Não há aqui absolutamente nada que valha a pena. Nem sequer o autor. O Autor desresponsabiliza-se por quaisquer danos psíquicos que a leitura disto possa causar.
terça-feira, 14 de outubro de 2025
terça-feira, 7 de outubro de 2025
A estrear - Inundação (Continuação de "Chuva")
INUNDAÇÃO
Vinte e cinco anos depois dos acontecimentos narrados em Chuva, o nome de Gabriel Guerra continua a ecoar como mito: o homem que trouxe ao mundo mensagens enigmáticas, alterou o curso da história e depois desapareceu.
Agora, um novo rosto emerge. Ariel Fontes, órfão criado num convento, descobre ser filho de uma espia do Vaticano… e talvez também de Gabriel. Quando os ficheiros secretos que herdou vêm a público, expõem não apenas as sombras da Igreja, mas também a existência do Arkanum, a organização que desde então controlou na sombra governos e populações.
Enquanto vigílias pacíficas se transformam em multidões imparáveis, Ariel é empurrado para o centro da narrativa global — não como símbolo escolhido, mas como prova viva de que até os mitos sangram. Ao seu lado, Inês, a médica que nunca o abandona, e Cassandra, agente dividida entre obediência e verdade, enfrentam um sistema em colapso.
E quando Gabriel regressa, trazendo consigo uma última profecia ligada a um eclipse iminente, o mundo prepara-se para a Inundação: a queda do controlo absoluto e o renascimento imprevisível da liberdade.
Inundação é a continuação de Chuva: um romance intenso sobre poder e fé, conspiração e redenção, onde cada segredo guardado se transforma em corrente imparável.
(Se alguém estiver interessado, está ali ao lado (esq). Rima e é verdade!)
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
A Dança Invisível
“O círculo não conhece morte.”
Prólogo
O lume ardia baixo, um fogo tímido a lutar contra o frio que se
infiltrava por todas as frestas da caverna. As chamas, amarelas e trémulas,
faziam as sombras dançar nas paredes irregulares, como se as figuras pintadas
pelo fumo ganhassem vida própria. O cheiro da carne a assar — um roedor grande,
caçado ao entardecer — misturava-se ao odor acre da lenha húmida.
O avô sentava-se sobre uma pedra lisa, envolto em peles pesadas.
Os cabelos, longos e grisalhos, estavam presos com um cordão de fibras secas,
mas escapavam mechas que se agitavam com cada sopro de vento. Os olhos, fundos
e claros, brilhavam com a luz da fogueira, mas não fitavam as chamas. Seguiam o
olhar do neto.
O rapaz, pequeno demais para a túnica de peles que lhe caía pelos
ombros, estava sentado junto à entrada, de pernas cruzadas. A sua respiração
formava nuvens de vapor que se dissipavam depressa no ar gelado. Não tirava os
olhos do exterior: a paisagem infinita, um deserto branco, onde a neve se
acumulava em colinas suaves, interrompidas apenas por penedos negros como
dentes a rasgar a planície.
E acima, imensa, dominando o céu, erguia-se a lua. Não era suave
nem esférica como as que aparecem nos mitos de outros povos. Era irregular,
coberta de cicatrizes profundas, faixas de pó e pedra. Mesmo assim, refletia
com majestade a luz distante da estrela-mãe, pairando como um fantasma
brilhante sobre o mundo gelado.
O neto olhava-a em silêncio, com um fascínio que o avô conhecia
bem.
— É linda, não é? — murmurou o velho, a voz rouca pelo frio e pela
idade.
O rapaz acenou devagar, sem desviar os olhos.
O avô deixou que o silêncio se alongasse, ouvindo apenas o
crepitar da fogueira e o vento a uivar lá fora. Depois, suspirou, e as palavras
saíram-lhe pesadas, quase um segredo partilhado com a própria noite:
— Ainda me lembro do tempo em que não estava lá.
O neto virou-se de repente, os olhos arregalados.
— Não estava?
O velho sorriu com amargura. A chama iluminava-lhe o rosto
vincado, marcado por rugas fundas.
— Não, pequeno. O mundo já foi diferente. O céu era vazio, apenas
a estrela brilhava. As terras eram verdes, os mares respiravam livres e calmos.
O vento era doce, e o calor não matava. Era um mundo cheio de vida. Um mundo
antes da sombra.
