes de mim. Mas eu sou um espelho daquilo que elas são, e sei que não conseguiriam olhar para mim porque quando o fizessem iriam rever-se e não iam gostar do que veriam. É tão mais fácil olhar para o lado do que encarar a realidade e fazer um esforço de mudança…

…não achas?

Entrei pelas urgências. A sala estava completamente apinhada de gente por todo o lado. Não era possível distinguir algum tipo de ordem ali. Além das cadeiras estarem todas ocupadas, havia gente de pé por todo o lado, todos falavam ao mesmo tempo, bem alto. Estava uma montanha de gente encostada ao balcão de atendimento, havia gritos, insultos. O barulho era ensurdecedor. Vi que seria quase impossível aproximar-me do balcão. Sai da sala e tentei ligar para o Fernandes para o avisar que estava ali. Não consegui. O telemóvel limitava-se a dizer “rede ocupada”.

Abordei uma moça que passava com a farda do hospital. “Desculpe, eu queria…”

“O Senhor vai ter que tirar uma senha e esperar para ser atendido.” Interrompeu ela.

“Eu não quero ser atendido, só queria…”

“Tire a senha.” E voltou-me as costas.

Encolhi os ombros. Também, ao fim ao cabo não tinha mais nada que fazer…

Voltei a entrar na sala, tirei a senha e resolvi ir tentando ligar. Encostei-me num canto a uma parede e deixei-me ficar quieto.

Ao fim de uma hora, ou coisa assim, lá vagou uma cadeira e sentei-me. A televisão estava ligada e as pessoas iam assistindo às reportagens sucessivas que se limitavam a repetir as mesmas informações de dez em dez minutos. Era o espectáculo da informação.

Foi então que uma miúda que estava sentada ao colo da mãe ao meu lado se virou para ela e disse, apontando para mim “Mãe, é o senhor…”

“Está quieta, filha.”

“Mas mãe, é o senhor que está na televisão…”

A mulher virou-se para mim. “O senhor desculpe…”

Eu nem respondi.

“Mãe, …” insistiu a miúda “…mas não vês que é ele?”

A mãe olhou para a televisão. Ninguém conseguia ouvir o que era dito lá, por causa do barulho, mas lá estava a minha foto, uma imagem parada do pouco que filmaram de mim na Lousã, com a legenda “o homem que previu o terramoto”.

A mulher olhou bem para mim. Ao mesmo tempo as pessoas que estavam à volta começaram a prestar atenção e a segredar umas às outras.

De repente fez-se um silêncio estranho na sala e eu senti o mundo encolher à medida que todos os olhos eram postos em mim. O que vi nos olhos das pessoas foi estranho. Como uma espécie de adoração. Acho que toda a gente ficou à espera que eu dissesse algo elevado, algo que as reconfortasse.

Não podia ficar ali, de maneira nenhuma. Não podia encarar aquelas pessoas desta maneira. Não estava preparado para lidar com algo assim.

Levantei-me e atravessei a sala. Todos os olhos me seguiram. As pessoas afastavam-se para me dar passagem. Encostei-me ao balcão de atendimento. O olhar da empregada não era diferente do das restantes pessoas.

“Posso pedir-lhe uma coisa?”

Ela acenou afirmativamente com a cabeça.

“Está cá um médico a ajudar, mas nem sei bem onde está. Não faz parte do corpo clínico do hospital, mas estava nas imediações e veio para cá dar uma ajuda. Chama-se Álvaro Fernandes. Gostava que se fosse possível lhe dissesse que eu aqui estou. O meu nome é Gabriel Guerra.”

“Com certeza, senhor Gabriel.” Respondeu ela de uma forma…

…subserviente. Sim, acho que é a palavra que melhor define a atitude dela.

“Muito obrigado.” Disse eu com uma cortesia forçada.

Depois afastei-me do balcão e voltei para o lugar de onde tinha saído enquanto a funcionária agarrava no telefone e ia procurando o Fernandes pelos serviços. Sentei-me e o clima na sala continuou o mesmo, ocasionalmente interrompido por alguém que a atravessava com pressa e nem se dava conta do que se passava, ou por outra, até dava, mas não percebia. Só o meu desconforto aumentava.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Chuva - XXVI

  

Tinha acabado de chegar quando um helicóptero de uma estação de televisão sobrevoou a baixa altitude, aterrando a escassas dezenas de metros de mim mas longe da multidão que entretanto se juntara perto da falésia.

