sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Lilith - XX - Curvas

Depois de tomarmos o café, pagámos, saímos e fomos andando até ao carro. Tinha-se instalado um nevoeiro espesso e a humidade estava fria e entranhava até aos ossos. Como sempre isso, não parecia afectá-la minimamente. Eram cinco e quarenta e cinco da tarde e as luzes da rua começavam a acender-se. Detesto os dias pequenos no Inverno.

A verdade é que, apesar de andarmos devagar, o frio e a curiosidade faziam-me querer despachar. Mas admito que era mais a curiosidade. O frio até era suportável.

O carro estava já coberto por uma camada considerável de humidade. Entrámos. Pu-lo a trabalhar e liguei o aquecimento.

– Então e agora? Para onde?

– Para onde quiseres… – disse-me com um ar meio ausente.

– Para onde eu quiser? Não costumas ser assim.

– Pois não. Mas deixo ao teu critério.

Desarmou-me. Naquele momento não sabia o que fazer. Quando finalmente tive a liberdade de fazer algo, fiquei com a dúvida. Para onde? Fazer o quê? Apetecia-me ir para casa e ouvi-la por horas sem fim. Apetecia-me ouvir toda a história dela. Mas, por outro lado, apareceu em mim uma vontade de lhe mostrar a minha independência. Impressioná-la. Só depois me lembrei que impressioná-la… em quê? O que é que eu teria de impressionante para ela? Reduzi-me à minha insignificância.

– Vamos para minha casa? Fazemos um jantarinho e ficamos sossegados…

Ela olhou para mim como se adivinhasse tudo o que me passara pela cabeça.

– Tudo bem. Como te disse, está ao teu critério.

Fizemos o caminho em silêncio até à entrada para a auto-estrada, eu a tentar conter a minha curiosidade e ela a ignorá-la por completo. Sentia-a divertida com a minha relutância. Quando entrávamos na auto-estrada, falou finalmente:

– Não preciso que me dês espaço.

– Desculpa?

– Não preciso que me dês espaço. Tenho todo o que preciso. Podes ser directo e sincero comigo.

– E não tenho sido?

– Sim, mas estás em pulgas. Desembucha. Para quê tanto rodeio?

– Queria que me contasses a história. Ficaste de ma contar a seguir ao café…

– Bem, ainda não faltei à minha palavra. Já bebemos o café.

– É verdade, mas também já foi há um bocado.

– Que impaciência! Tens medo que o mundo acabe agora?

– Eu sei que tu não, mas eu…

– …mas tu não tens a mínima ideia do que te rodeia, por isso é que tens medo. Não te compreendo.

– Não?

– Não.

– E o que é que não compreendes?

– Como é que alguém que desistiu de viver há dez anos tem tanto medo de morrer.

Calei-me.

– Miguel, para se morrer é preciso estar vivo, e acho que o único momento em que estiveste vivo em dez anos foi naquela praia há umas horas atrás. E, entretanto, deixaste-te morrer outra vez.

Fiquei num silêncio meio amuado. Sabia que ela tinha razão. Mas não queria concordar nem discordar.

– ACORDA! – Gritou-me ela.

Senti-me furioso, e nem sabia se com ela ou comigo. Mas furioso. Sentia o rubor faces, o coração a bater forte nos tímpanos, as mãos a crisparem-se no volante. Tentei controlar-me, respirei fundo. Ela ria.

– MAS O QUE É QUE QUERES DE MIM, AFINAL? – Gritei-lhe eu, finalmente explodindo.

Ela riu ainda mais.

– Quero saber que estás vivo, Miguel. Só isso. Estás vivo, Miguel?

A pergunta dela ressoou em mim. Não tinha uma resposta para lhe dar. Fiquei ali com um ar mal disposto, amuado até, sem saber o que lhe dizer, e como sempre, quando não sabia o que dizer, calava-me.

Ela riu-se com o meu ar. O seu riso apenas teve o condão de me irritar mais e de me fechar ainda mais em mim. Percorremos a auto-estrada em silêncio. Assim que estacionei o carro, ao chegarmos a Lisboa, saímos e ela voltou-se para mim.

– Vou dar uma volta.

Assim, sem mais nem menos.

– E demoras?

– Não esperes por mim.

– Vens jantar, pelo menos?

– Já te disse, não esperes por mim.

Se já estava mal disposto, fiquei ainda pior. Mas afinal quem é que ela julgava ser? Julgava que podia entrar assim na minha vida, sem convite, sem se anunciar, e fazer tudo e mais alguma coisa?

– Fazes bem – acabei por dizer. – Quando voltares avisa.

Ela foi, sem mais uma palavra. Vi-a ir pela rua fora e desaparecer na esquina. Que frustração!

Entrei em casa, tomei um duche para tirar o sal do corpo, comi qualquer coisa e depois deixei-me ficar na penumbra e no silêncio. E quando o tiquetaque do relógio da sala começou a ser insuportável levantei-me resoluto, saí porta fora, entrei no carro e pu-lo em andamento. Só não sabia para onde ia ou porquê, mas ia.

Acabei à porta de um bar onde não parava já há anos. Era um bar enorme e nem sabia se estaria ainda aberto. Aparentemente estava, mas onde antes se viam chaços e carros artilhados, hoje viam‑se carros de prestígio e alta cilindrada. Pensei para comigo que os clientes, muito provavelmente, se tinham mantido fiéis. O que tinha mudado era sua capacidade económica.

Entrei e constatei o que pensava. A clientela era composta por pessoal na casa dos trintas e quarentas. Encontrei uma mesa livre e sentei-me. Nos altifalantes passava música dos anos oitenta e noventa, entre o rock e a pop. O facto de a mesa estar vazia de bebidas e de eu ter o cartão de consumo na mão atraiu com alguma velocidade uma empregada que me trouxe um whisky de doze anos com duas pedras de gelo com alguma rapidez.

Mas que diabo estava eu a fazer aqui?

Olhei em volta e era óbvio o que este bar se tinha tornado. Um ponto de encontro para engates rápidos de pessoal que já não tinha pachorra para o número das flores, jantares românticos ao pôr-do-sol e coisas afins. Ora, não estando eu aqui para engatar ninguém, sentia-me perfeitamente deslocado. «Estás vivo, Miguel?». Estava deslocado aqui como em qualquer outro lugar. A verdade era essa. Até em casa estava deslocado, uma casa onde, após dez anos, as coisas se tinham mantido, por preguiça, por desleixo, ou fosse pelo que fosse, da maneira como a Diana as tinha deixado. Ou talvez fosse apenas porque o meu orgulho não queria admitir que me tinha enganado assim tanto, e todas aquelas tralhas não passassem de um post-it gigante para me lembrar da merda que tinha feito.