O rapaz, sem dar por isso, tinha-se aproximado da fogueira. Estava
absorto.
O velho puxou um pedaço de carne, passou-o a uma pedra lisa para
arrefecer e entregou-o ao neto. Este mordeu com avidez, mas os olhos voltaram
logo à lua, lá fora, suspensa no céu como uma sentinela.
— Conta-me, avô — pediu em voz baixa. — Como apareceu?
O ancião endireitou-se, ajeitando a pele sobre os ombros. Ficou a
olhar a lua durante longos segundos, como se estivesse a medir a distância
entre o passado e o presente. Depois, começou a falar, e a sua voz já não era
apenas dele. Era a de todas as gerações que tinham carregado aquela história.
O avô inspirou fundo, deixando que o silêncio da noite se
misturasse ao som do fogo. Depois, falou devagar, quase como se estivesse a
recitar palavras antigas:
— Tudo começou com números, pequeno. Linhas, cálculos, símbolos
traçados em tábuas de cristal. Foi assim que os primeiros viram o que ninguém
queria ver.
O rapaz franziu o sobrolho.
— Números?
O ancião sorriu, um sorriso cansado.
— Nomes que deves guardar. O primeiro chamava-se Oryan Selvek. Um físico. Era
obstinado como o gelo e passava dias inteiros a seguir a dança invisível das
partículas, tentando ouvir nelas a voz do mundo. Ao lado dele estava Maelis Draven, uma matemática
que via padrões onde todos viam apenas ruído. Ela unia pontos, ligava
fenómenos, como quem descobre constelações escondidas no nevoeiro.
O neto repetiu os nomes em silêncio, como se os quisesse gravar na
memória.
— Foram eles que viram primeiro — continuou o avô. — O coração do
planeta, lá no fundo, já não girava como antes. O escudo invisível, aquele que
nos protegia da fúria da estrela, estava a enfraquecer. Não era apenas calor.
Era algo mais profundo: o próprio núcleo a morrer.
O rapaz encolheu-se, imaginando o fogo interior a apagar-se.
— Escreveram sobre isso. — A voz do avô tornou-se grave. —
Compuseram um artigo que chamaram Sobre a Diminuição do Campo Global. Mandaram-no para
os sábios da época. Mas sabes o que aconteceu?
O neto abanou a cabeça.
— Nada. — O velho deixou escapar um riso sem alegria. — Ninguém
lhes deu ouvidos. Eram apenas mais dois a gritar para o vento.
O rapaz aproximou-se, os olhos cheios de espanto.
— Então como é que todos souberam?
O avô inclinou-se para a frente, o rosto iluminado pela fogueira.
— Foi preciso outro nome, outro destino. Kareth Ulvon. Não era físico,
nem matemático. Era um jornalista. Um homem que sabia falar ao povo. Ele leu os
cálculos, procurou Selvek e Draven, ouviu-os. E depois escreveu.
Fez uma pausa, como se saboreasse o peso das palavras.
— “O
Coração Quebrado do Mundo.” Assim chamou à sua crónica. Lembro-me
da primeira vez que ouvi esse título. Foi como um trovão. Todos perceberam.
Todos temeram.
O neto repetiu em voz baixa, quase em reverência:
— O Coração Quebrado do Mundo.
— Sim. — O avô assentiu, satisfeito. — E foi aí que tudo mudou.
O velho ajeitou a pele nos ombros e estendeu as mãos nodosas ao
calor da fogueira. A luz desenhava rugas profundas no seu rosto, e os olhos
refletiam a dança das chamas.
— Quando a crónica de Ulvon se espalhou, não houve como ignorar. O
clamor foi tão grande que os governos se viram obrigados a reunir. Pela
primeira vez, deixaram de lado fronteiras, rivalidades, disputas antigas.
Reuniram-se todos, pequeno, e decidiram entregar o destino do mundo não a reis
nem a chefes, mas ao saber.
O neto piscou os olhos, intrigado.
— E foi aí que criaram o Conselho?
— Sim. — O avô acenou. — Treze cadeiras, erguidas acima de todas
as assembleias. Treze vozes que falariam pelo mundo. Três seriam ocupadas pelos
teóricos, aqueles que decifravam o invisível — matemáticos e físicos. As
restantes seriam dadas às mãos práticas: engenheiros, médicos, informáticos,
mestres da energia, forjadores do metal, guardiões da vida.
