quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Chuva - XXIII

 

Pois é. Nessa noite tive honras de telejornal, embora pouco mais fosse que uma nota de rodapé. No dia seguinte os jornais mencionavam a notícia, mas sem qualquer relevo ou destaque. Aliás, alguns fizeram-no mesmo num tom de gozo.

O Fernandes apareceu às cinco da tarde para me ir buscar e parecia desalentado.

“Já viste estes gajos, pá? A maneira como trataram o que foi dito…”

Eu olhei para ele, seriamente.

“E como é que esperavas que eles tratassem a notícia. As coisas correram como tinham de correr. O que tiver de acontecer, vai acontecer.”

“Mas não te chateia? Tens noção do que pode acontecer?”

“Tenho. Mas não, não me chateia. Nem um bocadinho. Tenho noção de que fiz o que podia.”

“Mas já pensaste nas vidas que se podiam poupar, caso o terramoto tenha dimensões consideráveis?”

“Já. Mas como te disse, não posso fazer mais nada. Cumpri. Para mim chega.”

Ele resmungou qualquer coisa para ele próprio. Eu sei que ele não gostava da minha atitude, mas sabia que eu tinha razão. Claro que, para além disso, ele não fazia a mínima ideia de que eu me estava perfeitamente borrifando para quem morria ou não. Para mim era só mesmo isto. Dever cumprido. Logo, não havia angústias ou ansiedades.

“Que é que vais fazer esta noite?” acabou ele por perguntar.

“Não sei. Mas sei que não vou ficar em casa. O meu prédio é antigo e não faço ideia do que vai acontecer, por isso acho que vou para um sítio onde haja um espaço aberto. Depois logo se vê.”

“Fazes bem. Acho que vou fazer o mesmo.”

“Sim, mas vás para onde fores, não vás para perto do mar. Procura um terreno elevado.”

“Porquê?”

“Porque se o terramoto for de maiores dimensões os maiores estragos virão depois. Não sabes o que aconteceu em 1775? Pensa-se que causou mais estragos o tsunami que se seguiu que o terramoto em si.”

“Vou seguir o teu conselho.” Disse ele.

Deixou-me à porta de casa e seguiu.

O mundo continuava na sua rotina indiferente a tudo. Claro que tinha todas as razões para continuar indiferente.

Eu jantei, como de costume. Depois comecei a arrumar uma mochila com provisões e água. Quando acabei fiquei a ler até por volta das três da manhã. Foi por volta dessa hora que sai de casa. Segui a pé pelas ruas desertas de Almada, apenas me cruzando com um ou outro carro. Fui andando até chegar perto da estátua do Cristo Rei.

Sentei-me no chão e fiquei a observar a cidade do cimo da arriba, mais de cem metros acima do rio que era a única coisa que me separava dela. Estava à minha frente, completamente iluminada, apenas a dois quilómetros de distância. Além disso, conseguia-se ver toda a zona onde o Tejo acabava e começava o oceano. Mesmo ali ao meu lado, um pouco abaixo de onde eu me encontrava, a ponte parecia uma extensão da arriba que esticava para tocar a cidade.

Apesar das luzes da cidade, através do céu limpo dava para perceber que o luar estava forte. Fiquei ai a ver o trânsito que entrava e saia da ponte sobre o Tejo. Olhei para o relógio. Ainda faltava uma meia hora…

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Chuva - XXII

 

Meia hora depois o telemóvel tocou.

“Gabriel, já falei com o gajo.”

“E ele?”

“Pá, ele ficou surpreendido por eu te conhecer e quer mesmo falar contigo.”

“Mas disseste-lhe alguma coisa?”

“Não. Isso fica por tua conta. Mas diz-me uma coisa, a que horas te consegues safar dai? É que, se isso for o que julgas, quanto mais cedo melhor…”

“Acho que consigo sair à hora do almoço. Por volta da uma…”

“OK. Vou falar com ele. Conta comigo ai à uma. Pode ser que o gajo queria almoçar connosco e assim até falas com ele num ambiente mais descontraído, sem pressões.”

“Tudo bem, espero-te à uma.”

