terça-feira, 25 de novembro de 2025

O que somos no escuro? (Excerto)

 


Estacionei o carro e fiquei a olhar o edifício à minha frente, aquele bloco cinzento e sem alma que se erguia como um monumento ao erro humano. Questionei-me se seria boa ideia aquilo que tencionava fazer. Provavelmente não. Mas, a esta altura, isso já não importava.

Entrei na penitenciária junto com as outras pessoas que chegavam à hora da visita. O cheiro a desinfetante misturado com ferro e pó velho era quase sufocante. À entrada, pediram-me a identificação. Fingi procurar a carteira nos bolsos e suspirei.

— Esqueci-me em casa — disse, com um tom neutro.

Mostrei então uma fotografia do meu cartão de cidadão verdadeiro no telemóvel. O guarda olhou para o ecrã, digitou qualquer coisa no computador e acabou por acenar com a cabeça, permitindo-me a passagem.

Não sabia se aquele registo poderia levantar suspeitas, mas, por precaução, ficaria apenas uns minutos.

Na sala de visitas, ampla e gélida, um funcionário indicou-me uma mesa.

O homem que eu procurava já lá estava: Jorge Santos, o antigo chefe da polícia, agora com o uniforme cinzento da prisão. O tecido pendia-lhe do corpo, e o olhar, vazio, oscilava entre o tédio e o desespero.

Aproximei-me e sentei-me à sua frente.

— Olá, Jorge.

Ele levantou os olhos, estudou-me, e franziu o sobrolho.

— Mas quem diabo é o senhor? — perguntou, com a voz cansada e rouca.

Sorri-lhe levemente.

— Até fico magoado… — disse, num tom que misturava ironia e calma. — Mas percebo. A última vez que nos vimos, o meu rosto não estava propriamente apresentável.

Jorge continuou a olhar-me, sem compreender.

Olhei em volta e voltei a fixá-lo.

— Ao que parece, os nossos amigos comuns não foram suficientes para o manter fora daqui.

Foi então que o reconhecimento lhe atravessou o rosto. Primeiro, uma faísca de dúvida; depois, a certeza.

— Você… — murmurou. — Foi você…

Limitei-me a observá-lo, em silêncio, deixando que o resto se completasse na cabeça dele.

— Dá-me demasiado crédito, Jorge — disse-lhe, por fim, num tom quase descontraído. — Como é que um pobre desgraçado como eu conseguiria destruir a carreira de um chefe da polícia?

Fez-se um breve silêncio. Inclinei-me um pouco para a frente e acrescentei, mais baixo:

— A não ser, claro, que esse chefe tivesse tanta confiança no seu próprio poder que se tivesse tornado descuidado.

O olhar de Jorge encheu-se de raiva. Os músculos do maxilar contraíram-se, a pele do rosto ficou tensa.

— Foi você… — disse, mas não como quem pergunta. Como quem constata o óbvio.

Sorri-lhe. Um sorriso leve, tranquilo, que o desconcertou ainda mais do que qualquer palavra poderia.

— Não vim incomodá-lo, Jorge. — Cruzei as mãos sobre a mesa. — Imagino que já tenha mais do que suficiente com que se preocupar. Vim apenas deixar-lhe um recado.

Ele ficou a olhar-me, imóvel, mas atento.

— Pode dizer aos nossos amigos comuns — continuei — que arranjei um novo passatempo. Um novo hobbie. E que esperem notícias.

O olhar dele estreitou-se. Eu prossegui, calmo, firme.

— Considere-se um teste, Jorge. Um ensaio. O que virá a seguir será mais sério.

Ele recostou-se na cadeira, respirando fundo, e depois soltou, entre dentes:

— Você não faz ideia com quem se está a meter. Já é um homem morto, mesmo sem o saber.

Assenti lentamente.

— Já era um homem morto muito antes de acordar naquela cama de hospital. Toda a minha vida já tinha ardido, Jorge. — A minha voz soou serena, quase fria. — Só as cinzas ainda estavam quentes. Mas agora, depois de tudo, até isso arrefeceu.

Inclinei-me ligeiramente para a frente.

— O que resta agora é só a verdade. E a verdade vai iluminar toda a gente. Por mais escuro que seja o canto onde se escondam.

Ele respirava com força, o rosto ruborizado, as veias do pescoço e das têmporas latejantes como se quisessem saltar da pele.

— O mais irónico — continuei, com um meio sorriso — é que, se a sua amiga simplesmente me tivesse dado o divórcio, eu teria sido só mais um idiota de coração partido, como tantos outros. Mas o desejo de controlo dela… e o dos vossos amigos… fez o que fez. E agora estamos aqui.