O rapaz repetiu, como quem recita um verso:
— Treze cadeiras. Três para os que decifram. Dez para os que
fazem.
O ancião sorriu.
— Guardas bem as palavras. É isso mesmo.
Fez uma pausa e então, em tom solene, começou a enumerar:
— No centro de todos estava Seran Volith,
o presidente, eleito pelos pares. Um físico de sabedoria serena, capaz de falar
a linguagem dos cálculos e também a do povo. Ele era o voto final, aquele que
desfazia os empates. Era a voz que equilibrava.
A chama iluminava o rosto do velho enquanto continuava:
— Ao lado dele sentavam-se os teóricos: Maelis Draven, que via
padrões nas sombras; Oryan Selvek,
o que primeiro escutou o abrandar do coração; e Kaelen Rhivor, que unia a teoria às engrenagens.
O neto murmurava os nomes em silêncio, tentando fixá-los.
— Depois vinham os engenheiros — prosseguiu o avô. — Daren Korrith, que ergueu
cidades no vazio, e Ilvara Tren,
que domava metais contra a fúria da estrela.
Seguiam-se os médicos: Relis Thovan,
que curava os corpos queimados, e Nira Calven,
que estudava as feridas da mente.
Os informáticos: Veyran Solith,
que lia nos números as rotas dos astros, e Lurea Dhan, que guardava os segredos das máquinas contra
os ladrões de poder.
Os mestres da energia e do metal: Kaelor Veyth, que fazia brilhar o fogo contido, e Selyra Vorn, que fundia ligas
impossíveis em gravidade nenhuma.
Por fim, o guardião da vida: Draven Kolas, que estudava os mares e chorava pelo que se
perdia neles.
O rapaz estava imóvel, fascinado, como se cada nome fosse um
feitiço.
O avô baixou o tom, quase em sussurro:
— Treze vozes. Treze cadeiras. Era esse o Círculo da Matéria.
Fez uma pausa, e o neto, como se obedecesse a um ritual, repetiu
com reverência:
— Treze vozes. Treze cadeiras.
— Sim, pequeno. — O velho suspirou. — Foi deles que nasceu a
decisão que mudaria tudo.
— O Círculo da Matéria reuniu-se durante muitos ciclos. Debateram,
calcularam, sonharam. Alguns queriam abrir fendas no solo e reacender o coração
com fogo trazido da estrela. Outros propunham injetar energia nas profundezas
com máquinas de fusão. Mas todas as contas, todas as simulações, mostravam o
mesmo: insuficiente.
O neto inclinou-se para a frente, ansioso.
— Então… o que fizeram?
O avô sorriu, sem alegria.
— Foi Seran Volith
quem se ergueu. Ele disse: “Só uma força maior que nós pode reacender o coração. Só a
gravidade pode fazer girar aquilo que já não gira.”
O rapaz repetiu devagar, como se gravasse cada sílaba:
— Só a gravidade pode fazer girar aquilo que já não gira.
— Exatamente. — O velho assentiu, satisfeito. — E assim decidiram:
ergueriam um corpo no céu. Um objeto tão pesado que puxaria o coração de novo
ao movimento. Um mundo falso para salvar o mundo verdadeiro.
O avô parou, deixando que o eco da frase se fixasse na mente do
rapaz. Depois continuou:
— Para isso, desviaram asteroides. Da cintura deixada pelos restos
de um planeta antigo, arrancaram pedras mortas e guiaram-nas com fogo e ferro.
Fundiram metais no vazio, montaram estruturas maiores do que qualquer cidade. E
pouco a pouco, começaram a moldar a esfera.
O rapaz ergueu os olhos, fixando a lua, e o reflexo dela
tremeluziu nos seus olhos como fogo.
— Aquela lua… — murmurou. — Então nasceu daí.
— Sim, pequeno. — O avô ergueu a mão ossuda e apontou a esfera
brilhante no céu. — Foi feita por nós. Não é filha da estrela nem das marés. É
filha da necessidade.
O silêncio voltou a cair. Só o vento enchia a entrada da gruta com
o seu uivo.
O neto, com voz quase de oração, perguntou:
— E o mundo mudou?
O velho baixou os olhos, e a sua voz tornou-se um murmúrio triste:
— Mudou, sim. Mas não como esperávamos.