Ao verem o helicóptero as pessoas precipitaram-se para ele. Estando eu mais perto cheguei primeiro e dirigi-me ao homem que de lá saiu. Tive de gritar por causa do barulho do motor.

“O meu nome é Gabriel Guerra e creio que foram enviados pelo Sr. Rafael Martins para me vir buscar…”

“Sim, sim. Entre e depressa. Temos de levantar antes que aquela gente toda cá chegue.”

Entrei e o helicóptero levantou de imediato, não me dando sequer tempo para pôr o cinto de segurança. As pessoas viram o helicóptero levantar e pareceram entrar em histeria completa.

Não fazia grande sentido tentar falar com o homem. O barulho era quase ensurdecedor. Por isso fiquei calado. Foi ele quem falou comigo.

“Não vamos já para Lisboa. Estamos a sobrevoar as zonas afectadas e a filmar para fazer uma reportagem. Espero que não se importe de nos acompanhar…”

“Não, não me importo. Tudo bem.”

Fez-me o sinal de OK com o polegar e dedicou-se novamente à sua tarefa.

Do ar conseguia aperceber-me da extensão da catástrofe.

“O que é que foi afectado?” perguntei.

O homem fez uma cara séria. “Aqui, na margem sul foi varrida toda a zona costeira até perto de Sines. A costa da Caparica ainda está debaixo de água. A baixa de Sesimbra e de Setúbal estão destruídas. Na margem norte não foi muito diferente. A onda varreu tudo até perto da Nazaré. Entrou pelos estuários do Tejo e do Sado. Inundou boa parte do Ribatejo e partes do Alentejo também. Inundou o vale de Santarém. O Seixal, a Amora, o Barreiro, a Moita, o Montijo, Sacavém, Póvoa de Santa Iria, Alverca e Vila Franca de Xira foram os que sofreram mais.”

O helicóptero seguiu até Setúbal e fui vendo a devastação. Depois voltou a Almada e subiu pela margem sul até ao vale de Santarém, descendo depois pela margem norte.

Apesar do que tinha visto até então, só me comecei a aperceber seriamente do que tinha acontecido a Lisboa quando passamos Sacavém. A zona do parque das nações estava uma desgraça. Quase todos os edifícios tinham danos consideráveis. Os edifícios de escritórios tinham perdido as suas fachadas de vidro, os bares desfeitos. Em muitos sítios apenas restavam estruturas dos edifícios, como por exemplo na gare de Santa Apolónia. Apesar da baixa pombalina ter conseguido resistir quase por inteiro, eram óbvios os estragos provocados pelas águas que tinham subido até acima do Rossio.

As águas tinham forçado a passagem pelo leito dos rios que passam por baixo da cidade desfazendo quase por completo o Martim Moniz, e fazendo levantar ruas e ruir edifícios na parte velha da cidade.

Mas uma das imagens mais impressionantes era, sem dúvida, o enorme paquete que tinha sido arremessado contra os edifícios perto da Rocha Conde de Óbidos.

Mas, apesar das zonas ribeirinhas terem as marcas dos estragos feitos pelas águas, nenhuma parte da cidade tinha sido poupada, sobretudo a zona de Chelas e dos Olivais onde muitos dos prédios se encontravam em ruínas.

Depois de dar uma volta por cima de Lisboa e pelos arredores, o helicóptero acabou por se dirigir para a parte alta da cidade onde aterrou.

À minha espera estava já o Rafael.

Chuva - XXV

 

A claridade da alvorada começou a deixar antever a extensão da destruição. Os primeiros raios de sol fizeram refulgir em tons de laranja o que sobrava das torres das Amoreiras e revelaram uma cidade devastada.

Junto a mim juntara-se uma pequena multidão que se limitava a olhar em silêncio, de uma forma apática, o que tinha à sua frente.

Toda a zona marginal da cidade estava destruída. Mesmo os edifícios que tinham resistido estavam severamente danificados. Havia colunas de fumo por todo o lado. A ponte estava encerrada e havia reboques a tentar tirar os carros sinistrados de cima do tabuleiro, o que era feito com extremo cuidado. Ninguém sabia ainda a extensão dos danos.