Jorge estava prestes a responder, mas não lhe dei tempo. Fiquei sério.

— Porque é que tinham de ameaçar o meu filho?

A pergunta caiu entre nós como uma pedra num poço. Nenhum som se seguiu. Ele não respondeu. Talvez porque não soubesse, talvez porque soubesse demais.

Levantei-me devagar.

— Pense nisso — murmurei, e virei-lhe as costas.

Saí rapidamente, sem olhar para trás.

O eco das portas metálicas a fechar-se atrás de mim soou quase como um aplauso fúnebre.


(Já disponível para Kindle, em livro de capa normal e capa dura - Link na barra da esquerda)

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Disponível em breve

 



O QUE SOMOS NO ESCURO?

Um romance sobre verdades que se partem — e sombras que nunca desaparecem.

O que acontece quando a verdade se revela tarde demais?
Quando o amor não resiste à luz e a escuridão mostra o que realmente somos?

Daniel sempre acreditou na solidez da sua família — até ao dia em que descobriu que nada era o que parecia.
Traído pela mulher, manipulado por um homem poderoso, empurrado para o limite da sanidade, ele transforma a dor em lucidez e a lucidez em método.

A justiça que procura não é feita de vinganças explosivas, mas de consequências inevitáveis.

Helena, dividida entre a ambição que a levou ao topo e a culpa que a devora, vê-se presa numa vida reconstruída sobre as ruínas das suas escolhas.
E Laurent, o homem que se acreditava intocável, descobre que até o mais habilidoso dos predadores tem um ponto fraco: a verdade.

Entre silêncios, segredos e actos irreversíveis, O que somos no escuro? expõe a fragilidade dos laços que julgamos inquebráveis e a capacidade humana para destruir — e ainda assim tentar reconstruir — aquilo que mais amamos.

Um thriller emocional e intimista sobre culpa, paternidade, poder, amor que se corrompe e sombras que nunca mais se dissipam.

No fim, resta apenas uma pergunta:

Quando todas as máscaras caem, de quem é o olhar por trás?



terça-feira, 7 de outubro de 2025

A estrear - Inundação (Continuação de "Chuva")

 


INUNDAÇÃO

Vinte e cinco anos depois dos acontecimentos narrados em Chuva, o nome de Gabriel Guerra continua a ecoar como mito: o homem que trouxe ao mundo mensagens enigmáticas, alterou o curso da história e depois desapareceu.

Agora, um novo rosto emerge. Ariel Fontes, órfão criado num convento, descobre ser filho de uma espia do Vaticano… e talvez também de Gabriel. Quando os ficheiros secretos que herdou vêm a público, expõem não apenas as sombras da Igreja, mas também a existência do Arkanum, a organização que desde então controlou na sombra governos e populações.

Enquanto vigílias pacíficas se transformam em multidões imparáveis, Ariel é empurrado para o centro da narrativa global — não como símbolo escolhido, mas como prova viva de que até os mitos sangram. Ao seu lado, Inês, a médica que nunca o abandona, e Cassandra, agente dividida entre obediência e verdade, enfrentam um sistema em colapso.

E quando Gabriel regressa, trazendo consigo uma última profecia ligada a um eclipse iminente, o mundo prepara-se para a Inundação: a queda do controlo absoluto e o renascimento imprevisível da liberdade.

Inundação é a continuação de Chuva: um romance intenso sobre poder e fé, conspiração e redenção, onde cada segredo guardado se transforma em corrente imparável.




(Se alguém estiver interessado, está ali ao lado (esq). Rima e é verdade!)

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A Dança Invisível



No princípio ergueu-se a chama,
do engenho nasceu o poder;
um mundo à beira da ruína
ousou sonhar, ousou vencer.

Mas sombras cresceram em segredo,
fizeram do fogo traição;
e o céu rasgou-se em cataclismo,
cobrindo de cinza o chão.

O gelo tombou sobre as terras,
os mares rugiram sem lei;
mil vozes calaram-se em trevas,
mil lares perderam quem os fez rei.

Ainda assim, de mãos erguidas,
ergueram muralhas no ar,
e na Esfera, templo suspenso,
juraram jamais quebrar.

O tempo levou gerações,
a memória tornou-se lenda;
mas no coração dos vivos
a esperança nunca se desvenda.

Pois mesmo onde a noite pesa
e o frio decide a sorte,
há sempre quem diga em segredo:

“O círculo não conhece morte.” 