O fogo baixara, crepitando em brasas vermelhas. A caverna
enchia-se de sombras mais densas, e o luar que entrava pela boca iluminava o
rosto do neto, imóvel, atento. O avô encolheu os ombros sob a pele grossa e
continuou, a voz lenta, pesada como rocha.
— A esfera cresceu no céu. Primeiro era apenas um ponto de luz,
depois uma sombra irregular. No fim, tornou-se uma presença constante, visível
de todos os lugares do mundo. As noites enchiam-se de clarões — quando as
pedras dos asteroides chocavam contra o metal, faiscando no vazio, criando um
espetáculo que parecia um festival eterno.
O rapaz sorriu, como se quisesse ter visto.
Mas o avô abanou a cabeça.
— Nem todos acreditavam, pequeno. Alguns diziam que era blasfémia
pôr uma sombra diante da estrela. Chamavam-lhe “a afronta dos deuses”. Outros,
mais práticos, diziam que era loucura gastar tanto quando poderíamos fugir para
as colónias. Havia ainda os que veneravam a esfera como um novo astro, a Sombra
Sagrada. Dividiram-se as vozes, dividiram-se os corações.
O neto mordeu o lábio, inquieto.
— E então?
— Então… — o avô suspirou fundo — vieram os dissidentes. Um grupo
de radicais conseguiu alterar a rota de um dos asteroides. Não foi para a
esfera que ele caiu, mas para o nosso próprio mundo.
O silêncio pesou. O neto prendeu a respiração.
— Caiu junto às terras geladas do norte. — A voz do velho era um
sussurro rouco. — A explosão foi tão grande que o chão tremeu de um extremo ao
outro. Uma onda de fogo correu sobre as planícies, queimando tudo à sua frente.
E depois, quando o gelo derreteu, vieram as águas. Oceanos inteiros ergueram-se
em muralhas, engolindo cidades, costas, florestas.
O rapaz apertou a pele ao redor do corpo, como se quisesse
proteger-se do frio que nem o fogo vencia.
— Mas não foi só isso. — O avô ergueu o dedo, severo. — O impacto
vaporizou o gelo, lançou fumo e cinza ao céu. A estrela deixou de brilhar sobre
nós. O dia tornou-se noite. E a noite tornou-se eterna.
A fogueira estalou, e por um momento só se ouviu o vento a uivar.
O neto baixou os olhos, e a sua voz saiu trémula:
— Foi aí que o mundo morreu?
O avô fechou os olhos por um instante, como se revivesse o peso da
perda.
— Sim. O planeta afundou-se em inverno e escuridão. As colónias,
privadas da mãe, caíram uma a uma. E nós, os poucos que restámos… escondemo-nos
em cavernas como esta, tentando sobreviver ao frio e à fome.
O velho voltou o olhar para a entrada, onde a lua brilhava no céu
gelado.
— A esfera ficou. Tornou-se uma lua falsa, coberta de pedra e pó.
Permanece ali, suspensa sobre nós, como testemunha e como aviso. Um monumento à
nossa ambição… e à nossa queda.
O neto ficou em silêncio por muito tempo. A carne nas suas mãos
tinha arrefecido, esquecida. O olhar estava preso na lua, que brilhava fria e
imóvel acima do horizonte, como se escutasse também a história que fora
contada.
O avô pousou a mão pesada sobre o ombro do rapaz.
— Lembra-te, pequeno. Tudo o que foste ouvir não está escrito em
pedra nem em metal. Vive apenas na memória. E quando eu me for, será a tua voz
que terá de repetir.
O rapaz voltou o rosto, os olhos brilhando com lágrimas contidas.
— Eu não vou esquecer.
O velho assentiu devagar.
— Não basta não esquecer. Tens de contar. Um dia terás filhos, e
eles terão os deles. E cada um há de repetir o que ouviu, para que a lua no céu
nunca deixe de falar.
O neto respirou fundo e olhou outra vez para a esfera iluminada.
Pela primeira vez, não a viu apenas como um corpo brilhante no céu — mas como a
sombra de tudo o que tinha sido perdido.
Naquela noite, quando adormeceu junto ao avô e à fogueira já em
cinzas, sonhou com treze cadeiras iluminadas pela luz de uma estrela distante,
e com nomes que se repetiam como um cântico.
Muitos invernos depois, o neto tornou-se homem, e como o avô antes
dele, contou a mesma história aos seus filhos, ao redor de uma fogueira.