À uma da tarde desci à cave. Ele ainda não estava mas não demorou a chegar. Arrancamos e fomos para um restaurante onde ele tinha combinado com o amigo.

“Já sabes que ele está curioso em relação a ti.” dizia-me ele. “Chama-se Rafael Martins e trabalha para um grupo empresarial onde está incluído um canal de televisão. É talvez a maneira mais rápida de passar a mensagem.”

Chegamos ao restaurante e ele já lá estava à espera. Não te vou dizer se gostei dele ou não. Já sabes que a minha opinião nunca seria muito edificante. Aliás, já sabes que não à partida. Ainda assim sabia que tinha de fazer um esforço para tentar cativá-lo e para que ele percebesse que eu estava a falar de uma forma séria. Mas a presença do Fernandes dava-me à partida credibilidade perante ele. Como tal já tinha a minha tarefa simplificada.

Sentamo-nos, pedimos, e foi o Fernandes que abriu as hostilidades.

“Rafael, tens de ouvir o que este gajo tem a dizer. Mesmo.”

O Rafael virou-se para mim e observou-me. Sem rodeios disparou a pergunta.

“E o que é que tem para me dizer, então?”

“Que às quatro e dois da manhã de depois de amanhã vai haver um tremor de terra aqui em Lisboa. E que as pessoas que vivam em áreas mais susceptíveis devem tomar medidas em relação a isso.”

Ele olhou para mim e desatou a rir à gargalhada. Eu mantive-me impávido e sereno.

“Pá, ó Fernandes, trouxeste-me aqui para isto? Mas tu achas que eu estou maluco. Ninguém consegue prever um tremor de terra, pá. Achas sinceramente que eu ia passar uma notícia destas?”

“Acho que deves.” disse o Fernandes. O Rafael olhou-o com um ar de gozo. “Sabes, pá, percebo-te perfeitamente e sei o que estás a pensar, mas leva este gajo a sério.”

“Porquê? Porque ele adivinhou onde é que estava um puto no meio da serra da Lousã? Não me lixes, pá. Isso nem parece teu. Sabes quantos marados dos cornos é que apareceram nos últimos anos a prever tremores de terra catastróficos em Lisboa?”

“Rafa, acredita em mim. Eu digo-te mais, mas tens de acreditar em mim.” dizia o Fernandes. “A gente conhece-se há o quê? Trinta anos? Achas que eu sou gajo de embarcar em fantasias, pá?”

“Realmente não és. Até te estou a estranhar.”

“Então ouve-me e depois tomas uma decisão.”

E fiquei ali a assistir enquanto o Fernandes lhe contava como tomou conhecimento das primeiras mensagens, do que aconteceu em relação à terceira. O ar de gozo foi-se desvanecendo da cara do Rafael aos poucos. Claro que o Fernandes omitiu o que lhe tinha mostrado ontem.

“Percebes?” perguntou no fim da explicação.

O Rafael virou-se para mim.

“Aquilo que levou todos os meus colegas a andar à sua procura foi o que disse naquela entrevista lá em cima. Posso perguntar-lhe como obtêm essas revelações?”

“Pode. Não terá é resposta.”

“Rafael, …” interveio o Fernandes “…posso garantir-te que este homem não é um louco ou um charlatão.”

“OK, mas então digam-me os dois uma coisa: Como é que eu passo uma notícia destas? Já viste que, se muita gente acreditar, vai haver um pânico na cidade? E se não acontecer nada em seguida?”

Eu voltei-me para ele e disse “Passe a notícia na terceira pessoa. Diga o meu nome, afirme que fui eu quem disse isto. Assim fica isento de responsabilidades caso não aconteça nada. Ao fim ao cabo não anda toda a gente à minha procura? Diga que falou comigo.”

Ele olhou para o Fernandes. Este limitou-se a assentir.

“Pois seja, então. Vou passar a notícia assim mesmo. E o que for, será…”

Chuva - XXI

No dia seguinte, eram uma sete e meia da manhã, começou a chegar-me aos ouvidos um barulho irritante. Como já não era costume estar em casa a esta hora pensei tratar-se do despertador de algum vizinho. Mas o barulho era insistente. Ao fim de uns quantos toques calava-se, mas depois voltava.

