Não há aqui absolutamente nada que valha a pena. Nem sequer o autor. O Autor desresponsabiliza-se por quaisquer danos psíquicos que a leitura disto possa causar.
terça-feira, 23 de setembro de 2025
Depois do Inferno Verde - Capítulo 26
Os jantares com a
Laura tornaram-se algo recorrente, fruto sobretudo do extremo cansaço que Óscar
ainda sentia. Embora continuasse frio com ela, a verdade é que a fúria que
conteve em si durante os primeiros dias — temperada apenas pela energia da
viagem — parecia então tê-lo mantido erguido, como se o corpo se recusasse a
ceder. Agora, esvaziada essa ira, o peso caiu-lhe inteiro sobre o peito, e o
coração, sem mais barreiras, acusava todas as pancadas do que tinha acontecido.
Carregava em silêncio
aquilo que ninguém sabia. Os pensamentos que lhe ocuparam a mente enquanto
atravessava Espanha, no dia seguinte à conversa. O quanto se sentira perdido. O
quanto a vida lhe parecia subitamente uma engrenagem sem sentido, uma marcha
contínua para lado nenhum. A sensação de insignificância a esmagar-lhe os
ossos.
Recordava-se bem da
tentação. A estrada estreita a serpentear pelas encostas dos Pirenéus, o vento
a bater-lhe nos vidros, a música do motor a ecoar como um coração em fúria. O
carro colado ao asfalto, as falésias a centímetros, o abismo sempre ali,
constante, a acompanhá-lo como um convite silencioso. Bastava um gesto. Uma
leve pressão nos dedos, um meio desvio no volante, e tudo seria engolido pelo
vazio.
E a ideia crescia,
insistente, quase sedutora. O Corvette C8 lançado no ar, o corpo a flutuar por
um instante antes do impacto final. Um caixão de metal e fogo, digno, absoluto.
A vida inteira resumida a um último estoiro contra as rochas, longe de tudo e
de todos.
O pensamento
martelava, repetia-se, tornava-se quase um refrão na sua cabeça: um só
movimento e o silêncio chega. Um só gesto e deixaria de haver dor,
desilusões, traições. Só o vento, o precipício e a queda.
E era essa clareza,
esse raciocínio quase matemático — tão simples, tão imediato — que lhe gelava
mais a alma. Porque no meio do caos, havia algo de aterradoramente lógico
naquela saída.
Sentado à mesa do
jantar, Óscar deixou-se ficar em silêncio, o garfo pousado a meio caminho do
prato. Observava Benedita, curvada sobre o telemóvel, a falar com Clara. O
entusiasmo dela ao explicar as dúvidas de uma matéria qualquer misturava-se com
a paciência de Clara do outro lado da linha, a responder-lhe ponto por ponto.
E nesse instante, a
memória assaltou-o. A imagem dela, sozinha, no meio da estrada, como um sinal
inesperado a atravessar-lhe o caminho. Recordou o modo como, sem ele perceber
bem como, a simples presença daquela jovem tinha silenciado todas as vozes que
o empurravam para o abismo. Como a responsabilidade de cuidar dela lhe dera um
propósito, um sentido, quando tudo nele gritava que já não havia nenhum.
Talvez, pensava agora,
não tivesse sido ele a salvar Benedita, mas Benedita a salvá-lo a ele.
Enquanto a via ali,
concentrada, determinada, parte de uma vida que não lhe pertencia mas que de
repente parecia tê-lo acolhido, sentiu uma estranha paz. A sua família quebrada
tinha aberto espaço para ela sem reservas, sem hesitações. Nunca duvidara que
assim fosse.
Sabia que a sua mulher
e a sua filha eram excelentes pessoas. Sempre tinham sido.
Só não tinham sido
excelentes pessoas para ele.
Esse pensamento
repetia-se-lhe como uma lâmina fria a atravessar o peito. Não porque duvidasse
da bondade delas, mas porque essa bondade parecia sempre dirigida aos outros,
como se fosse um reflexo que nunca o alcançava. Com os amigos, eram prestáveis.
Com conhecidos, generosas. Com estranhos, atenciosas. Mas com ele... com ele
tinham sido capazes de o trair naquilo que mais importava: o respeito, a
verdade, a integridade do lar que deviam partilhar.
Era isso que doía
mais: não se tratava de uma falha momentânea, um deslize irrefletido. Não.
Tratara-se de uma escolha deliberada, um pacto feito nas suas costas, com a
calma de quem julga estar a proteger e, no entanto, fere mais fundo do que
qualquer inimigo.
Por vezes,
perguntava-se se ele não passava de uma exceção cruel nesse círculo de bondade
delas. Se, na equação secreta da vida que levavam, ele era o único a quem não
se aplicavam aquelas virtudes tão elogiadas por todos. Como se a dedicação, o
amor e a lealdade fossem recursos infinitos para distribuir ao mundo — menos a
ele, que fora deixado na sombra.
Essa verdade não lhe
saía da mente. Podia disfarçar à mesa, podia sorrir de leve ao ver Benedita,
mas dentro de si permanecia a constatação: eram excelentes pessoas, sim. Apenas
não tinham escolhido sê-lo para com ele.