E os filhos, por sua vez, contaram-na aos seus.
Com o tempo, os nomes transformaram-se em hinos.
As frases tornaram-se versos.
“Só a gravidade pode reacender o coração.” deixou de
ser ciência e passou a ser oração.
“O Coração Quebrado do Mundo.” já não era crónica, mas profecia.
Séculos depois, poucos ainda compreendiam que a lua fora
construída por mãos. Já não sabiam quem tinha sido Selvek, Draven ou Volith.
Mas ainda repetiam os sons, deformados pelo tempo, como se fossem nomes de
deuses esquecidos.
E em cada geração, ao redor de fogueiras em cavernas geladas, um
avô contava ao neto:
— É linda, não é?
E depois de um silêncio longo, dizia:
— Um antepassado nosso, de quem descendemos diretamente, ainda se
lembrava do tempo em que ela não estava lá.
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
Depois do Inferno Verde - Capítulo 32 + Epílogo
O telemóvel vibrou sobre a secretária, e Clara atendeu sem grande
pressa. Do outro lado, ouviu a voz animada de Benedita.
— Olá, Clara! Está tudo bem?
— Está, e contigo? — respondeu Clara, sorrindo sem perceber bem
porquê.
Houve uma hesitação breve, e depois Benedita lançou a pergunta de
forma meio atrapalhada:
— Olha, não fiques chateada… mas a Laura pediu-me para te
perguntar uma coisa.
— Então? — disse Clara, já intrigada.
— Achas que eu podia… ficar com o teu quarto? — perguntou de
supetão, quase sem respirar.
Clara ficou em silêncio por uns segundos, surpreendida. Não era
uma pergunta que esperasse ouvir. Por fim, soltou uma pequena gargalhada.
— O meu quarto?
— Sim, mas só se não te importares! — apressou-se Benedita a
acrescentar. — A Laura disse que a cave podia ser húmida e… pronto…
Clara abanou a cabeça, ainda a sorrir.
— Está bem, miúda. Desde que guardes as minhas coisas e respeites
as recordações que lá estão, por mim não há problema. Olha, se quiseres até
podes ficar com a cama. Tinha um colchão ótimo, super fofo.
— Jura? — Benedita quase gritou. — Claro que sim, guardo tudo
direitinho! E já estou curiosa para experimentar esse colchão mágico.
As duas acabaram a rir, cúmplices, como se tivessem partilhado um
segredo.
Quando desligou, Clara ficou a olhar para o telefone, pensativa.
Havia ali algo que não encaixava. Sem pensar muito, procurou logo o número da
mãe e ligou.
— Mãe, está tudo bem? — perguntou, tentando soar casual.
Laura respondeu com naturalidade:
— Está, claro. Porque perguntas?
— A Benedita acabou de me ligar a pedir o quarto. Há alguma coisa
que eu não saiba?
Laura riu-se, como se fosse uma preocupação desnecessária.
— Foi só uma ideia minha. Achei que a cave podia ser demasiado
húmida, sabes como é… E assim ela ficava mais confortável.
— E o pai? — Clara apertou os olhos, a voz a denunciar a cautela.
Houve uma pequena pausa, e depois Laura respondeu:
— Ele está de acordo. Não há problema nenhum.
Essa resposta foi suficiente para Clara se deixar aliviar, ao
menos por enquanto.
Uns dias depois, quando Clara e Daniel chegaram a casa para que
ela ajudasse Benedita com a matéria da escola — como tantas vezes já tinham
feito antes —, Clara notou logo algo diferente. Não era só a leveza no ar: era
a mãe, que parecia mais solta, quase luminosa, como não a via há muito; e o
pai, que já não se retraía quando ela entrava na sala, como se a simples
presença deixasse de ser um peso.
Intrigada, Clara esperou o momento certo e perguntou a Benedita,
em voz baixa, se se tinha passado alguma coisa. A miúda lançou-lhe um olhar
conspirador, aproximou-se, e num tom quase de segredo murmurou:
— Desde a noite em que me mudei da cave… o Óscar voltou a dormir
em casa.
Clara ficou a fitá-la por uns instantes, como a confirmar se
ouvira bem. Depois, sem conseguir conter-se, deixou escapar um risinho nervoso.