Enquanto me perdia nos meus pensamentos, o bar apinhou. Já não havia lugares sentados e as pessoas iam-se amontoando de pé, sobretudo junto ao balcão. E eu ali, com três lugares vagos na minha mesa para quatro, sozinho e sem desejar companhia. Comecei a ter alguma noção de quanto estes três lugares começaram a ser desejados. Devia ir-me embora e deixar os quatro lugares para alguém que aqui quisesse estar. Mas também não me apetecia ir para lado nenhum, portanto, assim como assim, sentia‑me no direito inabalável de ser chato e de ter aquela mesa só para mim.

Apetecia-me um cigarro, mas nem sabia se ainda teria esse direito. Sinais azuis espalhados pelas paredes junto com o fumo de algumas pessoas anunciaram-me que podia. Acendi o cigarro e deixei‑me levar pelas músicas que já não ouvia há uma década.

Apesar de me apetecer ser chato e querer a mesa só para mim, alguém resolveu que aqueles três lugares eram um desperdício.

– Desculpe, estes lugares estão ocupados?

Olhei-a. Loura platinada pintada, com excesso de maquilhagem, embora desse para perceber que por baixo da mesma era uma mulher bonita. Trintona, muito produzida. Voluptuosa. Desinteressante.

– Não, não estão – disse-lhe, enquanto esperava que ela retirasse uma ou mais cadeiras para levar para outra mesa.

– E importa-se que me sente aqui? Não há mais lugar em lado nenhum…

A resposta que me apetecia dar seria, no mínimo, indelicada, por isso dei a que não queria.

– Claro que não. Está sozinha?

– Estava à espera de companhia, mas acho que ele está atrasado.

Menos mal. Isso eliminava qualquer conversa de circunstância e nem teria de me esforçar para lhe agradar. Ela tirou a mala e o casaco, que pendurou nas costas da cadeira. Eu esforcei-me o mais possível por ignorá-la. Ela não se esforçou para que eu não a ignorasse.

Voltei-me para o palco onde uma banda qualquer começava a tocar os êxitos mais recentes de bandas caducas. Se já me sentia deslocado antes, piorou o meu sentimento. Pensei que não fazia parte deste presente, mas ao mesmo tempo este presente em que estava encontrava-se imerso num passado a que toda a gente parecia querer agarrar-se. Havia conforto na falta de novidade, na previsibilidade das coisas. Havia conforto em saber de cor todas as músicas que a banda tocava e era isso que provocava a festa. Não havia um resquício de algo novo, uma sombra de novidade, algo que não fosse previsível. Era esta ausência de novidade que me deixava morto.

Mas que diabo estava eu aqui a fazer?

Os temas sucediam-se e os whiskies também. Na verdade, eu não estava ali. Só o meu corpo é que estava. A cabeça tinha partido para parte incerta.

O telemóvel que ela tinha em cima da mesa iluminou-se subitamente. Deve ter tocado, mas com o barulho que estava era inaudível. Ela leu a mensagem no visor. A cara dela ficou séria e desiludida.

– Merda! – Disse. Fingi que não ouvi.

Encostou-se para trás na cadeira com uma expressão triste, as lágrimas a quererem chegar-lhe aos olhos. Sempre me foi quase impossível ver uma mulher a chorar. No fundo não passo de um trouxa bem-intencionado.

– Ele já não vem? – Acabei por perguntar.

Ela olhou para mim.

– Parece que não. Reuniões de última hora…

Ri-me. Quem é que tinha reuniões à meia-noite e meia? Ela compreendeu o meu riso. Acabei por me voltar para ela:

– Dos males, o menor. Pelo menos estamos aqui os dois, por isso não estamos assim tão sozinhos.

– É verdade – respondeu ela. – Já agora, o meu nome é Laura.

– Prazer, Laura. Sou o Miguel. – E apertámos as mãos.

Olhei para ela com mais atenção. Desinteressante comparando com quem? Com a Lilith? Por comparação o mundo era desinteressante. E ela tinha até alguns pontos de interesse. Ela olhou para mim com alguma atenção.

– A sua cara não me é de todo estranha. Miguel? Não será Miguel Lages?

– Sim, Miguel Lages.

– Bem que me parecia conhecê-lo, desde que o vi. Sou uma enorme admiradora sua, já li tudo o que escreveu…

Uma admiradora!

Duas horas depois, estávamos os dois deitados na minha cama enquanto fazíamos sexo com uma fúria animal. Ela, sem dúvida, porque queria vingar-se de quem não apareceu, eu porque me apetecia libertar-me de tudo, de todas as amarras que tinha tido. Sexo inconsequente, sem nexo, mas com desejo, com garra. Ouvia os gemidos dela enquanto a penetrava e lhe cravava as unhas nas costas. Sentia os seus orgasmos e os seus dentes cravados no meu ombro. Adivinhava a mentira do exagero, mas sabia-me bem a mentira.

Ela acabou por adormecer a meu lado. Levantei-me sem sono, tomei um duche, acendi um cigarro e a campainha da porta tocou. Soube imediatamente quem era. Não me ralei e abri a porta.

Ela entrou, com um sorriso maroto, leve como sempre, sem me dizer uma palavra. Foi até à porta do quarto, olhou para a cama. Voltou-se para mim.

– Não está mal. É gira, ela. Até tens bom gosto…

Não respondi.

– Sentes-te mais vivo? Foi bom sentires o sangue a pulsar-te nas veias? Sentires que a podias conquistar? Sentes-te homem?

– Se queres que te seja franco, sim. A tudo o que disseste.

– És um tonto, Miguel. Achas mesmo que conquistaste alguma coisa que não quisesse ser conquistada?

Entrou no quarto e sentou-se na cama ao lado de Laura. Passou a mão ao de leve por cima de uma das pernas expostas. Laura acordou e viu-me, virada como estava para mim. Sorriu. Só depois se apercebeu do calor da mão na sua perna e que havia alguém nas suas costas e sobressaltou-se. Olhou, algo assustada, para Lilith.

– Olá, eu sou a Lilith – disse esta, apresentando-se com um sorriso, não tirando a mão da perna dela.

– Sou a Laura. – Notava-se o nervoso na voz.

– Laura, diz-me, porque é que estás aqui com o Miguel?

Laura sorriu, um sorriso meio nervoso de quem não sabe muito bem o que fazer.

– Aconteceu… – acabou por dizer.

– Aconteceu? Assim, sem mais nem menos? – Lilith riu-se. – Não me digas, foi sem querer. Quando deste por isso estavas aqui na cama com ele. Nem querias, mas… – olhou-a bem nos olhos, levantou o sobrolho – aconteceu.

Laura encolheu-se perante o olhar dela.

– Diz-me Laura, ele seduziu-te?

– Não…

– Ele obrigou-te?

– Não…

Lilith virou-se finalmente para mim.

– Miguel, afinal o que é que tu conquistaste? O que é que tu ganhaste?

Pensei um pouco. Olhei para as duas, sentadas, uma ao lado da outra. Laura demasiado pequena por comparação, embora parecesse mais velha. Estranho contraste. A mão de Lilith deslizava devagar fazendo o contorno da coxa de Laura.