Chegavam e partiam ambulâncias do hospital de Almada a um ritmo completamente frenético.

Não havia electricidade. As redes de telemóveis não funcionavam. As rádios estavam mudas, e só se apanhava ruído de estática.

A cidade jazia semi-dormente, ferida com gravidade. Ia demorar bastante tempo a recuperar. Mas recuperaria, como já o tinha feito no passado.

Levantei-me e resolvi ir ver como estava a minha casa.

O caminho foi feito por ruas mergulhadas num caos absoluto, pejadas de destroços e vidros partidos. As lojas começavam a ser pilhadas e não se via autoridade em lado nenhum. Alguns prédios estavam em ruínas, tendo desmoronado por completo. As equipas de socorro tentavam fazer alguma coisa, mas ninguém estava preparado para algo desta dimensão. Aqui e ali via-se corpos de feridos e mortos nos escombros. A maioria das pessoas estava em estado de choque.

O meu prédio parecia ter sobrevivido relativamente incólume, à excepção dos vidros partidos nas janelas. Já o prédio do lado parecia bastante mais danificado, pelo que vi que não seria seguro ficar ali.

A meio da manhã a electricidade começou a voltar a alguns sectores da cidade. Pouco depois o telemóvel começou a acusar rede e tentei ligar para o Fernandes.

“Estou, Gabriel, estás bem?” perguntou ele com uma voz preocupada.

“Estou bem, não te preocupes. Queria era saber como é que tu estás.”

“Mergulhado no caos. Tu não fazes ideia. Logo a seguir ao terramoto entrei pelas urgências do hospital de Santa Maria adentro e tenho estado aqui a colaborar.”

“Onde é que estavas?”

“Pensei no que me disseste e resolvi vir para o relvado da cidade universitária. Completamente descampado, alto…”

“Fizeste bem. Então estavas mesmo ai ao lado do hospital…”

“Sim. Calculei que toda a ajuda fosse pouca. Olha, dá-me um minuto que já te ligo, está a entrar outra chamada.”

“OK. Até já.”

Continuei a caminhar pelas ruas, sem destino nenhum. Mas uma coisa sabia, queria afastar-me um pouco do caos, por isso resolvi voltar para onde estava antes, para perto da estátua. Pelo menos tinha comigo comida e agua que dariam para dois ou três dias, pelo que nem estaria mal de todo.

Ao fim de uns minutos o telemóvel tocou.

“Gabriel, era o Rafael a ligar para mim. Queria saber se eu tinha notícias de ti e quer mesmo muito falar contigo.”

“Era de esperar. Mas acho que vai ser um encontro adiado. Não creio que tenha maneira de entrar em Lisboa, ou ele de sair.”

“Mas estás onde, tu?”

“Olha, vim do Cristo Rei para ver como estava a minha casa, mas estou a voltar para lá outra vez. Almada está um caos, e pelo menos lá sempre estou mais em paz.”

“Isso quer dizer que vais estar por lá?”

“Sim. Daqui a uns vinte minutos devo lá estar.”

“Posso dar o teu número de telefone ao Rafa?”

“Sim, podes.”

“Ok. Então vou fazer isso mesmo. Depois quando sair daqui ligo-te, mas não creio que seja tão cedo. O mundo virou do avesso…”

“O mundo não. Só este pedacinho.”

“Tenho de ir, pá. Até logo.”

“Até logo.”

Não demorou dois minutos até que o telemóvel tocou novamente.

“Gabriel?”

“Sim.”

“Rafael Martins.”

“Já calculava que fosse.”

“Gabriel, temos de falar.”

“É curiosa essa urgência agora. Anteontem não me perecia que falar comigo estivesse no topo das prioridades de alguém…”

“Gabriel, você tem razão, e isso é a única coisa que para já lhe consigo dizer. Quer mais o quê? Um pedido de desculpas pela minha incredulidade?”

“Não. No seu lugar teria agido da mesma maneira, portanto, não há sequer desculpas a serem pedidas.”

“Mas é possível falarmos? Pessoalmente?”

“Não sei. Estou na margem sul e não creio que neste momento seja possível entrar ou sair de Lisboa, por isso…”

“Mas está onde, concretamente?”