Foi então que me lembrei do telemóvel. Já nem me lembrava onde o tinha posto, mas fui seguindo o barulho até o encontrar. Era o Fernandes, de certeza, a dizer que já tinha chegado. Porque é que não tocou à campainha?

Enfim. Lá descobri o dito. Atendi.

“Gabriel, bom dia. Estás despachado?”

“Estou.”

“Então desce que tenho o carro mal estacionado, pá. Estou à tua espera.”

Lá desci, entrei no carro, cumprimentámo-nos e ele arrancou de imediato.

“Pensaste mais no que falamos ontem?” perguntou ele.

“Pensei.”

“E então?”

E então… Boa pergunta.

“Sabes o que é um fogo-de-santelmo?”

“Por alto…”

“Então imagina-te dentro de um navio no meio de uma tempestade. Mas não penses num navio actual, imagina antes que és um marinheiro da época dos descobrimentos, com a cabeça cheia de superstições e com um medo tremendo de cair pelo rebordo do mundo. E de repente, quando o navio parece que se vai partir em dois vês uma aparição no cimo do mastro mais alto. Aparece-te ali, vinda do nada, uma luz branco-azulada que solta pequenos raios.”

“Bem, no meio do pânico e aflição seria fácil tomar essa luz por uma aparição…”

“Pois. E era. Era tomada como um bom presságio, até.”

“OK. Mas não estou a ver a relação…”

“Na realidade um fogo-de-santelmo é um fenómeno atmosférico comum. É uma descarga electroluminescente provocada pela ionização do ar num campo magnético gerado pelas descargas eléctricas. Não há nada de sagrado. Mas na altura, não se sabendo o que era, tomava-se como uma aparição ou um presságio.”

“Queres dizer que, não sabendo o que é, não afirmas o que possa ser.”

“Exacto, não descarto possibilidades, mas também não afirmo nenhuma.”

O Fernandes ficou agradado com a conversa. Acho que ele também não se sentiria muito à vontade se eu de repente me começasse a afirmar como mensageiro divino ou uma treta qualquer do género. Com isto íamos a meio da ponte sobre o Tejo.

“Sabes que esta história com os jornalistas não vai durar muito tempo. Provavelmente já se esqueceram que tu existes.”

“Sei, e ainda bem. Não gosto de me expor.”

“Já percebi…”

E eis que de repente começa a chover.

Ele olhou para mim de repente. “Queres voltar atrás?”

“Não. Eu acedo ao meu computador de lá do trabalho e logo vejo se há alguma coisa.”

“Consegues fazer isso?”

“Sim, não é difícil.”

O aguaceiro foi breve mas forte. Olhava para o Fernandes e via a inquietação provocada pela curiosidade.

Quando chegamos ele entrou com o carro para a cave do edifício.

“Queres estacionar e vir comigo? Assim ficas já a saber…”

Acho que a pergunta era absolutamente desnecessária. Claro que ele veio.

Acedi ao computador, vi que tinha lá os padrões gravados. Dei os passos todos para converter e desencriptar a mensagem, caso houvesse alguma. Não me preocupei minimamente com o facto de ele estar ali. Tinha já as formular encaixadas em rotinas de software e como tal ninguém as veria. Mas até era bom. Ele assim via o processo.

Quando acabei, mostrei-lhe o resultado.

 

“Quando a lua atingir o seu zénite a terra revoltar-se-á no sítio onde estás. Salva os que ouvirem.”

 

Ele não tirava os olhos da mensagem. Por fim acabou por perguntar “Mas o que é que isto quer dizer?”

Encolhi os ombros.

Mas de repente fez-se luz.

“Pá, quando é que é a próxima lua cheia?” perguntei-lhe.

“Sei lá…”

Demoramos o tempo de uma consulta rápida à internet. Era dai a dois dias, às quatro e dois da manhã.

“Mas o que é que achas que isto quer dizer?” acabou por perguntar ele.

“Acho que vai haver um tremor de terra em Lisboa depois de amanhã.”

Ele ficou estupefacto a olhar para mim. “Temos de avisar as pessoas!”