– Duas horas de pura tesão.

Lilith voltou-se novamente para Laura.

– E ele, foi bom?

– Foi óptimo.

– Sabes Laura, depois de dez anos sem um único dia de sexo, teve‑nos às duas no mesmo dia. É obra, não achas?

– Dez anos?

– É verdade. E sabes porque é que ele foi para a cama contigo? – Laura acenou negativamente com a cabeça – Foi apenas para provar que conseguia conquistar e para se sentir dominador. Ele dominou-te?

– Não. Foi bom mas não me dominou.

– E tu gostas de ser dominada, Laura? Gostas de te sentir dominada, não gostas? Confessa…

Laura não disse nada, apenas lhe era impossível desviar os olhos de Lilith. As mãos de Lilith subiam devagar pelo seu corpo, passavam ao de leve pelos seus seios. O rubor das faces mostrava a óbvia sensação que Laura experimentava. A mão subiu ainda mais, agarrando a face de Laura, afagando-a. Finalmente mergulharam as duas, uma na outra, lábios colados e vi Laura completamente dominada, e vi que nada daquilo era mentira ou exagero, e fechei a porta do quarto, vesti-me e saí de casa.



Lilith - XIX - Isis

O empregado deixou o vinho e afastou-se. Ela continuou.

 

«Na sua grande sabedoria, Rá sabia que se Nut tivesse filhos um deles havia de reinar entre os homens. Cioso do seu poder, fez cair uma maldição sobre Nut. Ela não poderia ter filhos em qualquer dia do ano.

Com o coração pesado, Nut foi ter com Toth, o grande deus da magia, sabedoria e aprendizagem, filho de Rá que a amava. Toth sabia que a maldição de Rá, uma vez pronunciada, jamais poderia ser desfeita, mas na sua sabedoria encontrou uma maneira de a contornar. Foi ter com Khonsu, deus da Lua, e desafiou-o para uma competição. Jogo após jogo, Toth ia ganhando sempre. As apostas foram crescendo, mas foi Khonsu quem mais apostou, pois apostou alguma da sua própria luz e perdeu.

Por fim, Khonsu recusou-se a continuar a jogar. Toth pegou então na luz que tinha ganho e criou cinco dias extra, que ficaram para sempre entre o fim do ano e o princípio do próximo. O ano até ai tinha trezentos e sessenta dias e a partir daí passou a ter trezentos e sessenta e cinco, sendo que esses cinco não eram dias de qualquer ano. Desde esse tempo que Khonsu não consegue brilhar com toda a sua força durante todo o tempo, definhando até perder o brilho para ganhar força em seguida outra vez.

No primeiro dos dias criados, Nut deu à luz Osíris, o seu filho mais velho. O segundo dia foi reservado para ser o aniversário de Hórus. No terceiro dia nasceu o segundo filho, o negro Seth, senhor do mal. No quarto Ísis viu a luz pela primeira vez, e no quinto Nephthis, a segunda filha, nasceu. E foi assim que a maldição de Rá foi cumprida e ao mesmo tempo derrotada, pois os filhos nasceram em dias que não pertenciam a nenhum ano.

Quando Osíris, nasceu muitos sinais prodigiosos aconteceram. O mais extraordinário foi talvez a voz que foi ouvida no santuário sagrado de Thebas, no Nilo, hoje chamado de Karnak, e que falou a um homem chamado Pamyles instando-o a proclamar a todos os homens que Osíris, o grande e piedoso rei, tinha nascido para trazer prosperidade e alegria a toda a Terra.

Quando Osíris cresceu, desposou a sua irmã, Ísis, costume que todos os faraós acolheram desde então.

Ora, de todos os filhos de Nut, Ísis era considerada a mais sábia. Era mais inteligente que um milhão de homens e o seu conhecimento incomparável. Ela conhecia tudo o que se encontrava ao cimo da Terra e debaixo do Céu, à excepção do nome secreto de Rá. Queria conhecê-lo, mas viu que só o poderia conseguir pela malícia.»

 

O empregado interrompeu-nos novamente, fazendo-me despertar quase que de um encantamento enquanto escutava esta história. Trazia com ele a comida que pousou na mesa. Servimo-nos em silêncio. Enchi o copo dela com vinho e em seguida o meu.

– Tens noção de que essa história é fascinante?

– Tenho. Sei que é. Como é qualquer outra que descreve a origem do mundo à luz de uma determinada cultura. Mas já reparaste que há pontos de contacto entre todas elas?

– Pontos de contacto? Como, por exemplo?

– Por exemplo «No princípio tudo era escuridão e nada mais existia senão uma vasta superfície de água…» e «E a Terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o espírito de Deus se movia sobre a face das águas», que encontras em «Génesis» 1:2.

– Sim, agora que falas nisso, o mito da criação tem sempre pontos de contacto…

– Pois tem, mas a melhor parte da história vem agora. Queres que continue?

– Pergunta-se a um cego se quer ver?

Ela riu com vontade. Começámos a comer e ela continuou.

 

«Rá envelhecia a cada dia que passava. Quando caminhava pelas terras do Egipto a sua cabeça abanava, a sua queixada tremia e babava-se profusamente como os mais velhos fazem. Quando a sua baba caía ao chão fazia lama. Foi esta lama que Ísis foi recolhendo e que amassou de maneira a fazer barro. Deu a esse barro a forma de uma serpente, fazendo assim a primeira Naja. A imagem do uraeus que adornou a partir daí as máscaras dos faraós é a representação dessa Naja.

Ísis escondeu a Naja no pó da estrada por onde Rá passava todos os dias, enquanto percorria os seus reinos do Alto e Baixo Egipto. Quando Rá passava, a Naja mordeu-o e desapareceu em seguida na relva. O veneno dela correu pelas veias de Rá e deixou-o mudo por algum tempo, à excepção do grito de dor que ele deu e que se ouviu por toda a Terra, de oriente a ocidente. Os deuses que o seguiam juntaram-se à volta dele e perguntavam «Que se passou? Que tendes?», mas ele não conseguia encontrar palavras para responder. Os seus lábios tremiam e ele sentia convulsões enquanto o veneno se espalhava pelo seu corpo, como o Nilo se espalha pelo Egipto nas inundações. Quando finalmente conseguiu falar, disse:

– Ajudai-me, vós a quem eu fiz. Algo me fez mal e eu não sei o que foi. Criei todas as coisas e, no entanto, esta não criei. É uma dor tal que nunca antes tive algo assim, e esta dor é igual a nenhuma outra. E, no entanto, quem poderia magoar-me? Ninguém sabe o meu nome secreto que me torna todo-poderoso e me guarda contra a magia de magos e bruxas. Apesar disso, enquanto passava pelas terras que criei e tanto acarinho, algo me mordeu. E é como fogo, mas não é fogo, é como água, mas não é água. Eu queimo e tremo enquanto os meus membros se agitam. Trazei pois diante de mim todos os deuses que tenham conhecimentos de magia e de cura e sabedoria que chegue até aos céus.