Prólogo

 

O lume ardia baixo, um fogo tímido a lutar contra o frio que se infiltrava por todas as frestas da caverna. As chamas, amarelas e trémulas, faziam as sombras dançar nas paredes irregulares, como se as figuras pintadas pelo fumo ganhassem vida própria. O cheiro da carne a assar — um roedor grande, caçado ao entardecer — misturava-se ao odor acre da lenha húmida.

O avô sentava-se sobre uma pedra lisa, envolto em peles pesadas. Os cabelos, longos e grisalhos, estavam presos com um cordão de fibras secas, mas escapavam mechas que se agitavam com cada sopro de vento. Os olhos, fundos e claros, brilhavam com a luz da fogueira, mas não fitavam as chamas. Seguiam o olhar do neto.

O rapaz, pequeno demais para a túnica de peles que lhe caía pelos ombros, estava sentado junto à entrada, de pernas cruzadas. A sua respiração formava nuvens de vapor que se dissipavam depressa no ar gelado. Não tirava os olhos do exterior: a paisagem infinita, um deserto branco, onde a neve se acumulava em colinas suaves, interrompidas apenas por penedos negros como dentes a rasgar a planície.

E acima, imensa, dominando o céu, erguia-se a lua. Não era suave nem esférica como as que aparecem nos mitos de outros povos. Era irregular, coberta de cicatrizes profundas, faixas de pó e pedra. Mesmo assim, refletia com majestade a luz distante da estrela-mãe, pairando como um fantasma brilhante sobre o mundo gelado.

O neto olhava-a em silêncio, com um fascínio que o avô conhecia bem.

— É linda, não é? — murmurou o velho, a voz rouca pelo frio e pela idade.

O rapaz acenou devagar, sem desviar os olhos.

O avô deixou que o silêncio se alongasse, ouvindo apenas o crepitar da fogueira e o vento a uivar lá fora. Depois, suspirou, e as palavras saíram-lhe pesadas, quase um segredo partilhado com a própria noite:

— Ainda me lembro do tempo em que não estava lá.

O neto virou-se de repente, os olhos arregalados.

— Não estava?

O velho sorriu com amargura. A chama iluminava-lhe o rosto vincado, marcado por rugas fundas.

— Não, pequeno. O mundo já foi diferente. O céu era vazio, apenas a estrela brilhava. As terras eram verdes, os mares respiravam livres e calmos. O vento era doce, e o calor não matava. Era um mundo cheio de vida. Um mundo antes da sombra.

O rapaz, sem dar por isso, tinha-se aproximado da fogueira. Estava absorto.

O velho puxou um pedaço de carne, passou-o a uma pedra lisa para arrefecer e entregou-o ao neto. Este mordeu com avidez, mas os olhos voltaram logo à lua, lá fora, suspensa no céu como uma sentinela.

— Conta-me, avô — pediu em voz baixa. — Como apareceu?

O ancião endireitou-se, ajeitando a pele sobre os ombros. Ficou a olhar a lua durante longos segundos, como se estivesse a medir a distância entre o passado e o presente. Depois, começou a falar, e a sua voz já não era apenas dele. Era a de todas as gerações que tinham carregado aquela história.

O avô inspirou fundo, deixando que o silêncio da noite se misturasse ao som do fogo. Depois, falou devagar, quase como se estivesse a recitar palavras antigas:

— Tudo começou com números, pequeno. Linhas, cálculos, símbolos traçados em tábuas de cristal. Foi assim que os primeiros viram o que ninguém queria ver.

O rapaz franziu o sobrolho.

— Números?

O ancião sorriu, um sorriso cansado.

— Nomes que deves guardar. O primeiro chamava-se Oryan Selvek. Um físico. Era obstinado como o gelo e passava dias inteiros a seguir a dança invisível das partículas, tentando ouvir nelas a voz do mundo. Ao lado dele estava Maelis Draven, uma matemática que via padrões onde todos viam apenas ruído. Ela unia pontos, ligava fenómenos, como quem descobre constelações escondidas no nevoeiro.

O neto repetiu os nomes em silêncio, como se os quisesse gravar na memória.

— Foram eles que viram primeiro — continuou o avô. — O coração do planeta, lá no fundo, já não girava como antes. O escudo invisível, aquele que nos protegia da fúria da estrela, estava a enfraquecer. Não era apenas calor. Era algo mais profundo: o próprio núcleo a morrer.

O rapaz encolheu-se, imaginando o fogo interior a apagar-se.

— Escreveram sobre isso. — A voz do avô tornou-se grave. — Compuseram um artigo que chamaram Sobre a Diminuição do Campo Global. Mandaram-no para os sábios da época. Mas sabes o que aconteceu?

O neto abanou a cabeça.

— Nada. — O velho deixou escapar um riso sem alegria. — Ninguém lhes deu ouvidos. Eram apenas mais dois a gritar para o vento.