Fiquei parado. Estático. Mais uma vez os acontecimentos levavam-me para onde eu não queria ir.

“Pois temos.”

Era obvio que sim. Mais ainda, era obvio que eu tinha de dar a cara.

“Achas que os jornalistas já se esqueceram de mim?” perguntei ao Fernandes.

“Não sei, mas conheço um e daqui a pouco já falo com ele. Sempre ficas mais resguardado do que falando com um gajo qualquer. De qualquer maneira eu vou arrancar, mas fica atento ao telemóvel. Eu já te digo qualquer coisa.”

Ele arrancou.

Já eu fiquei perdido em pensamentos. “…a terra revoltar-se-á no sítio onde estás”. A mensagem não só era para mim como era para este momento.


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Chuva - XX

  

…e estava eu e pensar nisto quando o Fernandes se volta para mim e diz “Pá, tenho de me ir embora.” e levanta-se e começa à procura das chaves do carro nos bolsos. “Não te importas?”

“não, não me importo…”

Porque cargas de agua me havia de importar com algo que estava ansioso que acontecesse? Por mim até já podia ter ido há mais tempo.

Acompanhei-o até à porta e abri-a.

Ele olhou bem para mim. O olhar dele estava definitivamente diferente.

“Amanhã passo por aqui para te levar, por isso espera por mim.” Assenti.

Ele foi e eu fechei a porta atrás dele.

Este momento foi o suficiente para eu recuperar a minha lucidez e afastar os disparates acerca de profecias da minha cabeça. Não ia fazer como o resto da carneirada e atribuir aquilo que não percebo a intervenções divinas. A verdade é que não compreendia, mas o facto de eu não compreender algo não o tornava automaticamente um acto de Deus.

Essa era uma explicação demasiado fácil. Uma porta de saída.

A explicação era com certeza outra e a seu tempo havia de perceber…

…ou não! Mas também não interessava.

Factos concretos:

 

-Estas mensagens chegavam através de uma força natural.

-Eram dirigidas a mim

-Tinham relação com algo externo a mim

 

Eu era um mero mensageiro que tinha, inclusivamente, a escolha de não passar a mensagem. Que me interessava quem elas beneficiavam ou o que diziam?

O meu problema…

Sabes qual é o meu problema?

O meu problema é ser curioso. E não foi a curiosidade que matou o gato?

 Mas ainda assim, o problema de haver um pensamento que te cruza a mente é que, depois de formulares uma hipótese, ela continua sempre lá por mais ténue e apagada que esteja, por mais que a descartes. Portanto, a hipótese de eu ser um profeta, um mensageiro divino, nunca mais poderia ser totalmente posta de lado. Para te ser franco acho que a descartei porque não me sentia minimamente confortável com a ideia. Estranho profeta seria eu. No entanto sabia que, muito provavelmente, teria de me portar como se fosse um, embora com contornos diferentes.

Sabes, as pessoas já não ligam à verdade. Aliás, nem a sabem distinguir. Vão reunindo pequenas verdades com a pouca informação que vão obtendo, mas nunca encaixam o puzzle completo, nunca vem o quadro maior. Normalmente quer-se a verdade do momento. Mas a verdade do momento é ilusória e muitas vezes contrariada pela verdade global. A verdade do momento acaba por ser uma mentira baseada em factos concretos. Mas isso não fará com que a verdade global seja apenas um sentido dado à soma das pequenas mentiras do dia-a-dia? Haverá, na realidade, uma verdade em que possamos alicerçar a nossa existência?

Estou a desfilar estes pensamentos perante ti porque foram os que me passaram na cabeça à altura. No fundo, precisava de um sentido. Sem ele ser-me-ia difícil continuar.

Embora tenha passado a noite em claro, esse sentido não chegou. A única coisa que sobrava era a minha certeza de que, se mais mensagens aparecessem, elas seriam passadas por mim a quem deveriam ser passadas. Claro que ao fazê-lo estaria a pôr em causa o que queria, mas como já te disse antes, há muito que percebi que o livre arbítrio é uma ilusão. A liberdade é uma ilusão.