Vieram todos os deuses, e todos choravam e lamentavam o que tinha acontecido a Rá. Com eles veio Ísis, a que cura, a rainha da magia, a que respira o sopro da vida e sabe as palavras para dar vida aos que estão moribundos. E ela disse:

– Que se passou, pai divino? Uma cobra mordeu-te? Uma criatura da tua própria criação levantou a sua cabeça contra ti? Farei com que ela apareça com a minha magia, farei com que trema e caia perante a tua glória.

– Fazia a minha caminhada pelas duas terras do Egipto como sempre fiz – respondeu-lhe Rá –, pois queria contemplar toda a minha criação. E foi na caminhada que fui mordido por uma cobra que não vi, uma cobra que não foi criação minha. Agora queimo como se estivesse a arder e tremo como se água gélida passasse nas minhas veias, e o suor escorre na minha face como escorre nas faces dos homens nos dias mais quentes do Verão.

– Diz-me o teu nome secreto – disse-lhe Ísis, na sua mais doce e calmante voz. – Diz-me, pai divino, pois apenas dizendo o teu nome nos meus encantamentos poderei achar cura para ti.

Rá disse-lhe então os seus muitos nomes.

– Eu sou o criador do céu e da terra – disse. – Sou o construtor de montanhas. Sou a fonte de todas as águas. Sou a luz e a escuridão. Sou o criador do grande rio Egipto. Sou irmão do grande fogo no céu; sim, sou Khepera ao amanhecer, Rá ao meio-dia e Atum ao cair da noite.

Mas Ísis não pronunciou uma palavra e o veneno continuava a espalhar-se no corpo de Rá. Ela sabia que ele apenas lhe tinha dito nomes que os homens sabiam e que o seu nome secreto, o nome do poder, continuava escondido no seu coração. Por fim, acabou por dizer:

– Sabes bem que o nome de que preciso não é nenhum dos que pronunciaste. Tens de me dizer o nome que procuro para poder fazer o veneno sair e a dor acabar.

O veneno ardia nas veias de Rá com mais força que qualquer chama, e Rá gritou por fim:

– Que o meu nome secreto passe do meu coração para o coração de Ísis. Mas antes de passar jura-me que não o dirás a ninguém a não ser o teu filho primogénito e único que terás e que se chamará de Hórus. E farás com que ele jure primeiro que não o passará a mais ninguém de entre os deuses ou homens.

Ísis tomou o juramento e o nome do poder passou do coração de Rá para o seu. Então ela disse:

– Pelo nome que agora sei, que o veneno saia de Rá para sempre.

E o veneno saiu e Rá teve paz. Mas não podia voltar a reinar na Terra e, assim, retirou-se para o Céu onde continua a fazer a sua viagem durante o dia e continua à noite no submundo.

Foi nessa altura que Osíris se tornou governante do Egipto e reinou sobre a Terra como Rá tinha feito. Foi então que ele viu que o Homem continuava selvagem e bruto, lutando, matando e comendo a carne do seu semelhante. Mas Ísis descobriu o grão da cevada e do trigo que crescia selvagem entre as outras plantas, e que era ainda desconhecido do Homem, e Osíris ensinou o homem a plantá-la depois de o Nilo subir e descer deixando as terras férteis. Ensinou-os a colher e a guardar o grão e a transformá-lo em pão. Mostrou-lhes também como plantar vinhas e fazer vinho.

E quando o povo do Egipto aprendeu a fazer o pão e aprendeu a cortar a carne dos animas que ele lhes indicou como apropriados, Osíris deu-lhes leis para que pudessem viver em harmonia, deliciando-se com poesia e música. E logo que o Egipto se encheu de fartura e paz, Osíris partiu para fazer cair as suas bênçãos sobre outros povos. E quando se ausentava deixava o governo da Terra a Ísis, tarefa que ela desempenhava bem e com sabedoria.»

 

Fez-se silêncio. Os talheres estavam já postos de lado nos pratos que aguardavam ser levantados da mesa. Olhei para ela. Ela beberricou um gole de vinho. Pousou o copo e perguntou-me:

– Gostaste da história?

– Adorei. – Fiz uma pausa enquanto reflectia no que me tinha contado. Depois continuei: – O nome secreto de Deus? O nome que dá o poder ao todo-poderoso? O nome que ao ser proclamado te fez criar asas e sair do paraíso? O nome que te tornou mulher do faraó, aquela que descobre o grão no meio das plantas selvagens? Tu és Ísis, não és?

– Perspicaz. Sim, a lenda de Ísis tem a ver com a fundação do Egipto, o início da era em que os deuses começaram a governar depois de Rá ter voltado para o céu.

O empregado chegou e disse, já a levantar a mesa:

– Os senhores desejam mais alguma coisa? Sobremesas, cafés…?

– Por mim pode ser um café. Queres alguma coisa? – Perguntei a Lilith.

– Um café, também.

– Muito bem, com licença – disse o empregado, saindo em seguida.

– É uma lenda lindíssima, mas o que está por detrás dela?

– Bem, isso é algo que tenciono dizer-te a seguir ao café – afirmou com um sorriso.



quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Lilith - XVIII - Rá

– E onde é que queres ir almoçar? – Perguntei, enquanto começávamos a marcha lenta pela estrada pedregosa – Queres ir a Cascais?

– Não, sinto-me romântica. Vamos a Sintra.

– Seja. É tão longe para um lado como para o outro…

Três e dez da tarde. Tinha sérias dúvidas de que encontrássemos um restaurante com a cozinha aberta, mas também qualquer coisa seria um repasto memorável. A minha verdadeira fome era outra. Era cada vez mais uma fome de a desvendar, de saber quem ela é na realidade, de saber a sua história.

Olhei-a. Ela olhou para mim e sorriu. Pôs a sua mão por cima da minha, que descansava na alavanca das mudanças.

– Conta-me mais sobre ti. – Pedi-lhe.

– Estás curioso?

– Muito. Gostava de saber mais.

Ela olhou um pouco para o lado, em direcção ao mar, e só depois se virou para mim.

– Vou contar-te uma história. Queres?

– Claro.

– Então escuta.

 

«No princípio tudo era escuridão e nada mais existia senão uma vasta planície de água chamada Nun. O poder de Nun era tal que de lá surgiu uma esfera resplandecente que foi chamada de Rá.

Rá era todo-poderoso. O segredo do poder de Rá era o seu nome secreto. Mas se ele dissesse outros nomes, tudo o que nomeasse ganharia forma e existência.

E Rá disse “Eu sou Khepera ao amanhecer, Rá ao meio-dia e Atum ao cair da noite.” E o Sol subiu e atravessou o céu pela primeira vez, e foi o primeiro dia.