Ainda assim, Óscar
sentia-se agradecido. Agradecido a Laura e a Clara, pela forma como tinham
recebido Benedita, como a tinham integrado sem reservas numa casa já tão
marcada pelas fissuras da sua própria história. Podia nunca mais olhar para
ambas da mesma forma, podia carregar o desgosto e a desconfiança até ao fim dos
seus dias — mas não era cego ao que faziam pela rapariga. E isso, no meio de
tudo, era algo que lhe aquecia um recanto do peito que pensava morto.
Foi então que a voz de
Laura o arrancou das suas reflexões.
— Óscar… amanhã a
Clara e o Daniel vêm cá jantar… — hesitou, os olhos pousados nele com uma
cautela que não passava despercebida. — …e queria saber se também vens.
Ele permaneceu alguns
instantes em silêncio. O instinto imediato foi recusar, a recusa quase lhe
subiu aos lábios por reflexo, mas conteve-a. Respirou fundo, desviou o olhar
para Benedita que, entretida com o caderno ao lado do prato, rabiscava notas
como se o mundo à volta não existisse. E, nesse instante, percebeu que a vida exigia
dele mais do que o seu próprio orgulho.
— Está bem — respondeu
por fim, seco, mas firme.
O jantar do dia
seguinte decorreu sob uma tensão palpável.
A mesa estava posta
com cuidado, mas ninguém parecia verdadeiramente relaxado. O ambiente era uma
corda demasiado esticada, rangendo sob a pressão de todos os silêncios e
olhares evitados, pronta a quebrar ao menor gesto em falso.
Clara esforçava-se por
sorrir, Daniel mantinha uma postura reservada, Laura movia-se pela sala quase
como uma anfitriã envergonhada. Óscar, sentado, observava todos com a calma
fria de quem não tem pressa de falar.
Apenas Benedita
conseguia, aqui e ali, quebrar a rigidez.
Com perguntas
inocentes sobre a escola, pequenas histórias do seu dia ou até comentários
ingénuos sobre a comida, a jovem fazia com que, por instantes, o ar se tornasse
respirável. As suas palavras caíam como notas soltas de música num salão onde
todos, por dentro, se debatiam com pensamentos demasiado pesados para
partilhar.
Depois do jantar e do
café, a sala começou a esvaziar-se lentamente. As vozes foram dando lugar a
silêncios espaçados, até que Óscar, aproveitando a noite amena, decidiu
retirar-se para a varanda das traseiras. Levava na mão um copo de whisky, o
âmbar a brilhar sob a lua.
Sentou-se diante da
paisagem. O Cávado corria abaixo, o luar reflectia-se na superfície tranquila
do rio, como se uma estrada líquida de prata cortasse a escuridão. Os montes
cobertos de videiras erguiam-se em sombras ordenadas, linhas de cultivo que se
perdiam no horizonte. Aqui e ali, pontos de luz fixos denunciavam casas,
pequenas vidas em silêncio; outros em movimento, faróis que riscavam as
estradas serpenteantes, lembrando-lhe a permanência do mundo, indiferente às
dores individuais. Inspirou fundo e deixou-se ficar, tentando que o whisky lhe
aquietasse os músculos ainda tensos.
Ouviu passos atrás de
si. Virou ligeiramente a cabeça e viu Daniel, também com um copo na mão.
— Posso fazer-te
companhia? — perguntou o genro, a voz baixa, respeitosa.
Óscar não respondeu de
imediato. Limitou-se a levantar a mão e apontar para a cadeira ao lado. Daniel
acenou e sentou-se, e durante longos minutos nada mais houve senão silêncio.
Apenas o som distante da água contra as margens e o ocasional ruído de um carro
a passar.
Foi Daniel quem, ao
fim de alguns goles, se mexeu primeiro. Respirou fundo, pousou o olhar no rio e
disse:
— Desculpa, Óscar.
O dono da casa
voltou-se para ele, erguendo uma sobrancelha, surpreendido. Não disse nada,
apenas aguardou.
— Fui estúpido… —
continuou Daniel. — Deixei-me ir atrás de uma lógica distorcida, sem pensar bem
nas implicações, sem perceber até onde isso nos podia levar.
Óscar inclinou-se para
trás na cadeira, medindo-o em silêncio. Depois, num tom neutro, perguntou:
— E como é que estão
as coisas contigo e a Clara?
Daniel passou a mão
livre pela barba curta, pensativo.
— Tivemos uma
conversa… dura, mas necessária. — Fez uma pausa. — Pela primeira vez desde que
isto começou, senti que ela está realmente a perceber o que fez. Não só as
intenções que teve, mas as consequências. Admitiu que estava errada… que te
traiu, não pelo que aconteceu fisicamente, mas por te ter retirado a escolha,
por te ter posto de parte.
Bebeu mais um gole
antes de prosseguir:
— Disse-me que sabe
que foi ela quem colocou esta pedra gigante no nosso caminho… mas que faria
tudo para a remover. E não prometeu voltar ao que era antes — até porque não dá
para voltar — mas sim construir algo novo, melhor, sobre o que aprendemos.
Daniel calou-se um
instante, como se ainda estivesse a digerir as palavras que partilhava. Depois,
acrescentou:
— Pedi-lhe apenas uma
coisa: lealdade e sinceridade. Sempre. Que os problemas de um sejam dos dois,
sem esconder, sem fingir.
A noite voltou a pesar
em silêncio entre eles, densa mas de alguma forma mais clara.