Eu só vivi a ilusão de ser livre durante algum tempo. E há muito que essa ilusão se desvaneceu.

Chuva - XIX

“Bem, mas pelo que percebi, o que me queres dizer é que qualquer um, desde que tenha a chave, consegue o mesmo resultado.”

“Presumo que sim, mas não tenho a certeza.”

“Como assim?”

“Bem, o facto de as mensagens parecerem dirigidas a mim, especificamente, de se referirem a situações nas quais vou esbarrar, deixa-me a dúvida. Como é que seria se outra pessoa tivesse a chave? O que é que aconteceria? Será que as mensagens seriam para essa pessoa também?”

Ele reflectiu um pouco nas minhas interrogações. Realmente havia no meio de tudo algo de pessoal. As mensagens eram para mim.

“Bem, podes sempre experimentar…”

“Pois, mas por motivos óbvios, não quero.”

“Compreendo. Mas também é obvio que não querias ter tropeçado nisto à partida.”

“Não, não queria. Sempre vivi em quase reclusão, não lido bem com pessoas…”

O Fernandes olhou para mim. Eu sabia que a visão que ele tinha de mim agora, neste momento, era substancialmente diferente. Tinha-lhe dado provas concretas da existência de algo que, fosse o que fosse, existia de forma inequívoca, e tinha a capacidade de interferir de alguma maneira com as vidas das pessoas.

“Diz-me uma coisa, achas que o que aconteceu com as curas e com o desaparecimento do miúdo foram meras coincidências que foram aproveitadas por algo para se demonstrar, ou terão sido os factos causados por esse algo?”

Eis uma pergunta pertinente que eu ainda não me fizera. E com vastas implicações…

“Imagina por um momento…” continuou ele “…que o que aconteceu foi causado propositadamente. Sabes porque te pergunto isto?”

“Por causa das remissões?”

“Sim. Tenho vinte e cinco anos de carreira médica. Estou onde estou à vinte anos. Sabes quantas remissões espontâneas já tinha visto?” Acenei negativamente com a cabeça. “Zero! E de repente, numa semana, vejo duas, e ainda por cima anunciadas.”

Ficamos os dois em silêncio a remoer os possíveis significados destas conclusões. Seria possível que, além dos anúncios do que viria, esta mesma força, entidade, ou fosse o que fosse, estivesse a intervir activamente no decurso das coisas? Será que sempre lá esteve, ou esperou até agora, até haver alguém que ouvisse para se manifestar.

Ainda assim, para te ser franco, para mim, pessoalmente não fazia sentido ser eu o escolhido. Ao fim ao cabo, o escolhido devia ser alguém que se importasse, que quisesse fazer algo, sei lá, grandioso com a informação que era passada.

O obter esta informação deixava-me claramente em cheque, mais ainda agora, se a conclusão a que chagávamos estivesse correcta. O que é que eu iria fazer? Pior, o que é que queriam fazer de mim? Um vidente? Um profeta?

Por um momento permiti-me pensar nesta ultima hipótese. Pareceu-me plausível. Afinal, se hoje em dia aparecesse alguém a pregar e a falar como falavam os antigos profetas seria enclausurado, analisado, levava com uns electro-choques e, quando o cérebro já tivesse frito com as drogas e as terapias que lhe dessem, a voz de Deus acabaria por se calar. Caramba, o que é que tu dirias se um tipo qualquer te aparecesse à frente e se afirmasse ser Jesus descido dos céus? Rias-te e davas-lhe a morada do hospital psiquiátrico mais próximo, não?

Pois é. Nesta época de tecnologia, de progresso, de revolução, de comunicações instantâneas, deixou de haver lugar para Deus, para vozes que clamam no deserto. Ainda que meia dúzia fosse capaz de acreditar, seria apenas essa meia dúzia.

Mas Deus, a existir, saberia disto.

Seria eu um profeta? Uma ferramenta?

Mas para o ser não teria eu de acreditar em Deus?