Foi então que ele disse o nome de Shu e os primeiros ventos sopraram. Disse o nome de Tefnut, o que cospe, e a primeira chuva caiu. Disse o nome de Geb e a terra apareceu. Disse o nome de Nut e ela apareceu como cúpula celeste, com os pés apoiados num horizonte e as mãos no outro. Disse o nome de Hapi e o grande Nilo fluiu e tornou o Egipto frutífero.

Rá foi nomeando todas as coisas e elas ganhavam existência. Por fim ele nomeou o Homem, e houve homem e mulheres na terra do Egipto.

Foi então que Rá assumiu a forma de homem tornando-se o primeiro faraó do Egipto. Regeu o país por milhares de anos e as colheitas foram sempre de tal forma generosas que daí em diante nunca foram esquecidas as coisas maravilhosas que se passaram no tempo de Rá.

Mas, estando na forma de um homem, Rá envelheceu, de tal ordem que chegou uma altura em que os homens já não o temiam ou obedeciam à sua lei. Riam-se dele e diziam – Olhem para Rá! Os seus ossos são como a prata, a carne como o ouro e os seus cabelos da cor da Lápis-lazúli!

Rá enfurecia-se ao ouvir isto, mas sentia-se ainda mais furioso ao saber o que os homens andavam a fazer, desobedecendo à sua lei. Convocou os deuses que tinha criado – Shu, Tefnut, Geb e Nut – e também Nun. Os deuses reuniram-se num local secreto, levando as deusas também, mas os homens desconheciam isto e continuavam a escarnecer de Rá e a desobedecer às suas ordens.

Rá dirigiu-se a Nun antes de qualquer outro dos Deuses:

– Nun, deus primordial, tu que me fizeste, e vós deuses que eu criei, olhem para o Homem que eu criei com um mero relance do meu olho. Vejam o que planeiam contra mim, ouçam o que dizem de mim e digam-me o que deveria fazer-lhes, pois eu não os destruirei até vos ouvir.

Então Nun disse:

– Meu filho Rá, o deus maior e mais poderoso, põe o teu olho neles e envia-lhes a destruição na forma da tua filha, a deusa Sekhmet.

Rá respondeu:

– Neste mesmo momento o medo cai sobre eles e eles correm pelo deserto e escondem-se nas montanhas aterrorizados com o som da minha voz.

– Envie sobre eles o seu Olho na forma de Sekhmet! – Imploraram todos os deuses e deusas enquanto se curvavam à sua frente até as suas testas tocarem o chão.

Então, ao relance do olho de Rá a sua filha ganhou substância, a mais feroz de todas as deusas. Caiu como um leão sobre a presa, deleitou-se na matança e o seu prazer estava no sangue. A um pedido de Rá ela foi pelo alto e baixo Egipto para matar os que tinham zombado e desobedecido. Matou-os nas montanhas, nos vales e no deserto. Tudo o que via matava deleitando-se na matança e no gosto de sangue.

Então Rá viu o que Sekhmet tinha feito. Chamou-a enquanto lhe dizia:

– Vem, minha filha. Diz-me como obedeceste às minhas ordens.

E Sekhmet respondeu com a voz terrível de uma leoa que rasga a presa:

– Pela vida que me deste, fiz cair a tua vingança no homem e o meu coração rejubila.

Durante muitas noites o Nilo correu vermelho com o sangue, e ela prosseguiu matando por toda a Terra.

Rá via o que Sekhmet fazia, mas o seu coração encheu-se de piedade para com o Homem, embora este se tivesse virado contra ele. Mas ninguém poderia parar Sekhmet, nem mesmo Rá. Ela teria que parar por vontade própria. E Rá viu que isto só poderia ocorrer com astúcia.

Então ele deu a ordem:

– Tragam-me mensageiros rápidos que corram tão silenciosamente quanto sombras na terra e com a velocidade dos ventos das tempestades.

Quando lhos trouxeram disse-lhes:

– Vão, tão rápido quanto possam, subam o Nilo até onde este corre ferozmente acima das pedras e entre as ilhas da primeira catarata encontrem uma ilha chamada Elefantina. Tragam-me a grande porção de ocre vermelho que aí armazenei.

Os mensageiros foram e trouxeram o ocre vermelho sangue para Heliópolis, a cidade de Rá, onde estavam erigidos obeliscos com pontas de ouro, que eram como dedos apontados ao Sol. Era de noite quando chegaram à cidade, mas durante todo o dia as mulheres tinham estado a fermentar cerveja, tal como Rá lhes tinha pedido.

 Rá foi até onde a cerveja o esperava em sete mil jarros, e os deuses foram com ele para ver como a sabedoria de Rá salvaria a humanidade.

– Misturem o ocre vermelho de Elefantina com a cerveja – disse Rá.

Assim foi feito e a cerveja brilhava como o sangue do Homem ao luar.

– Agora levem tudo para o sítio onde Sekhmet se propõe matar quando o sol nascer.

E, enquanto era ainda noite, os sete mil jarros foram levados e despejados pelos campos, fazendo com que o chão ficasse coberto até uma altura de três palmos de homem com esta cerveja forte a que chamavam «a fazedora de sono».

Quando o dia chegou, veio também Sekhmet a lamber os lábios com o pensamento nos homens que iria matar. Encontrou o sítio alagado e sem vivalma à vista. Mas viu a cerveja, que era da cor do sangue, e pensou ser sangue de facto, sangue daqueles a quem tinha tirado a vida.

Riu-se com alegria, e o seu riso foi como o rugido de uma leoa com fome de matança. Pensando tratar-se de sangue, ela parou e bebeu. Ria-se com alegria e bebia. A força da cerveja subiu-lhe à cabeça e ela não conseguiu prosseguir com a matança.

Voltou cambaleante para junto de Rá. Nesse dia não tinha tomado a vida de um único homem.

E Rá disse-lhe.

– Vens em paz hoje, minha doce filha.

E o seu nome mudou para Hator e a sua natureza também, para a doçura do amor e a força do desejo. E doravante Hator apenas fazia cair o Homem com o grande poder do amor.»

 

– Desculpa interromper-te, mas chegámos.

Ela olhou-me e sorriu.

Saímos do carro estacionado tão perto quanto possível do centro de Sintra e caminhámos um pouco, em busca de um restaurante.

– Essa história é absolutamente fascinante.

– Conhecias?

– Não, não conhecia. Tinha visto uma ou outra menção a esses deuses enquanto procurava coisas acerca de ti, e já tinha ouvido falar na maior parte deles, mas não conhecia a história. Mas diz-me, afinal, quem és tu no meio disso tudo?

Ela riu com uma gargalhada sonora.

– Meu querido, eu ainda cá não estou. Conto-te isto tudo para te pôr dentro do contexto. Contar-te a minha história sem o resto deixava-te em suspenso.

– Compreendo. Podes continuar…

– E vou continuar, depois de entrarmos num restaurante e pedirmos o almoço.