O rapaz aproximou-se, os olhos cheios de espanto.

— Então como é que todos souberam?

O avô inclinou-se para a frente, o rosto iluminado pela fogueira.

— Foi preciso outro nome, outro destino. Kareth Ulvon. Não era físico, nem matemático. Era um jornalista. Um homem que sabia falar ao povo. Ele leu os cálculos, procurou Selvek e Draven, ouviu-os. E depois escreveu.

Fez uma pausa, como se saboreasse o peso das palavras.

“O Coração Quebrado do Mundo.” Assim chamou à sua crónica. Lembro-me da primeira vez que ouvi esse título. Foi como um trovão. Todos perceberam. Todos temeram.

O neto repetiu em voz baixa, quase em reverência:

— O Coração Quebrado do Mundo.

— Sim. — O avô assentiu, satisfeito. — E foi aí que tudo mudou.

O velho ajeitou a pele nos ombros e estendeu as mãos nodosas ao calor da fogueira. A luz desenhava rugas profundas no seu rosto, e os olhos refletiam a dança das chamas.

— Quando a crónica de Ulvon se espalhou, não houve como ignorar. O clamor foi tão grande que os governos se viram obrigados a reunir. Pela primeira vez, deixaram de lado fronteiras, rivalidades, disputas antigas. Reuniram-se todos, pequeno, e decidiram entregar o destino do mundo não a reis nem a chefes, mas ao saber.

O neto piscou os olhos, intrigado.

— E foi aí que criaram o Conselho?

— Sim. — O avô acenou. — Treze cadeiras, erguidas acima de todas as assembleias. Treze vozes que falariam pelo mundo. Três seriam ocupadas pelos teóricos, aqueles que decifravam o invisível — matemáticos e físicos. As restantes seriam dadas às mãos práticas: engenheiros, médicos, informáticos, mestres da energia, forjadores do metal, guardiões da vida.

O rapaz repetiu, como quem recita um verso:

— Treze cadeiras. Três para os que decifram. Dez para os que fazem.

O ancião sorriu.

— Guardas bem as palavras. É isso mesmo.

Fez uma pausa e então, em tom solene, começou a enumerar:

— No centro de todos estava Seran Volith, o presidente, eleito pelos pares. Um físico de sabedoria serena, capaz de falar a linguagem dos cálculos e também a do povo. Ele era o voto final, aquele que desfazia os empates. Era a voz que equilibrava.

A chama iluminava o rosto do velho enquanto continuava:

— Ao lado dele sentavam-se os teóricos: Maelis Draven, que via padrões nas sombras; Oryan Selvek, o que primeiro escutou o abrandar do coração; e Kaelen Rhivor, que unia a teoria às engrenagens.

O neto murmurava os nomes em silêncio, tentando fixá-los.

— Depois vinham os engenheiros — prosseguiu o avô. — Daren Korrith, que ergueu cidades no vazio, e Ilvara Tren, que domava metais contra a fúria da estrela.

Seguiam-se os médicos: Relis Thovan, que curava os corpos queimados, e Nira Calven, que estudava as feridas da mente.

Os informáticos: Veyran Solith, que lia nos números as rotas dos astros, e Lurea Dhan, que guardava os segredos das máquinas contra os ladrões de poder.

Os mestres da energia e do metal: Kaelor Veyth, que fazia brilhar o fogo contido, e Selyra Vorn, que fundia ligas impossíveis em gravidade nenhuma.

Por fim, o guardião da vida: Draven Kolas, que estudava os mares e chorava pelo que se perdia neles.

O rapaz estava imóvel, fascinado, como se cada nome fosse um feitiço.

O avô baixou o tom, quase em sussurro:

— Treze vozes. Treze cadeiras. Era esse o Círculo da Matéria.

Fez uma pausa, e o neto, como se obedecesse a um ritual, repetiu com reverência:

— Treze vozes. Treze cadeiras.

— Sim, pequeno. — O velho suspirou. — Foi deles que nasceu a decisão que mudaria tudo.

— O Círculo da Matéria reuniu-se durante muitos ciclos. Debateram, calcularam, sonharam. Alguns queriam abrir fendas no solo e reacender o coração com fogo trazido da estrela. Outros propunham injetar energia nas profundezas com máquinas de fusão. Mas todas as contas, todas as simulações, mostravam o mesmo: insuficiente.

O neto inclinou-se para a frente, ansioso.

— Então… o que fizeram?

O avô sorriu, sem alegria.

— Foi Seran Volith quem se ergueu. Ele disse: “Só uma força maior que nós pode reacender o coração. Só a gravidade pode fazer girar aquilo que já não gira.”