Óscar rodou lentamente
o copo entre os dedos, deixando o silêncio prolongar-se antes de falar:
— E diz-me… sentes que
a Clara está a ser sincera contigo?
Daniel respirou fundo,
mantendo o olhar no rio.
— Acho que sim… mas ao
mesmo tempo sinto que ela está numa luta interna. E como é que eu algum dia
poderei ter a certeza absoluta?
Óscar fitou-o, sério,
a voz grave mas sem agressividade:
— Isso é a fé. A fé
não é só para Deus… ou para qualquer deus. Também é para aqueles que temos à
nossa volta. — Fez uma pausa curta, quase solene. — Tens fé na Clara?
Daniel hesitou. O
silêncio pareceu pesar mais do que antes. Finalmente, ergueu ligeiramente os
ombros e respondeu num tom baixo:
— Sim.
Óscar estreitou os
olhos.
— E achas que essa fé
é justificada?
Daniel demorou ainda
mais tempo a responder, como se pesasse cada palavra. Por fim, disse:
— Sinto que sim.
Óscar acenou devagar,
pousando o copo sobre a mesa de ferro da varanda.
— Espero sinceramente
que consigam resolver tudo o que há para resolver. E seguir em frente.
Manteve o ar sério com
que estivera a noite inteira, mas um traço quase imperceptível de humanidade
atravessou-lhe o olhar quando acrescentou:
— Apesar de seres um
bocado bronco… até gosto de ti. E detestava deixar de te chamar genro.
Daniel virou-se para
ele, apanhado de surpresa. Um sorriso discreto, apenas com o canto do lábio,
formou-se-lhe no rosto. Levantou o copo.
— Eu brindo a isso.
Óscar ergueu também o
seu copo. O som do cristal a tilintar ecoou suave na noite, misturando-se com o
correr distante do rio.
segunda-feira, 22 de setembro de 2025
Depois do Inferno Verde - Capítulo 25
Clara entrou em casa, pousou as chaves no aparador e tirou os
sapatos de salto como quem largava um peso.
Na sala, surpreendeu-se ao ver Daniel já sentado no sofá, o casaco
ainda dobrado de lado, como se tivesse chegado há pouco. O rosto dela abriu-se
num sorriso genuíno, quase aliviado.
— Qual é a efeméride para estares em casa tão cedo? — perguntou
com uma leve ironia doce, pousando a mala e caminhando na direção dele.
Aproximou-se para o abraçar e beijar, mas no instante em que os
braços o envolveram, sentiu a hesitação. O corpo dele não respondeu com a mesma
entrega de sempre.
Daniel inspirou fundo, os olhos a evitarem os dela antes de
finalmente perguntar:
— Onde estiveste?
A pergunta não a surpreendeu. Nos últimos tempos, aquela confiança
sólida entre os dois, que antes parecia uma autoestrada larga e sem curvas,
tornara-se uma linha estreita, instável, onde dançavam em equilíbrio precário.
Ainda tinha na cabeça a conversa com o pai. Ainda sentia a deriva
da tarde perdida, a vaguear pelo shopping sem rumo, sem ver as montras, como se
estivesse num limbo. Embora magoada, agora tinha maior clareza.
Clara pousou a mão na dele e respondeu, tranquila:
— Fui almoçar com o meu pai… e depois dei uma volta pelo centro
comercial.
Daniel assentiu, um pequeno gesto com a cabeça, mas intranquilo,
como quem aceitava a resposta sem realmente acreditar nela.
Ela, magoada mas sem querer prolongar o abismo, inclinou-se de
novo para o abraçar. O gesto foi correspondido, mas apenas a meio caminho, sem
o calor de antes. Mesmo assim, Clara beijou-o. Não prolongou o beijo — deixou-o
breve, contido, quase frágil.
Encostou os lábios ao ouvido dele e murmurou:
— Eu nunca conseguiria magoar-te…
Daniel fechou os olhos, os maxilares contraídos, e respondeu
baixo:
— Também não querias magoar o teu pai. Antes pelo contrário. Mas
não magoar… pode simplesmente querer dizer esconder melhor.
Clara afastou-se ligeiramente, a palidez a subir-lhe ao rosto.
Sentou-se no sofá, o corpo a perder forças, e num murmúrio quase inaudível,
mais para si própria do que para ele:
— Eu estava errada…
Daniel permaneceu estático, o olhar fixo nela, como se aquelas
palavras fossem inesperadas demais para processar de imediato.
Daniel ficou simplesmente a olhar para ela, sem uma palavra, o
olhar interrogativo a pedir mais do que qualquer frase.
Clara, sentindo a pressão daquele silêncio, repetiu com mais
firmeza:
— Eu estava errada.
Ele inclinou-se ligeiramente para a frente, os cotovelos apoiados
nos joelhos, as mãos entrelaçadas.
— Elabora.
Clara respirou fundo. Sabia que não podia continuar a esconder-se
atrás de justificações.
— Ainda que todas as intenções fossem boas… e tu sabes que eram.
Tu próprio, quando te contámos, concordaste, ou pelo menos disseste que
percebias.
Daniel não reagiu. O silêncio dele obrigou-a a continuar.
— Mas a verdade é que nós não traímos o meu pai pelo sexo em si.