Benedita acompanhou-a, e em poucos segundos estavam as duas a dar pulinhos de
contente, como se partilhassem uma vitória íntima. Clara, por um momento,
esqueceu-se de ser adulta e comportou-se exatamente como a teenager que
Benedita ainda era.
Depois do jantar, Clara estranhou quando os pais a chamaram à
cozinha. O tom sério de Óscar fez o coração dela disparar. Sentaram-se os três
à mesa pequena, a luz amarela da lâmpada pendente lançando sombras suaves nas
paredes. Clara sentiu o nível de ansiedade crescer, como se estivesse prestes a
ouvir uma sentença.
Óscar falou baixo, quase num murmúrio, como se aquelas palavras
não pudessem sair dali:
— Clara… apesar de tudo o que se tem passado, eu jamais trocaria
um minuto do tempo em que te vi crescer e tornar-te mulher por um milhão de
euros.
Clara abriu a boca, hesitante, e tentou continuar, receosa:
— Mas…
Óscar ergueu ligeiramente a mão, interrompendo-a com suavidade mas
firmeza:
— Não há mas. Só há uma pergunta que eu e a tua mãe queremos
fazer. Mas quero que saibas primeiro que nada põe em causa o que tu significas
para mim ou para nós.
Clara respirou fundo, engolindo em seco, e perguntou com cuidado:
— Essa pergunta é dos dois?
Nesse instante, Laura, que permanecia em silêncio ao lado de
Óscar, procurou a mão dele sobre a mesa. Ele aceitou o gesto e entrelaçou os
dedos nos dela. Clara observou, e aquele simples gesto confirmou-lhe aquilo que
já desconfiava há dias: de alguma maneira, os dois estavam juntos. Um sorriso
tímido escapou-lhe, seguido de um aceno, como quem dá permissão:
— Façam a pergunta.
Laura ajeitou-se na cadeira, olhou a filha nos olhos e assumiu a
voz, como se quisesse reforçar que era uma pergunta feita em nome de ambos:
— O que acharias se nós adotássemos a Benedita?
As palavras caíram como um raio. Clara ficou em silêncio, sentindo
um choque a percorrer-lhe o corpo. O rosto dela oscilou entre perplexidade,
incredulidade e uma torrente de pensamentos confusos. Demorou alguns segundos
até conseguir dizer qualquer coisa. Por fim, em vez de responder diretamente,
perguntou:
— Já falaram com ela?
Óscar e Laura abanaram a cabeça em uníssono.
— Não — disse Laura, calma mas firme. — Ainda não lhe perguntámos
sequer se ela quereria. E nunca o faríamos sem falar primeiro contigo.
Clara deixou escapar um suspiro longo, os olhos marejados, e
assentiu devagar. Depois, surpreendendo-os, perguntou:
— E se eu for eu a falar com ela?
O olhar de Óscar e Laura cruzou-se por um instante, antes de ambos
lhe sorrirem.
— Sim — respondeu Óscar, com a voz carregada de emoção. — Pode
ser.
Clara deixou-se ficar a olhar para os dois, sentindo o peso e a
beleza do momento. Pela primeira vez em muito tempo, tinha a sensação de que a
família se estava a recompor — não da forma antiga, mas de uma forma nova, que
podia vir a ser ainda mais forte.
Clara levantou-se com um sorriso nos lábios e saiu da cozinha. O
coração batia-lhe acelerado, mas pela primeira vez em muito tempo não era de
ansiedade — era de alegria. No corredor, Daniel cruzou-se com ela e, ao ver-lhe
o ar radiante, não resistiu a perguntar:
— O que foi? Passou-se alguma coisa?
Clara apertou-lhe a mão, quase sem conseguir conter-se:
— Algo maravilhoso. — E puxou-o consigo, arrastando-o em direção à
sala.
Quando entraram, Benedita estava ainda debruçada sobre os livros,
auscultadores pendurados no pescoço, a caneta rodando distraída entre os dedos.
Ao ver Clara, levantou a cabeça e abriu um sorriso espontâneo.
— Posso interromper? — perguntou Clara, já sentando-se em frente
dela.
— Claro que sim! — respondeu Benedita, abrindo ainda mais o
sorriso.
Daniel ficou de pé ao lado da mulher, enquanto Clara, respirando
fundo, olhou para a amiga com seriedade misturada a entusiasmo.
— Acabei de falar com os meus pais…
A expressão de Benedita mudou imediatamente. O sorriso esbateu-se
e os olhos brilharam de curiosidade e leve apreensão.