Foi então que cheguei à conclusão que, de certa forma, acreditava, sim. Não no Deus apregoado pelas religiões e vendido nos templos por meia dúzia de moedas. Não num Deus bíblico cheio de emoções humanas, contraditório, um ser a quem a sua criação escapa ao controle, apesar de ser omnipotente. Não num ser capaz de favorecer um bando de pastores no deserto a ponto de dizimar um exercito de outro povo para favorecer aquele especificamente. Afinal, não eram também os membros desse exercito seus filhos?

Acreditava e acredito numa unidade, uma singularidade.

Mas não seria essa singularidade, a unidade entre tudo o que existe, demasiado grande para chegar a mim desta forma?

Ou seria eu demasiado pequeno para perceber?


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Chuva - XVIII

 

Às cinco da tarde o Fernandes entrou na minha sala.

Voltou-se para mim num tom quase divertido. “Então, vamos?”

“Vamos.”

“Estavas com medo de atravessar aqueles gajos que estão lá fora?”

Medo? Não. Apenas tinha noção de que não queria lidar com eles.

“Sim. Como é que eles me terão descoberto?”

Era óbvio como me tinham descoberto.

“Basta que alguém te tenha visto e passasse a informação. E quando um sabe…”

Pois, quando um sabe os outros também sabem.

Não saímos pela porta da frente. O Fernandes tinha estacionado o carro na cave do edifício. Fomos de elevador até à cave, entramos no carro e arrancamos, passando mesmo ao lado deles.

Já depois de estarmos metidos no meio do trânsito ele voltou-se para mim.

“Vê esse saco que está ai aos teus pés.”

Abri o saco. Lá dentro uma caixa de telemóvel.

“Isso é para ti. O número não está registado, é um cartão pré-pago, e os únicos que sabem que esse número existe são a operadora e eu.”

Detesto estas geringonças. Diz-me lá que utilidade é que achas que um gajo como eu, que não quer falar com ninguém, dá a um telemóvel? O simples facto de o ter implica andar com ele, tê-lo ligado e estar constantemente na iminência de ser contactado. E quando não se quer ser contactado, para que é que serve?

“Não gosto de telemóveis…” disse-lhe eu.

“Sim, eu já percebi. Mas garanto-te que não te vou incomodar. Não te vou sequer ligar. Mas caso tenhas um problema, seja onde for, tens hipótese de me contactar. O meu numero é a tecla “2” da marcação rápida. Carregas na tecla por três segundos e ligas automaticamente para mim.”

Ocorreu-me então que, embora já tivéssemos passado algum tempo juntos e esse tempo fosse suficiente para perceber o carácter dele, a verdade é que ainda não o conhecia, não sabia o que o fazia andar, não conhecia os motivos dele.

“Mas porquê?”

“Porquê o quê?”

“Esta vontade de me ajudar, o telemóvel…”

Ele ficou um bocado a olhar para a estrada, pensativo. Não é que tivesse de pensar nos porquês. Ele sabia-os. Pensava era como dizer o que tinha para dizer…

Quando se decidiu lá deu uma resposta.

“Sabes, tu intrigas-me. Tenho a certeza absoluta que és algo mais do que aparentas.”

Como calculas, uma afirmação destas deu-me imediatamente que pensar. O simples facto de ele dizer isto fez-me perceber que teria de abrir um pouco mais o jogo com ele. Afinal, só se consegue manter uma mentira quando ela está próxima o suficiente da verdade para poder ser confundida com ela. Ele continuou.

“Começaste por acertar em algo que vai contra as probabilidades sequer de acontecer, quanto mais de ser previsto. E depois foste descobrir aquele puto num sítio improvável. Por outro lado, a tua atitude dá a entender que, não só não dás valor às mensagens, como, de certa forma, te irrita até o facto de as teres. Tenho razão?”

“Tens.”

Ele acenou com a cabeça. Neste ponto ele tinha-me percebido perfeitamente.

“Sabes, sou um gajo formado numa área de ciências. Para mim há sempre causa e efeito. Mas liguei-me à medicina precisamente porque as causas nem sempre são aparentes e acho que no fundo sempre procurei qualquer coisa que nem sequer consigo definir, uma causa maior. Acho que a minha curiosidade em relação a ti se prende com essa procura. Quando me apercebi que de alguma forma as mensagens para ti eram uma contrariedade vi que podias ser algo de genuíno. E se assim for, és algo de único.”