Entrámos no primeiro que apareceu, sentámo-nos a uma mesa. O empregado veio solícito.

– Podia trazer-nos a ementa, por favor?

O empregado olhou com algum embaraço.

– Queiram desculpar, mas a cozinha já está fechada…

Olhei para ela e ela piscou-me o olho. Depois olhou para o empregado, com aqueles olhos azuis, de forma carregada, sorriu e disse‑lhe num tom de voz capaz de derreter aço:

– É pena. Tem a certeza de que não consegue mesmo arranjar nada?

O empregado ruborizou e quase que podia jurar que os seus joelhos fraquejaram.

– Vou ver, Senhora. Tenho a certeza de que se arranjará algo do vosso agrado.

E com isto saiu em direcção à cozinha. Olhei-a com o sobrolho levantado e com um sorriso malicioso.

– Porque é que fizeste isso ao pobre homem?

– Porque estou com fome, e apetece-me estar aqui.

– E não achas errado fazer isso?

– Sinceramente, acharia, se não lhe fosse pagar a refeição no fim, mas como tenciono pagar não vejo nada de mal. Ele pura e simplesmente vai fazer aquilo que devia fazer com todos os clientes. Esforçar-se.

Ela tinha razão. De facto, dizer «Já não servimos almoços a esta hora», sem mais nada, é apenas uma maneira de descartar trabalho. Quanto muito deveria haver um «neste momento a cozinha já está fechada, mas vou ver o que se pode arranjar» e voltar com opções. Se elas depois seriam aceites pelo cliente ou não já seria outra coisa.

O empregado voltou.

– Os senhores desculpem – disse –, mas a cozinha já fechou mesmo. No entanto consigo-vos um prego no prato, ou um bitoque, se o desejarem.

Olhei para ela, que acenou em acordo. Dirigi-me ao empregado.

– Então para mim pode ser um prego no prato. E tu, querida?

– Pode ser a mesma coisa.

– E o que vão desejar para beber?

Ela olhou para mim.

– Fazes-me companhia num vinho tinto? – Perguntou.

– Até faço, mas só um copito, que ainda vamos andar por ai a conduzir. Uma garrafa pequena?

– Sim, é isso – concordou ela. – Traga uma garrafa de vinho pequena.

– Com certeza – disse o empregado, retirando-se de imediato.

– Vês – disse ela –, com boa vontade tudo se resolve.

– É verdade – respondi eu.

Só tinha pena de que, na verdade, a boa vontade não viesse do facto de querer agradar a um cliente qualquer, fosse quem fosse que entrasse, mas sim a ela, por motivos que me eram óbvios neste momento. Mas isso era, realmente, problema do próprio estabelecimento.

– Mas olha, queres continuar a história? – Perguntei.

– Estás mesmo assim tão curioso?

– Mesmo…

– Estou a ver. Onde é que eu ia?

– Contavas como Rá tinha salvado a humanidade de Sekhmet e que esta se transformou em Hator, a deusa do amor.

– Ah! Sim. Estavas atento…

– Claro!

– Bem, foi então assim que Rá salvou a humanidade, e continuou a governar, embora fosse já bastante velho. Mas aproximava-se o tempo em que ele teria de se retirar para reinar nos céus para sempre, deixando deuses mais jovens no seu lugar. Enquanto se debatia na sua forma humana, na forma de faraó do Egipto, a idade começava a fazê-lo perder a sabedoria. Mas ninguém conseguia disputar o seu poder, visto que este vinha do seu nome secreto, que mais ninguém sabia a não ser ele próprio. Se alguém o descobrisse, ele não poderia governar mais na Terra. Claro que isto seria apenas possível por artes mágicas…

O empregado chegou com o vinho, interrompendo-nos.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Lilith - XVII - Porquê?

Não sei o que se passou em seguida ao certo, nem quanto tempo estivemos ali. Só sei que me senti a acordar, embora não me parecesse que tivesse adormecido. Em cima do meu peito, ela, deitada, acariciava-me e olhava-me com os mesmos olhos repletos de ternura onde me perdera. A minha cabeça e o meu corpo continuavam a explodir em sensações que, se eram por um lado extremamente poderosas, capazes de mudar a maneira como eu via o mundo, não deixavam de ser calmas e doces.

Senti um toque de intemporalidade, percebi de uma assentada o que me tinha dito acerca de Deus, do bem e do mal.

Ela sorriu.

Não havia necessidade de palavras para nos expressarmos, a nossa troca de olhares dizia tudo. Pela primeira vez na minha vida não me sentia só, e sabia, tinha a certeza de que nunca mais me sentiria só.

Ela tocou-me os lábios com a ponta do indicador, como que para me chamar a atenção.

– Temos de ir…

Acenei com a cabeça em assentimento.

Ela levantou-se e eu levantei-me em seguida, sacudimos a areia ainda agarrada ao corpo, e vestimos as nossas roupas.

Olhei para o relógio. Duas e quarenta e sete da tarde.

Voltámos ao carro. Enquanto subíamos sentia-me não como se andasse, mas como se de alguma forma flutuasse, como se não tivesse peso. Ao chegar ao pé do carro olhei para a vastidão do mar e as cores de alguma maneira pareciam diferentes, mais luminosas, com pormenores mais nítidos, mais definidos. Era como se sempre tivesse visto a vida e o mundo através de uns óculos escuros com lentes reles e de repente mos tirassem da frente e revelassem as verdadeiras cores.

Sentámo-nos no carro. Fiquei ainda uns momentos a reflectir em tudo isto, nos dias desde que a conhecera, na sequência de acontecimentos até chegar ali. Não contive a pergunta.

– Porquê?

Ela olhou para mim com uma expressão séria. Media as palavras que me ia dizer em seguida.

– Há coisas que se conseguem controlar com facilidade. Mais do que aparentemente julgamos. Há outras que não.

– Sim, é verdade.

– Na Natureza tudo são fluxos de energia. Todas as energias se influenciam umas às outras, por vezes de formas imperceptíveis. No entanto, embora não nos apercebamos delas, intuímo-las. Precisamos de as intuir enquanto animais que somos, a evolução levou-nos para isso. Compreendes este conceito?

– Sim, não é muito difícil de perceber. É um conceito muito «oriental». O yin e o yang…

– Mais ou menos isso. A questão é que quando compreendes este conceito na totalidade e aprendes a influenciá-lo tens uma chave na mão para a consciência dos que te rodeiam. Perguntaste-me várias vezes porque é que não te sentias atraído por mim, e que isso te confundia, não foi?

– Sim, e para te ser franco, ainda me confunde. Não consigo compreender o porquê.

– O porquê não está em ti. Está em mim. Se eu consigo reconhecer a energia que emanas e consigo controlar a minha, consigo controlar os teus instintos mais básicos em relação a mim. Tão depressa consigo fazer com que estejas completamente indiferente à minha presença, como no momentos a seguir fazer-te sentir um desejo e uma paixão incontroladas. Isto é, consigo controlar a tua parte animal.