— E então? — perguntou, um pouco renitente.
Clara fez uma pausa, quase saboreando a importância do momento.
— Eles falaram comigo de uma possibilidade… mas só pode acontecer
se tu quiseres.
Benedita inclinou-se para a frente, a respiração suspensa.
— O quê?
Clara mordeu o lábio, e então, com uma ternura inesperada, deixou
escapar:
— Queres ser minha irmã?
O choque estampou-se no rosto de Benedita.
— Como assim? — murmurou, a voz a tremer.
Clara segurou-lhe as mãos e explicou devagar, como quem desenha um
sonho com palavras:
— O meu pai e a minha mãe gostavam de te adotar. Mas só se tu
quiseres.
Por um instante, Benedita ficou imóvel, paralisada. Depois, como
se a represa dentro dela tivesse cedido, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e
ela começou a chorar, incapaz de dizer mais nada.
Nesse momento, Óscar e Laura entraram na sala. Vendo-os, Benedita
levantou-se de rompante e correu para Óscar, atirando-se ao seu peito e
abraçando-o com uma força desesperada, como se tivesse medo que ele
desaparecesse.
Óscar, surpreendido, olhou por cima da cabeça dela para Clara e
Laura, antes de lhe pousar as mãos nas costas, firme, acolhedor. Laura
aproximou-se em silêncio, com lágrimas nos olhos, completando aquele abraço.
Epilogo
Óscar olhou profundamente nos olhos de Benedita. A respiração dela
tremia um pouco, mas o olhar estava firme, decidido.
— Tens mesmo a certeza de que queres fazer isto? — perguntou-lhe,
baixo, como se ainda houvesse uma última porta de saída.
— Mais do que tudo. — respondeu ela sem hesitar.
Óscar tentou insistir, a ironia a suavizar-lhe o tom:
— Ainda vamos a tempo de fugir. Podíamos simplesmente sair daqui…
Benedita ergueu uma sobrancelha, divertida:
— Metíamo-nos no Corvette e arrancávamos para o “Inferno Verde”? O
que tu querias mesmo era que eu ficasse solteirona.
— Claro. — disse ele, fingindo gravidade. — Para cuidares de mim e
da tua mãe quando já estivermos a cair aos pedaços.
Ela riu-se e abanou a cabeça, antes de lhe lançar um olhar terno:
— Pai, eu nunca vos vou deixar. Nem a ti, nem à mãe.
A palavra ficou suspensa no ar. Pai. Não o título que a vida impõe
pelo sangue, mas o que nasce da escolha, da entrega. Óscar sentiu o peso e a
grandeza daquilo, um orgulho silencioso a encher-lhe o peito. Por um instante,
relembrou o caminho doloroso até ali, cada silêncio, cada queda, cada noite
perdida — e percebeu que tinha valido a pena.
Ainda assim, não resistiu à provocação:
— Mas olha que o rapaz é um pateta.
— É o meu pateta. — devolveu Benedita, sorridente. — E tu também
chamas bronco ao Daniel, mas adoras o homem.
Óscar fez um sorriso enviesado e suspirou.
— No fim, o Pedro também não é mau rapaz.
Nesse momento, a marcha nupcial ecoou pela nave. As portas
abriram-se, revelando a igreja decorada com flores e cheia de olhares atentos.
Óscar ajeitou o braço de Benedita no seu e caminhou com ela pelo corredor
central. Cada passo parecia ressoar com mais peso do que os sinos lá fora.
Quando chegaram ao altar, Clara e Daniel aguardavam como
padrinhos. Do outro lado, Pedro fitava-o com um misto de nervosismo e respeito.
Óscar estendeu-lhe a mão. O jovem apertou-a firme, num gesto breve mas
carregado de reverência. Num só olhar trocaram mais do que palavras alguma vez
poderiam dizer: respeito mútuo, aceitação e promessa.
Óscar afastou-se, encontrou o lugar ao lado de Laura e sentou-se.
Procurou a mão dela, entrelaçando os dedos. Ela correspondeu, sem precisar de
palavras.
E foi nesse instante, em meio à música e às vozes, que ele soube. Apertou-lhe
a mão com força e olhou-a nos olhos.
Apesar de tudo, ainda estavam ali.
Não intactos, mas inteiros.