Não foi por a minha mãe ter ido para a cama com outro homem. A traição foi mais
profunda. — a voz dela começou a tremer, mas não parou — Foi ao ponto de
destruir a imagem que ele tinha de nós. Nós tirámos-lhe uma escolha.
Desrespeitámo-lo… profundamente. E pusemo-lo de parte.
As palavras ecoaram na sala, como se a própria casa tivesse
prendido a respiração.
Daniel ficou a observá-la, o olhar pesado, absorvendo cada sílaba.
Não era a primeira vez que ouvia aquelas conclusões — já as tinha sentido na
pele quando Óscar lhas tinha atirado sem rodeios, como uma lâmina crua que
rasgava sem pedir licença. Foi esse o momento em que o pano caiu para ele, em
que deixou de ver apenas a razão das intenções e começou a ver a nudez fria das
ações.
Agora, diante dele, Clara parecia finalmente percorrer o mesmo
caminho. Pela primeira vez, não se refugiava no porquê, mas encarava o o que
foi feito.
Daniel manteve-se em silêncio, imóvel, mas dentro de si reconhecia
— com um misto de dor e alívio — que a mulher à sua frente começava a ver
aquilo que até ali recusara olhar de frente.
Clara manteve-se de olhos fixos nos de Daniel, mesmo que o coração
lhe batesse como se fosse fugir-lhe do peito.
— Eu sei… — a voz dela saiu quase como um sussurro, mas firme — eu
sei que fui eu própria, pelas minhas ações, que coloquei este enorme calhau no
meio do nosso caminho. Respirou fundo, sentindo as lágrimas a quererem voltar.
— Mas eu faço tudo, Daniel… tudo o que for necessário… para o retirar.
Daniel ergueu o olhar para ela, olhos sombrios, o peso de meses de
silêncio e mágoa a pairar na sala.
— E tu achas… que tudo pode voltar a ser como era antes?
Clara abanou a cabeça de imediato, sem hesitação.
— Não. Não é isso que eu quero. — aproximou-se dele, tocando-lhe
levemente no braço, quase com medo de ser rejeitada. — Eu não quero que volte a
ser como antes. O que eu quero é construir algo ainda melhor… porque agora eu me
entendo melhor a mim própria. E sei o que não posso voltar a fazer.
Um longo silêncio caiu entre os dois. Daniel recostou-se no sofá,
os olhos perdidos em algum ponto da parede, tão quieto que quase parecia uma
estátua. Clara, inquieta, esperou. Não sabia se ele ia explodir, se ia rir, ou
simplesmente levantar-se e sair.
Por fim, incapaz de aguentar mais aquele silêncio, deixou escapar
a pergunta que lhe queimava a garganta:
— O que é que tu precisas de mim, Daniel?
As palavras ficaram suspensas no ar, carregadas de uma
vulnerabilidade que ela raramente deixava transparecer.
Daniel demorou. O silêncio dele alongou-se de tal forma que Clara
quase sentiu o ar rarear à sua volta. Estava como que encurralada, sem saída,
mas ainda assim atenta, como se cada segundo fosse vital, na esperança de que a
sinceridade das suas palavras pudesse, de alguma forma, ser o ponto de partida
para reconstruírem algo mais sólido do que o que agora ameaçava ruir.
Por fim, Daniel ergueu o olhar, firme, a voz baixa mas carregada
de peso:
— A única coisa que eu quero verdadeiramente de ti… é a tua
lealdade. E a tua sinceridade. Que os problemas de um sejam dos dois. Não em
tudo, não a todos os níveis… mas em tudo o que importa na relação que temos.
Quero que sejas sincera, mesmo que saibas que vai doer o que tens para dizer.
Desde que nunca sejas cruel. E eu prometo-te que farei o mesmo.
Clara manteve os olhos presos nos dele, e depois de alguns
segundos murmurou, com uma intensidade quase solene:
— Na saúde e na doença… até que a morte nos separe.
Não ficou tudo bem. Não foi uma absolvição, nem um recomeço
imediato. Mas algo se alterou: a tensão que enchia o ar pareceu aliviar, e até
a própria casa em volta deles pareceu, por um instante, respirar.
Daniel estendeu o braço e puxou-a contra si. O abraço foi
apertado, longo, sentido. Clara fechou os olhos e conteve as lágrimas que
ameaçavam romper-lhe as defesas. Ficaram assim, imóveis, como se o tempo
tivesse parado.
Foi ela quem, quase num sussurro trémulo, perguntou baixinho junto
ao ouvido dele:
— O que queres para o jantar?
O jantar decorria sereno, ainda envolto num silêncio pensativo,
mas sem o peso que antes os esmagava. Clara e Daniel comiam devagar, cada um
perdido nos seus próprios pensamentos, quando o telemóvel de Clara, pousado
sobre a mesa, se iluminou com uma chamada.
Um número desconhecido.
Daniel lançou-lhe um olhar imediato, breve mas inquisitivo.
Estendeu a mão, quase instintivamente, como se fosse para desligar a chamada,
mas deteve-se. Havia no seu rosto aquela dúvida que Clara já reconhecia: a
velha sombra da desconfiança.
Clara inspirou fundo, pegou no telefone e, num gesto de
transparência, colocou-o em alta-voz.
— Sim?
Do outro lado, uma voz tímida, juvenil, soou hesitante:
— É a Clara?
Clara piscou os olhos, surpreendida.