– Compreendo. Daí estares ao meu lado e eu ser incapaz de sentir algo por ti.

– Não é bem assim. Na verdade sentes, mas o que sentes não vem da tua parte animal.

– Que é que queres dizer com isso?

– Quero dizer que no meio de tudo existem sentimentos teus por mim. São é muito mais elevados. Não se relacionam apenas com desejo, com paixão, com química ou seja com o que for. Há uma necessidade de estar, de proteger, de compreender. Não há?

Ficámos em silêncio enquanto reflectia sobre isto. Enquanto procurava em mim o que na verdade estava lá em relação a ela.

– Sim, acho que tens razão. Começou com um fascínio por ti, pela maneira como te apresentaste, pela maneira como estás, mas à medida que te foste revelando é também uma necessidade de te sentir perto, uma vontade de te proteger, de te conhecer mais e mais, de te entender, por mais difícil que isso se me afigure. Gosto da tua companhia, gosto que estejas presente e sinto uma empatia tão grande contigo, que quando estás triste não consigo controlar o facto de te querer confortar.

– Mas não deixa de ser um sentimento calmo, não é?

– Muito calmo, sem pressas, sem que precise de nada para mim.

– Completamente altruísta?

– Sim, acredita. Acho que nem preciso que me reconheças esse sentimento. Ele apenas está ali e faz parte de mim e da maneira como te vejo. Não está dependente de nada que venha de ti. É, pura e simplesmente.

– E reconheces esse sentimento, Miguel?

A pergunta apanhou-me desprevenido. Na verdade não o reconhecia. Afecto? Sim, mas não só. Carinho? Por completo. Mas era sobretudo uma vontade de apreendê-la, conhecê-la, de chegar a ela, de me dar a conhecer, de retirar todas as defesas, mesmo contra o que o meu bom senso me dizia, e mostrar-lhe tudo o que sou, sem segredos, sem recantos obscuros. E aos poucos o reconhecimento veio até mim.

– Eu amo-te – disse, sem qualquer intensidade na voz que a tentasse convencer disso – de uma forma completamente desapaixonada.

– O que não impede que sintas a paixão. Sabes, como posso suprimir sensações por mim, também as consigo amplificar. Mas no teu caso, quando deixei de as suprimir também não fiz nada por amplificá-las.

– E ainda assim acho que nunca senti tanta paixão e desejo por uma mulher.

Ela sorriu. Inclinou-se para mim, beijou-me, docemente, e perguntou em seguida:

– E se fôssemos almoçar?



Lilith - XVI - Toque de Deusa

Uma festa suave no rosto, quase sem tocar. Entreabro um olho a custo.

Nove e vinte da manhã, diz o relógio na mesa-de-cabeceira. Ao lado, ela.

– Bom dia, dorminhoco. Vamos dar um passeio?

– Mas tu não dormes?

– Nem sempre. Só quando me apetece.

– E não te apetece agora? Mais dez minutos ou assim?

– Não, apetece-me ir passear. Deixa de ser rezingão e acorda. O pequeno-almoço está feito. Eu vou-me vestir enquanto tu te vestes, comemos e saímos a seguir.

Sendo perfeitamente sincero não me apetecia nem um bocadinho, por mais pequeno que o bocadinho fosse. Mas lá me levantei, fui à casa de banho, vesti qualquer coisa meio ao calhas e fui para a cozinha.

– Vai comendo que eu já aí vou ter… – ouvi-a a gritar do quarto.

Fui comendo. Não me apetecia responder. Aliás, normalmente até tomar o café nem me apetece estar acordado, quanto mais falar. Liguei a televisão e fiquei a ver os noticiários da manhã, com o cérebro semi-adormecido a passar pelas catástrofes do costume como se estivesse a ver um filme série B, daqueles bem reles. Ocorreu-me que na maior parte das vezes a realidade não passa disso mesmo. Um filme reles, e quem escreveu o argumento não tinha a mínima ideia de como fazer uma história como deve ser. Teriam de ser os historiadores a posteriori a tentar fazer com que o argumento fosse interessante, quais montadores numa sala escura qualquer procurar sentido numa carradas de bobines de filme sem jeito nenhum.

O que diria a história no futuro acerca desta época? Haveria heróis? E seriam eles os que glorificamos agora, ou a justiça seria reposta dando o papel de destaque a figuras de quem nunca ouvimos falar, como os médicos que andam em África no meio de guerras raciais e de etnias a tentar desesperadamente salvar as vidas que o próprio povo de lá não tem a mínima hesitação em ceifar? Ou iríamos idolatrar idiotas completos que tiveram na sua mão fazer tudo e não fizeram absolutamente nada?

O mal de ainda não ter tomado café era este. Ficava um bocado ácido em relação ao mundo que me rodeava, mas sabia perfeitamente que a cafeína ia tratar de repor as minhas ideias na ordem normal. Um golinho de café quente e a ordem foi reposta.

Ela entrou na cozinha quando eu estava já a acabar o café.

– Vais com essa roupa?

– Vou…

– Não, não vais, vais vestir qualquer coisa mais decente.

– Mas nós casamo-nos e eu não dei por isso?

Ela olhou para mim e levantou o sobrolho.

– Olha lá, achas que eu quero andar na rua com um gajo que quer rivalizar com os arrumadores, ou é essa a tua estratégia para arranjarmos dinheiro para o almoço?

Desta vez fui eu quem franziu o sobrolho. Respirei fundo, levantei-me preguiçosamente e dirigi-me ao quarto.

– Não queres escolher tu a minha roupa, não? – Perguntei-lhe.

– Não, tu já és grandinho. Mas despacha-te, senão a manhã já era.

Lá escolhi outra coisa mais apresentável, vesti-me num ápice, e quando me dei conta estávamos já no carro.

– E vamos para onde? Já agora, presumo que tenhas um destino qualquer…

– Vamos para Cascais. Mas olha, vamos em passeio, vai indo pela marginal, tá bem?

– Mas claro – disse eu com um tom algo irónico. – Os teus desejos são ordens.

Seguimos pela marginal, comigo em silêncio e ela apenas a observar o mar e a cantarolar as músicas que iam passando na rádio. Fizemos a viagem de forma lenta, sem pressas. À entrada de Cascais ela disse-me:

– Continua em direcção ao Guincho, se não te importas…

Eu continuei. Deixámos Cascais para trás, fomos seguindo pela estrada sempre a ver os rochedos a serem fustigados com violência por um mar forte, naquilo que era um espectáculo sempre belo. Gostava de ver o mar assim, a mostrar a sua força, a diminuir-nos perante a sua majestade e imensidão.

Chegámos à zona da praia.

– Queres que estacione?

– Não, segue. Continua como se fosses para Sintra.

Assim que fizemos uma curva, ela chamou-me à atenção.

– Vês aquela entrada? Segue por ali.