O rapaz repetiu devagar, como se gravasse cada sílaba:

— Só a gravidade pode fazer girar aquilo que já não gira.

— Exatamente. — O velho assentiu, satisfeito. — E assim decidiram: ergueriam um corpo no céu. Um objeto tão pesado que puxaria o coração de novo ao movimento. Um mundo falso para salvar o mundo verdadeiro.

O avô parou, deixando que o eco da frase se fixasse na mente do rapaz. Depois continuou:

— Para isso, desviaram asteroides. Da cintura deixada pelos restos de um planeta antigo, arrancaram pedras mortas e guiaram-nas com fogo e ferro. Fundiram metais no vazio, montaram estruturas maiores do que qualquer cidade. E pouco a pouco, começaram a moldar a esfera.

O rapaz ergueu os olhos, fixando a lua, e o reflexo dela tremeluziu nos seus olhos como fogo.

— Aquela lua… — murmurou. — Então nasceu daí.

— Sim, pequeno. — O avô ergueu a mão ossuda e apontou a esfera brilhante no céu. — Foi feita por nós. Não é filha da estrela nem das marés. É filha da necessidade.

O silêncio voltou a cair. Só o vento enchia a entrada da gruta com o seu uivo.

O neto, com voz quase de oração, perguntou:

— E o mundo mudou?

O velho baixou os olhos, e a sua voz tornou-se um murmúrio triste:

— Mudou, sim. Mas não como esperávamos.

O fogo baixara, crepitando em brasas vermelhas. A caverna enchia-se de sombras mais densas, e o luar que entrava pela boca iluminava o rosto do neto, imóvel, atento. O avô encolheu os ombros sob a pele grossa e continuou, a voz lenta, pesada como rocha.

— A esfera cresceu no céu. Primeiro era apenas um ponto de luz, depois uma sombra irregular. No fim, tornou-se uma presença constante, visível de todos os lugares do mundo. As noites enchiam-se de clarões — quando as pedras dos asteroides chocavam contra o metal, faiscando no vazio, criando um espetáculo que parecia um festival eterno.

O rapaz sorriu, como se quisesse ter visto.

Mas o avô abanou a cabeça.

— Nem todos acreditavam, pequeno. Alguns diziam que era blasfémia pôr uma sombra diante da estrela. Chamavam-lhe “a afronta dos deuses”. Outros, mais práticos, diziam que era loucura gastar tanto quando poderíamos fugir para as colónias. Havia ainda os que veneravam a esfera como um novo astro, a Sombra Sagrada. Dividiram-se as vozes, dividiram-se os corações.

O neto mordeu o lábio, inquieto.

— E então?

— Então… — o avô suspirou fundo — vieram os dissidentes. Um grupo de radicais conseguiu alterar a rota de um dos asteroides. Não foi para a esfera que ele caiu, mas para o nosso próprio mundo.

O silêncio pesou. O neto prendeu a respiração.

— Caiu junto às terras geladas do norte. — A voz do velho era um sussurro rouco. — A explosão foi tão grande que o chão tremeu de um extremo ao outro. Uma onda de fogo correu sobre as planícies, queimando tudo à sua frente. E depois, quando o gelo derreteu, vieram as águas. Oceanos inteiros ergueram-se em muralhas, engolindo cidades, costas, florestas.

O rapaz apertou a pele ao redor do corpo, como se quisesse proteger-se do frio que nem o fogo vencia.

— Mas não foi só isso. — O avô ergueu o dedo, severo. — O impacto vaporizou o gelo, lançou fumo e cinza ao céu. A estrela deixou de brilhar sobre nós. O dia tornou-se noite. E a noite tornou-se eterna.

A fogueira estalou, e por um momento só se ouviu o vento a uivar.

O neto baixou os olhos, e a sua voz saiu trémula:

— Foi aí que o mundo morreu?

O avô fechou os olhos por um instante, como se revivesse o peso da perda.

— Sim. O planeta afundou-se em inverno e escuridão. As colónias, privadas da mãe, caíram uma a uma. E nós, os poucos que restámos… escondemo-nos em cavernas como esta, tentando sobreviver ao frio e à fome.

O velho voltou o olhar para a entrada, onde a lua brilhava no céu gelado.

— A esfera ficou. Tornou-se uma lua falsa, coberta de pedra e pó. Permanece ali, suspensa sobre nós, como testemunha e como aviso. Um monumento à nossa ambição… e à nossa queda.

O neto ficou em silêncio por muito tempo. A carne nas suas mãos tinha arrefecido, esquecida. O olhar estava preso na lua, que brilhava fria e imóvel acima do horizonte, como se escutasse também a história que fora contada.