— Sim, sou eu. Quem fala?
— Sou a Benedita… — respondeu a voz, quase envergonhada. — O
Óscar… o teu pai deu-me o teu número. Disse... disse-me para ligar. Ele
mandou-te uma mensagem, viste?
Clara franziu o sobrolho, puxou o telemóvel para si e reparou, de
facto, na notificação por abrir. Abriu a mensagem do pai: Número da
Benedita. Ela vai ligar-te.
Um aperto suave formou-se-lhe no peito, mas a voz saiu terna:
— Sim, já vi. Então, diz lá, Benedita.
Do outro lado houve um breve silêncio, como se a rapariga ganhasse
coragem:
— Eu… queria pedir-te uma coisa… É que… preciso de ajuda com os
estudos. Perdi muita matéria e... não sei como recuperar. Achas que me podias
dar uma ajuda?
Clara sorriu, e a suavidade dessa expressão passou para a voz:
— Claro que sim. Combinamos depois com calma, está bem? Eu
ajudo-te.
Do outro lado, ouviu-se um obrigada envergonhado antes da chamada
terminar.
Clara pousou o telemóvel e, quando levantou os olhos, encontrou
Daniel a observá-la, agora com um leve sorriso a quebrar a rigidez do rosto.
Ele ergueu as mãos e fez aspas no ar:
— A tua nova ‘irmã’, hã?
Clara riu-se baixinho e abanou a cabeça.
— Pelos vistos… sim. E digo-te já, vais gostar de a conhecer. É
uma miúda fixe.
O jantar prosseguiu então num tom mais leve, com uma nova corrente
de cumplicidade a insinuar-se entre os dois.
sexta-feira, 19 de setembro de 2025
Depois do Inferno Verde - Capítulo 24
O Corvette aproximou-se
da escola no meio do burburinho de final de aulas. Os alunos saíam em grupos,
mochilas a tiracolo, telemóveis na mão, rindo, empurrando-se, libertando em
segundos a energia acumulada durante o dia. À beira do portão, Benedita estava
sozinha, encostada a uma grade. Endireitou-se mal reconheceu a frente baixa e
agressiva do carro vermelho.
Assim que o Corvette
estacionou, não houve como ignorar as reações.
— Manooooo! Viste
aquilo?! — exclamou um rapaz de boné virado ao contrário, quase deixando o
telemóvel cair.
—É um Corvette C8!
Juro! — outro, de olhos arregalados, já a apontar a câmara do telemóvel,
filmava o carro como se fosse um OVNI.
Dois miúdos fizeram “thumbs
up” para Óscar enquanto passavam, tentando parecer descontraídos mas rindo logo
de seguida, nervosos, como se tivessem acabado de tocar num ícone vivo. Uma
rapariga cochichou à amiga:
— “Apanha boleia daquele
carro? Que sorte...”
Óscar assistiu a tudo
aquilo com um esgar divertido. Quando Benedita se aproximou e entrou no carro,
ele não resistiu a comentar:
— Ainda vais dar cabo
da bateria dos telemóveis desta malta...
Benedita revirou os
olhos e deixou escapar um suspiro resignado.
— Amanhã já sei o que
me espera.
—O quê? — Óscar
perguntou com um sorriso trocista.
— Toda a gente a querer
falar comigo... mas não por minha causa. Por causa disto. — respondeu,
apontando com o polegar para o Corvette.
Óscar soltou uma
gargalhada curta e franca.
— Pois... suspeito que
amanhã já serás bastante mais popular.
O carro arrancou e,
durante alguns segundos, ficaram em silêncio, só o ronco grave do motor
preenchia o espaço. Depois Benedita começou a falar.
— As disciplinas...
acho que os professores são simpáticos, mas exigentes. E como já perdi uma
montanha de matéria... não sei, não estou a ver como posso recuperar. Se calhar
o ano já está perdido.
As palavras saíram-lhe
num tom arrastado, quase derrotado, como se já tivesse aceitado o fracasso.
Óscar olhou para a
frente, sem desviar os olhos da estrada, e respondeu pausadamente:
— O facto de ser extremamente
difícil não o torna impossível. Mas depende de ti. Eu posso dar-te a mão... mas
não posso dar os passos por ti.
Benedita ficou a olhar
para ele de lado, absorvendo aquelas palavras como quem recebe algo novo,
precioso, que ainda não sabe muito bem como guardar.
— E... achas que eu
consigo? — perguntou, a voz baixa, carregada de uma vulnerabilidade quase
infantil.
Desta vez, Óscar
virou-se para ela por um instante e respondeu com firmeza tranquila:
— Sim. E ajudo-te no
que for preciso. Mas só resulta se tu te empenhares.
Foi como se uma faísca
acendesse algo dentro dela. Sentiu um calor no peito, um peso a desaparecer,
uma estranha felicidade que parecia querer rebentar-lhe em lágrimas. Engoliu-as
à pressa e fez uma promessa muda a si mesma: não iria desapontá-lo.
Já dentro da garagem,
Óscar estacionou o Corvette e desligou o motor. O silêncio após o rugido soou
quase solene.
Ele voltou-se para ela
e acrescentou, num tom mais prático:
— Pede à Clara para te
ajudar nos estudos. Ela tem jeito para ensinar e paciência.
Benedita hesitou,
mordendo o lábio.