Enquanto a conversa decorria eu ia-me perdendo em conjecturas e a distância entre Lisboa e Almada foi vencida. Ele parou o carro à porta de minha casa e esperou que eu saísse do carro. Eu olhei para ele e para o telemóvel.

“Não queres entrar?”

Ele olhou para mim, desligou o motor do carro e saiu junto comigo.

Ainda me lembro da cara dele quando entrou em minha casa. Acho que ele esperava tudo menos o que encontrou. A minha casa estava forrada a estantes onde estavam livros e revistas organizados e catalogados por tema. Estava de tal forma que mal se viam as paredes da casa. O resto era, de alguma forma, espartano. Havia uma mesa na cozinha com uma única cadeira, um sofá na sala e uma mesa de café, onde se empilhavam os livros e revistas que estava a ler no momento, uma secretária com o computador a um canto da sala. No quarto uma cama, uma mesa-de-cabeceira e um candeeiro.

“Já leste isto tudo?”

“Sim.”

Ele passava os olhos pelas prateleiras e ia vendo os títulos cuidadosamente. Eu interrompi-o.

“Desculpa não ter nada para te oferecer, mas não bebo. Queres um copo de água?”

“Pode ser.” Disse ele distraidamente.

Quando voltei com a água convidei-o a sentar-se no sofá enquanto eu me sentei na cadeira da secretária. Ele olhava para mim de uma forma estranha. Acho que se tinha apercebido de que eu era bastante diferente daquilo que ele julgava. Agora a cartada era minha. O que lhe desse aqui definir-me-ia aos seu olhos daqui para a frente.

“Perguntaste-me quando nos conhecemos como é que as mensagens chegavam.”. Ele olhou para mim como se se preparasse para tudo. “Não te vou dizer tudo. Não quero fazê-lo e acho sinceramente que nem devo. Mas vou-te dizer na generalidade.”

Ele acenou afirmativamente com a cabeça, expectante. Eu dei um toque no rato do computador e o monitor iluminou-se mostrando uma pauta altamente complexa.

“O que está aqui nesta pauta é a representação rítmica da chuva quando cai.”

Ele levantou-se e aproximou-se do monitor para ver melhor. Ao fim de um bocado a observar aqueles rabiscos todos olhou para mim com um ar inquiridor. Eu continuei.

“Queria mostrar-te isto para saberes que não ando a ouvir vozes, não me aparece um velho de barbas brancas em sonhos, não ando a esventrar animais ou a ler cartas. Não sou um vidente nem um místico. Aliás, o próprio misticismo para mim não passa de uma realidade incompreendida. Mas o misticismo verdadeiro, não o ‘charlatanismo’ a que tanta gente se agarra. Não sou religioso nem professo nada.”

Ele assentiu. Acho que estava tão estupefacto a olhar para mim que nem quis perguntar nada. Sabia que eu ainda tinha mais a dizer.

“Aqui há uns tempos apercebi-me de que parecia haver um padrão na forma como a chuva cai. Basicamente as mensagens aparecem a partir desses padrões. Arranjei uma chave matemática para os decifrar e as mensagens aparecem assim codificadas no meio.”

“Queres dizer que as mensagens aparecem por via matemática?”

“Sim. Não há nada de místico nisso.”

“Não há? Desculpa lá, mas isso levanta ainda mais perguntas do que aquelas que responde…”

“Eu sei. Quando digo que não há refiro-me somente ao facto de que a maneira como as produzo ser através de um método absolutamente cientifico e que poderia ser duplicado por qualquer outra pessoa.”

“Sim, essa parte eu percebi. Mas o resto das implicações…”

“É precisamente por isso que me sinto obrigado a passar as mensagens. Não faço a mínima ideia de onde elas vêem e nem sequer consigo imaginar quem teria o poder de as codificar. Mas o pior de tudo é que parecem vir dirigidas a mim, directamente.”

Ele olhou longamente para mim.

“Não serão as tuas próprias expectativas a criar as mensagens? Não estarás a produzir padrões onde eles não existem?”