O avô pousou a mão pesada sobre o ombro do rapaz.

— Lembra-te, pequeno. Tudo o que foste ouvir não está escrito em pedra nem em metal. Vive apenas na memória. E quando eu me for, será a tua voz que terá de repetir.

O rapaz voltou o rosto, os olhos brilhando com lágrimas contidas.

— Eu não vou esquecer.

O velho assentiu devagar.

— Não basta não esquecer. Tens de contar. Um dia terás filhos, e eles terão os deles. E cada um há de repetir o que ouviu, para que a lua no céu nunca deixe de falar.

O neto respirou fundo e olhou outra vez para a esfera iluminada. Pela primeira vez, não a viu apenas como um corpo brilhante no céu — mas como a sombra de tudo o que tinha sido perdido.

Naquela noite, quando adormeceu junto ao avô e à fogueira já em cinzas, sonhou com treze cadeiras iluminadas pela luz de uma estrela distante, e com nomes que se repetiam como um cântico.

Muitos invernos depois, o neto tornou-se homem, e como o avô antes dele, contou a mesma história aos seus filhos, ao redor de uma fogueira.

E os filhos, por sua vez, contaram-na aos seus.

Com o tempo, os nomes transformaram-se em hinos.

As frases tornaram-se versos.

“Só a gravidade pode reacender o coração.” deixou de ser ciência e passou a ser oração.

“O Coração Quebrado do Mundo.” já não era crónica, mas profecia.

Séculos depois, poucos ainda compreendiam que a lua fora construída por mãos. Já não sabiam quem tinha sido Selvek, Draven ou Volith. Mas ainda repetiam os sons, deformados pelo tempo, como se fossem nomes de deuses esquecidos.

E em cada geração, ao redor de fogueiras em cavernas geladas, um avô contava ao neto:

— É linda, não é?

E depois de um silêncio longo, dizia:

— Um antepassado nosso, de quem descendemos diretamente, ainda se lembrava do tempo em que ela não estava lá.


quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Depois do Inferno Verde - Capítulo 32 + Epílogo

 



O telemóvel vibrou sobre a secretária, e Clara atendeu sem grande pressa. Do outro lado, ouviu a voz animada de Benedita.

— Olá, Clara! Está tudo bem?

— Está, e contigo? — respondeu Clara, sorrindo sem perceber bem porquê.

Houve uma hesitação breve, e depois Benedita lançou a pergunta de forma meio atrapalhada:

— Olha, não fiques chateada… mas a Laura pediu-me para te perguntar uma coisa.

— Então? — disse Clara, já intrigada.

— Achas que eu podia… ficar com o teu quarto? — perguntou de supetão, quase sem respirar.

Clara ficou em silêncio por uns segundos, surpreendida. Não era uma pergunta que esperasse ouvir. Por fim, soltou uma pequena gargalhada.

— O meu quarto?

— Sim, mas só se não te importares! — apressou-se Benedita a acrescentar. — A Laura disse que a cave podia ser húmida e… pronto…

Clara abanou a cabeça, ainda a sorrir.

— Está bem, miúda. Desde que guardes as minhas coisas e respeites as recordações que lá estão, por mim não há problema. Olha, se quiseres até podes ficar com a cama. Tinha um colchão ótimo, super fofo.

— Jura? — Benedita quase gritou. — Claro que sim, guardo tudo direitinho! E já estou curiosa para experimentar esse colchão mágico.

As duas acabaram a rir, cúmplices, como se tivessem partilhado um segredo.

Quando desligou, Clara ficou a olhar para o telefone, pensativa. Havia ali algo que não encaixava. Sem pensar muito, procurou logo o número da mãe e ligou.

— Mãe, está tudo bem? — perguntou, tentando soar casual.

Laura respondeu com naturalidade:

— Está, claro. Porque perguntas?

— A Benedita acabou de me ligar a pedir o quarto. Há alguma coisa que eu não saiba?

Laura riu-se, como se fosse uma preocupação desnecessária.

— Foi só uma ideia minha. Achei que a cave podia ser demasiado húmida, sabes como é… E assim ela ficava mais confortável.

— E o pai? — Clara apertou os olhos, a voz a denunciar a cautela.

Houve uma pequena pausa, e depois Laura respondeu:

— Ele está de acordo. Não há problema nenhum.

Essa resposta foi suficiente para Clara se deixar aliviar, ao menos por enquanto.