— Achas que ela
aceitaria?
Óscar sorriu, meio
enigmático.
— Só há uma maneira de
saber... pergunta-lhe.
Ela assentiu, ainda
incerta, mas já a imaginar a conversa que teria de ter.
Óscar e Benedita iam a contornar a casa, rumo à cave, quando o som
de uma janela a abrir quebrou o silêncio.
Na cozinha, surgiu Laura, apoiada no parapeito. O olhar pousou
primeiro em Benedita, quase maternal, mas não conseguiu disfarçar um relance
nervoso na direção de Óscar.
— Já lanchaste, Benedita? Tens fome? — perguntou, num tom amável.
Benedita abanou a cabeça.
— Não... ia lanchar agora.
Laura apressou-se a aproveitar a deixa:
— Acabei de fazer um bolo de iogurte, ainda está quente. Estou a
fazer chá também. Se quiseres, é só entrares.
Benedita hesitou, e voltou-se para Óscar, como que a pedir-lhe uma
aprovação silenciosa.
Ele manteve o rosto sério, mas os cantos da boca traíram-no com um
breve sorriso.
— O bolo da Laura é delicioso. Devias aproveitar.
Laura piscou os olhos, surpreendida. Aproveitou para acrescentar:
— E tu, Óscar... não precisas de ser convidado. Esta é — sempre
foi — a tua casa.
Aquelas palavras pairaram no ar, pesadas. Benedita, sentindo a
tensão, ergueu os olhos para Óscar com um pedido quase suplicante para não
entrar sozinha.
Óscar respirou fundo, olhou primeiro para Benedita, depois para
Laura, e por fim cedeu:
— Na verdade... o bolo até vale a pena. — disse, piscando o olho a
Benedita.
Mudou de direção e seguiu Benedita para a cozinha, resignado, mas
curioso.
Entraram na cozinha. O ambiente estava impregnado com o cheiro
doce do bolo ainda quente, misturado ao aroma subtil do chá acabado de fazer.
Óscar dirigiu-se a um armário, abriu a porta sem pedir licença —
como quem conhece cada canto daquela casa — e retirou de lá uma garrafa e um
copo. Com um gesto rápido, encheu-o, piscando o olho a Benedita.
— Prefiro outro tipo de chá.
Ela soltou uma risada cúmplice, abafada pela mão.
Sentaram-se os três à mesa. O silêncio que pairava não era de
hostilidade aberta, mas de uma tensão frágil, quase palpável. Laura mantinha os
gestos suaves, cuidadosos, como quem anda sobre gelo fino e tem medo de o
quebrar.
Empurrou a travessa com o bolo para perto de Benedita:
— Anda, prova. Está mesmo bom agora que ainda está quente.
Benedita sorriu, cortou uma fatia generosa e mordeu com gosto. Os
olhos brilharam.
— Está delicioso! Sério, está mesmo bom!
Laura deixou escapar um sorriso genuíno.
— Se quiseres, eu ensino-te a receita.
— Claro que quero! — respondeu Benedita com entusiasmo imediato.
Laura pousou a boleira mais perto de Óscar, numa espécie de
convite silencioso. Ele olhou, hesitou um instante, depois serviu-se de uma
fatia também. Só então Laura cortou a sua.
Enquanto Benedita falava animada, sem poupar elogios, Laura
deixou-se ficar uns segundos a observar Óscar. Ele não lhe devolveu o olhar. O
rosto mantinha-se sério, distante... mas, quando os olhos se desviavam para
Benedita, Laura surpreendeu nele um sorriso suave, quase imperceptível, de quem
se deixa enternecer com a alegria simples da rapariga.
Esse detalhe, tão pequeno, foi-lhe como uma punhalada. O aperto no
peito não era ciúme de Benedita, mas a dor crua de ver Óscar ali tão perto,
partilhando a mesa, e ao mesmo tempo sentir a distância entre eles como um
abismo intransponível.
Quando a última migalha desapareceu dos pratos, Benedita limpou os
lábios com o guardanapo e levantou-se com energia:
— Tenho mesmo de ir estudar…
Óscar acompanhou o gesto, recolhendo o copo que tinha usado. Os
dois caminharam lado a lado para a porta da cozinha.
Foi então que, a meio do passo, Óscar parou. Voltou-se
ligeiramente para Laura, que ainda estava sentada, e fixou-a com um olhar
firme.
— Obrigado.
A palavra soou simples, mas carregada de um peso diferente. O tom
não tinha nada de formalidade fria; havia sinceridade e uma profundidade
inesperada.
Laura sentiu-se desarmada. Percebeu de imediato que aquele
agradecimento não era apenas pelo bolo, nem pelo chá. Era pela forma como ela
tinha recebido Benedita, pelo cuidado com que a tratara, pela delicadeza com
que se esforçara para lhe dar lugar à mesa.
O coração apertou-lhe de emoção.
Óscar desviou o olhar e voltou a caminhar para fora da cozinha.
Laura seguiu-o com os olhos, como se cada passo dele a afastasse ainda mais. E,
movida por um impulso, arriscou:
— Óscar…
Ele parou, mas não se virou.
