Ele simplesmente conduziu por horas.
Parava apenas para abastecer o carro e comprar agua, e fazia-se à estrada
novamente. Neste momento não existia destino, apenas a estrada. Quando deu por
si estava em Vigo, junto ao mar, a comer uma sandwich comprada numa estação de
serviço! Ligou finalmente o telefone. Dezenas de chamadas perdidas e mensagens
de texto para as quais ele não tinha paciência no momento. Ainda não sabia o
que faria.
Percebia
perfeitamente o que ela queria. Aquela sensação de que ela tinha falado, também
ele a tinha sentido há muitos anos atrás, antes de haver alguma hipótese de uma
relação com a mulher que verdadeiramente queria. Aquela paixão que parece
arrebatadora, parece que muda o mundo, mas que no fundo é uma mera ilusão que
desaparece ao fim de algum tempo, e acaba por transformar a maneira como se vê
a pessoa que era alvo dessa paixão. Quando as pequenas coisas como um sinal giro
na face se transforma numa verruga…
Sim, ele percebia o
que ela sentia, sabia que ela estava a olhar para o mundo através de óculos
cor-de-rosa. O tipo, fosse lá ele quem fosse, era provavelmente um parvo
qualquer que estava a conseguir dar a volta a uma mulher completamente fora da
liga dele… Ou então era um gajo mesmo extremamente atraente. Não sabia. Podia
estar a ser injusto com o outro.
A única coisa que ele
se apercebia é que, na realidade, os vinte anos de cama partilhada pareciam ser
apenas algo que ela tinha de fazer dentro do casamento. Basicamente, todo o
sexo que partilharam não passou de uma obrigação. Isso não mudava o facto de
ele saber que ela o amava, que era o seu confidente, que era o seu melhor
amigo.
Sim, o casamento, se
ela assim o quisesse, podia até sobreviver a isto… Ou então não, se a luxuria a
agarrasse demais.
Mas, na verdade,
quais eram as perspectivas?
Se ele fosse contra
ela, se a confrontasse, se lhe negasse aquilo que ela queria, ela ia
rebelar-se, iria contra si e provavelmente acabaria por trai-lo, pelas suas
costas. Invariavelmente isso levaria a mentiras atrás de mentiras, dor,
acusações e o casamento acabaria destruído, bem como a amizade entre ambos. Ou
então, ela simplesmente optaria pelo divórcio para poder prosseguir aquilo que
queria sem culpas. Mas ele tinha poucas dúvidas que isso não acabasse me
tragédia para ela. E ele não queria que ela acabasse por se perder. Amava-a
demais para a deixar simplesmente destruir-se.
Por outro lado, podia
aceitar o que ela lhe propunha. Deixá-la esticar as asas e explorar aquela
parte de si que ela sempre recalcou, provavelmente por causa da educação
estrita que teve. Mas para isso ela precisava de um rochedo, no meio do mar,
para poder pousar quando as asas já lhe pesassem. E, tanto quanto ele podia
perceber, só ele podia ser esse rochedo.
Mas, e o que é que
isso significava para ele?
Ele não sabia. Não
conseguia sequer prever. A única coisa que sabia é que teria de ser esse
rochedo por ela e por ele próprio. Porque com facilidade ambos se podiam perder
pelo caminho.
Já sabia o que fazer.
Era hora de voltar.