Uns dias depois, quando Clara e Daniel chegaram a casa para que ela ajudasse Benedita com a matéria da escola — como tantas vezes já tinham feito antes —, Clara notou logo algo diferente. Não era só a leveza no ar: era a mãe, que parecia mais solta, quase luminosa, como não a via há muito; e o pai, que já não se retraía quando ela entrava na sala, como se a simples presença deixasse de ser um peso.

Intrigada, Clara esperou o momento certo e perguntou a Benedita, em voz baixa, se se tinha passado alguma coisa. A miúda lançou-lhe um olhar conspirador, aproximou-se, e num tom quase de segredo murmurou:

— Desde a noite em que me mudei da cave… o Óscar voltou a dormir em casa.

Clara ficou a fitá-la por uns instantes, como a confirmar se ouvira bem. Depois, sem conseguir conter-se, deixou escapar um risinho nervoso. Benedita acompanhou-a, e em poucos segundos estavam as duas a dar pulinhos de contente, como se partilhassem uma vitória íntima. Clara, por um momento, esqueceu-se de ser adulta e comportou-se exatamente como a teenager que Benedita ainda era.

Depois do jantar, Clara estranhou quando os pais a chamaram à cozinha. O tom sério de Óscar fez o coração dela disparar. Sentaram-se os três à mesa pequena, a luz amarela da lâmpada pendente lançando sombras suaves nas paredes. Clara sentiu o nível de ansiedade crescer, como se estivesse prestes a ouvir uma sentença.

Óscar falou baixo, quase num murmúrio, como se aquelas palavras não pudessem sair dali:

— Clara… apesar de tudo o que se tem passado, eu jamais trocaria um minuto do tempo em que te vi crescer e tornar-te mulher por um milhão de euros.

Clara abriu a boca, hesitante, e tentou continuar, receosa:

— Mas…

Óscar ergueu ligeiramente a mão, interrompendo-a com suavidade mas firmeza:

— Não há mas. Só há uma pergunta que eu e a tua mãe queremos fazer. Mas quero que saibas primeiro que nada põe em causa o que tu significas para mim ou para nós.

Clara respirou fundo, engolindo em seco, e perguntou com cuidado:

— Essa pergunta é dos dois?

Nesse instante, Laura, que permanecia em silêncio ao lado de Óscar, procurou a mão dele sobre a mesa. Ele aceitou o gesto e entrelaçou os dedos nos dela. Clara observou, e aquele simples gesto confirmou-lhe aquilo que já desconfiava há dias: de alguma maneira, os dois estavam juntos. Um sorriso tímido escapou-lhe, seguido de um aceno, como quem dá permissão:

— Façam a pergunta.

Laura ajeitou-se na cadeira, olhou a filha nos olhos e assumiu a voz, como se quisesse reforçar que era uma pergunta feita em nome de ambos:

— O que acharias se nós adotássemos a Benedita?

As palavras caíram como um raio. Clara ficou em silêncio, sentindo um choque a percorrer-lhe o corpo. O rosto dela oscilou entre perplexidade, incredulidade e uma torrente de pensamentos confusos. Demorou alguns segundos até conseguir dizer qualquer coisa. Por fim, em vez de responder diretamente, perguntou:

— Já falaram com ela?

Óscar e Laura abanaram a cabeça em uníssono.

— Não — disse Laura, calma mas firme. — Ainda não lhe perguntámos sequer se ela quereria. E nunca o faríamos sem falar primeiro contigo.

Clara deixou escapar um suspiro longo, os olhos marejados, e assentiu devagar. Depois, surpreendendo-os, perguntou:

— E se eu for eu a falar com ela?

O olhar de Óscar e Laura cruzou-se por um instante, antes de ambos lhe sorrirem.

— Sim — respondeu Óscar, com a voz carregada de emoção. — Pode ser.

Clara deixou-se ficar a olhar para os dois, sentindo o peso e a beleza do momento. Pela primeira vez em muito tempo, tinha a sensação de que a família se estava a recompor — não da forma antiga, mas de uma forma nova, que podia vir a ser ainda mais forte.

Clara levantou-se com um sorriso nos lábios e saiu da cozinha. O coração batia-lhe acelerado, mas pela primeira vez em muito tempo não era de ansiedade — era de alegria. No corredor, Daniel cruzou-se com ela e, ao ver-lhe o ar radiante, não resistiu a perguntar:

— O que foi? Passou-se alguma coisa?

Clara apertou-lhe a mão, quase sem conseguir conter-se:

— Algo maravilhoso. — E puxou-o consigo, arrastando-o em direção à sala.

Quando entraram, Benedita estava ainda debruçada sobre os livros, auscultadores pendurados no pescoço, a caneta rodando distraída entre os dedos. Ao ver Clara, levantou a cabeça e abriu um sorriso espontâneo.