Laura sentiu a voz prender-se na garganta. Queria dizer-lhe tudo —
pedir-lhe desculpa, explicar, gritar que o amava, que ainda o amava
desesperadamente. Mas nada daquilo saiu. Só o nó, a dificuldade de respirar. No
fim, conseguiu apenas:
— Se quiseres… eu trato do jantar. Assim descansas um pouco. A
Benedita pode estudar sem preocupações.
Houve um segundo de silêncio pesado, como se o ar tivesse parado.
Óscar manteve-se de costas, mas respondeu de forma calma, quase
seca:
— Está bem. Avisa quando estiver pronto.
E seguiu, deixando a cozinha.
Laura ficou imóvel, com o guardanapo ainda entre os dedos. Mas
dentro dela, contra toda a razão, contra tudo o que conhecia da frieza dele…
uma pequena chama reacendeu-se. Uma esperança frágil, mas viva.
quinta-feira, 18 de setembro de 2025
Depois do Inferno Verde - Capítulo 23
Óscar estava no
escritório, rodeado de papéis de contratos. Lia cláusulas, rabiscava anotações
a lápis, voltava a folhear páginas, quando o telefone vibrou sobre a
secretária. Olhou para o visor.
Clara.
Hesitou por alguns
segundos, respirou fundo, e atendeu sem um cumprimento:
— Diz.
Do outro lado, a voz
dela soou mais trémula do que o habitual:
— Pai… podemos falar?
— Falar de quê? —
devolveu ele, seco.
Seguiu-se um silêncio
longo, carregado. Até que ela arriscou:
— De tudo.
Óscar manteve-se
imóvel, olhando fixamente para os papéis à sua frente como se quisesse
atravessá-los. Depois respondeu:
— Então vem almoçar
comigo.
Clara apareceu pouco
depois num pequeno restaurante discreto, a dois quarteirões do escritório da
firma do pai. Um lugar acolhedor, onde os donos conheciam Óscar há muitos anos
e o tratavam quase como família.
Ele já estava sentado
a uma mesa de canto, de costas para a parede e visão ampla sobre a sala. Assim
que a viu entrar, ergueu ligeiramente a mão, indicando-lhe o lugar à frente.
Clara aproximou-se,
pousou a mala na cadeira e sentou-se.
Não disseram nada.
Ficaram os dois em silêncio, cada um à espera que fosse o outro a quebrar a
barreira.
O tilintar de talheres
e vozes baixas de outras mesas enchia o espaço. Entre eles, apenas um peso
invisível, feito de mágoa, ressentimento e coisas por dizer.
O empregado
aproximou-se com a naturalidade de quem já conhecia os hábitos.
Trouxe logo a garrafa
pequena de vinho tinto que sabia ser a escolha de Óscar e pousou-a na mesa sem
pedir. Depois, sem sequer deixar menus, anunciou os pratos do dia em voz rápida
e segura.
Óscar escolheu de
imediato. Clara demorou um instante, mas acabou por decidir o mesmo. O empregado
assentiu, recolheu-se, e deixou-os novamente a sós.
O silêncio voltou a
pesar até que Clara, respirando fundo, arriscou:
— Pai…
A palavra ficou-lhe
presa na garganta, como se se tivesse engasgado nas próprias emoções. Tentou de
novo, procurando forças.
— Pai, precisava que
falasses com o Daniel.
Óscar franziu o
sobrolho, intrigado.
— Porquê?
Ela desviou o olhar,
mexendo nervosamente no guardanapo entre os dedos.
— Desde aquela
conversa… no dia antes de partires de repente, que as coisas não estão bem. A
relação ficou… diferente.
Óscar manteve-se
imóvel, encarando-a com frieza.
— E o que é que tu
esperavas?
Clara ergueu a voz num
tom mais carregado de emoção do que queria.
— Pai, eu nunca lhe
dei razão nenhuma para desconfiar de mim! Nunca faria nada para o magoar!
Ele interrompeu-a sem
levantar o tom, mas com a firmeza que a silenciava de imediato.
— A tua maneira de não
magoar os que amas é esconderes o que não é agradável à vista. Segredos.
Conluios. Dizes que não magoas, mas só mudas a forma como o fazes. Portanto,
percebo muito bem o Daniel.
As palavras caíram
como pedras. Clara respirou fundo, tentando recompor-se, e insistiu quase em
súplica:
— Mas podes falar com
ele? Por favor? O clima entre nós anda tenso… ele está desconfiado.
Óscar recostou-se na
cadeira, mas o olhar nunca perdeu a firmeza. Esticou o braço e apontou-lhe o
dedo, sem margem para dúvidas:
— Estás a colher o que
semeaste. A única coisa que me surpreende é o Daniel só ter percebido quando eu
lhe apontei que o que se passava ali era uma falta de integridade.
Clara baixou os olhos,
mordendo o lábio. Ele não lhe deu tempo.
— Diz-me: como é que
podes esperar que ele confie em ti?
— Pai… — tentou de
novo, num tom quase implorativo. — Não podes interceder? Explicar-lhe que eu
nunca faria uma coisa dessas?
Óscar inclinou-se
ligeiramente para a frente, a voz cortante:
— Não? Não foi exatamente
isso que fizeste comigo?
Ela ficou em silêncio,
engolindo em seco.
— Já estás grandinha
para lidar com os problemas que criaste. — acrescentou, agora mais frio do que
duro. — Mas se queres um conselho: se queres de novo a confiança do Daniel,
conquista-a com atos. Não com palavras.