“Estou a caminho do Cristo Rei. Devo lá estar dentro de uns dez minutos…”

“E se eu mandar lá um transporte para o ir buscar?”

“Que tipo de transporte?”

“Já andou de helicóptero?”

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Chuva - XXIV

Quatro horas, dois minutos e vinte e três segundos da manhã.

Uma súbita vertigem, um zunido grave e de repente o chão começou a tremer violentamente. Estava sentado no chão mas creio que se estivesse de pé teria caído.

A ponte oscilou perigosamente. Em poucos segundos a cidade de Lisboa foi-se apagando, como que por sectores, até ficar apenas iluminada pela lua. Aqui e ali surgia a luz de uma explosão quando uma conduta de gás rebentava.

Quatro horas, três minutos e quarenta e quatro segundos.

Após um minuto e vinte e um segundos a terra sossegou. Fiquei parado. Fiquei à espera. Sabia do perigo de uma réplica. Mas ao fim de uns minutos resolvi levantar-me e aproximar-me o suficiente da beira da falésia para poder olhar para a cidade.

A estátua do Cristo Rei estava intacta. A ponte também. No tabuleiro quem podia começava a sair dos carros e corria para a saída mais próxima. Alguns dos carros no tabuleiro aceleravam para a saída. Tenho a certeza que houve pessoas atropeladas no pânico.

Via toda a cidade iluminada por pequenos focos de incêndio. Não havia luz eléctrica ao longo de toda a costa, quer na margem norte, quer na margem sul. Rio estava com uma ondulação picada que galgava as margens.

O hospital de Almada, à minha esquerda, continuava iluminado, sem dúvida graças a geradores de emergência. Comecei a ouvir sirenes na distância, talvez de veículos de emergência que eram despachados.

Quatro horas, vinte e um minutos e nove segundos.

Nova vertigem, novo zunido e a terra treme novamente, com menos intensidade e durante menos tempo. Arrependi-me de vir para perto da falésia e olho para a estátua. Vejo claramente alguns edifícios a ruir em Lisboa. O rio sobe as margens e invade a zona marginal.

Apesar da destruição não deixo de me maravilhar com a força que a natureza tem, relegando-nos ao nosso lugar ridículo na história do mundo. Desta vez o abalo teve menos de trinta segundos.

Ainda estava preocupado com o que podia vir a seguir. Olhei para a barra do Tejo. Ao longe uma crista enorme reflectia o luar. O meu receio era fundado.

A onda embate contra a costa varrendo tudo à sua passagem e parece acelerar ao entrar a e barra, como se ao começar a subir pelo rio aumentasse ainda mais e acelerasse. Submerge tudo à sua passagem, envolve o padrão dos descobrimentos e a torre de Belém, chega até aos Jerónimos, invade a zona ribeirinha da cidade, faz ranger a ponte à sua passagem, arranca as amarras aos barcos na doca de Santos e empurra-os para terra fazendo-os chocar contra os edifícios. Cargueiros, Porta Contentores e até um barco de cruzeiro. A onda continua a submergir tudo, subindo o rio, não deixando ver os pormenores da destruição.

Ao fim de algum tempo a onda começa a recuar para o mar e deixa atrás de si um cenário dantesco e que só não o é mais porque os estragos não são plenamente visíveis à noite.

E depois de tudo isto um silêncio ensurdecedor.

Havia pessoas a chegar a pé que ficavam perto de mim a olhar incrédulas para o cenário que tem à sua frente.

Consegues imaginar o que foi estar ali e ver aquilo? Eu sei, deves ter sabido de tudo nas notícias, e leste, e viste as reportagens, mas estar ali. Imaginas?

As pessoas podiam ter ouvido. Mas ninguém ouviu.

Lembrei-me no Fernandes, por esta altura. Peguei no telemóvel. Sem rede disponível.

Limitei-me a ficar ali, à espero do amanhecer, e a pensar. Se há algo que queria atenção, era garantido que a tinha. Só era pena que fosse através de mim.

E foi então que percebi que não passo de um mero peão que está encurralado no fim de um jogo de xadrez sem vencedor.

A ironia era inescapável. E pela primeira vez, desde os meus sete anos, ri.