— Posso interromper? — perguntou Clara, já sentando-se em frente dela.

— Claro que sim! — respondeu Benedita, abrindo ainda mais o sorriso.

Daniel ficou de pé ao lado da mulher, enquanto Clara, respirando fundo, olhou para a amiga com seriedade misturada a entusiasmo.

— Acabei de falar com os meus pais…

A expressão de Benedita mudou imediatamente. O sorriso esbateu-se e os olhos brilharam de curiosidade e leve apreensão.

— E então? — perguntou, um pouco renitente.

Clara fez uma pausa, quase saboreando a importância do momento.

— Eles falaram comigo de uma possibilidade… mas só pode acontecer se tu quiseres.

Benedita inclinou-se para a frente, a respiração suspensa.

— O quê?

Clara mordeu o lábio, e então, com uma ternura inesperada, deixou escapar:

— Queres ser minha irmã?

O choque estampou-se no rosto de Benedita.

— Como assim? — murmurou, a voz a tremer.

Clara segurou-lhe as mãos e explicou devagar, como quem desenha um sonho com palavras:

— O meu pai e a minha mãe gostavam de te adotar. Mas só se tu quiseres.

Por um instante, Benedita ficou imóvel, paralisada. Depois, como se a represa dentro dela tivesse cedido, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e ela começou a chorar, incapaz de dizer mais nada.

Nesse momento, Óscar e Laura entraram na sala. Vendo-os, Benedita levantou-se de rompante e correu para Óscar, atirando-se ao seu peito e abraçando-o com uma força desesperada, como se tivesse medo que ele desaparecesse.

Óscar, surpreendido, olhou por cima da cabeça dela para Clara e Laura, antes de lhe pousar as mãos nas costas, firme, acolhedor. Laura aproximou-se em silêncio, com lágrimas nos olhos, completando aquele abraço.


Epilogo 

Óscar olhou profundamente nos olhos de Benedita. A respiração dela tremia um pouco, mas o olhar estava firme, decidido.

— Tens mesmo a certeza de que queres fazer isto? — perguntou-lhe, baixo, como se ainda houvesse uma última porta de saída.

— Mais do que tudo. — respondeu ela sem hesitar.

Óscar tentou insistir, a ironia a suavizar-lhe o tom:

— Ainda vamos a tempo de fugir. Podíamos simplesmente sair daqui…

Benedita ergueu uma sobrancelha, divertida:

— Metíamo-nos no Corvette e arrancávamos para o “Inferno Verde”? O que tu querias mesmo era que eu ficasse solteirona.

— Claro. — disse ele, fingindo gravidade. — Para cuidares de mim e da tua mãe quando já estivermos a cair aos pedaços.

Ela riu-se e abanou a cabeça, antes de lhe lançar um olhar terno:

— Pai, eu nunca vos vou deixar. Nem a ti, nem à mãe.

A palavra ficou suspensa no ar. Pai. Não o título que a vida impõe pelo sangue, mas o que nasce da escolha, da entrega. Óscar sentiu o peso e a grandeza daquilo, um orgulho silencioso a encher-lhe o peito. Por um instante, relembrou o caminho doloroso até ali, cada silêncio, cada queda, cada noite perdida — e percebeu que tinha valido a pena.

Ainda assim, não resistiu à provocação:

— Mas olha que o rapaz é um pateta.

— É o meu pateta. — devolveu Benedita, sorridente. — E tu também chamas bronco ao Daniel, mas adoras o homem.

Óscar fez um sorriso enviesado e suspirou.

— No fim, o Pedro também não é mau rapaz.

Nesse momento, a marcha nupcial ecoou pela nave. As portas abriram-se, revelando a igreja decorada com flores e cheia de olhares atentos. Óscar ajeitou o braço de Benedita no seu e caminhou com ela pelo corredor central. Cada passo parecia ressoar com mais peso do que os sinos lá fora.

Quando chegaram ao altar, Clara e Daniel aguardavam como padrinhos. Do outro lado, Pedro fitava-o com um misto de nervosismo e respeito. Óscar estendeu-lhe a mão. O jovem apertou-a firme, num gesto breve mas carregado de reverência. Num só olhar trocaram mais do que palavras alguma vez poderiam dizer: respeito mútuo, aceitação e promessa.

Óscar afastou-se, encontrou o lugar ao lado de Laura e sentou-se. Procurou a mão dela, entrelaçando os dedos. Ela correspondeu, sem precisar de palavras.

E foi nesse instante, em meio à música e às vozes, que ele soube. Apertou-lhe a mão com força e olhou-a nos olhos.

Apesar de tudo, ainda estavam ali.

Não intactos, mas inteiros.