Virei para o caminho que me indicou. Embora a entrada fosse em alcatrão depressa a estrada se tornou um pesadelo de terra batida cravada de pedras quase digna de um rali Dakar e onde era praticamente impossível dois carros passarem um pelo outro.

– Sabes escolher bem os caminhos.

– Sem esforço não há recompensa, meu querido – disse ela, rindo‑se com vontade em seguida.

Ao fim daquilo que me pareceu uma eternidade com o carro em primeira velocidade ao ralenti, a estrada lá abriu num espaço amplo sobre uma falésia onde o mundo parecia acabar abruptamente. Onde a estrada acabava e se abria esse espaço enorme estava uma casa, aparentemente um restaurante, mas fechado. Mesmo à beira da falésia havia um muro de pedra com um aspecto antigo e um casebre de pedra também, aparentemente abandonado.

Parei o carro perto do casebre. A zona estava completamente deserta. Saímos e veio o vento típico daquela zona a enregelar-me a ponta do nariz. Fiquei a contemplar a imensidão e a ouvir o mar a esmagar-se nas rochas ao fundo da falésia. Para a esquerda tinha toda a vista através do Guincho até à baía de cascais. Atrás de mim começava a serra de Sintra e à minha direita, ali tão perto, distinguia o cabo da Roca.

À minha frente nada mais do que mar.

– Anda… – disse-me ela dando-me a mão para que eu a acompanhasse.

As roupas dela, leves como sempre, esvoaçavam livres ao sabor do vento algo intenso que se sentia, mas como sempre ela não parecia importar-se com isso, nem estava incomodada.

Levou-me pela mão através de um carreiro que descia em direcção a um pequeníssimo vale ao longo das paredes inclinadas do mesmo. O vento deixou de nos fustigar, protegidos como estávamos.

De repente, para alguma surpresa minha, aparece uma baía onde o mar não está tão violento porque as próprias rochas à entrada da mesma quebram a sua impetuosidade, e onde havia uma pequena praia de areia fina salpicada de rochas. Um sítio absolutamente idílico e protegido do vento que, Verão ou Inverno, havia naquela zona. O sol estava alto, pelo que até a temperatura ali estava amena.

Ela tirou as roupas por completo, ficando nua ao meu lado, como já a tinha visto fazer antes à beira-mar. Depois olhou para mim, e com um sorriso matreiro e o sobrolho levantado aproximou-se, agarrando-me pelo cinto das calças.

Uma a uma foi removendo a minha roupa, até me deixar nu à sua frente.

– Sentes frio? – Perguntou.

– Não, a temperatura aqui até está amena, mesmo.

– Então anda.

Agarrou-me novamente pela mão e levou-me até à água. A ideia de entrar na água em Novembro estava-me a fazer sofrer por antecipação, mas ao chegar lá descobri que afinal não havia um choque térmico assim tão grande. Pelo contrário, a água parecia até mais quente que a temperatura exterior.

Levou-me pela água adentro até esta nos dar um pouco acima da cintura.

– Mergulha – instigou-me. – Experimenta.

Mergulhei.

A água não estava tão forte que puxasse, mas também não estava calma e obrigava-me a dar alguma luta, mas ao mesmo tempo sabia-me bem a envolvência. E de repente percebi o porquê. Senti‑me vivo, livre, ali ao lado dela, longe dos olhares do mundo, da moral e dos bons costumes, apenas eu e ela, ali, de mãos dadas.

Voltei à tona com uma sensação de liberdade para encontrar os olhos dela com uma expressão de felicidade enorme.

– Queres sentir? – Perguntou-me. Não sabia o quê, nem porquê, mas limitei-me a confiar, olhá-la nos olhos e dizer:

– Sim!

E com isto uma onda de sensações varreu-me por completo e experimentei um turbilhão de sentimentos que me pareciam ter sido negados, e olhei-a com paixão e as suas formas nuas e lindas inspiraram-me desejo. O meu corpo reagiu de imediato, fazendo‑me sentir uma excitação quase incontrolável que subiu ainda mais de tom quando ela colou o seu corpo ao meu.

Eu estava ali, como que inerte, num estado de felicidade pura que nunca ousara viver, enquanto sentia os seus lábios a colarem-se aos meus, ela a envolver-me e eu a envolvê-la também. Todo o meu corpo se abandonou à vontade de a amar.

Deitámo-nos na areia molhada onde éramos lambidos pela água que ainda nos chegava, colámos a boca e os corpos, e apesar da urgência que sentia dela, o tempo parecia mover-se devagar à nossa volta, instigando uma calma que me fazia, nos fazia lânguidos.

Os meus sentidos encheram-se dela, o toque suave da sua pele quase eléctrico, os beijos carregados de sensações únicas. Então, ela empurrou-me para ficar de costas no chão, e de uma única vez deslizou em mim, e a sensação de a ter foi algo tão único que me limitei a fechar os olhos e a senti-la, a sentir-me dentro dela, numa comunhão de sentidos. Ela ficou assim, parada, a fazer que eu a sentisse, apenas com um leve ondular de ancas.

As minhas mãos percorriam o seu corpo até ao peito e desciam depois pelo seu lado, pelas suas ancas, pelas suas pernas e voltavam a subir. Nunca tinha sentido uma mulher assim, sem que houvesse o mínimo sentimento de urgência, sem que houvesse procura. Não havia tempo, por isso tínhamos todo o tempo. Não procurávamos nada, por isso não sentíamos a urgência de ir ao encontro de algo. Estávamos apenas ali, nós completos, fazendo com que a palavra «nós» se tornasse absurda. Apenas havia eu.

E quando cheguei a esse ponto, alguma coisa em mim pareceu querer desprender-se dela. Era algo que sempre sentira mas que só com ela, agora, se tornava evidente. Ela inclinou-se para a frente, pondo as mãos acima dos meus ombros e quando abri os olhos vi-a a olhar directamente para os meus.

– Fica comigo, Miguel.

Olhei-a nos olhos, bem fundo. Queria desvanecer aquela sensação de separação. Os olhos dela deixaram-me entrar na sua alma. Sem tirar os olhos dos meus, senti o seu corpo balouçar devagar fazendo-me entrar e sair dela, com uma calma absoluta.

– Fica comigo…

Sem eu tirar os olhos dela senti-me preso nela, deixando desvanecer a sensação da separação e soube pela primeira vez na vida o que é estar unido de corpo e alma a outro ser.

Com os olhos nos olhos um do outro chegámos a um orgasmo que me mostrou a verdade da união entre dois seres e fez o universo fazer sentido por uma vez.

Senti o seu corpo desfalecer sobre o meu enquanto regressava a mim e abracei-a. E qualquer dúvida sobre quem ela era se dissipou em mim. Tinha sido tocado por uma deusa e não podia voltar a ser o mesmo.

Não queria nunca mais perdê-la.

Queria que o tempo parasse.

Não queria sair dali…