A pergunta era absolutamente legítima.

“Garanto-te que não apresento qualquer traço de esquizofrenia. Se chovesse agora podia demonstrar-te o processo e ias ver que não tem nada de intervenção da minha parte. Chega aqui.”

Levei-o ao quintal das traseiras e mostrei-lhe a engenhoca que tinha feito.

“O que é isto?” perguntou ele depois de passar um bocado a tentar perceber o que era. “Parece um painel solar…”

“Na realidade isto está ligado directamente ao computador. É um sensor de chuva. Dava uma trabalheira incrível passar os padrões à mão para uma pauta, por isso construi isto. Se começar a chover isto, não só arranca automaticamente a gravação no computador, como também serve de ‘trigger’ para gravar directamente os padrões. É mais fiável que o meu ouvido.”

“Mas porquê para uma pauta?”

“Porque numa pauta musical tudo são relações matemáticas. A partir dessas relações passo tudo através de uma chave de desencriptação e tenho a mensagem.”

Ele olhou para mim convencido, e ao mesmo tempo com uma admiração estranha nos olhos.

“Ainda assim, e uma vez que quase te excluíste do processo, resta saber quem manda estas mensagens…”

“Mais do que isso, do meu ponto de vista, resta saber o porquê. E sobretudo, porquê eu…”

“Essa última pergunta é fácil de responder.” Fiquei a olhar para ele à espera dessa mesma resposta. Ele fez uns segundos de ‘suspense’ e acabou por dizer. “Foi a ti porque eras o único que estava atento.”


 

Chuva XVII

 

O que é certo é que o dia seguinte foi realmente diferente.

Onde quer que eu estivesse as pessoas olhavam para mim, com curiosidade, apontavam, sorriam, cochichavam umas com as outras…

Senti-me uma aberração, a curiosidade do dia. A minha invisibilidade fora-se. Isto queria dizer que tinha de me controlar ainda mais.

Na paragem de autocarro, então, naquela onde tinha passado as mensagens à D. Ana, foi demais. As pessoas olhavam para mim e falavam de mim como se eu não estivesse lá. Houve até um atrevido que veio ter comigo e perguntou na lata “Foi o senhor que encontrou aquele miúdo ontem, não foi?”. Respondi afirmativamente com um aceno de cabeça. O homem fez questão de me cumprimentar, efusivamente. Acho que não tanto por uma questão de gratidão pelo que eu tinha feito, uma vez que ele não tinha qualquer razão para isso, mas para ser ele próprio notado pelos outros.

“Como é que o Senhor se chama, mesmo?”

“Gabriel.” Respondi eu timidamente.

O facto de um ter perdido a timidez fez com que a maior parte das pessoas que estava à minha volta viessem ter comigo e me quisessem cumprimentar também. Senti-me tão…

…mal. Mesmo mal. Houve um instante em que estive prestes a explodir. O tal momento de pressão em revelamos a nossa verdadeira natureza.

“O que é que lhe foi revelado?”, “Como?”, “Porquê?”, “Por quem?”.

Felizmente, nesse instante fui salvo pela campainha, que é como quem diz, pelo facto de o autocarro ter chegado e a azáfama do dia-a-dia ter substituído a curiosidade das pessoas. Valeu-me também o facto de a viagem ser curta.

A minha viagem para o trabalho, naquela manhã, foi uma lição. A minha máscara teria de lidar com tudo isto sem demonstrar o que eu sentia na realidade. Se alguma vez o demonstrasse, ou aparentasse um comportamento demasiado fora do padrão, esta admiração de hoje, que eu não queria nem desejava, tornar-se-ia num ódio de iguais proporções.

Mas o pior mesmo foi quando o segurança do edifício me telefonou logo a seguir ao almoço a avisar que estava um aglomerado de jornalistas à porta a querer falar comigo.

Receoso de qualquer atitude que pudesse tomar resolvi adoptar a estratégia pela qual me tinha decidido no dia anterior. Marquei o número no telefone, esperei que ele me atendesse, e quando o fez limitei-me a dizer “Fernandes, bom dia. Preciso de ajuda!”.