O silêncio voltou,
carregado. Foi nesse instante que o empregado regressou com os pratos
fumegantes, pousando-os em frente de cada um.
Óscar começou a comer
sem cerimónias, impávido. Clara, em contrapartida, ficou com o olhar perdido,
os pensamentos a fervilhar em torno do que tinha acabado de ouvir.
Quando finalmente
pousaram os talheres, Clara ergueu os olhos, hesitante.
— Pai… tu odeias-me?
Óscar não demorou.
— Não. Mas odeio o que
fizeste.
Ela respirou fundo,
ganhando coragem:
— Tu podes não
acreditar… mas a ideia parecia excelente. A mãe dizia-me que já andava a subir
pelas paredes. Nunca esteve em causa o que sentíamos por ti, nunca. Antes pelo
contrário. Só tínhamos medo de falar contigo antes da operação… tu não estavas
bem, e podia desencadear uma reação…
Óscar assentiu, calmo,
a voz quase serena:
— Percebo
perfeitamente isso tudo.
Clara ficou a olhá-lo,
surpreendida. Ele continuou:
— Mas ainda assim… o
facto de a tua mãe não ter falado comigo abertamente sobre algo fundamental
entre nós… destruiu a imagem que eu tinha do nosso casamento. Para mim sempre
foi uma equipa: nós contra o mundo. Ela quebrou isso. Destruiu a imagem que eu
tinha dela.
A pausa foi curta. A
voz dele baixou, carregada.
— Nunca mais poderei
confiar verdadeiramente nela. E da maneira como soube… dificilmente, para o
resto da minha vida, conseguirei olhar para ela sem ter a imagem dela
semi-despida, em cima da minha secretária, com outro gajo qualquer semi-despido
em cima dela. Como se a urgência fosse tanta que nem tiveram tempo de tirar a
roupa completamente.
Clara estremeceu. As
lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto, silenciosas, enquanto assimilava
talvez pela primeira vez o impacto brutal que as suas ações tinham tido.
Clara enxugou as
lágrimas à pressa, respirou fundo e, com a voz ainda trémula, perguntou:
— Então… e agora?
Óscar apoiou os
cotovelos na mesa, entrelaçou as mãos e olhou-a sem desviar.
— Francamente, não
sei. Mas sei uma coisa: não existo para resolver os problemas que vocês criaram
com as ações que tiveram.
Clara abanou a cabeça,
confusa, tentando agarrar-se a qualquer argumento.
— Mas não percebo… se
no fundo até entendes as intenções, se não era nossa intenção causar este caos,
muito menos magoar-te…
Óscar não hesitou.
— Sim, percebo as boas
intenções. Mas o pavimento da estrada para o inferno está feito delas. E aquilo
que me deram, Clara… foi exatamente isso. Um inferno.
Ela abriu a boca mas
não encontrou resposta. Ficou a olhá-lo, chocada, a tentar conter a torrente de
emoções. As mãos tremiam-lhe por baixo da mesa. O restaurante estava cheio,
vozes e talheres cruzando-se em fundo, e percebeu com clareza a escolha do pai:
ali não podia explodir, ali era obrigada a ouvir até ao fim.
Clara voltou a pegar
nos talheres, forçando a mão a manter-se firme, mesmo que lhe tremesse por
dentro. À frente dela, o pai mantinha a mesma expressão impenetrável, fria como
pedra, sem lhe dar uma única brecha onde pudesse entrar. O som metálico dos
talheres dela contrastava com o burburinho constante do restaurante.
À volta, mesas cheias
de trabalhadores em pausa: uns de camisa arregaçada, outros ainda de casaco,
vinham em pares ou em grupos, ocupando cadeiras de qualquer maneira, rindo e
falando alto sobre o trabalho, futebol ou banalidades. O staff andava
apressado, equilibrando travessas e pratos, servindo copos de vinho com gestos
rotineiros, completamente alheios ao que se passava naquela mesa isolada, onde
o silêncio pesava mais que o ruído de todo o restaurante.
Passaram-se longos
minutos até que Clara, já mais controlada, largou os talheres por um instante,
respirou fundo e deixou escapar, quase num sussurro:
— Pai… eu não sei o
que fazer.
Óscar pousou
calmamente o guardanapo na mesa, olhou-a fixamente e respondeu sem hesitação:
— Isso é mentira.
Clara ergueu o olhar,
surpreendida.
— Como assim?
Ele inclinou-se
ligeiramente para a frente, a voz baixa mas firme como aço.
— Tu sabes perfeitamente
o que fazer. Mas não queres admitir que estás errada.
Clara ficou a
encará-lo como se tivesse acabado de ouvir que o céu era verde, incapaz de
reagir.
Óscar não se deteve:
— Enquanto procurares
justificações para as tuas ações, em vez de as olhares pelo que foram… vais
ficar sempre presa. Presa a algo que não te deixa fazer o que sabes que deves
fazer.
As palavras dele
ficaram a pairar entre os dois. O silêncio instalou-se novamente, espesso,
inquebrável. Clara voltou a comer devagar, mastigando quase sem sentir o sabor.
Por dentro, um turbilhão. Por fora, o esforço desesperado para não deixar
transparecer.
À sua frente, Óscar
permanecia frio, uma muralha impossível de escalar. E isso… isso doía-lhe mais
do que tudo.





